FEBRE AMARELA: ESTUDOS E NARRATIVAS

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – Assessor Especial da Reitoria da PUC-Campinas

Entre os derradeiros meses de 2016 e os primeiros de 2017, o substantivo febre, adjetivado pela palavra amarela, tem aparecido com frequência na comunicação formal, informal e oficial de Campinas, expressando sobressalto e apreensão com a expansão da doença, ao mesmo tempo que resgata, do passado, triste memória da devastação que a moléstia causou à cidade, na passagem do século XIX para o século XX.

Mesmo assim, se aparece com frequência nos dias de hoje, o tema nunca foi totalmente esquecido, bastando lembrar que entre os livros publicados em Campinas, em 1996, vários trazem referência à epidemia, incluindo o estudo dos cantos e dos antros da cidade, do historiador José Roberto do Amaral Lapa, a análise das relações entre Campinas e a modernidade, do arquiteto Ricardo Badaró, uma visão histórica e artística de Duílio Battistoni Filho e o que, provavelmente, é o estudo mais completo da epidemia, assinado pelo médico e também historiador, Lycurgo de Castro Santos Filho.

Antes disso, em 1984, A Febre Amorosa, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em forma de folhetim, nas edições do Correio Popular e também em livro, levava o leitor “aos dias negros” da epidemia, como pode ser lido no primeiro parágrafo da obra.

Tempos depois, em 2002, na publicação póstuma da tese de doutoramento do arquiteto Antonio da Costa Santos, “Campinas, das Origens ao Futuro”, o tema retorna, como também centraliza a obra de Jorge Alves de Lima, “O Ovo da Serpente”, publicada em 2013.

Além de tratar ou fazer referência a um acontecimento trágico da história campineira, os livros citados têm, ainda, outro elemento comum: seus autores integram ou integraram os corpos discente ou docente (ou ambos), da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, constatação que empresta significado e significância à contribuição de pessoas que passaram pela Universidade à história e à memória da cidade.

Amaral Lapa, Eustáquio Gomes e Alves de Lima foram, respectivamente, alunos dos Cursos de História, Jornalismo e Direito, cumprindo, pós-formatura, carreiras de sucesso, o primeiro destacando-se como fundador do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o segundo como Coordenador da área de comunicação social da mesma instituição. Alves de Lima, por sua vez, atuou na área jurídica, em diversos setores da administração municipal.

Antonio da Costa Santos foi aluno e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo, assassinado pouco tempo depois de ter sido eleito prefeito da cidade que ele amava e conhecia, como demonstra a citada tese de doutoramento. Lycurgo Santos Filho estudou medicina e atuou na área, mas sempre manteve sólida ligação com a História, respondendo pela obra mais citada e, provavelmente, a mais completa até agora produzida sobre a Febre Amarela em Campinas, entre 1889 e 1900. Na PUC-Campinas, foi professor de História da Cultura.

Odilon Nogueira de Mattos, destacado professor de História da PUC-Campinas também tem escritos que tangem o tema e títulos de sua autoria citados em trabalhos afins, como acontece em Santos Filho, citado por Battistoni e no livro de Badaró, que, por sua vez, é citado por Amaral Lapa. Essa rede de citações recíprocas confirma e consolida a contribuição da Universidade, nas pessoas de seus ex-alunos e professores, para o conhecimento da História de Campinas, nos seus momentos mais pujantes, tanto quanto nas situações de aflição e tragédia, como foi a epidemia de Febre Amarela, que, em um só dia, ceifou a vida de mais de 50 residentes, como consta de textos assinados por gente que faz história, gente da PUC-Campinas.