Feijoada: patrimônio do Brasil

Por Rye Katsurayama Arrivillaga

A Feijoada carioca foi considerada patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, conforme Projeto de Lei 1862/12, aprovado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 28 de novembro de 2013. Do ponto de vista gastronômico, a Feijoada é um prato de aceitação unânime pelos brasileiros, de todas as localidades e classes sociais, embora a sua composição e acompanhamentos possam ser um pouco diferentes de acordo com a região.

Nela se faz presente o feijão preto, com seu caldo suculento, cozido com diversas peças de carne de porco, temperado com uma boa pitada de magia, que encanta, une e enfeitiça, ao seu arredor, amigos, em um momento de partilha e doação, festa e alegria. Essa preparação é enaltecida nas canções de artistas, como Chico Buarque, na letra da música “Feijoada Completa” que festeja o encontro de amigos e que, em caso da insuficiência do prato, recomenda que a mulher coloque “mais água ao feijão…” canta e expressa, ainda, o sentimento de cuidado e acolhimento, ressaltando a importância de servir acompanhamentos do prato, como a laranja, couve, torresmo, farofa e pimenta malagueta, que proporcionam aquele sabor típico e especial.

Crédito: Álvaro Jr.
Origem da Feijoada causa controvérsias/ Crédito: Álvaro Jr.

A feijoada carioca é tradição nas escolas de samba. Ela arrasta admiradores para as quadras da Mangueira, Portela, Grande Rio e outras, imortalizando as preparações da Tia Vicentina e Tia Surica da Portela, assim como a feijoada do chef Raul César de Novaes da Mangueira.

Historicamente, acredita-se que a feijoada seja uma preparação brasileira, criada pelos escravos, que acrescentavam ao cozido de feijão preto, as partes menos nobres do porco, desprezadas pelos senhores da casa grande. Essa crença, entretanto, não é compartilhada por autores como Luis Câmara Cascudo, em seu livro “História da Alimentação no Brasil”; Prof. Henrique Carneiro especialista em história da alimentação, Carlos Alberto Dória e outros, que afirmam que essa iguaria tem suas origens em preparações europeias, similares à feijoada brasileira e que remontam da época do Império Romano. Algumas das preparações citadas podem ter dado origem à feijoada, como o cozido de Portugal, o cassoulet da França, que levam como ingredientes as peças de carne de porco.

Curiosamente, ao contrário do que se acreditava, os “restos” ou peças de carnes utilizadas nessas preparações, eram destinadas para consumo de escravos. Contudo, aquelas poderiam ter originado a nossa feijoada, preparada com feijão preto, procedente da América do Sul. O feijão preto já era consumido pelos índios guaranis, sob a denominação de comanda, comaná ou cumaná.

No Brasil, a feijoada como preparação brasileira, surge por volta do século XIX e é festejada por brasileiros de todo o país, como bem expressa Vinicius de Moraes, em seu poema “Feijoada à minha Moda” Que prazer mais um corpo pede/ Após comido um tal feijão? / Evidentemente uma rede/ E um gato para passar a mão.

Profa. Rye Katsurayama Arrivillaga é docente no curso de Nutrição da PUC-Campinas