Festejar é preciso!

Por Pe. João Batista Cesário, Coordenador da Pastoral Universitária da PUC-Campinas

No Brasil, o mês de junho é período das tradicionais “festas juninas”, que celebram alguns dos santos mais populares da tradição religiosa católica. A festa da memória do nascimento de São João Batista (24/6) foi associada, no imaginário religioso-popular, às festas de Santo Antônio (13/6) e de São Pedro (29/6), ambos muito presentes nas práticas devocionais populares, sempre lembrados e invocados nas mais diversas circunstâncias da vida.

Santo Antônio, ilustre santo português, foi muito cultuado pelos militares em Portugal e no Brasil colonial e imperial. No exército brasileiro, até o final do século XIX, Santo Antônio recebeu as patentes de soldado, alferes, sargento-mor, capitão de cavalaria e tenente-coronel. Foi também nomeado vereador em algumas localidades do país, segundo informa o antropólogo Luiz da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro (1969). No entanto, Santo Antônio tornou-se muito mais conhecido como “casamenteiro e deparador [ou descobridor] de coisas perdidas”, como relata Rita de Cássia M. P. Amaral, em Festa à brasileira: significados do festejar no país que “não é sério” (Tese de doutorado em Antropologia, na USP, 2008). São Pedro, por sua vez, na religiosidade popular, tem o dom de fazer casarem as viúvas.

São João Batista, celebrado duplamente na liturgia da Igreja Católica, no nascimento (24/6) e na morte (29/8), é responsável por uma das maiores festas populares do Brasil. Na região Nordeste, especialmente, a festa de São João, síntese das festas juninas, ganha dimensões extraordinárias, de forma que nesse período, de acordo com a pesquisa de Rita de Cassia M. P. Amaral, ocorre uma espécie de refluxo migratório, com o retorno de milhares de pessoas que migraram para outras cidades e estados, a fim de participarem das festividades. As cidades de Caruaru, no Pernambuco – conhecida como capital do Forró – e Campina Grande, na Paraíba, são palcos das maiores manifestações, com a realização de vários dias e noites de festejos.

Todavia, com fogueiras, comidas e bebidas típicas, com dança da quadrilha e outras manifestações culturais populares, as festas juninas acontecem em todo o Brasil. Esses festejos, somados a outras festas religiosas e folclóricas que, ao longo do ano, mobilizam milhões de pessoas país afora, garantem ao Brasil a liderança na lista dos países mais festeiros do mundo, seguido por Itália, Portugal e Espanha basca.

Do ponto de vista antropológico, festejar é dimensão constitutiva do ser humano, e, no Brasil não é difícil constatar isso, uma vez que a festa sempre foi elemento definidor do modo de ser dos brasileiros. A festa tem o poder de ajudar a rememorar o passado, elaborar esperanças para o futuro e reunir forças para enfrentar as agruras do presente. Como afirma o teólogo Francisco Taborda, em Sacramentos, práxis e festa: para uma teologia latino-americana dos sacramentos (1990), “a verdadeira celebração se dá não fugindo da realidade de injustiça e opressão, mas reconhecendo-a e superando-a na esperança. Festa não é frivolidade, mas manifestação do mais profundo da vida”. À medida que a festa “tematiza a pessoa, sua existência, sua ação e sua práxis” (TABORDA), ela é capaz de “estabelecer a mediação entre a utopia e a ação transformadora” (AMARAL).

Na Bíblia encontram-se inúmeros relatos das festas que animavam a vida do Povo de Deus, celebradas para marcar momentos decisivos de sua trajetória, reafirmar sua identidade e assegurar seu projeto de vida. A Festa da Páscoa (Ex 12,1-28) fazia memória da libertação do período de escravidão no Egito; a Festa das Semanas, depois chamada Pentecostes, celebrava a alegria dos primeiros frutos colhidos e da vida nova na terra da liberdade (Ex 34,22; Dt 16,9-12); a Festa dos Tabernáculos recordava os quarenta anos vividos no deserto, quando o povo habitava em tendas (Lv 23,33-43). E, além dessas, havia ainda outras festividades que celebravam os momentos mais importantes e plenos de significação na história do Povo de Deus.

No Brasil, como na tradição bíblica, as festas populares, especialmente as juninas, revitalizam as comunidades, possibilitam estreitar laços de convivência e solidariedade e proporcionam lazer coletivo e sociabilidade gratuita, que envolvem as pessoas numa ciranda de fé e alegria.

É significativo que essas festas populares sejam celebradas justamente no início do inverno, tempo de provação e resistência. Ocorre que, como o ipê, árvore tipicamente brasileira que floresce no inverno, a festa também é uma forma de resistência aos sofrimentos, angústias e dores no inverno da vida. A festa é importante, porque reconecta a vida com a utopia. É como escreveu o poeta Tiago de Melo: “Faz escuro, mas eu canto, porque a manhã vai chegar!”.

Vivas a São João, São Pedro e Santo Antônio e muita alegria para toda a Comunidade Universitária nas festas juninas.