Fogo no Mar: O drama dos refugiados e a indiferença da sociedade

 

Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi, foi um dos filmes apresentados na 1a Mostra de Cinema Italiano de Campinas, acontecida de 06 a 13 de abril, que contou com exibições e debates na PUC-Campinas.

Vencedor do Urso de Ouro (melhor filme) no Festival de Berlim 2016 o documentário prima por uma produção requintada, que se divide em duas perspectivas centradas em Lampedusa, pequena ilha italiana, localizada na região da Sicília, e que se tornou porto para os refugiados oriundos de barco ao continente europeu. Por meio do retrato do aparato militar organizado pelo governo italiano para resgatar os refugiados, e do dia a dia praticamente inalterado dos moradores da pequena província, o diretor constrói uma metáfora belíssima sobre a Europa e a indiferença da maioria das pessoas com esse drama social.

O caminho escolhido parece ser o de abraçar essa contradição e repassá-la ao espectador. Mas, mesmo que não totalmente em linguagem direta, as nuances são perceptíveis, principalmente, nas escolhas estéticas do filme. Em um campo há a utilização de câmeras mais lentas acompanhando o ritmo dos moradores da ilha, conduzidos pelo garoto Samuele e suas pequenas diversões cotidianas, como atirar com estilingue nos pássaros, por outro há o drama dos refugiados, dos mais variados países, confinados a línguas não compreensíveis, e a falta de destino. Essa rotina é captada por uma câmera mais vibrante, com tomadas e cortes ágeis. A diferença parece demarcar o contraste dos moradores da ilha com suas vidas lentas, consolidadas, enraizadas, com o movimento dos imigrantes, fugitivos em busca de algum caminho, de um recomeço.

Os pedidos dramáticos de socorro captados, interceptados pelos oficiais italianos, as cenas de resgate registradas, inclusive com a chegada de pessoas mortas em meio às péssimas condições de viagens, contrastam com as metáforas que permeiam o filme e servem como maior direcionamento do pensamento de Rosi. Em uma delas, após um exame oftalmológico, o garoto Samuele descobre ter uma das vistas preguiçosa, e passa boa parte do filme com um dos olhos tapado. Esse treinamento para olhar com olho que não está acostumado a ver é o exercício de consciência proposto por Fogo no Mar, para que as mazelas tão flagrantes daquelas pessoas possam ser acolhidas por uma reflexão que extrapole as limitações tradicionais, de uma sociedade contaminada pela intolerância e xenofobia.

Fogo no Mar é, talvez, o representante contemporâneo mais significativo de uma estética do documentário que não se propõe a ser explicativo, com ênfase na realidade. Ao contrário, insere poesia e emoção para potencializar o real. Como citado em entrevistas a veículos de comunicação, o Diretor Giafranco Rosi elege Robert Flaherty, autor de clássicos como Nanuk o Esquimó, O Homem de Aran e Louisiana Story, sua grande referência. Em Lousiana Story, Flaherty conta a história do petróleo pelos olhos de um garoto, assim como Rosi narra um dos principais dramas contemporâneos pelo olhar de outro menino.