A I Guerra Mundial: entre assombros e escombros

Como observou Foucault, o corpo humano é certamente um lugar, um espaço, uma “topia” inescapável. Foi contra ele (contra sua finitude e limites biológicos) que “fizemos nascer todas as utopias”. A constatação permite pensar nos jovens soldados europeus que, uma vez corpos inescapáveis e, naquele momento, repletos de utopias tecnológicas, marcharam altivos para os campos de batalha da

Grande Guerra (1914-1918).
O estopim No dia 28 de julho de 1914, as luzes se apagaram em toda a Europa. O Império Austro-Húngaro declarava guerra à Sérvia um mês depois do herdeiro do trono austríaco, o Arquiduque Francisco Ferdinando, ser alvejado em Sarajevo por um nacionalista sérvio
tomado de ódio pelo domínio austríaco da região balcânica. Se a guerra tinha seu estopim nos Bálcãs, suas causas mais profundas se encontravam na rivalidade entre as principais potências da Europa. Inglaterra e França, potências econômicas tradicionais e detentoras
de vastas colônias na África e na Ásia, enfrentaram a partir de 1871 um concorrente de peso, o Império Alemão com um projeto expansionista agressivo, uma máquina de guerra espantosa.

Entre disputas econômicas e políticas e numa luta renhida de nacionalismos exacerbados, formam-se alianças estratégicas. De um lado, a “Entente Cordiale” (Tríplice Entente) formada por Inglaterra, França e Rússia. Do outro, a Alemanha, o Império Austro- Húngaro e a Itália, a “Tríplice Aliança”. A morte do Arquiduque põe à prova o sistema de alianças e a “Era das Catástrofes” se inicia.

A catástrofe
Munidos de uma parafernália tecnológica sem par na história, a guerra total se estende em seus “corpos utópicos” por terra, céu e mar. Aviões, invenção maravilhosa, se tornam o terror da população civil que ouve e sente, atônita, “pássaros-bombas” caindo do céu infernal. Nos oceanos, batalhas navais afundam encouraçados abarrotados de soldados que, ao longo da guerra, passam a se perguntar para que servia aquilo tudo. Nas trincheiras, partilhadas com muitos ratos que ali se alimentavam da cruel condição
humana, muitos homens destilavam contra o inimigo suas poderosas metralhadoras em série e seu gás mostarda numa carnificina sem igual.

As consequências da Guerra foram imediatas e determinaram a história do século XX.  A Rússia, arrasada no “front oriental” pelas tropas alemãs, se vê diante de uma revolução interna que, liderada por Lênin, implanta a Revolução Bolchevique de 1917, inaugurando um século de rivalidades contra o capitalismo. Os Estados Unidos rompem com uma política isolacionista e entram de vez na guerra, salvando a Inglaterra e a França de uma possível vitória alemã. A Europa saía do “sonho da razão” da Belle Époque para mergulhar no “Loop” de uma montanha russa que levou a humanidade à exaustão, numa soma assustadora de aproximadamente 18 milhões de mortos. A vitória da “Entente Cordiale” deixou a Europa arrasada, os Estados Unidos mais fortes e a Rússia isolada. A II Guerra seria mera e perversa continuidade da primeira.

Documentário “Nós que aqui estamos por vós esperamos”:

O Brasil
Único país da América Latina a figurar entre os beligerantes, o Brasil declarou guerra à “Tríplice Aliança”, em outubro de 1917, após ter alguns navios afundados por submarinos alemães no Oceano Atlântico. Diante de uma relativa comoção popular nacionalista e na
perspectiva de se beneficiar com possíveis indenizações de guerra, o Presidente Venceslau Brás disponibilizou os portos brasileiros aos aliados e uma missão médica militar foi enviada à França. Coube à Marinha Brasileira uma maior participação na guerra. Sua tarefa foi a de patrulhar e defender a região próxima ao estreito de Gibraltar e noroeste da costa africana. No entanto, a malfadada missão foi vítima da gripe espanhola, que ceifou a vida de 156 soldados brasileiros. A despeito da periférica participação, o Brasil fez parte da fundação
da “Liga das Nações” (1919) e desfrutou também de indenizações ao apreender navios alemães e recuperar sacas de café apreendidas ao longo da guerra.

Prof. Me. Lindener Pareto Jr.
Historiador e professor de História Contemporânea na PUC-Campinas.

Propaganda estimulando as mulheres dos EUA a colaborarem com a causa da guerra em defesa da França representada no cartaz por Joana D’Arc Crédito: Divulgação
Propaganda estimulando as mulheres dos EUA a colaborarem com a causa da guerra em defesa da França representada no cartaz por Joana D’Arc
Crédito: Divulgação

 

Propaganda americana pregando a destruição dos bárbaros alemães representados na figura do gorila com o tradicional capacete de guerra alemão e com um bastão. Crédito: Divulgação
Propaganda americana pregando a destruição dos bárbaros alemães representados na figura do gorila com o tradicional capacete de guerra alemão e com um bastão.
Crédito: Divulgação