Haiti: entre a vanguarda e a catástrofe

Por Lindener Pareto

Das muitas narrativas trágicas da História Contemporânea, a do Haiti é certamente uma das mais emblemáticas. Poderíamos aventar (com certa dose de anacronismo) que a tragédia começou com a dizimação de toda população nativa da ilha de Hispaniola (que reúne hoje Haiti – de colonização francesa e República Dominicana – ex-colônia espanhola) desde os tempos de Colombo até a montagem do sistema de plantation para a produção de açúcar, cujo auge foi o conturbado século XVIII do Iluminismo e das Revoluções Atlânticas.

Com uma população de mais de meio milhão de negros africanos submetidos à odiosa escravidão e pouco mais de trinta mil brancos controlando o sistema, a ilha de Saint-Domingue emerge dos horrores da escravidão para se tornar um dos grandes palcos da vontade de liberdade apregoada não só pelos jacobinos da Revolução Francesa (1789-1799), mas pela própria tradição de luta dos escravos oprimidos desde meados do século XVIII. A partir de 1791, a rebelião escrava queima propriedades, massacra os senhores brancos e, liderada por Toussaint L’Ouverture, Dessalines e outros líderes negros, resiste bravamente às tropas francesas (25 mil soldados) enviadas por Napoleão Bonaparte para restaurar a “ordem” e restabelecer a escravidão. Em 1804, a parte ocidental da ilha de Hispaniola se torna o Haiti, primeiro país independente da América Latina e também o primeiro a abolir a escravidão.

Lindener Pareto é docente de História Contemporânea  (Foto: Álvaro Jr)
Lindener Pareto é docente de História Contemporânea (Foto: Álvaro Jr)

No entanto, como nos lembra o historiador Jacob Gorender, como explicar que um dos arautos da liberdade contemporânea tenha seguido caminhos tão conturbados e tenha se tornado o país mais pobre do continente e um dos mais pobres da atual ordem global? Não há resposta única. As interpretações devem levar em conta o ocaso açucareiro da ilha, que deixou de ser importante na economia mundo capitalista; a ditadura de Jean-Pierre Boyer (1820-1843); o longo período de intervenção e literal invasão dos EUA, principalmente entre 1915 e 1934. Não são poucos os relatos de segregação racial e assassinatos brutais cometidos pelo controle estadunidense da ilha, além dos benefícios da imposição econômico-financeira dos bancos norte-americanos. Na esteira da tragédia, um dos períodos mais sombrios e conturbados foi protagonizado pelo médico sanitarista François Duvalier. Conhecido como o Papa Doc (Papai doutor), foi eleito presidente em 1957 e a despeito de sua fama anterior de médico caridoso, se mostrou um dos ditadores mais temidos do século XX. A partir de 1990, a ascensão de Jean-Bertrand Aristide representou controvertida esperança logo sufocada por mais guerra civil e por mais intervenções militares, dessa feita da ONU sob orientação dos EUA e sob comando de uma missão militar brasileira desde 2004.

Na chamada era da globalização, o Haiti ainda representa a caótica permanência das intervenções externas, a imposição de políticas econômicas que arruínam a possibilidade de autonomia e uma herança do protagonismo negro que sempre foi assombrado, nas palavras de Eduardo Galeano, pela maldición blanca. De fato, o terremoto catastrófico de 2010 é explicação menor para as mazelas de um país que primeiro se libertou da opressão branca e também o primeiro a ser temido pelas mesmas nações lideradas sintomaticamente pela maldicíon blanca,tão temerosa dos jacobinos negros.

Prof. Me. Lindener Pareto é docente de História Contemporânea na PUC-Campinas

 Crédito da Foto de Capa: Garbers Elias Pereira