Jornalismo de Dados: Métodos empíricos de investigação social

Por Rosemary Bars Mendez

Para muitos estudantes de Jornalismo, a escolha pela área acontece em função da ausência da matemática, senso comum para explicar que a atividade profissional fala de pessoas, conta histórias, relata fatos e acontecimentos sociais. Nesses textos, o número não entraria. Ledo engano.

A quantidade de informação disponibilizada hoje, potencialmente na internet, gera um olhar diferente para os números e para o ‘relacionamento’ que o profissional deve ter ao planejar a produção da reportagem, focada em dados decodificados para se ter informações precisas e exatas, com rigor metodológico que garante a cientificidade do material jornalístico.

Philip Meyer, que atuou como professor na North Carolina University, é apontado por estudiosos como o responsável por propor uma metodologia científica de investigação social para o que chamou de jornalismo de precisão, nos livros Precision jornalism: a reporter´s introduction to social science methods e The new precision jornalism, publicados em 1973 e 1991. Segundo Meyer, os jornais americanos nos anos 80 fundamentavam suas notícias e reportagens em pesquisas próprias, por desacreditarem nos números passados pelos políticos. Nessa época, as redações começavam a ter acesso a computadores e a organizar bases de dados. Porém, as primeiras metodologias foram desenvolvidas nos anos 60, num curso que Meyer fez em Havard University sobre métodos empíricos de investigação social.

Essa postura profissional já foi disseminada no Brasil. O jornal O Estado de S.Paulo foi selecionado como finalista no prêmio Data Journalism Awards 2015, organizado pela Global Editors Network, com o projeto Atlas Político, com ferramentas interativas para analisar as eleições de 2014 e o cenário político nacional. A ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), organiza desde 2002 cursos de Reportagem Avançada por Computador (RAC). Muitos de seus filiados já passaram pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da The University of Texas at Austin, que organizou entre agosto e setembro um curso virtual de Jornalismo de Dados para 1.483 jornalistas (professores e alunos), cinco deles professores da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Foram semanas de intensas discussões e exercícios com uma variedade de softwares e ferramentas web. Um processo de aprendizado que exige uma nova postura dos profissionais da área e que deve permear os bancos das Faculdades de Jornalismo no Brasil.

O jornalista Paul Bradshaw, professor visitante de Jornalismo na City University London, no texto A pirâmide invertida do jornalismo de dados, aponta que “O jornalismo de dados começa de um desses dois modos: ou você tem uma pergunta que requer o uso de dados ou você tem uma base de dados que precisa ser interrogada”. Para as duas questões a resposta é a mesma: copilar os dados disponibilizados, limpar, fazer raspagem e converter os documentos (relatórios, pesquisas, dados estatísticos etc.) em informação que possa ser compreensível ao receptor. Para isso, é necessário domínio de ferramentas básicas (e gratuitas) disponíveis como Excel, Google Docs, Google Refine, mapas, gráficos, sistemas de nuvens para armazenamento dos dados coletados.

Saber ler os dados (números) significa que o jornalista consegue sim encontrar uma boa história para contar, apoiado na qualidade do processo de apuração e sistematização. O Instituto Nacional de Reportagem, Assistida por Computador (NICAR, como é conhecido por sua sigla em inglês )organiza vários cursos de Jornalismo de Dados, capacitando profissionais no mundo todo. Os primeiros passos foram dados em 1975 na discussão sobre como partilhar e compartilhar informações, preocupações que hoje permeiam as redações em busca de dados que revelem a realidade de um país, de uma cidade, de um grupo social.

Esse é o futuro do jornalismo, com profissionais que se dedicam a usar ferramentas digitais para processar dados eletrônicos e a se desdobrarem a manusear ferramentas de código livre e aberto. É o momento para se compartilhar informações, aprimorar habilidades e conhecimentos sobre práticas de investigação jornalística.

Rosemary Bars Mendez é Professora de Jornalismo e coordenadora da Central de Estágio da PUC-Campinas