Língua e poesia popular: entre a fala e a escrita

Por Cristina Betioli Ribeiro Marques

Quando o assunto é língua materna, muitas ideias passam pela cabeça dos seus usuários: o vínculo com a terra pátria, o canal para relembrar e contar histórias, o meio para registrar e difundir conhecimento, o instrumento identificador do sujeito humano inserido em sua cultura.

Embora sejamos todos conhecedores intuitivos dos aspectos constituidores de nosso idioma – afinal, dispomos dele constantemente, no dia a dia – nem sempre atentamos para questões socioculturais essenciais que o definem. Uma dessas questões é a profunda diferença entre língua falada e língua escrita. Os usos dessas duas modalidades, embora apoiados numa competência linguística que é comum a todos os usuários de um idioma, servem a propósitos distintos. As variedades linguísticas presentes na língua falada – e para citar um exemplo, consideremos os diversos sotaques brasileiros – nem de longe podem ser plenamente transpostas para a língua escrita. Essa limitação se dá por uma questão absolutamente técnica: a escrita não dispõe de símbolos gráficos suficientes para representar toda a variedade sonora que uma língua pode apresentar.

A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação
A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação

Se esse fato fosse apenas um dado teórico, menos mal; mas infelizmente não é. A escrita, embora seja uma modalidade de uso da língua desenvolvida artificialmente e muito mais recente que a fala na história da humanidade, ganhou estatuto de superioridade depois dos antigos estudos alexandrinos que inauguraram, a partir da literatura grega, a prescrição de regras para o “bom uso” do idioma. As gramáticas tradicionais que conhecemos têm filiação nesses estudos que, historicamente, foram desprestigiando a modalidade falada em detrimento da escrita. O resultado disso, na tradição de ensino de português no Brasil, é o conhecido bordão de que “não sabemos português”. Ora, como é que pode haver uma nação constituída de falantes que não sabem a própria língua? Qual o lugar reservado aos usuários do idioma que são iletrados? Questionamentos como estes devem-nos levar a repensar os aspectos definidores de língua materna, como patrimônio imaterial muito mais complexo do que aparenta.

Dentre os produtos-símbolo da cultura brasileira, temos um exemplo que ilustra de forma sui generis o lugar que a tradição oral pode ocupar. O gênero de texto conhecido como “literatura de cordel” nos mostra como pode ser controversa a polarização entre língua falada e língua escrita. No exemplo em questão, as duas modalidades podem estar numa relação de continuidade com a qual a gramática normativa não consegue lidar. Até mesmo o uso do termo “literatura”, para uma poesia que na sua origem era composta e transmitida oralmente, pode ser inadequado. As narrativas poéticas de cordel têm história nas cantorias improvisadas, com participação eufórica de auditórios que se misturavam aos cantadores, desde meados do século XIX, predominantemente nas antigas “províncias do Norte” (período em que ainda não se conhecia a separação regional do “Nordeste”). Nessa época, os índices de alfabetização no Brasil eram baixíssimos e, ainda mais, nas regiões que se distanciavam da capital do Império e dos centros cultural e economicamente mais estabelecidos, como Recife e Bahia. Por esse motivo, os populares poemas em redondilhas maiores e rimas regulares, eram compostos por poetas não alfabetizados, com extraordinária memória e engenho para a improvisação, que faziam renome em suas comunidades e atraíam público para reverenciar sua performance.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques / Crédito: Álvaro Jr.

A poesia popular dos cantadores nortistas ganharia formato impresso em folhetos, amarrados por cordéis em varais de exposição nas feiras populares, no início do século XX. Produzidos e impressos em pequenas tipografias particulares, esses folhetos começam a conferir autoria a poetas como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. A partir de então, as composições que eram predominantemente orais ganham o prestígio de literatura impressa; no entanto, nessa literatura, perdurará o caráter misto de criações com traços da fala transpostos para a escrita.

Podemos dizer que a literatura de cordel, por representar um registro híbrido da nossa língua, é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro. Seus temas versam sobre atualidades, amor, sofrimento, fábulas, valentia e, em tempos de soberania da escrita… o valor da instrução para a dignidade do homem. Nas palavras do poeta João Martins de Athayde, em “A desventura de um analfabeto ou o homem que nunca aprendeu a ler” (1945): “Abram-se as portas da escola,/ para este povo entrar,/ a fim de obter a esmola/ do saber que vai buscar,/ porque o analfabetismo,/ deixa o homem no ostracismo,/ faz a vergonha do lar”.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques é  Docente na Faculdade de Letras da PUC-Campinas