Livro resgata memória “perdida” de Campinas

Por Amanda Cotrim

No dia 18 de setembro de 1932, um domingo, a cidade de Campinas, no interior de São Paulo, era bombardeada pelo governo provisório de Getúlio Vargas. Foram vários dias de sobrevoo no Município com panfletagem de um governo que tentava convencer os paulistas que a guerra de São Paulo era separatista. Nesse domingo, um menino escoteiro, 10 anos, de nome Aldo Chioratto, mensageiro do exército paulista, pegaria um trem até Sumaré (cidade vizinha). Pegaria. Aldo foi assassinado durante o bombardeio. Quem decidiu resgatar essa história e, conseqüentemente, o papel da cidade de Campinas na Revolução de 1932, foi o jornalista e docente no curso de Jornalismo da PUC-Campinas, Prof. Me. Saviani Rey. Segundo ele, essa memória é “ocultada” dos campineiros, que não sabem, por exemplo, que a cidade exportou dois mil voluntários que lutaram e morreram na Guerra Paulista. O livro “O Menino Herói da Guerra Paulista – o bombardeio de Campinas” traz elementos literários para contar uma história que é real: existiu um bombardeio em Campinas que vitimou um menino, cujo caminho foi atravessado pela História. O material foi editado pela editora Pontes.

Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)
Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)

Confira a entrevista:

Jornal da PUC-Campinas: Por que surgiu a ideia de realizar um livro sobre a Revolução Constitucionalista de 1932?

Prof. Saviani: Ao longo da minha carreira, produzi diversas crônicas sobre temas, geralmente ocultos, que envolvem a cidade de Campinas. A ideia de escrever sobre o bombardeio que o município sofreu, na década de 1930, em razão da Revolução Constitucionalista, é antiga. Meu pai mentiu a idade para as autoridades para poder lutar na guerra. Infelizmente, até então, ninguém tinha escrito sobre esse bombardeio em Campinas e sobre os personagens envolvidos por esse fato histórico. Não há memória de que a cidade teve dois mil voluntários que foram lutar na guerra, ao lado dos paulistas.

Jornal da PUC-Campinas: Como foi construída a narrativa do livro?

Prof. Saviani: O romance histórico é dividido em duas partes: o Menino e a História. O personagem é Aldo Chioratto, um menino, escoteiro, que era mensageiro das tropas paulistas. Ele existiu. Mas é pouco conhecido. O livro é um romance calcado em realidade, ou seja, não existe nenhuma informação inverídica. No entanto, a forma como essa narrativa foi construída traz, sim, elementos literários. As atitudes das pessoas são literárias, mas os fatos são reais. Eu pesquisei quem foi Aldo Chioratto, que morreu aos 10 anos de idade, e cuja morte abalou toda a cidade. Os parentes mais próximos de Aldo, hoje vivos, são seus sobrinhos. Seguindo os traços do que a história conta, pude me aproximar de quem era esse menino.

Jornal da PUC-Campinas: Conte-nos quem foi esse menino Aldo Chioratto?

Professor Saviani: A história atravessou o seu caminho: Aldo era filho de um tintureiro, de família de classe média baixa, que morava no centro de Campinas. Desde meus seis anos de idade eu sabia quem era Aldo. Meu pai contava-me histórias fabulosas sobre a coragem dos paulistas, a luta que envolveu outros dois mil campineiros. Eu, ainda criança, ia com ele até o Mausoléu dos Voluntários, no Cemitério da Saudade, em Campinas, ouvir sobre a bravura do povo paulista. E o rosto de Aldo também estava ali no mausoléu. Era o rosto de uma criança. E eu também era uma criança.

Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).
Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).

“Que lindo era aquilo! Sentia-me orgulhoso! Passear com as mãos presas às mãos de meu pai, trêmulas, ele emocionado e derramando lágrimas, e eu observando aquelas colunas de cimento, os nomes dos heróis tombados, a bandeira de treze listas e… seu rosto de menino, ali, como o meu rosto, o rosto de um menino morto!” (trecho do livro)

Eu perguntava para o meu pai quem era aquele menino? E ele me contava sobre a morte de Aldo: um menino, escoteiro das tropas constitucionalistas, que havia sido atingido pelas bombas disparadas de um avião Vermelhinho do Getúlio Vargas, que bombardeou Campinas.

Jornal da PUC-Campinas: Por que o senhor acredita que não existe um resgate histórico dessa época?

Professor Saviani: As pessoas não tinham interesse em guardar. Tudo é muito burocrático. Não havia uma preocupação com a documentação dos fatos. Eu me vali de livros de arquitetura e jornalismo, para poder entender Campinas da década de 1930.

Jornal da PUC-Campinas: Como era Campinas nessa época?

Professor Saviani: Campinas tinha rompido com os padrões convencionais do Império e se ampliava, com indústrias de velas, empresas, comércio. Precisei fazer leituras fora do plano da história. O livro narra, por exemplo, quem foi Orosimbo Maia e sua relevância para o período. Eu digo no livro que no Brasil havia uma insatisfação com a política do “Café com Leite” e o Tenentismo foi contrário à dominação dos fazendeiros do café.

Jornal da PUC-Campinas: O livro foi escrito em quanto tempo?

Professor Savini: Sou jornalista. Sempre trabalhei com deadline. Sempre pensei: tenho de conseguir X de conteúdo para o horário que eu vou fechar a matéria. Aprendi a me mobilizar em um espaço curto de tempo para reunir dados. Eu escrevo rapidamente. Sou capaz de produzir 100 páginas em 1 hora. Eu fui atrás da pesquisa em julho de 2014: reuni dados e, mais especificamente, do dia 12 de outubro, até a última semana de novembro, eu fechei o conteúdo. Não sei se isso é bom ou não.

Jornal da PUC-Campinas: O senhor teve algum apoio financeiro para realizar o livro?

Professor Savini: Não. As 146 páginas do livro foram realizadas com meus próprios investimentos. Mas é preciso ressaltar que o material teve a colaboração do docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, que realizou a revisão final do livro.