Mães são mediadoras na relação do filho autista com o mundo

Pesquisadora analisou a experiência de mães e pais no relacionamento com o filho diagnosticado com autismo. Dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC-Campinas 

Por Amanda Cotrim

O Transtorno do Espectro Autista (TEA), popularmente conhecido como autismo, engloba alterações na socialização, na comunicação e comportamentos repetitivos e às vezes restritivos. Não é possível conceituá-lo, uma vez que ele é visto de formas diferentes pela comunidade científica. Há estudos que apontam o autismo como uma doença ou lesão neurológica congênita, causada por uma combinação de fatores genéticos e ambientais, e o que pode ser curado. Mas há quem defenda que se trata de uma diversidade neurológica que deve ser respeitada, sem a necessidade de “cura”. Por outro lado, o autismo também pode ser compreendido como uma deficiência, mesmo que os sintomas possam se alterar ao longo da vida. Isso é o que explica a pesquisadora Gisella Mouta Fadda, que defendeu sua dissertação sobre a relação de mães e pais com os filhos autistas, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia, em 2015, e teve como orientadora a Profa. Dra. Vera Engler Cury. “O melhor seria compreender a pessoa diagnosticada com autismo como estando deficiente, e não sendo deficiente”.

"muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si"/ Crédito: Álvaro Jr
“muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si”/ Crédito: Álvaro Jr

Gisella quis compreender como pais e mães vivenciavam sua relação com seus filhos autistas, já que a interação e a comunicação social são características deste transtorno do neurodesenvolvimento. Ela considerou que os pais e as mães são protagonistas nos cuidados do filho, por isso sua indagação era “saber como eles percebiam essa convivência tão peculiar com seus filhos”, explica.

Para isso, a pesquisadora se aproximou do modo como os participantes da pesquisa se relacionavam com seus filhos autistas, realizando encontros dialógicos com os participantes, individualmente ou como casal, e após cada encontro, foi redigida uma narrativa compreensiva considerando o que foi vivido no encontro entre pesquisadora e participantes.

“Após concluir essa etapa, produzi uma narrativa-síntese contendo elementos significativos da experiência de todos os participantes, possibilitando uma compreensão e interpretação do fenômeno”, contextualiza Gisella. 

O trabalho desenvolvido como resultado do mestrado considerou que as mães, em especial, tornam-se mediadoras na relação do filho com o mundo e ao dedicarem-se integralmente nesse cuidado permanente, acabam por formar uma relação de exclusividade, o que acaba, por vezes, afastando ambos do convívio social. Essa dedicação faz com que muitas mães descuidem de si mesmas. Por outro lado, “quando brincam com o filho, ampliam a possibilidade de se relacionarem afetivamente de uma maneira mais gratificante, mais prazerosa”, observou.

muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si
muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si

“Existe um ditado que diz: ‘é caminhando que se faz o caminho’ que pode representar como esses pais e mães se relacionam com seu filho, pois apesar do grande desgaste físico e emocional que muitos vivenciam nesse cotidiano, nota-se que o importante é formar a relação com o outro, e não pelo outro”, afirma.

O que a pesquisadora descobriu, no entanto, não esgota a questão, mas auxilia novos modelos de compreensão acerca de pais e mães de crianças diagnosticadas com autismo e a disponibilização de atenção psicológica às famílias. Gisella acredita que “é necessário, contudo, que um maior número de pesquisas sobre atenção psicológica sejam realizadas para atualizar a formação profissional, tanto do psicólogo como de outros profissionais que atuam com o TEA”. 

A pesquisadora acredita que uma escuta atenta realizada por profissionais da área da saúde pode beneficiar esses pais e mães em seus crescimentos pessoais, desenvolvimento psicológico e a atualização de significados que ampliam a compreensão deles sobre suas experiências. “Conclui que seria muito importante a disponibilidade de espaços para que pais e mães se encontrem e conversem entre si, sendo mediados, por exemplo, por recursos criativos que possibilitem narrativas sobre suas histórias de vida e infância a fim de promover um constante vir a ser, em um processo permanente de criação de novos significados em suas vidas”.