Memes e a violência do discurso

Por Maria de Fátima Silva Amarante

Lipovetsky e Seroy apontam que a reconfiguração do espaço (encolhimento) e do tempo (compressão) que leva à hiperindividualização, fundada nos sentimentos de simultaneidade e de imediatismo, é consequência da instrumentalização midiático-digital das relações e que esse hiperindivíduo promove, contraditoriamente, a uniformização globalitária e a fragmentação identitária. Comentam, ainda, os autores acerca da high-tech e seus efeitos destruidores do próprio homem em suas relações com o corpo, com a experiência sensível e com os outros, apontando que a internet vem sendo encarada como um perigo para os laços sociais, por promover para os indivíduos uma vida abstrata e digitalizada em que as experiências não são coletivamente vividas, em que o encasulamento insular decorre do enclausuramento das novas tecnologias e em que o corpo já não é o ancoradouro real da vida, organizando-se em seu lugar um universo descorporificado, dessensualizado e desrealizado.

Podemos dizer que o processo de descorporificação, dessensualização e desrealização encontra nos “memes”, uma forma discursiva característica do Facebook, espaço para sua presentificação. Para ilustrar, tomemos a seguinte postagem do Facebook.

Meme

Observemos, primeiramente, a fonte: Este é alguém. Temos, então, o outro e o mesmo a que se refere Derrida, o mesmo-outro, re(ins)(es)critos como “alguém”, cujo território original é uma página no Facebook que já recebeu mais de 90 mil curtidas e de 45 mil comentários. Nessa página, as tirinhas são sempre no mesmo formato e de autoria sempre anônima. Na tirinha que reproduzimos, “encomendada” para o Dia do Professor, vemos a ilustração caricatural que descorporifica o professor, tornando-o imagem coletiva indistinta, contraposta à nomeação individualizante (Professora Suely). A imagem, tal qual natureza-morta, apresenta-nos, de uma parte, efeito de sentido de vitimização a que se contrapõe o efeito de sentido do dizer que é de denúncia, portanto, de crime. Em última análise, anunciam-se a ineficiência e obsolescência do professor, verdades que o enunciador, em sua clausura digital, pode aparentemente produzir sem estabelecimento de laço social com seu enunciatário. Contudo, sabemos que inevitavelmente o laço social se estabelece à medida que o discurso move à ação. Assim, na contraposição do dizer à imagem, constrói-se, para o leitor-professor, a dupla possibilidade de um discurso de confissão e de um discurso de resistência, como fruto do processo de descorporificação, dessensualização e desrealidade que a caricatura invoca.

Como vimos, temos uma página sem face, em que um enunciador sem face constrói, sobre o professor, um discurso que revela intolerância, e, assim, se aproxima dos chamados discursos de ódio. Esse discurso passa a operar sobre o sujeito, que é premido a identificar-se com a representação que dele se faz, e, a partir daí, faz esse discurso operar sobre si mesmo.

Como bem aponta Foucault, o discurso produz verdades, estabelece regimes de verdade: quem pode dizer o que, para quem, onde e quando. No meme apresentado, o interessante é que a sátira, estratégia argumentativa presente em um número muito significativo de postagens do Facebook, constitui a violência do discurso, uma violência que, calcada no anonimato (que dificulta a resistência), dissemina-se no corpo, na alma, nos pensamentos e nas atitudes dos sujeitos-professores. Coloca, então, em funcionamento aquilo que Foucault denominou tecnologias de si, que provocam modificações na constituição identitária dos professores que passam a reconhecer-se neste ‘mesmo’ que é sempre “Outro”.

 Prof. Dra. Maria de Fátima Silva Amarante é Diretora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas.