Nada sobre nós sem nós

Empreendedorismo social de pessoas com deficiência intelectual é alternativa de inserção no mercado de trabalho

“Eu não gosto de ficar parada. Se eu não trabalhar, enlouqueço”, ri às gargalhadas. Para Ivani, o trabalho vai além de uma atividade de mercado. Pelo contrário, as atividades manuais, que mais tarde viram mercadoria, são a forma encontrada por ela para manter-se viva.

– Desde quando você borda e pinta panos de prato?
– Desde sempre.
– Com quem você aprendeu?
– Com a minha mãe. Em razão da epilepsia, ela entendeu que era melhor eu estar perto dela, em vez de trabalhar numa empresa.

A aluna no CIAD, Ivani Lopes, borda, pinta e vende seus produtos
A aluna no CIAD, Ivani Lopes, borda, pinta e vende seus produtos

E foi assim que Ivani Vieira Lopes, de 43 anos, tornou-se sua própria “empresa”. Além dos trabalhos artísticos, como a pintura e o bordado, ela, juntamente com sua mãe, adquiriu um carrinho de cachorro-quente e vende os lanches que prepara.

Já que o mercado tradicional não se adequou a ela, Ivani adequou o “mercado” às suas necessidades. A empreendedora, que é mãe de um rapaz de 19 anos, pretende, agora, ampliar suas atividades de mercado com o apoio do CIAD (Centro Interdisciplinar de Atenção à Pessoa com Deficiência), que freqüenta desde os 20 anos.

No segundo semestre de 2014, o CIAD, em parceria com a Pró-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da PUC-Campinas, adentrou uma nova fase no trabalho de inclusão social, que já pratica desde 1997. Agora, todas as energias dos profissionais estão concentradas em preparar os alunos para o mercado de trabalho, como explica a atual Coordenadora do Centro Interdisciplinar de Atenção à Pessoa com Deficiência, a psicóloga Karina Magalhães.

Tecnologia como ferramenta para empreender

Muitos alunos se dedicam à costura, artesanato e ao marketing por meio das redes sociais, como é o caso da Letícia Fernandes Nicoletti, 32 anos, que é consultora de uma marca de produtos cosméticos. “Agora com as oficinas de inclusão digital, os alunos vão aprimorar a qualificação para o mercado de trabalho”, explica a professora da oficina, Cristiana Dias.

Leticia Nicoletti - Consultora de produtos comesméticos e aluna no CIAD
Leticia Nicoletti – Consultora de produtos cosméticos e aluna no CIAD

Quando eu pergunto com quem Letícia aprendeu a arte de vender, ela logo me corrige e diz que ela não é vendedora. “Eu sou consultora. É diferente”. E continua: “comecei a me envolver com essa atividade por causa da minha mãe, que sempre trabalhou com cosméticos, maquiagem”, conta. Durante a entrevista, Letícia manifesta suas habilidades profissionais e quase convence a repórter a comprar a mercadoria: “Sabe por que esse produto é melhor do que os outros?”, a jovem empreendedora tem a resposta, sendo capaz de convencer qualquer consumidor que se trata do melhor produto do mercado.

Concentração. Atividades físicas são fundamentais para a inclusão no mercado de trabalho
Concentração. Atividades físicas são fundamentais para a inclusão no mercado de trabalho

Essa habilidade para os negócios foi adquirida em razão da integração de Letícia com os outros alunos do CIAD, como garante sua mãe, Dona Enedina Nicoletti. “Hoje, ela é formada em técnico administrativo pelo SENAI e agora vai aprimorar suas habilidades, nessa nova etapa do CIAD”, acredita. Letícia é calma e disciplinada. Fez questão de organizar a mesa para que pudesse mostrar suas mercadorias.

Para o Coordenador das Oficinas de Modalidades Esportivas do CIAD, Professor Vanderlei Palandrani Junior, “é necessário que as pessoas sejam reconhecidas pelas suas potencialidades e não pela sua deficiência, retratada por seu diagnóstico clínico. O trabalho para construção de um projeto que inclua ações empreendedoras é imprescindível para qualquer ser humano, independente de suas características e condições”, completa.

Além da inclusão digital e atividades físicas, haverá preparação para o mundo do trabalho e orientação vocacional, que vão possibilitar, segundo a Coordenadora do CIAD, que os alunos se tornem empreendedores de suas ações, possibilitando sua efetiva atuação profissional no mercado de trabalho formal e informal.

Atualmente, o CIAD inclui 160 alunos com diferentes tipos de  deficiências (física, mobilidade reduzida, intelectual e sensorial). O público atendido é composto por 60 pessoas institucionalizadas , ou seja, atendidas por instituições, tais como a APAE de Arthur Nogueira e o Instituto Norberto de Souza Pinto; 69 pessoas com deficiência intelectual, três pessoas com deficiência sensorial e 28 pessoas com deficiência múltipla (física e intelectual). Os alunos são moradores de Campinas e Região Metropolitana (Sumaré, Jaguariúna, Valinhos, Hortolândia e Capivari).

Aula com as mídias digitais faz parte das atividades de inclusão no mercado de trabalho
Aula com as mídias digitais faz parte das atividades de inclusão no mercado de trabalho

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