Nem moradora local, nem turista: a experiência de viver em Barcelona

Por Ana Maria Vieira Fernandes, Doutora em Geografia Humana na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Turismóloga e Professora das Faculdades de Turismo e de Geografia da PUC-Campinas.

Por ser apaixonada por artes, cultura e patrimônio, sempre alimentei o sonho de um dia viver no Velho Mundo, o que se concretizou durante o meu Doutorado. O momento de vida não era muito convidativo para uma mudança desse tamanho, afinal, eu estava preparando o meu casamento, decorando o novo apartamento e acabava de ser contratada na Universidade.

Como as oportunidades não escolhem hora, me candidatei sem pestanejar no processo seletivo e fui contemplada com uma bolsa de pesquisa na Universidade de Barcelona! Quando percebi, já estava com as malas prontas cruzando o Atlântico rumo ao Mediterrâneo, cheia de expectativas e incertezas. Por mais que lhe digam – como eu digo agora – que morar no exterior é uma experiência maravilhosa, foi um “baque” chegar lá. Não importou quantas vezes eu já tinha viajado e tampouco quantos países eu conhecia. Morar no exterior foi diferente de qualquer viagem, foi único e transformador.

A primeira barreira foi a língua. Não o espanhol, mas o catalão, uma mistura de francês, português, espanhol e italiano, língua oficial da Catalunha, onde se localiza Barcelona. Para a minha surpresa, as aulas na Universidade eram ministradas em Catalão, apesar de toda a população ser bilíngue e falar o espanhol fluente. Foi então, no primeiro dia de aula, que compreendi a expressão “sentir-se um peixe fora d’água”. Era “si us plau” para cá, “benviguts[1] pra lá e eu confusa no meio de tanta gente nova sem conhecer nada e nem ninguém. Foi no cotidiano, ao abrir uma conta no banco, ao fazer os trâmites para alugar um apartamento, ao ligar para um chaveiro tarde da noite, ao comprar produtos de limpeza no mercado e ao responder as questões para o professor na classe, que me dei conta de que estava me comunicando sem perceber.

Morar fora ampliou meus horizontes, me aproximou de novas culturas e costumes, me proporcionou conhecer outra arquitetura, gastronomia e belas paisagens. Também me fez entender que alguns aspectos de outras culturas também podem dificultar a sua vida, mesmo que momentaneamente, como quando você “dá com a cara na porta” no comércio após o almoço. Sim, a siesta espanhola não é um mito. Aí você faz o quê? Se adapta; se encaixa àquela cultura. Além do contato com a cultura local, morar em uma cidade global como Barcelona ainda me fez vivenciar a diversidade nas ruas, no prédio onde morava, na Universidade, na praia, nos espaços públicos, nos centros culturais turísticos e de lazer… O “vai e vem” de pessoas do mundo todo, abrindo horizontes, me tornando mais tolerante e livre. Sem contar os novos amigos que só entraram em minha vida pelo fato de eu ter ido morar lá.

Fiz grandes amigos dos quatro cantos do mundo, em especial japoneses, alemães e ingleses, que se tornaram companheiros especiais, quebrando preconceitos e esteriótipos de que são povos “frios” e “fechados”. Ainda aprendi a lidar com as perdas, uma vez que amigos estrangeiros geralmente estão de passagem e a alegria da convivência dava lugar à tristeza das despedidas.

A experiência também é enriquecedora profissionalmente. Ao conviver com novos professores, alunos e outros profissionais da minha área, ao me deparar com outras formas de pensar. Conheci bibliotecas e livros que não tinha acesso. Participei de grupos de pesquisa e de congressos. Viajei muito, sozinha e com amigos, e conheci lugares maravilhosos. Retornei mais forte e confiante, inspirada por novas ideias, o que tornou o meu trabalho ainda mais prazeroso e desafiador.

É claro que alguns medos nos afligem no meio do caminho e a saudade de casa bate forte, mas isso era superado a cada descoberta diária. Nesse tempo lá fora, me permiti mergulhar em mim mesma e me redescobrir. Mais do que cruzar o oceano para estudar em outro continente, cruzei as minhas próprias fronteiras e barreiras e saí do meu próprio universo em uma trajetória de compreensão acerca de mim mesma e do mundo. Se “viajar é mudar a roupa da alma”, como diz o poeta, então viver no exterior foi trocar o meu “guarda-roupa” por completo; uma jornada de autoconhecimento que ficará marcada para sempre. Ao voltar para casa, tudo estava em seu lugar, com a diferença do meu olhar sobre o mundo e de que um pedacinho do meu coração também havia ficado do outro lado do oceano, em minha segunda casa.

[1] [“Por favor”, “Bem-vindo”].