“Nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência”

“Quando vou comprar uma roupa, me reporto ao vendedor. Mas ele pergunta para o meu acompanhante se eu vou gostar, como se eu não estivesse ali”

Por Amanda Cotrim

Nessa entrevista, a ex-aluna do curso de Psicologia, da PUC-Campinas, Fabiana Bonilha, defende que a maior dificuldade para a pessoa com deficiência, e em especial a que tem deficiência visual, são as atitudes de uma sociedade que caminha a passos lentos quando o assunto é a superação do preconceito. “As barreiras atitudinais são o grande empecilho no dia-a-dia”.

Mas além dessas, Fabiana elenca ações objetivas que precisam mudar logo, para que haja a real inclusão, como a socialização da tecnologia assistiva. “Isso interessa porque é um fator de equiparação”. A ex-aluna da PUC-Campinas, que trabalha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, afirma que a tecnologia gera condições iguais entre as pessoas.

Para Fabiana, a inclusão da pessoa com deficiência na vida de pessoas que não tem deficiência e vice-versa é fundamental para que as crianças de hoje se tornem adultos sem essas “barreiras atitudinais” de amanhã. “A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos”.

Confira o bate papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com a Fabiana:

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco sobre você: onde nasceu, o que estudou e com o que você trabalha atualmente?

Meu nome é Fabiana Bonilha, eu nasci em Campinas e atualmente eu trabalho no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer), onde sou servidora pública, como técnica em Tecnologia Assistiva.

A minha deficiência visual é desde o nascimento e ela ocorreu porque eu nasci prematura. Eu tive Retinopatia da prematuridade, que causa a deficiência visual. Tenho cegueira total e congênita. Desde os primeiros anos de vida eu fiz reabilitação tátil e a alfabetização em braille. Paralelamente, sempre estudei em escola regular.

Durante o meu período escolar, eu iniciei o estudo da música (piano) aos sete anos. Após concluir o Ensino Médio, ingressei na faculdade de Música e me formei pela UNICAMP e, concomitantemente, em Psicologia pela PUC-Campinas.  Por causa de a música ser muito importante para mim, eu sempre tive contato com a partitura em braille (musicografia braille). Mas não era muito comum na época, então minha primeira professora de piano teve que se esforçar muito para conseguir essas partituras. Essa foi a razão pela qual eu desenvolvi pesquisas no mestrado e doutorado com o tema do ensino da musicografia braille, cujo objetivo é que as pessoas cegas sejam plenamente incluídas. As pessoas com deficiência visual precisam ter acesso ao mesmo conhecimento que os outros estudantes têm, por isso é importante a alfabetização em braille, mas há poucos professores que têm essa dedicação e esforço de ir atrás desses materiais. O braille é um código pouco disseminado.

Nós nos comunicamos por e-mail para marcarmos essa entrevista. Eu gostaria de saber se você utiliza software de leitura de voz para acessar o computador e o celular?

Eu uso software de voz para o computador e para o celular. Ele lê as informações que estão na tela. Há opções para computador que são gratuitas, como o NVDA. Mas também existem outros, que são comerciais.  O NVDA é bem desenvolvido, com muitas funções. Ele é quase equivalente aos softwares comerciais. No celular também há opções de leitor de telas, que nos permite acesso a todos as funções: redes sociais, e-mail, WhatsApp e etc. Se você não soubesse que eu tenho deficiência visual, não teria diferença. E isso é interessante, porque é um fator de equiparação. É um grande ponto positivo da tecnologia; ela gera uma condição igual entre as pessoas. E isso impacta a minha vida profissional, porque eu faço praticamente o que todos fazem.

Você utiliza áudio descrição para ter assistir televisão e quando vai ao cinema?

Embora exista a áudio-descrição, pela qual as imagens são descritas, existe pouco material disponível. No cinema geralmente não há. Na televisão, apenas duas horas de programação por semana são dedicadas a áudio-descrição. Então o recurso existe, mas não existem tantos incentivos para que ele seja implantado de forma efetiva. Assistir a um filme sem áudio-descrição é perder todas as informações passadas pelas imagens. É como a pessoa que enxerga assistir a um filme de olhos fechados (risos). Com o teatro é a mesma coisa: há pouquíssimas peças com áudio-descrição.

Fabiana Bonilha- Crédito: Álvaro Jr.
Fabiana Bonilha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer – Crédito: Álvaro Jr.

 

Você se formou em Psicologia pela PUC-Campinas e em Música pela Unicamp. São combinações interessantes. O que te motivou a fazer esses dois cursos? 

Eu ingressei nos dois cursos em 1997. Formei-me em Psicologia em 2001 e em Musica em 2003. A Música era um caminho natural, porque desde os meus sete anos eu estudo música e me apaixonei por essa área. No caso da Psicologia, é uma área que eu sempre gostei. Fiz orientação profissional no ensino médio, e ele era ministrado por uma psicóloga, então eu comecei a me aprofundar sobre a carreira, o que acabou me motivando a fazer o curso.

Em que medida o curso de Psicologia te auxiliou a ser quem você é e a chegar aonde você chegou, profissionalmente?

O curso de Psicologia da PUC-Campinas é muito completo e aborda muitas frentes na área. Avalio que eu tive uma boa formação. Foi uma graduação que me deu muita base para depois eu fazer o Mestrado e Doutorado, além de ter contribuído muito para a minha visão de mundo e a minha atuação profissional aqui no CTI.

Quais foram as maiores dificuldades que você considera ter enfrentado para fazer as duas graduações?

Eu fiz as duas faculdades em um período no qual não se falava muito de inclusão da pessoa com deficiência na universidade e eram poucas as universidades que pensavam em acessibilidade. Então de certo modo, eu tive que “desbravar” esses caminhos. Hoje em dia, as universidades estão melhor equipadas, com uma infraestrutura e serviços de acessibilidade, como é o caso da PUC-Campinas com o PROACESS (Programa de Acessibilidade), e do Laboratório de Acessibilidade da UNICAMP.

Quando a gente tem que desbravar os caminhos, enfrenta algumas dificuldades. No caso da pessoa com deficiência visual a maior dificuldade é o acesso ao material; não existiam livros em formato braille e nem em formato digital. No início das duas graduações, eu tive que contar com a minha família para escanear todos os livros para que eu pudesse ler. Minha mãe precisou datilografar todo o material em braille.

Outra dificuldade é as barreiras atitudinais, as barreiras que existem nos pensamentos das pessoas em relação ao modo como elas imaginam a pessoa com deficiência. Nem sempre as pessoas percebem que nós podemos trabalhar, estudar e fazer qualquer coisa.

Conte um pouco como é a sua rotina hoje e como você avalia a sua autonomia em relação ao seu dia-a-dia e ao acesso à cidade?

Eu trabalho  no CTI e geralmente conto com alguém que me traz e me busca. Eu não tenho autonomia para vir trabalhar de ônibus porque eu acho que não é fácil o acesso ao transporte público por duas razões: ele não é seguro e ele não é acessível. Além de trabalhar, eu também me dedico ao estudo do piano, então eu procuro me desenvolver nessa área de performance e de formação de repertorio. Para isso, mantenho um estudo de, no mínimo, duas horas por dia durante a semana e de três a quatro horas no final de semana.

A minha pesquisa em relação à musicografia braille é outro aspecto que faz parte do meu projeto de vida. Porque eu ainda vejo que temos muito a avançar para deixar esse material acessível. A pesquisa é o meu instrumento para lutar por isso, principalmente nos dias de hoje em que o braille está passando por uma crise em razão das novas tecnologias. Tem muita gente dizendo que o software de voz, por exemplo, já é o suficiente para a pessoa que tem deficiência visual e que, portanto, o braille não é mais necessário. E eu digo não. O braile é o código de leitura escrita para uso de pessoas cegas por excelência. Não tem como ela não ser alfabetizada. A pessoa cega pode até utilizar outras tecnologias, mas ela não pode prescindir da alfabetização em braile. O toque das palavras é a nossa memória visual, então a gente precisa lutar para que o braile se mantenha vivo e para que se aumente a produção de materiais (livros) em braile.

Como você avalia as políticas públicas para as pessoas com deficiência visual, no Brasil?

Esse campo evoluiu muito. Em 2011, por exemplo, foi lançado o programa Viver Sem Limites. Então a questão da deficiência passou a ser colocada em foco, inclusive por meio de pesquisas científicas na área de tecnologia assistiva. No entanto, uma dificuldade que ainda existe é que nem sempre essa tecnologia chega para o usuário que precisa dela. Ainda temos uma realidade que os produtos são importados, tem um custo alto e, muito embora eles existam, não chegam para quem precisa. Esse déficit favorece que muitas barreiras continuem sem ser quebradas.

Você falou sobre as barreiras atitudinais. Você sofre preconceito? Como lida com o preconceito das pessoas no dia a dia?

Eu acho que o preconceito existe e ele se manifesta nessas barreiras atitudinais, ou seja, nas atitudes das pessoas, que nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência. Uma situação que sempre acontece comigo é quando eu vou a uma loja de roupas com uma amiga e o atendente se dirige a pessoa que está comigo e não a mim. Ainda que eu aborde o vendedor, dizendo o que eu procuro, ele se reporta à pessoa que está comigo: “Essa roupa aqui será que ela vai gostar?” (risos). Como seu eu não estivesse ali. Eu me pergunto: Por que ele fez isso, se eu mesma tinha me comunicado com ele? Essa situação mostra o que é uma barreira atitudinal.

Falta compreensão em relação aos próprios limites de uma pessoa com deficiência. Uma pessoa cega só não enxerga, não precisa falar alto com ela e explicar tudo nos mínimos detalhes (risos).

Há também o preconceito no sentido mais estrito. Muitas vezes as pessoas com deficiência são inseridas no mundo do trabalho via programas específicos de inclusão. Mas por que elas não podem ser inseridas como qualquer outra pessoa? A inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho ou na escola precisa ser natural. No entanto, ainda não chegamos nesse momento, por isso é preciso ações afirmativas para reverter esse atraso.

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Você conseguiria descrever quando e como você se percebeu cega? Ou seja, quando você compreendeu isso?

Eu nasci com a deficiência visual, então essa condição sempre foi muito natural para mim. Eu soube que eu não enxergava pelas outras pessoas, porque para mim era tudo normal, natural. Como eu não vivi uma perda da visão, então para mim, o esperado era assim. Outras pessoas começaram a me contar que o que algumas pessoas tinham de diferente de mim era- que elas enxergavam e eu não. Então o meu referencial foi na relação com o outro. Na escola, como crianças são muito curiosas, eu fui percebendo que havia alguma coisa que acontecia comigo e não acontecia com outras pessoas.

É verdade que as pessoas cegas percebem as  cores pelas sensações e que os outros sentidos são mais aguçados?  Isso acontece com você?

A gente conhece as cores por analogia em relação à temperatura e à textura. Mas não há a ideia de uma ultra sensibilidade, quase sobrenatural que faz com que a gente “veja” sem enxergar. Claro que a ausência de algum sentido faz com que as pessoas cegas desenvolvam outros referenciais, como a audição. Mas isso é um trabalho subjetivo de cada um; não é natural. Cada pessoa encontra estratégias para utilizar outros sentidos na ausência da visão. Não podemos generalizar essa questão é achar que só porque a pessoa é cega ela tem a audição, o tato ou qualquer outro sentido super apurado.

Como você avalia a cobertura da Mídia sobre a questão da deficiência?

A Mídia precisa evoluir muito na abordagem que ela faz sobre a deficiência. Muitas vezes há sensacionalismo na abordagem, como se a deficiência por si fosse notícia. É preciso evoluir na forma como a Mídia aborda a questão e na forma como ela influencia a população a pensar sobre essa questão. Nesse aspecto, ela mantém as barreiras atitudinais. As reportagens, quase sempre, têm um viés assistencialista, uma coisa quase passional, carregado de drama. Sem falar as terminologias: “portador de deficiência”, “deficiente”, “portador de necessidades especiais”. Então, talvez seja importante pensar sobre essa questão durante a própria formação dos profissionais de comunicação. Existe uma lacuna nesse sentido.

O que você diria para um cego que está lendo a sua entrevista e ainda tem medo de enfrentar desde um vestibular até sair de casa?

As pessoas com deficiência visual, assim como qualquer pessoa, mas elas especialmente, precisam confiar muito em si mesmas e acreditar que a superação de todos os limites é possível, e que vai depender da nossa motivação e empenho. São as pessoas com deficiência visual as protagonistas da própria inclusão. Não é o outro que vai nos incluir; e a gente que se inclui. Se a gente ficar esperando as instituições e as pessoas fazerem alguma coisa, ninguém faz. É a gente que tem que fazer. Precisamos ter consciência que os limites existem, das mais diversas formas, para todas as pessoas. E que essas barreiras podem ser superadas ou minimizadas no próprio ambiente em que vivemos. Mas é preciso haver condições: se o livro não estiver em braile eu não consigo ler, mas se ele tiver, eu consigo.

Fabiana, você gostaria de falar sobre alguma coisa que eu não perguntei?

É importante que as pessoas tenham abertura para dialogar e desconstruir algumas fantasias que elas continuam tendo por que não perguntam. Às vezes elas querem saber coisas básicas, como se eu sonho. E por vezes não falar sobre essas dúvidas constrói ainda mais barreiras. Por outro lado, nós que temos alguma deficiência, temos que ter abertura para responder, mesmo as perguntas básicas, porque aquilo que a pessoa está perguntando é importante para ela, como a questão do sonho, uma vez que para as pessoas que enxergam só é possível sonhar com imagens.

Eu também tenho muita curiosidade de saber sobre a realidade de quem enxerga. Eu gosto de saber como são as estrelas, o céu, o horizonte, a lua. A gente sabe sobre isso de ouvir contar. É muito interessante essa relação na qual os lados têm curiosidades.

A inclusão propicia que as diferenças estejam em contato o tempo todo. Então é muito importante que os alunos desde pequenos convivam com as diferenças desde cedo, para que eles possam naturalizar isso e se tornarem adultos sem essas barreiras.

A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos.