Novas propostas para a educação infantil carregam antigas concepções

Pesquisa de mestrado defende que crianças de 0 a 6 anos precisam frequentar a escola

Por Amanda Cotrim

No século XXI, um discurso educacional ganhou forças no cenário da educação infantil. Passou-se a valorizar as “práticas espontâneas”, ou seja, adaptação do ensino às atividades de interesse do aluno, colocando o professor como um “estimulador” do conhecimento. Esse discurso carrega a concepção de que pouco se pode fazer na educação infantil, e que, por isso, não é possível avançar para além dos cuidados básicos com as crianças. É tentando compreender essa concepção sobre educação infantil que surge a pesquisa de mestrado da ex-aluna da Pós-Graduação em Educação da PUC-Campinas, Bárbara Carvalho Marques Toledo Lima, intitulada: “Proposta pedagógica para a educação infantil: educação escolar ou compensatória?”, cuja orientação foi da Profa. Dra. Heloisa Helena Oliveira de Azevedo

A ex-aluna pesquisou a proposta de educação infantil de uma das Naves-Mãe, implementadas em 2005, em Campinas. Além de abranger crianças de zero a cinco anos e 11 meses, as Naves-Mãe também se configuravam como um projeto inovador. “Do ponto de vista da estrutura física e da manutenção da vida das crianças que residem em bairros de alta vulnerabilidade social, a Nave-Mãe representa um grande avanço para Campinas. Mas do ponto de vista pedagógico, a instituição tem descaracterizado o que chamamos de escola, dentro da concepção histórico-crítica da educação. O que há de mais tecnológico, moderno, sofisticado, mantém a essência de concepções antigas da educação”, afirma Bárbara.

Para pesquisadora, o discurso atual coloca a educação a favor das exigências da sociedade capitalista

Para a pesquisadora, muitas das novas propostas que vêm surgindo para a educação infantil estão pautadas em um ensino que busca atender às necessidades da criança e ao desenvolvimento das potencialidades. Isso, para a pesquisadora, configura um discurso que coloca a educação a favor das exigências da sociedade capitalista atual. “Valoriza-se cada vez mais aquilo que é espontâneo no aluno, preocupando-se cada vez menos com o ensino e com a formação dos professores”, constata. Para ela, esse discurso desqualifica a escola de educação infantil e exige-se cada vez menos formação aos professores para trabalhar com as crianças, pois “para apenas estimular a criança, não precisa de nenhum sujeito formado; os programas para atender os alunos se simplificam e se tornam cada vez menos complexos, pois basta trazer o lúdico e as brincadeiras espontâneas como eixo norteador do trabalho”, considera Bárbara.

Ex-aluna defendeu a dissertação “Proposta pedagógica para a educação infantil: educação escolar ou compensatória?”

“Os discursos atendem, portanto, os interesses da classe dominante, uma vez que, para proporcionar uma educação infantil escolar pública, de qualidade e gratuita para toda a população é preciso de um investimento financeiro muito alto”, constata a pesquisadora. Segundo ela, exigir um professor graduado para ensinar os alunos de 0 a 6 anos é investir em um salário que seja condizente à sua formação, assim também como trazer segurança para as crianças exige tanto investimentos no espaço físico quanto um número reduzido de alunos por sala de aula. “A educação infantil tem custos altíssimos e parece mais viável desqualificar cada vez mais este segmento enquanto escola, porque sustentar um “espaço” é evidentemente mais barato”, defende.

Bárbara ressalta que o fato de uma instituição estar instalada em uma comunidade carente não significa que as crianças precisam apenas ter boa alimentação, espaço e materiais. “Independentemente da condição social em que a família da criança se encontra, além desses recursos, ela deve ter o direito à educação pública e de qualidade, tem direito à escola e não somente ao espaço, tem direito ao ensino e não somente à convivência, tem direito de ter professores qualificadamente formados e não educadores que fazem o papel da família”.

“A pesquisa questiona até quando a educação no Brasil ficará à mercê das exigências da sociedade atual, uma vez que deveria ser justamente o meio pelo qual viríamos a superar a realidade social capitalista vigente”, finaliza.