O excesso de virtualidade no homem contemporâneo

Por Prof. Dr. Fernando Nascimento – docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas

Quero convidá-lo a pensar em um cenário em que estamos em um ônibus descendo a serra (idealmente para o litoral onde iremos desfrutar alguns dias de merecidas férias) e percebemos que o veículo está um pouco acima da velocidade na qual nos sentimos confortáveis. Muitas vezes, o que nos dá receio e causa maior preocupação não é apenas a velocidade em que ele está, mas a aceleração. É a velocidade da velocidade. Não nos preocupamos apenas porque o veículo segue rápido, mas porque a velocidade está aumentando. A situação fica ainda mais dramática quando não percebemos nenhum sinal de que o motorista pretende diminuir a velocidade.

Creio que essa é uma possível analogia para pensarmos sobre como os ambientes e ferramentas virtuais estão invadindo nossa vida e transformando as relações interpessoais em nossas sociedades. Já é lugar comum ouvirmos críticas sobre como as pessoas, sentadas à mesa, deixam de conversar entre si para imergirem nos ambientes virtuais de seus smartphones, por meio de redes sociais e troca de mensagens. Tal diagnóstico fica ainda mais palpável com jovens e crianças que já nascem em contextos amplamente digitais, dominam plenamente as ferramentas tecnológicas e, além do smartphone, adoram os jogos digitais que são, na maioria das vezes, feitos com o claro intuito de que os jogadores passem o maior tempo possível conectados a eles.

Essa situação, que já parece preocupante, dá todos os sinais de que vai se intensificar nos próximos anos. Temos dispositivos com interfaces cada vez mais cativantes e eficientes. Pensem quando, em breve, pudermos usar artefatos de realidade virtual para, de fato, experimentarmos uma aventura em qualquer lugar do mundo no ambiente criado pelo dispositivo. Também já estamos vivendo a transformação da forma como interagimos com os dispositivos que, a cada dia, passa a ser mais direta por meio de comandos de voz que são compreendidos pelos aparelhos que usamos.

Parece claro que esses avanços não são em si mesmos maus, ao contrário. Há um potencial benéfico enorme em todas as transformações tecnológicas. Apenas para pensarmos em dois exemplos poderíamos considerar como essas tecnologias já auxiliam em procedimentos médicos cirúrgicos complexos e atendimentos de saúde remotos, assim como geram novas e extraordinárias possibilidades para os ambientes de ensino a distância.

Voltando brevemente à nossa analogia, porém, talvez outro dilema que temos de considerar, além da velocidade e da aceleração, é que não está muito claro quem é o motorista do ônibus. Quem está ao volante dessas transformações tecnológicas da nossa sociedade? A resposta mais direta hoje é que são as gigantes da internet e as startups de alta tecnologia que, por sua vez, são guiadas, não poucas vezes, pelos interesses de seus acionistas que visam sempre a criação de produtos e serviços que possam maximizar seus lucros e dividendos.

É justamente esse o ponto sobre o qual precisamos urgentemente refletir. Temos uma sociedade que está cada vez mais virtualizada, que tem cada vez mais meios práticos e técnicos para fazer coisas impensáveis há poucos anos, mas que não tem tido tempo suficiente para refletir como quer utilizar esses meios para atingir a finalidade comum de promover uma vida melhor e mais sustentável para todos. Há, cada vez mais, “comos” e nem tantos “para quês”. A velocidade da técnica é muito maior do que a velocidade da ética. Parece, portanto, fundamental em todos os ambientes, especialmente nos ambientes acadêmicos, que esta discussão seja fomentada e que formas efetivas de debates sejam estabelecidas para que políticas públicas se ajustem aos avanços tecnológicos de forma a guiá-los para a construção de uma sociedade melhor em todos seus aspectos, não apenas os técnicos. Temos, cada vez mais, meios e precisamos caminhar muito mais rapidamente com nossas reflexões sobre os fins que queremos para essas novas potencialidades.

Confira uma reflexão do filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre os laços humanos, redes sociais, liberdade e segurança.

https://www.youtube.com/watch?v=LcHTeDNIarU