O poder transformador da dança

Por Sílvia Perez

A dança é uma linguagem da arte capaz de expressar as mais diversas possibilidades de assimilação do mundo, que consegue aproximar pessoas de diferentes culturas e crenças, rompendo barreiras e superando limites. Nada mais adequado do que fazer da dança uma ferramenta de mudança social, e foi essa a aposta da Associação Beneficente Semear de Campinas, uma instituição filantrópica, com três unidades: Parque Via Norte, Residencial Vila Olímpia e no Centro da cidade, e que atua como um serviço de convivência e fortalecimento de vínculos para crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.

A Instituição presta atendimento social e desenvolve atividades socioeducativas para cerca de 300 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, no contraturno do horário escolar, para que eles possam ter novas possibilidades e um futuro melhor. Entre as diversas atividades desenvolvidas pela entidade da unidade Vila Olímpia, a Oficina de Hip Hop ganha destaque. Iniciado há seis anos, o projeto hoje começa a colher os frutos do trabalho, mas o professor de dança, Wellington Rodrigues dos Reis, lembra que o começo não foi fácil “quando cheguei, as crianças e adolescentes tinham muito receio, muitas limitações, aos poucos, foram me conhecendo, ganhando confiança no projeto e tudo foi melhorando”.

Apesar das dificuldades do início, o professor de dança nunca deixou de acreditar no projeto. “Eu também venho de projetos sociais e, por isso, acredito que é possível correr atrás e acreditar nos sonhos. Será difícil, mas não impossível”.

O trabalho diário e persistente, ao longo de seis anos, começou a revelar o poder transformador da dança. “Foi um trabalho de formiga, mas por meio da dança, as crianças começaram a aprender valores como respeitar os colegas, ajudar aqueles que têm mais dificuldade, trabalhar em grupo”, ressalta o professor.

De acordo com a coordenadora geral da Associação Beneficente Semear, Roberta Dantas de Oliveira Santos, que trabalha na entidade há oito anos, os resultados são visíveis. “Quase todas as crianças atendidas aqui participam da Oficina de Hip Hop, que trabalha diretamente a autoestima delas, elas passaram a se conhecer e a se cuidar mais. Além disso, conseguem se expressar melhor por meio da dança. É gratificante”, explica.

O engajamento das crianças e adolescentes e o sucesso do projeto o levou para fora dos muros da Semear, com apresentações em empresas, entidades e até mesmo em um teatro da cidade. “Muitas dessas crianças chegam sem sonhos e com a dança eles passam a enxergar um futuro diferente, dois dos alunos daqui ganharam bolsa para participar de uma companhia de dança profissional. Quando fizemos a apresentação de fim de ano em um teatro, muitas famílias nunca haviam pisado em um espaço como aquele antes. Ver a emoção das mães assistindo ao espetáculo dos filhos levou todos às lágrimas”, destaca Roberta.

Mas a mudança provocada pelo trabalho social não gera resultados apenas nas pessoas e nas famílias que são atendidas pelos projetos, essa transformação acontece em quem atua diretamente com essa comunidade, como destaca a coordenadora Roberta: “Não tem preço o que a gente recebe aqui, ver que os adolescentes que estão saindo hoje são muito diferentes dos que estão entrando agora. Observamos que os casos de bullying caíram muito, assim como a falta de respeito de um com o outro. Eles estão trabalhando as emoções, por meio da educação socioemocional e estão aprendendo a resolver por si próprio seus conflitos”.

Para a psicóloga Profa. Dra. Rita Maria Majaterra Khater, de um modo geral as instituições vêm complementar um déficit na educação pública, que deveria ter mais oferta de ensino em período integral, e que esse trabalho é uma prática de cidadania. “É uma prática de mão dupla porque ela faz o bem para a sociedade, mas também é gratificante para aquela pessoa que se vê como agente transformador dessa sociedade”.