“O sistema penitenciário é um problema de todos”

A opinião é da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Campinas, que realiza trabalho com reeducandos, funcionários, familiares e vítimas do crime

Por Amanda Cotrim

  “É preciso coragem e muita fé para entrar em uma penitenciária. Mas é ali que a Igreja precisa estar. Toda a sociedade precisa, o quanto antes, olhar para o cárcere e perceber que o sistema prisional é um problema de todos nós”. As palavras de Célia Nogueira de Souza Pereira são fortes, mas só poderiam ser construídas dessa forma por alguém que vê de dentro do presídio e vê para fora do presídio. Relatos como o de Célia, que atua, há 20 anos nos presídios como voluntária, sendo que, em cinco deles, como Coordenadora da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Campinas, mostram que mesmo próximo da geografia do sistema prisional, a sociedade ainda está muito longe de sua realidade.

Na Região Metropolitana de Campina, a população carcerária é de 12 mil pessoas/ Crédito: Álvaro Jr.
Na Região Metropolitana de Campina, a população carcerária é de 12 mil pessoas/ Crédito: Álvaro Jr.

Os números mostram que a população carcerária no Brasil cresceu nos últimos três anos. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2012 eram 514 mil presos; em 2014 esse número subiu para 715.655. O País está atrás dos Estados Unidos (2,2 milhões) e China (1,6 milhões) em número de presos. Na região de Campinas, segundo a Pastoral Carcerária, são 12 mil pessoas presas, divididas entre o Complexo Penitenciário Estadual de Hortolândia e o Presídio Estadual Feminino, no bairro São Bernardo, em Campinas. O Complexo Penitenciário reúne dois Centros de Detenção Provisória (CDP), dois Presídios e dois Semiabertos, além das cadeias.

“Realizamos visitas às terças, quartas, quintas-feiras, sábados e domingos. Temos uma carteirinha e somos identificados pela camiseta da Pastoral. Isso evita que passemos pela revista vexatória, um direito das instituições religiosas que visitam o presídio. Mas, ainda assim, passamos pelo detector de metal. Ao entrarmos na cadeia, o primeiro trabalho é escutar, ajudar a reerguer a pessoa ao convívio social. Fazemos orações, damos palestras e oferecemos cursos, pois entendemos que não basta só evangelizar o reeducando, é preciso promovê-lo socialmente e conscientizá-lo para que ele possa ser reinserido na sociedade”, explica o Assessor da Pastoral Carcerária, Padre Gian Carlos Pereira, da Paróquia Santa Mônica, em Campinas.

A Coordenadora da Pastoral, Célia Nogueira e o Assessor da Pastoral, Padre Gian Carlos Pereira/ Crédito: Álvaro Jr.
A Coordenadora da Pastoral, Célia Nogueira e o Assessor da Pastoral, Padre Gian Carlos Pereira/ Crédito: Álvaro Jr.

O Padre conta que por muitos anos a Pastoral Carcerária foi militante, denunciando as irregularidades do sistema penitenciário. “Hoje isso mudou. Em vez de apenas denunciar, optamos por trabalhar junto e cobrar. Conversamos com a Diretoria na tentativa de conseguir benefícios como água e saúde para os presos”, acrescenta. Segundo o Padre Gian, essa mudança de atitude evitou que a Pastoral tomasse atitudes precipitadas sem antes ouvir os dois lados.

“Em uma das nossas visitas, encontrei um reeducando com uma infecção que se alastrou e corroeu o seu dedo. Imediatamente, a Célia fez um relatório e levou para a secretaria da direção do presídio. Descobrimos que havia uma pasta no qual constava que todo o mês esse reeducando fazia curativos e tomava remédios”, relata. Diante daquele quadro, a Pastoral voltou a conversar com o preso, que por sua vez confessou que nunca tomou os remédios e nem fez os curativos. “Ele nos contou que não fazia o curativo para sempre estar retornando ao hospital. O reeducando deixou o dedo infeccionar para poder sair alguns instantes e ver a rua. O contato visual dele com o mundo foi mais importante que o próprio dedo”, expõe.

Projetos da Pastoral

A Pastoral Carcerária mantém alguns projetos dentro dos presídios. O principal deles, conta a Coordenadora Célia, são os serviços de saúde. “Quando possível, levamos médicos e dentistas, porque muitas vezes esses serviços são inexistentes. Também temos um trabalho de reforço alimentar: usamos a multimistura da Pastoral da Criança para os reeducandos que têm o vírus do HIV e tuberculose”.  Além dessas atividades na área de saúde, a Pastoral Carcerária conta com advogados voluntários, é o caso do Dr. Francisco Maciel, formado em Direito pela PUC-Campinas. Em dezembro de 2014, ele conseguiu, juntamente com o seu sócio, Dr. Renato Paula Leite, tirar cinco pessoas de um Centro de Detenção Provisória (CDP). “Elas estavam presas, já haviam sido julgadas, mas não tinham sido transferidas para a Penitenciária. A pena já tinha sido cumprida dentro do CPD”, explica o advogado. O serviço de defensoria, de acordo com o Padre Gian, é oferecido após uma triagem com a família do preso que não pode pagar.

Voluntários da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Campinas/ Crédito: Pastoral
Voluntários da Pastoral Carcerária da Arquidiocese de Campinas/ Crédito: Pastoral

O trabalho feito pela Pastoral Carcerária não seria possível sem a colaboração dos voluntários, sejam eles da Igreja ou não. “Temos 50 pessoas inscritas como voluntários e temos um projeto com dois advogados voluntários. Mas é preciso muito mais. Aproveito para fazer um apelo: precisamos de médicos voluntários, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, educadores, artistas, profissionais de comunicação, enfim, toda sociedade é bem-vinda para nos ajudar a melhorar as condições dos presídios na região”, pede Padre Gian.

Para ser voluntário da Pastoral Carcerária, com acesso aos presídios, é necessário, no entanto, um bom alicerce na fé e um equilíbrio afetivo. “Para entrar no presídio, é preciso certo equilíbrio. Não pode ser uma pessoa nova na Igreja, pois é preciso experiência espiritual. É um trabalho difícil; há muito sofrimento ali dentro. Se a pessoa não tiver um equilíbrio emocional, ela não consegue”, considera Padre Gian.

Uma das voluntárias da Pastoral é Maria da Conceição Alves Santos, responsável pelas orações nos presídios. “Eu me sinto muito feliz em poder contribuir. Recebi um chamado para entrar lá. Os reeducandos são filhos de Deus e amados por Ele. Quando eu não vou às visitas, eu sinto falta. Lá dentro, eu me sinto em paz e penso que todos eles são nossos irmãos. Não importa o erro que eles tenham cometido, porque nem perguntamos. Eu rezo por todos”, relata Conceição.

Enquanto Conceição faz as orações com os presos, Célia dá uma volta no presídio. A Coordenadora da Pastoral Carcerária se orgulha em dizer que foi uma das primeiras mulheres católicas a entrar em uma penitenciária na região. Célia hoje é a responsável por verificar se há algum preso doente, depressivo ou machucado. “Qualquer irregularidade que vemos, nos dirigimos imediatamente à Diretoria, que na maioria das vezes está disposta a nos atender”, ressalta

 A Pastoral é para todos

Umas das mudanças de trabalho adotadas pela Pastoral Carcerária é atender os envolvidos no sistema penitenciário: presos, funcionários, familiares e vítimas. De acordo com o Padre Gian, muitas vezes o funcionário também sofre preconceito por trabalhar em um presídio, mas seu sofrimento não é percebido. “São pessoas que também ficam depressivas, que também ficam doentes e que também precisam da Pastoral, porque a cadeia não é um ambiente fácil de lidar”, reforça. Um dos mais novos desafios da Pastoral é o trabalho com a vítima do crime. “O primeiro passo é da pessoa, que procura a Pastoral. Não é fácil perdoar, mas fazer esse elo entre a vítima e a sua dor, também é um dever nosso”, considera Célia.

Para o voluntário, Alexandre Aparecido de Oliveira, a sociedade enxerga que a Pastoral existe para “passar a mão” na cabeça do preso, no entanto, segundo Oliveira, o principal papel da Pastoral é de levar a conscientização ao reeducando e promover sua recuperação. “O Brasil ter uma das maiores populações carcerárias do mundo mostra que temos um problema e um problema grave. Se pensarmos que a solução virá só do Estado, nada será feito. É preciso que todas as pessoas se dediquem a essa causa”, defende.

 Sonho a ser alcançado:

O maior sonho do Assessor da Pastoral Carcerária é o dia em que toda a sociedade se envolverá na questão do cárcere no Brasil. “Muitos dizem: ‘Ah!, isso não é meu problema’. Mas quando é assaltado, acha isso um problema. A responsabilidade é de toda a sociedade. A universidade tem um grande poder de transformação com o instrumento do saber, através do ensino, partilhando. O que esses jovens aprendem na universidade pode contribuir para transformar uma população de excluídos e marginalizados, colaborando na transformação de uma sociedade mais justa e fraterna”, acredita Padre Gian.

Coordenadora da Pastoral Carcerária, Celia Nogueira, que há 20 anos trabalha com reeducandos
Coordenadora da Pastoral Carcerária, Celia Nogueira, que há 20 anos trabalha com reeducandos/ Crédito: Álvaro Jr. 

“Convidamos a sociedade a se empenhar conosco. Tem pessoas que não conseguem entrar em um presídio, mas podem colaborar por outros meios. O problema carcerário é nosso; aqueles meninos, homens, meninas e mulheres são resultado de um sistema desigual e desestruturado”, conclui Célia.