Pensando o Mundo: Nas águas da insensatez

No Brasil, é costume associar aos fenômenos climáticos a exclusiva responsabilidade pelas mazelas que afligem a nossa sociedade. É certo que São Pedro tem a sua parcela de culpa, mas, em geral, ela é pequena diante da responsabilidade dos próprios homens.

Entretanto, ao apresentar, por exemplo, a falta de chuvas como a causa fundamental da miséria nordestina mascara-se um processo brutal de dominação e exclusão social, econômica e política que caracteriza o compadrio e o coronelismo. E, da mesma forma, responsabilizar o excesso de chuvas pelos desmoronamentos e inundações é ocultar a lógica perversa da apropriação e especulação com o solo urbano transformado em mercadoria.

Mas, dessa forma, faça chuva ou faça sol, o pobre São Pedro acaba se tornando o grande vilão do país, enquanto os verdadeiros responsáveis prosseguem com suas práticas espoliadoras, perscrutando novas oportunidades por entre as nuvens.

Na atual crise hídrica não é diferente. Não há dúvidas que tivemos, nos últimos meses, uma das maiores estiagens de todos os tempos. Mas ela apenas acelerou um desastre já anunciado há, pelo menos, cinco anos.

Desde 2009 os níveis dos reservatórios do sistema Cantareira vêm baixando de forma preocupante. Se em dezembro daquele ano os níveis de água estavam em 92,5% da capacidade, mesmo sem a estiagem, esses níveis caíram para 72,5% (2010), 62% (2011), 47,6% (2012) chegando aos exíguos 30,3% ao final de 2013.

Mas nada disso deve ter surpreendido as autoridades do setor. Desde 2009, quando ficou pronto o relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, o Governo do Estado de São Paulo já estava ciente dos riscos de abastecimento de água para as regiões metropolitanas de Campinas e São Paulo. O mesmo relatório apontava a vulnerabilidade do Sistema Cantareira e sugeria um conjunto de ações a serem tomadas pela Sabesp para garantir uma melhor gestão da água.

Quase nada foi feito. Ciosa das boas práticas do mercado financeiro, a Sabesp, empresa de capital aberto com ações nas bolsas de valores de São Paulo e Nova Iorque, priorizou investimentos que maximizavam sua rentabilidade, dentre os quais não estavam o controle das perdas de água e nem a solução para os problemas dos
reservatórios do Sistema Cantareira.

Assim, embora suas ações sejam recomendadas pela sua alta rentabilidade e a empresa tenha distribuído mais de R$ 4 bilhões de lucros aos acionistas nos últimos anos, um quarto de toda água captada pela empresa se perde antes sequer de chegar às torneiras de seus consumidores, deixando clara, mais uma vez, a  incompatibilidade entre a lógica da maximização dos lucros- e da água como mercadoria- ,com a lógica da água enquanto bem escasso e essencial e um direito de toda a população.

E o que foi feito, então? No início deste ano, a Sabesp contratou uma empresa para tentar produzir chuva artificial sobre o Sistema Cantareira, com resultados pífios, apesar de caros. Em maio, quando os níveis dos reservatórios atingiram os preocupantes 8,2%, a empresa passou a captar a água do volume morto, prática que vem sendo adotada até hoje.

O volume morto é uma reserva de água que fica abaixo dos canos de captação, uma espécie de fundo do poço. Como essa água está abaixo dos níveis da captação, ela foi se tornando densa em resíduos, que foram decantando ao longo dos anos. Embora a empresa garanta que o tratamento da água do volume morto está dentro dos padrões de “potabilidade” necessários, várias têm sido as críticas pela sua utilização.

Altas densidades de mercúrio, chumbo e outros metais pesados, que não são eliminadas pelo tratamento convencional, podem colocar em risco a saúde da população e provocar alterações no material genético, doenças degenerativas, problemas na tireóide, pâncreas e rins, além de intoxicações alérgicas e diarréia, é o que afirmam os críticos.

Mesmo assim, a água do Sistema Cantareira continua secando. Se nada mudar, as reservas se esgotam no início de novembro. E, pelo visto, nada vai mudar. Recentemente a imprensa divulgou a existência de um plano da Sabesp que indicava a necessidade do racionamento de água na Região Metropolitana de São Paulo, decisão que foi abortada pelo Governo do Estado, que considerou tal medida “inadequada”.

No final de julho de 2014, em sintonia com as manifestações de especialistas e entidades ligadas ao setor, o Ministério Público Federal recomendou ao Governo do Estado e à Sabesp a apresentação de um plano para a imediata implantação do
racionamento de água na capital.

Talvez seja tarde. Se as chuvas não chegarem em grande quantidade, o estado mais rico da federação terá que conviver com a mais grave crise de abastecimento de água de toda a sua história. E quase nada poderá ser feito para resolver o problema em tão pouco tempo. A não ser algumas orações ou, quem sabe, resgatar dos povos da floresta a sabedoria milenar da “dança da chuva”.

Quem sabe, talvez, seja a oportunidade que São Pedro esperava para aparecer como herói, pelo menos dessa vez…

Prof. Dr. Antonio Carlos A. Lobão
Docente no Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas