Pesquisa analisa a reconfiguração urbana de Campinas após febre amarela

Dissertação de mestrado considerou que a reconfiguração urbana pelo poder público se deu no intuito de melhorar o estado sanitário da cidade. Epidemia era associada à contaminação do solo e da água. Somente em 1901, a febre amarela foi associada ao mosquito Aedes aegypti

Por Amanda Cotrim

Um acontecimento histórico marcou Campinas do final do século XIX: a cidade registrou uma grande epidemia de febre amarela, entre 1889 e 1900, sendo a mais grave em 1889, quando morreram, aproximadamente, 1.200 pessoas, e em 1896, quando 800 pessoas morreram. O município, que registrava precárias condições sanitárias, não oferecia redes de infraestrutura de abastecimento domiciliar de água, canalização de esgoto sanitário e sofria com áreas alagadas; um cenário propício para a difusão de epidemias, especialmente na sua área urbana, como aponta a dissertação de mestrado de Daniela Krogh, defendida no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Urbanismo da PUC-Campinas, sob orientação da Profa. Dra. Ivone Salgado.

No período entre 1893 e 1900, visando o combate das epidemias de febre amarela, o poder público promoveu uma reconfiguração urbana na cidade. “Muitos imóveis construídos em taipa de pilão, ou taipa de mão, foram considerados insalubres, assim como as ruas sem calçamento, constantemente em contato com matérias orgânicas em putrefação, sendo necessária a impermeabilização do solo”, explica Daniela. A Comissão Sanitária da época foi chefiada pelo médico Emílio Ribas e a Comissão de Saneamento, pelo engenheiro Saturnino de Brito. As ações promovidas pelo município também se apoiavam na legislação municipal (Código de Posturas, de 1880) e estadual (Código Sanitário do Estado de São Paulo, de 1894).

Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.
Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.

Para poder compreender como a febre amarela impactou a configuração urbana de Campinas, a pesquisa se apoiou em bibliografia consagrada sobre o tema e, principalmente, em documentos do acervo do Arquivo Municipal de Campinas. Daniela explica que a maioria dos ofícios solicitava vistorias domiciliárias, desinfecções e pareceres de vistorias sobre casos de pessoas que ficaram doentes por causa da febre amarela. “As ações de combate às epidemias, naquela época, se configuraram em demolições de imóveis, desinfecções de residências e demais estabelecimentos, bem como a proibição de estábulos e cocheiras nas áreas mais adensadas da cidade”, contextualiza.

Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951
Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951

A pesquisa considerou que o “péssimo estado sanitário de Campinas contribuiu para a difusão da febre amarela”, porque a cidade não tinha sistemas de abastecimento domiciliar de água e coleta de esgoto, que só foram inauguradas em 1891e 1982, respectivamente. A área da cidade que sofreu maior intervenção das autoridades sanitárias municipais e estaduais foi a área central, nas proximidades da linha da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a mais adensada no período analisado, na qual as condições sanitárias eram precárias e, portanto, consistia num local favorável ao desenvolvimento de epidemias.

A dissertação identificou que a atuação das autoridades sanitárias se pautava pela relação da febre amarela com a contaminação da água e do solo. Somente em 1901, o médico sanitarista Emilio Ribas repetiu os testes feitos pelo médico cubano Carlos Finlay, em 1881, e as autoridades sanitárias passaram a trabalhar a epidemia em relação ao mosquito Aedes aegypti, descoberto pelo cubano como o transmissor da febre amarela. “De todo modo, foi importante o poder público eliminar a água e o solo contaminados, porque ele combateu o foco da doença, mesmo acreditando que a febre amarela era transmitida pela água contaminada”, avalia.

Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:
Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:

O médico sanitarista Emílio Ribas permaneceu em Campinas até 1896 e, depois, ele assumiu a chefia do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. Entretanto, a Comissão Sanitária continuou os trabalhos em Campinas, mas isso não significa que, nessa época (1901), os trabalhos estavam exatamente focados no combate ao mosquito. Foi a partir de 1904, quando ainda era diretor do Serviço Sanitário, que Emílio Ribas passou a reforçar que o combate à febre amarela (em todo o Estado de São Paulo, e não somente em Campinas) deveria ser feito no sentido de eliminar os criadouros do mosquito, como medida profilática.

Aedes aegypti: da Febre amarela à dengue

Divulgação
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Não é possível comparar Campinas do final do século XIX com a Campinas do século XXI, mas Daniela argumenta que se pensarmos nos números das epidemias de febre amarela, eles são “modestos, considerando o número de casos registrados nas epidemias de dengue em Campinas nos últimos anos, com 44,5 mil casos, além do fato de que hoje a população é muito maior. Nesse sentido, uma possível relação é justamente sobre o estado sanitário da cidade atualmente, pois é bem corriqueiro encontrar lixo acumulado nas ruas e, com o período das chuvas, muitos focos do mosquito são observados na cidade, devido ao descuido, tanto das autoridades municipais – é importante destacar que isso não acontece somente em Campinas – como também da população”, pontua. Contudo, Daniela destaca que isso explica somente em parte a proliferação do mosquito Aedes aegypti, uma vez que, segundo ela, “é notório o atraso em relação ao saneamento em diversas áreas da cidade, o que, certamente, impacta na proliferação do mosquito da dengue”, considera.