Problemas sociais do uso de drogas: reflexos para a família e sociedade

Por Profa. Dra. Diana Tosello Laloni – docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas

Em junho de 2017, em Viena, foi divulgado o relatório da United Nations Office on Drugs and Crimes (UNDOC) agência da ONU sobre o uso de drogas, indicando que no Brasil o consumo de cocaína, maconha e heroína aumentaram, ao contrário da tendência de estabilização mundial (Andrea Murta, Folha On-Line).

Maconha é a droga produzida a partir da planta cannabis de origem asiática e usada por diversos povos desde antes de Cristo. As flores e folhas possuem o princípio ativo tetrahidrocanabiol (THC) além de outros. O haxixe, é outra droga produzida também a partir da mesma planta, são drogas classificadas como alucinógenas.

Cocaína é a droga produzida a partir da planta da família Erythroxylaceae, nativa da Bolívia e Peru é um arbusto e suas folhas possuem alcaloides, dentre eles a coca. A folha da coca é usada há mais de 5.000 anos pelos povos nativos dos Andes. Seu efeito é estimulante, causa euforia, excitação, ausência de medo e, em altas doses, causa arritmias cardíacas, convulsões e depressão respiratória. Crack é cocaína solidificada, denominado pedra que é fumada em cachimbos e produz dependência rapidamente.

Heroína é uma droga obtida a partir da Planta Papaver, de onde extrai-se o ópio e a morfina. O ópio produz sensação de prazer e causa dependência rapidamente. Foi sintetizada em torno de 1870 e a morfina é usada como sedativo desde 1890. Seu efeito é similar aos outros opióides, produz estado sonolento, e fora da realidade.

As drogas sintéticas mais conhecidas são:

Ácido lisérgico ou LSA: é uma das mais potentes substâncias alucinógenas conhecidas, é obtida por meio do fungo do centeio, sua descoberta data de 1940.

Ácido Gama-Hidroxibutírico (GHB): é usado na forma de sal ou diluído em água e é conhecido como “ecstasy líquido”. Seu uso teve início a partir da década de 1960, como droga alucinógena.

MDMA (Ecstasy, extase): é um derivado de anfetamina na forma de comprimido, ingerido por via oral. O ecstasy foi sintetizado em 1912, e o seu uso como entorpecente teve início na década de1970 nos Estados Unidos.

No mundo, o relatório da UNDOC encontrou estabilização no uso de cocaína, heroína, cannabis (maconha e haxixe) e anfetaminas. A cocaína, a maconha e as anfetaminas tiveram aumento no consumo na América do Sul e na Europa, e queda na América do Norte.

A cocaína, porém, não é a única droga que registrou aumento no consumo entre os brasileiros: a maconha, droga mais consumida no mundo, também cresceu. Apesar de o uso da maconha ter crescido em sete países da América do Sul, o aumento mais importante foi no Brasil. Ao mesmo tempo em que o Brasil fecha o cerco às chamadas drogas legais e socialmente aceitas – cigarro e álcool -, aumenta sobremaneira a tolerância com as chamadas drogas ilícitas.

As pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul constataram que drogas como tabaco, álcool e maconha costumam ser a primeira dependência dos jovens que ficam reféns do crack e outras drogas; quanto mais cedo o contato com essas primeiras substâncias, mais vulnerável a pessoa fica.

A busca por droga na adolescência e juventude tem início, em geral, com amigos e como uma brincadeira ou recreação. A permanência do uso está relacionada à busca de sensações diferentes e alívio de problemas enfrentados pelos jovens, que podem ter diversas origens, como familiares, relacionamentos sociais, desempenho escolar, isolamento social. Não há uma área de problemas que determine a busca por drogas, qualquer dessas dificuldades pode ocorrer e favorecer a busca de alívio do problema na droga.

As drogas estão presentes nos ambientes sociais frequentados pelos jovens, e as famílias em geral estão preocupadas com isso e com a exposição de seus filhos às drogas. As famílias que refletem sobre isso, e que conversam entre si e com seus filhos sobre as drogas, ajudam na prevenção. Falar do assunto e conhecer o problema é um dos caminhos desejado.

As famílias atuais nem sempre são constituídas no modelo pai, mãe e filhos. O número de membros pode variar conforme a organização possível, e isso não é o mais importante. O mais importante é que o jovem se identifique com a família, mantenha vínculos afetivos e tenha laços importantes com o grupo familiar, que haja respeito e confiança entre os membros. Os fatores de risco para o uso de drogas podem estar na família, na escola, no trabalho, no lugar de moradia e na sociedade. Todos esses fatores, em geral, estão relacionados.

Quando a família toma ciência que seu filho está usando drogas é necessário que tenha calma, reflita sobre o que fazer, e busque ajuda se não souber como conduzir a conversa necessária. É importante identificar qual a droga que está sendo usada, buscar informações corretas e conversar com o membro da família de forma franca e sem ameaças. Conhecer a droga, saber como é usada, saber como é adquirida, saber se o uso é individual ou em grupo, são os primeiros passos, sempre com cautela e sem ameaças ou agressões.

Ter conhecimentos básicos sobre o assunto é necessário, pois é preciso distinguir o uso recreativo do uso por dependência. O uso recreativo é eventual, em geral junto com amigos em situações sociais.

A dependência pode ser psicológica ou química, identifica-se quando o jovem não consegue interromper ou diminuir o uso, quando busca o consumo mesmo sem estar em situações sociais, quando preocupa-se constantemente em adquiri-la e abandona amigos que não usam droga, abandona atividades como escola, trabalho, esporte. A dependência química em especial com algumas drogas, trazem sensações desagradáveis, quando o usuário está em abstinência.

Ramirez e Rocha (2015) num estudo de revisão sobre uso de drogas e famílias concluiu que o início precoce do uso das drogas na adolescência se trata de um fenômeno complexo de multicausalidade. A família tanto pode ser um fator de risco ao uso de drogas como um fator de proteção para a prevenção do uso. É necessário que sejam realizadas orientações sobre a questão das drogas com os adolescentes e familiares com o objetivo de prevenir o uso.

Marcon, S.R. e outros (2015) num estudo documental de usuários em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (CAPsAD) identificaram que a população é predominantemente masculina, com alta proporção de uso de maconha. A convivência familiar foi relatada como satisfatória, com maior dificuldade de relacionamento com a figura paterna e convivia com algum familiar usuário de droga.

Nimtz, M. A. e outros (2014) estudaram o impacto nos relacionamentos familiares do dependente químico e concluíram que a dependência afeta os relacionamentos, prejudica a qualidade de vida do dependente e de seus familiares.

Nos contatos clínicos com usuários de drogas diversas e suas famílias observa-se que as famílias reagem de diversas maneiras. No início, em geral, buscam ajuda para o tratamento do membro e resistem a aceitar que necessitam de ajuda também. As famílias oscilam entre acolher o filho ou rejeitar, conversar e refletir ou ameaçar com internação. Diante dessas mudanças é aconselhável que as famílias sejam acompanhadas, pois a regularidade no cuidado, a clareza com as regras de convivência e a constância nas proposições são fundamentais para o tratamento do jovem usuário de droga.

Referências:

Nimtz, M.A. e outros, Impacto do uso de drogas nos relacionamentos familiares de dependentes químicos, Cogitare Enfermagem, 2014, 19(4).

Marcon, S.R. e outros, Contexto familiar e uso de drogas entre adolescentes em tratamento, Rev. Eletrônica Saúde Mental Álcool Drogas, 2015 11(3).

Ramirez, H.D.C. e Rocha, M., Relações entre o uso de drogas na adolescência e família, Pós-Graduação de Saúde Mental, do Alto do Vale do Itajaí, 2016.

United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC), World Drug Report 2017,