Projeto combate a intolerância religiosa nas escolas

Projeto de Extensão da PUC-Campinas nas escolas da Rede Pública de Ensino alia história das religiões à história do patrimônio de Campinas

Por Amanda Cotrim

O Brasil é um país multicultural. Essa frase já foi repetida muitas vezes para identificar o País como sendo um lugar de muitas religiões, costumes e etnias. Mas isso não faz do Brasil um lugar, necessariamente, harmônico. Os conflitos existem. Pensando em combater o preconceito e a intolerância religiosa, a PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas, que tem como objetivo “ofertar aos professores da rede pública o conhecimento sobre a religião, seja a deles ou a dos outros”, explica o docente da Faculdade de História e responsável pelo projeto, Prof. Dr. Fabio Augusto Morales Soares.

O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.
O Professor Fabio Morales explica a relação entre religião, patrimônio e memória / Crédito: Álvaro Jr.

Uma vez por mês, o Professor Morales e dois alunos-bolsistas promovem oficinas nas escolas da rede pública e, juntamente com os educadores, realizam um estudo sobre religião em um ou mais templos religiosos de Campinas, uma atividade que alia cultura, arte e arquitetura. Em abril de 2015, o estudo foi sobre o catolicismo, na Catedral Metropolitana, no Largo do Rosário e na Basílica do Carmo. Em maio de 2015, foi a vez do islamismo, em que professores visitaram a Mesquita da Sociedade Islâmica de Campinas, no Parque São Quirino. Em agosto de 2015, o projeto estudará o judaísmo, na Sinagoga localizada na Rua Barreto Leme, no Centro de Campinas; em setembro de 2015, será a vez do budismo, no Templo Higashi Honganji, no Jardim Chapadão; em outubro, a umbanda no Terreiro Vó Benedita, na Vila Ipê, e, em novembro, será a vez do neopentecostalismo, na Igreja Universal, em Campinas.

“À medida que as religiões são fenômenos sociais extremamente complexos e diversificados, selecionamos dois aspectos das experiências religiosas presentes na cidade: a arquitetura e os objetos sagrados. Desse modo, além de conhecer melhor – evitando preconceitos vários – o campo religioso da cidade, os participantes têm acesso de um modo aprofundado ao patrimônio material edificado da cidade, assim como aos objetos sagrados em cada uma das religiões”, explica Soares.

O estudante do quarto ano do curso de História da PUC-Campinas, Renan Corrêa Teruya, de 30 anos, é extensionista no projeto. Renan é responsável em explicar sobre as fachadas dos espaços religiosos visitados. Já a também extensionista Camila Médici, 20 anos, tem a responsabilidade de falar sobre os objetos sagrados de cada templo visitado.  “Auxiliamos o professor Soares desde a reflexão acadêmica sobre as religiões até a preparação de textos e atividades que vamos usar com os professores da rede pública”, explica Renan. “No final do projeto, teremos um site completo com informações acadêmicas sobre as religiões que estamos estudando”, adianta o docente.

A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
A PUC-Campinas mantêm, desde fevereiro de 2015, o projeto de extensão Os lugares da religião: Espaço, Patrimônio e Cultura Material em Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

As atividades são realizadas de duas maneiras: uma oficina expositiva, em que os alunos-bolsistas vão até as escolas e apresentam a história arquitetural de cada uma das religiões presentes em Campinas. No sábado seguinte a essa exposição, “realizamos em conjunto estudos do meio, em que visitamos edifícios religiosos. Tanto nas oficinas expositivas quanto nas visitas aos edifícios religiosos, os professores participam ativamente, seja na forma de complementos ao discurso preparado, seja na forma de novos encaminhamentos às questões apresentadas”, revela Soares.

O docente explica, por exemplo, que a Catedral Metropolitana, dedicada à Nossa Senhora da Conceição está repleta de referências à arquitetura clássica e renascentista, e tem a ver com o processo de europeização (via arquitetura eclética) das cidades brasileiras no contexto da “modernização capitalista” e da formação da nova rede urbana paulista, o que não impediu o fato de que a técnica utilizada ser a taipa de pilão, tipicamente colonial, construída por trabalho escravo; “a Mesquita no Parque São Quirino é uma réplica do Domo da Rocha, em Jerusalém, mesquita construída sobre o antigo templo de Salomão e sobre a rocha onde Abraão teria quase sacrificado Isac/Ismael – dentro do domo da Rocha, assim como dentro da Mesquita de Campinas, existe um mihrab, que é um nicho na parede que indica a direção de Meca, conectando todas as mesquitas às geografia sagrada do Islã”, contextualiza. Já a Igreja Universal na Avenida João Jorge, por sua vez, tem um misto de arquitetura grega e judaica, o que tem a ver com a afirmação desta denominação no cenário religioso brasileiro, compensando sua curta história com a incorporação de uma longuíssima tradição arquitetural. “O terreiro da Vó Benedita, finalmente, não se reconhece facilmente, pois sua arquitetura é absolutamente residencial, o que se explica pela perseguição latente a religiões de matriz africana e afro-brasileira em nossa sociedade, supostamente, tolerante”, ressalta.

Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.
Professores da rede pública de ensino em Campinas durante as oficinas do Projeto de Extensão / Crédito: Álvaro Jr.

Para a Coordenadora Pedagógica dos anos finais (do 6º ao 9º ano), da escola Estadual Luis Gonzaga Horta Lisboa, em Campinas, em que o projeto de Extensão é realizado, Jaqueline Salione Silveira, “a iniciativa é muito bem-vinda pela sua relevância cultural. Ficamos encantados com a possibilidade de aliar a cultura da cidade de Campinas com o que cada religião traz de informação cultural. Eu propus levar os alunos para acompanhar as oficinas, porque acreditamos que o projeto é muito rico para o conhecimento cultural desse aluno”, opina a Coordenadora.

A intolerância às religiões de matriz africana.

Segundo o Professor Morales, não se apagam 300 anos de escravidão africana por decreto. O racismo, segundo ele, estruturou a sociedade colonial e imperial brasileira e a república não se esforçou para integrar os negros. “O racismo derivado da escravidão e das formas de reprodução da condição subalterna da população negra (ausência de Estado de bem-estar social + baixos salários + representações midiáticas depreciativas) é, certamente, o principal fator para a explicação da intolerância às religiões de matriz africana. Mas não só”, considera.

Nada como o conhecimento e informação para desmistificar uma situação de preconceito. Isso é o que acredita a Coordenadora Jaqueline, que adiantou que transmitirá todo o conhecimento adquirido aos alunos no final do projeto. “Eu penso em trabalhar com todas as religiões e no final do projeto apresentar todas suas características culturais como um trabalho geral para os estudantes”, finalizou.