Quando a “deficiência” faz a diferença no mundo jornalístico

Coletânea de depoimentos traz histórias de pessoas com deficiência que escolheram o Jornalismo como profissão e mostraram que um olhar plural só faz bem à profissão

            Por Bárbara Garcia

O livro-reportagem intitulado Sobre limão e linhas tortas – a trajetória de pessoas com deficiência no jornalismo profissional foi produzido como coletânea de depoimentos com nove jornalistas que têm alguma deficiência, seja física, intelectual – como no caso da primeira repórter do mundo com Síndrome de Down, Fernanda Honorato – ou visual.

Bárbara Garcia, autora do livro. Crédito: Álvaro Jr.
Bárbara Garcia, autora do livro. Crédito: Álvaro Jr.

Quanto ao título, é bem provável que você já tenha ouvido os ditados populares: “Se a vida lhe der um limão, faça dele uma limonada” e “Deus escreve certo por linhas tortas”. A intenção foi que o limão representasse as deficiências em si, que são associadas pelo senso comum como sinônimo de incapacidades crônicas, mas que possibilitam que a pessoa com deficiência possa construir um olhar diferenciado da realidade e se destacar no mercado de trabalho jornalístico. Já as linhas tortas representam as barreiras do meio social, enfrentadas cotidianamente por essas pessoas.

Vale ressaltar que a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa Com Deficiência da ONU, ocorrida em 2007, em Nova York, definiu as deficiências como características de ordem física, sensorial ou intelectual, que, em interação com diversas barreiras do meio social, impedem que o indivíduo viva plenamente. Portanto, o impedimento e a desigualdade enfrentados por quem possui alguma deficiência são causados não pelas características pessoais, mas sim pelas barreiras – arquitetônicas, de comunicação, de comportamento e outras – da sociedade.

A escolha de abordar o tema da inclusão no ambiente de trabalho se deu porque eu, ex-aluna da graduação em Jornalismo da PUC-Campinas, formada em 2015, também possuo uma deficiência. Utilizo um andador de três rodas para me locomover, por conta de uma dificuldade de equilíbrio causada por prematuridade no nascimento. Ao longo dos anos da graduação, pude perceber que o espaço destinado na mídia para a discussão dos direitos das pessoas com deficiência, ainda hoje, é pequeno, e muitas vezes a representação dessas pessoas é estigmatizada, associando-as a “coitadas” e “heróicas”, numa situação na qual a pessoa deixa de ser alguém como qualquer outra, com qualidades, defeitos, direitos e deveres.

          Além disso, as dificuldades e inseguranças que precisei enfrentar em meu cotidiano fizeram-me considerar que outras pessoas, com diferentes características e deficiências, poderiam contar boas histórias a respeito de suas experiências no mercado de trabalho. O livro foi produzido como Trabalho de Conclusão de Curso.

 Os entrevistados do Livro-Reportagem são homens e mulheres com idades e deficiências diversas. Uma redatora de rádio, dois repórteres de jornal impresso, uma repórter de TV, dois assessores de comunicação, um estudante de doutorado, uma editora de site de notícias e uma colaboradora de revistas. Para eles, a deficiência se tornou um diferencial, como no caso do ex-repórter do jornal O Estado de S. Paulo, Lucas de Abreu Maia.

Ele entrou no programa de treinamento do jornal em 2009, e em uma das atividades, os participantes foram levados à Praça da Sé, centro da capital paulista, e orientados a produzir uma reportagem sobre o local. Lucas é cego e estava acompanhado da sua cadela-guia. Segundo ele, nessas situações os repórteres costumam fazer matérias a respeito da condição das calçadas, poluição, trânsito e outros assuntos ligados à cidade. Ele começou a pensar: “E agora? O que vou fazer aqui?”. Por conta da falta da visão, ele presta mais atenção aos seus outros sentidos, como a audição. Foi quando começou a ouvir grande quantidade de sabiás cantando no meio da Praça da Sé, algo incomum no Rio de Janeiro, cidade em que se graduou. Ele decidiu, então, perguntar aos pedestres se realmente havia grande quantidade de sabiás no local e como era a relação dessas pessoas com os pássaros. Voltou ao jornal e decidiu procurar um especialista em aves, o qual confirmou a existência de uma superpopulação de sabiás naquela região de São Paulo. A cegueira o fez perceber algo que outros repórteres nem imaginavam. Foi o suficiente para Lucas ter em mãos uma reportagem muito diferente das demais. Ao final do treinamento, foi um dos oito participantes escolhidos para ser contratado diretamente pelo jornal, tornando-se repórter do caderno de Política.

            No livro-reportagem, os depoimentos são escritos em primeira pessoa, isto é, o leitor tem a impressão de que é o próprio depoente quem conta a história. O conjunto de depoimentos deixa claro que a deficiência precisa ser encarada como uma das muitas características presentes na personalidade de alguém e que esse olhar diferenciado da realidade pode gerar boas contribuições para a coletividade.

Cada jornalista entrevistado demonstra, a seu modo, como fez limonadas de seus limões. Sem deixar de problematizar a lei de cotas, esses jornalistas com deficiência relembram os momentos mais desafiadores de suas carreiras, expondo seus sonhos e suas frustrações profissionais. Além disso, eles analisam as mudanças que o Jornalismo vem enfrentando, sem que este se esqueça da necessária inclusão de todas as pessoas numa redação de jornal.

Mais do que um conjunto de histórias de vida, o objetivo do livro foi demonstrar o quanto a inclusão das pessoas com deficiência é um assunto de grande importância para a sociedade.  Esse debate é urgente.