Religião, ciência e mídia

Por Lindolfo Alexandre de Souza

Há alguns anos o Brasil discutia a licitude e a legalidade do uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas, época em que o assunto era analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E naquele momento foram muitos os órgãos de imprensa que cumpriram o que se espera de um jornal, mostrando de forma ética e competente as várias versões do debate, a fim de que os leitores pudessem tirar suas próprias conclusões.

É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.
É verdade que há religiosos que ainda hoje desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim./ Crédito: Álvaro Jr.

Outros trabalhos jornalísticos, porém, simplesmente prestaram um desserviço. Não porque mentiam ou manipulavam, mas porque apresentavam uma abordagem bastante limitada e, portanto, parcial. A caricatura era recorrente: de um lado, os religiosos presos aos seus dogmas medievais, contrários aos avanços da ciência; de outro, os cientistas, impedidos de avançar em suas pesquisas e, assim, trilhar o caminho que garantiria o bem da humanidade.

Parte da imprensa não percebia, naquele momento, que o conflito não era, necessariamente, entre religião e ciência. Mas a contradição era mais profunda e se apresentava a partir do confronto entre duas maneiras de analisar a questão, cada qual construída a partir de visões de mundo fundamentadas em pressupostos científicos, filosóficos, éticos e, também, religiosos.

Esse exemplo pode contribuir com a reflexão sobre de que forma os meios de comunicação abordam a relação entre religião e ciência. Em outras palavras, é pertinente questionar se a mídia reforça, ou não, um aspecto central neste debate, que é propor religião e ciência como campos inconciliáveis, excludentes e incompatíveis ou, visto por outro ângulo, como experiências diferentes, com identidades e métodos próprios, mas capazes de estabelecer pontes de diálogo.

Duas razões podem ajudar a entender porque parte da mídia aposta na perspectiva da contradição. O primeiro é identificar algumas pinceladas positivistas no surgimento do fenômeno que, atualmente, denominamos como imprensa. Assim, em contraposição à cristandade medieval onde havia uma hegemonia do discurso religioso em relação às descobertas científicas, a modernidade propôs a inversão deste quadro, atribuindo à razão a tarefa de conduzir o ser humano em busca de suas questões mais fundamentais, relegando a experiência religiosa à categoria de experiência privada. Assim, tanto no mundo medieval como no moderno, ciência e religião ocupam lugares opostos.

Outra explicação está no conceito de valor-notícia, que são os critérios usados pela mídia para discernir se um acontecimento ou assunto merece ser transformado em notícia. Entre referências como proximidade, relevância e novidade, acentua-se a presença da controvérsia e do conflito. Ou seja, quando uma pauta é marcada pela contradição, mais chance ela tem de ser vista como possiblidade de produção jornalística. Desta forma, situações conflitivas entre religião e ciência podem render, nessa perspectiva, boas pautas jornalísticas.

Mas gerar boas matérias jornalísticas não significa, necessariamente, contribuir com a consolidação de um processo mais amplo, por meio do qual o ser humano consiga buscar repostas mais consistentes sobre si mesmo, sobre o outro, sobre o mundo e sobre a sociedade. E, nesse sentido, vale a pena questionar a responsabilidade da mídia ao tomar o princípio da contradição como único elemento de análise.

É verdade que há religiosos que ainda hoje, em pleno Século XXI, desprezam os avanços da ciência. Mas isso não significa que todos os religiosos pensem assim. Da mesma forma, é possível encontrar, também no Século XXI, cientistas capazes de afirmar que a ciência dá conta de responder a todas as questões que dizem respeito à vida do ser humano, desvalorizando qualquer perspectiva de espiritualidade ou de abertura à transcendência. Mas existem, também, cientistas que não encontram incompatibilidade entre a prática cientifica e a experiência religiosa.

Um caminho para superar tal questão, talvez, esteja na provocação proposta por São João Paulo II no primeiro parágrafo da encíclica Fides et Ratio, promulgada setembro de 1998. “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio”.

Lindolfo Alexandre de Souza é diretor da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas e Mestre em Ciências da Religião.