Resenha: Professores resgatam legado da Imprensa campineira

Por Tereza de Moraes

Em uma produção gráfico-editorial primorosa, a Editora Setembro, de Holambra, São Paulo, disponibiliza ao público a obra “A Imprensa em Campinas: retratos da história”, organizada pelos experientes professores Carlos Gilberto Roldão, Fabiano Ormaneze e Ivete Cardoso do Carmo-Roldão. Tal produção, certamente, atraiu e constantemente arrebatará muitos leitores não somente pela qualidade editorial, mas principalmente pelo tema que aborda com legitimidade e exatidão.

Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa Tereza de Moraes: “Trata-se de um obra de grande relevância”/ Crédito: Álvaro Jr.

Qualquer leitor, conhecedor do assunto ou leigo, encontrará o percurso histórico preciso da Imprensa em Campinas, em toda a sua abrangência, da origem (1858) até os dias atuais. Para tanto, a obra está dividida em doze capítulos, destacando um percurso diacrônico pela Imprensa em Campinas, analisando mais de um século de jornalismo, visitando tanto a Imprensa tradicional quanto a popular. A origem é o Diário do Povo (1912 a 2012), anexado posteriormente ao Correio Popular, fundado em 1927.

Nas competentes mãos de Ivete Cardoso Roldão e Carlos Gilberto Roldão, Marcel Cheida e Cyntia Andretta, três capítulos abordam a história completa da Imprensa tradicional campineira, desde a fundação até o presente momento, passando por todas as dificuldades, superações, bastidores, situações cômicas, culminando
com as transformações tecnológicas e a atual situação da conhecida Rede Anhanguera de Comunicação (RAC).

Já os três capítulos na responsabilidade de Juliana Sangion e Rose Bars, Luiz Roberto Saviani Rey e Paiva Jacobini desvelam com rigorosa precisão a presença na cidade das sucursais de grandes jornais da capital, seu significado, sua importância e sua contribuição.

Dois capítulos são destinados a esclarecer as experiências do Jornal de Hoje (de 1979 a 1981) e do Jornal de Domingo, um semanário que, durante vinte anos (1972 a 1993) chegou gratuitamente às residências dos campineiros. Nessa abordagem, Carlos Alberto Zanotti e Toledo-Vieira informam com dados confiáveis de pesquisa intensa e com muito bom humor a força da concorrência, num contexto histórico propício, entre a Imprensa escrita já consolidada e a inovação da rebeldia.

Molck tem a missão de revelar a imprensa contemporânea e o faz com profundidade e estilo peculiar. Expõe os traços marcantes da imprensa pós-intenet em todos os seus aspectos (linguagem, público, conteúdo…), simplificando ao leitor o contato com as experiências existentes (Metro e Destak). Chiquinho Jr. e Rosa revelam os traços do jornalismo popular existentes em Notícias Já, também um periódico pós-moderno, que justifica a permanência da Imprensa escrita mesmo após o advento das modernas tecnologias.

Os dois capítulos restantes, se não se encaixam somente nesse percurso diacrônico, nem por isso são menos relevantes. Ao contrário, em mãos de José Roberto Gonçalves e Fabiano Ormanze, fica a incumbência de tratar da polêmica entre Imprensa e discriminação. Gonçalves faz um estudo da imprensa negra (Getulino: 1923 a 1926) e a sua luta contra a discriminação em uma brilhante análise fundamentada nos estudos do discurso, demonstrando que fazer jornalismo é, antes de tudo, fazer política. Já Ormaneze presenteia o leitor com o último capítulo, revelando a participação das mulheres na imprensa, esclarecendo que tal presença começa tímida, através da utilização de pseudônimos, em
função do papel da mulher na sociedade androcêntrica e patriarcal, mas resulta em grandes reportagens.

Trata-se, portanto, de obra de grande relevância, recomendada tanto ao público em geral quanto aos especialistas da área do jornalismo, já que fundamentada em intensas pesquisas e muita reflexão crítica. Importante frisar que a relevância se estende ao fato de que a visão da Imprensa campineira nunca se distancia de uma contextualização mundial, podendo o leitor caminhar pela província sem perder de vista o universal. Nesse sentido, é uma obra para qualquer leitor do mundo, mas, sobretudo, para o leitor campineiro, que faz um verdadeiro ingresso ao túnel do tempo e revisita a Campinas antiga. No dizer machadiano, obra escrita com a pena da sabedoria, da paixão e da saudade.

Tereza de Moraes é Professora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas