Resíduos: Como transformar um problema ambiental em solução social

Por Ana Claudia Seixas e Pedro de Miranda Costa

A globalização, impulsionada pela construção civil e novas tecnologias, marca uma nova era mundial. Assim, um dos maiores desafios dessa nova sociedade é o equilíbrio entre a geração excessiva dos resíduos sólidos e o gerenciamento adequado dos mesmos.

Cooperativas são uma forma de transformação de problema ambiental em solução social./ Crédito:Álvaro jr.
Cooperativas são uma forma de transformação de problema ambiental em solução social./ Crédito:Álvaro jr.









 

Coloca-se aqui particularmente a questão dos chamados “Resíduos Sólidos Urbanos” (RSU) que são definidos como os resíduos domiciliares, isto é, aqueles originários de atividades domésticas em residências urbanas e os resíduos de limpeza urbana originários da varrição, limpeza de logradouros e vias públicas, bem como de outros serviços de limpeza urbana.

Em nível nacional, os números relacionados à destinação final dos resíduos coletados mostram que 58,4 % tiveram destinação adequada e seguiram para aterros sanitários em 2014, porém há de se ressaltar que os 41,6% restantes correspondem a 81 mil toneladas diárias, que são encaminhadas para lixões ou aterros controlados. Estimativas apontam que desses, 30% (ou 24 mil toneladas) são de resíduos recicláveis.

Um dos instrumentos para atendimento da meta de disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos prevista na Lei consiste na implantação de sistemas de coleta seletiva que propiciem o recolhimento dos resíduos, no mínimo, em duas frações: secos e úmidos.

A problemática dos resíduos sólidos urbanos da Cidade de Campinas apresenta um nível de complexidade considerado elevado, porém as questões avançam de forma favorável devendo ser equacionadas conforme metas e planejamentos relatados do “Plano Municipal de Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos de Campinas”.

Nesse contexto, e em relação aos RSU recicláveis, as cooperativas populares de coleta e separação desempenham um importante papel. Seu surgimento está vinculado aos chamados “catadores” que literalmente “garimpavam”, no meio dos lixões, materiais de valor do qual pudessem tirar seu sustento. Embora essa situação ainda persista em alguns lugares do país, felizmente esse quadro mudou positivamente. Hoje, esses trabalhadores estão organizados em cooperativas, recebendo por meio da coleta seletiva os materiais, separando-os e vendendo-os.

A situação melhorou, mas ainda está longe de ser confortável. Algumas cooperativas ainda carecem de uma maior organização do ponto de vista institucional. Outras evoluíram muito nesse aspecto, mas ainda enfrentam o desafio de oferecerem melhores condições de trabalho, serem mais produtivas e comercializarem com mais eficiência os materiais separados visando mais trabalho e renda.

Nos tempos atuais, duas das grandes preocupações da humanidade são a questão social e a questão ambiental. Assim, um modelo de gerenciamento de resíduos que inclua as cooperativas oferece-se como uma oportunidade de conciliar essas duas questões. Isso se dá pelo fortalecimento e ampliação das cooperativas.

Cooperativas são uma forma de transformação de problema ambiental em solução social. Maior produtividade das cooperativas significa mais trabalho e renda para os trabalhadores cooperados, mas, também, significa mais material reciclado.

Profa Ana Claudia e Prof Pedro Costa/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa Ana Claudia e Prof Pedro Costa/ Crédito: Álvaro Jr.

O apoio para esse fortalecimento e para essa inserção na cadeia pode vir de vários setores da sociedade. A PUC-Campinas busca colaborar para, pelo menos, duas linhas de atuação:

Por meio de projetos de Extensão, tem buscado contribuir junto as quatro cooperativas vinculadas à rede RECICLAMP. A aproximação surgiu por meio de projeto de pesquisa em 2010. Em função disso sugiram projetos visando o desenvolvimento de plano de negócios e conscientização quando aos direitos civis. Para os próximos anos, ações estão previstas no sentido de fortalecimento das atividades em rede e da imagem e identidade da rede. No que se refere às cooperativas da REDE RECICLAMP, estas envolvem cerce de 150 cooperados, a maioria mulheres, que se dividem entre as atividades domésticas e o trabalho com a reciclagem. Respondem, juntas, por 350 toneladas ao mês de material reciclável processado (mais de 50% do material processado na cidade de Campinas) e geram para seus cooperados uma renda média mensal de cerca de R$ 850,00.

A atuação da Universidade dá-se também via gestão de seus resíduos sólidos. Estudo realizado pelos Professores Ana Claudia Mendes Seixas (CEATEC) e Ernesto Dimas Paulella (CEA), em 2011, demonstram que de 2,5 t/dia geradas pelos Campi estão distribuídas em 70% Orgânico e 30% Reciclável. O programa de gerenciamento de resíduos sólidos da Pontifícia Universidade de Campinas – PUC-Campinas visa, principalmente, promover o correto tratamento e destino final dos resíduos sólidos; destinar os materiais recicláveis a cooperativas que comercializam esses materiais; sensibilizar sua Comunidade Acadêmica para uma mudança de valores, comportamento, ética, hábitos e atitudes com relação às questões sociais e ambientais.

Ana Claudia Seixas, docente no CEATEC e Pedro de Miranda Costa é docente no CEA. Ambos são professores da Extensão.