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Editorial: Como estamos nos alimentando?

A edição 168 do Jornal da PUC-Campinas, referente aos meses de julho e agosto de 2016, traz para o centro do debate acadêmico a questão da alimentação. Na edição, refletimos sobre os vários sentidos que a palavra alimento produz, desde o sentido literal até o cultural e filosófico.

A comida está no cotidiano de toda a sociedade, mas ainda vivemos num mundo em que a fome é o grande problema a ser enfrentado. Além disso, vale a pena pensar nas perguntas: O que estamos comendo e como estamos nos alimentando?

O Jornal traz uma entrevista com o diretor do curso de Ciências Econômicas, que reflete sobre a soberania e a saúde alimentar do brasileiro e os desafios para o futuro. Nessa edição abordamos temas como a agricultura familiar, o uso de agrotóxicos, o direito do consumidor que se sentiu lesado ao consumir determinado alimento e o papel da religião na vida humana. O jornal da PUC-Campinas também traz um artigo sobre educação alimentar, pensando, principalmente, no estudante PUCC.

O alimento, no entanto, não é apenas uma questão de necessidade biológica, mas também a própria materialidade da cultura de um povo. A reportagem sobre os pratos típicos brasileiros conta um pouco sobre a importância da gastronomia pra o turismo e para a cultura.

O jornal também traz reportagens sobre a influência da mídia na alimentação da sociedade e os transtornos alimentares.

Oferecemos ainda dicas no Tome Ciência e a resenha do filme A Comilança, na coluna Cinema.

Confira essa apetitosa edição.

Boa leitura!

 

Os desafios da agricultura familiar

Por Regina Longo

No mundo moderno em que se pensa a agricultura (atualmente, também conhecida como agronegócio) como uma atividade relacionada basicamente aos grandes negócios, aos grandes latifúndios e à exportação em larga escala de grãos, como a soja e o milho, de carne e de cana-de-açúcar, falar de agricultura familiar tornou-se algo paradoxal.

Paradoxal no sentido de que é uma atividade com tão pouca visibilidade em um mundo em que a prioridade é a produção de mercadorias e para grandes mercados. Dessa forma, não é necessário ir muito longe para resgatar a importância da agricultura familiar, que além de pioneira e milenar vem acompanhando a humanidade na formação dos núcleos urbanos culminando no estabelecimento das sociedades atuais.

Nesse contexto, como não discutir a importância de uma agricultura que é a principal responsável pela produção dos alimentos que chegam às mesas dos brasileiros? A agricultura familiar responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos em todo o País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, 87% da mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 34% do arroz, 58%, do leite, 59% dos suínos, 50 das aves, 30% dos bovinos e 21% do trigo produzidos no Brasil são oriundos da agricultura familiar, sem falar, ainda, na produção de frutas e hortaliças.

Outra informação interessante é que 85% dos estabelecimentos agropecuários do país são da agricultura familiar. Em termos absolutos, são 4,3 milhões de estabelecimentos agropecuários. Entretanto, a área ocupada pela agricultura familiar era de apenas 80,25 milhões de hectares, (IBGE, 2006). Assim observa-se que no Brasil, 24% das terras agricultáveis pertencem aos pequenos produtores familiares, segundo dados do Censo Agropecuário. Mesmo assim, a agricultura familiar é responsável por mais de 80% dos empregos gerados no campo, o que evidencia a importância desse segmento na geração de trabalho e renda e também na contenção do êxodo rural.

Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades/ Crédito: Álvaro Jr.
Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades/ Crédito: Álvaro Jr.

E para entender melhor a agricultura familiar é necessário compreender quem são esses produtores rurais que fazem chegar as nossas mesas o que comemos todos os dias. Segundo a Constituição brasileira, materializada na Lei no 11.326, de julho de 2006, considera-se agricultor familiar aquele que desenvolve atividades econômicas no meio rural e que atende alguns requisitos básicos, tais como: não possuir propriedade rural maior que 4 módulos fiscais (um módulo fiscal, resumidamente, é uma unidade de terra cujo tamanho é definido pelo poder municipal e varia entre 5 e 100 hectares); utilizar predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas de propriedade; e possuir a maior parte da renda familiar proveniente das atividades agropecuárias desenvolvidas no estabelecimento rural.

Devemos entender a agricultura familiar, desta forma, como aquela que é feita nas pequenas propriedades, por famílias que conseguem sua renda com os produtos que plantam, colhem e fazem chegar todos os dias em nossas mesas. É feita por pessoas que trabalham a terra, normalmente sem, ou, às vezes, com pequenas máquinas, que usam pouco ou, às vezes, nem utilizam adubos e defensivos agrícolas. O alimento que comemos é fruto do trabalho de inúmeras famílias espalhadas por todo o Brasil, que, muitas vezes, passam despercebidas em um mundo acelerado e desatento, que, por vezes, não tem ideia de que os alimentos são frutos de um trabalho diário que vai muito além das gôndolas dos supermercados.

Assim, o grande desafio da sociedade atual vai além de aumentar a produção de alimentos de forma a atender a demanda de uma população ainda crescente. Mas, também, está na valorização daqueles que fazem da terra seu sustento e que nos agraciam, diariamente, com nosso alimento.

 Profa. Dra. Regina Longa é Engenheira Agrônoma e docente no curso de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas

Alimentos e agrotóxicos: uma relação histórica e danosa

Por Marcela Nascimento

O termo agrotóxico é amplamente utilizado nas conversas cotidianas, das escolas às mesas de bar, mas será que todo mundo sabe mesmo o que isso quer dizer? Agrotóxicos são definidos pela Lei Federal no 7.802, de 11 de julho de 1989, abrangendo os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento dos produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos. Ou seja, inseticidas, fungicidas, herbicidas entre outros “cidas” utilizados para evitar danos em culturas agrícolas, florestais e em seu armazenamento.

O uso dessas substâncias remonta ao início do século passado primeiramente com o diclorodifeniltricloroetano ou DDT. Esse composto químico foi utilizado inicialmente para o controle da malária, depois, juntamente com outros compostos foi utilizado nos cultivos agrícolas para o controle de pragas e até como armas químicas na primeira guerra mundial. Entretanto, foi após a chamada “revolução verde”, um processo de mudança da política agrícola mundial, pós-segunda guerra mundial, visando à modernização do campo para acabar com a fome do pós-guerra, que os agrotóxicos passaram a ser utilizados em grande escala, sobretudo no final da década de 1960, após o desenvolvimento das sementes transgênicas resistentes ao glifosato (herbicida).

Logo nos anos iniciais da década de 1970, o uso do DDT foi proibido em quase todo o mundo, sobretudo após as denúncias de Rachel Carson em seu livro “Primavera Silenciosa”. Mas não era só o DDT, a essa altura, diversos outros pesticidas já haviam sido desenvolvidos e estavam sendo utilizados em larga escala para conseguir manter o modelo monocultor extensivo da produção de alimentos mundial. Modelo este muito susceptível ao ataque de pragas e que por este motivo demanda enormes quantidades de produtos para viabilizar sua produção, desde fertilizantes para a manutenção da fertilidade da terra, herbicidas para evitar a competição com plantas daninhas, inseticidas para controlar insetos que danificam a cultura, fungicidas para garantir a produção em áreas tropicais e pesticidas para garantir que o alimento armazenado não seja danificado. Só que esses produtos deixam resíduos tanto no ambiente como nos alimentos.

Já é bem documentado na literatura científica que esses produtos podem causar diversos problemas de saúde, tanto em quem trabalha diretamente na sua aplicação (que em muitos casos não utilizam os equipamentos se proteção, seja por ignorância seja por negligência do empregador), como em quem consome. Em casos leves de intoxicação podem ocorrer dores de cabeça, mal-estar, fraqueza, tonturas, náuseas e azia, por exemplo, seja pela exposição excessiva a determinado produto ou pelo consumo ou exposição prolongada à determinada substância. Além disso, problemas graves de saúde podem se manifestar muito tempo após a exposição ou seu consumo excessivo como alguns tipos de câncer, malformações congênitas, distúrbios endócrinos, cardíacos, neurológicos e mentais.

Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU) fizeram, em 2015, um apelo à comunidade internacional, solicitando que seja suspenso, imediatamente o uso de pesticidas na produção de alimentos, argumentando que os resíduos desses pesticidas perigosos são frequentemente encontrados no alimento que consumimos impedindo o direito individual de ter acesso à alimentação segura e saudável.

A despeito disso, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), desde 2009 o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, consumindo mais de 1 milhão de toneladas por ano, o que representa o consumo médio de 5,2 kg de veneno agrícola por habitante. De acordo com o documento publicado pelo INCA, em abril de 2015, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos, dos quais, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.

Sendo assim, nos cabe, enquanto cidadãos, procurar alimentos livres de agrotóxicos, nos unir na luta por uma política nacional efetivamente regulatória com relação ao uso de agrotóxico, bem como ao incentivo real às formas de produção mais sustentáveis e responsáveis, repensando no atual modelo de produção agrícola baseado em monocultura de grande escala, além de exigir uma maior fiscalização quanto ao cumprimento das normas e regulamentações.

Somente é produzido aquilo que as pessoas consomem, se nós nos recusarmos a consumir produtos contaminados por agrotóxicos, os produtores e as indústrias alimentícias terão de buscar tecnologias alternativas, sendo esse o nosso papel como consumidor consciente.

Prof. Dra. Marcela Nascimento é docente no curso de Ciências Biológicas da PUC-Campinas

 

Serviços em bares e restaurantes e o direito do consumidor

Por Maria Helena Campos de Carvalho

A Lei no 8.078/90 é conhecida como o Código de Defesa do Consumidor. No entanto, são muitas as confusões e incompreensões sobre esse tema, pois, usualmente os cidadãos se defrontam com direitos alegados, o que, de fato, inexistem no Código. Já, em outras oportunidades, desconhece o consumidor que um direito seu foi lesado e ele teria amparo legal.

Uma das áreas que causam preocupação e interesse crescente é a concernente à alimentação. Seja no fornecimento de produtos ou no seu manuseio, há de se estabelecer quais são os direitos básicos do consumidor.

Assim, saber qual é o limite de “sujeira tolerada” pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) é uma informação importante. Por exemplo, é tolerada a venda e consumo de chá de camomila com até cinco insetos inteiros mortos por 25g. Claro que o consumidor não visualiza os insetos, e tem aqueles insetos não permitidos pela ANVISA, mas é claro que ao leigo isso choca.

Há uma tabela interessante, abaixo, apenas como indicativa desses elementos que não causam lesão. Ora, se estão autorizados ou entende-se não serem aptos a causar lesão, nesses casos, o que se dá é o mero dissabor do consumidor, sem direito à indenização.

Assunto diverso é o consumo de alimentos estragados, seja por terem o prazo de validade (elemento essencial que deve constar de todos os mantimentos) vencido, seja pelo depósito e armazenamento impróprios. Claro está que nessas hipóteses houve lesão ao direito do consumidor, uma vez que sua saúde e integridade não podem ser expostas ou colocadas em risco pelos fabricantes, restaurantes e congêneres.

Se isso vier a provocar um problema de saúde, será um acidente de consumo. O consumidor tem o direito de pleitear a indenização pelo prejuízo causado, e, eventualmente, dependendo das circunstâncias de cada caso, por dano moral. Se for acidente de consumo, cabe pedir o dano moral. Se for verificado o problema antes do consumo, o cliente pode solicitar a troca do produto, seu dinheiro de volta, mas não poderá pleitear dano moral.

Quando se fala em indenização, isso abrange todo o prejuízo sofrido: gastos hospitalares, medicamentos, despesas feitas com a finalidade de sanar o mal causado pela ingestão de alimentos inadequadamente preparados.

Fonte: Jornal Folha de S. Paulo.
Fonte: Jornal Folha de S. Paulo.

Entenda-se: um restaurante deve garantir, entre outras coisas, acesso fácil para cadeirante; cardápio com descrição do conteúdo dos pratos; ao menos um cardápio em braile e um com outra língua além do português; cardápio visível, seja na porta do estabelecimento, seja logo em sua entrada, de tal sorte a permitir que o consumidor tenha uma noção da proposta do restaurante e o preço ali praticado, sem ter que sentar-se e depois sentir a humilhação de sair sem consumir, pois, o restaurante não é adequado ao seu padrão de consumo.

De igual forma, no cardápio, ou anunciado logo na entrada, o restaurante deve deixar explícitas as formas de pagamento permitidas, posto que o cliente não pode ser surpreendido no caixa com a alegação de que não se aceita aquela determinada forma de pagamento.

Esses são cuidados e atenções que o consumidor pode ter como forma inclusive de selecionar os bons restaurantes. A efetivação do código do consumidor se dá no dia a dia, com a atenção constante do consumidor, o zelo no respeito a seus direitos, e a certeza de que conta com órgãos fiscalizatórios sempre atentos, como a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (PROCON). Seja um consumidor diligente. Aponte as deficiências, questione e exija seus direitos!

 Maria Helena Campos de Carvalho é Mestre em Direito Constitucional e professora de Direito do Consumidor da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

Maria Helena Campos de Carvalho é Mestre em Direito Constitucional e professora de Direito do Consumidor da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

 

A influência da mídia nos hábitos alimentares

Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, a influência da mídia será ainda maior

Por Amanda Cotrim

As telas contemporâneas estão no dia a dia das pessoas: televisão, revista, jornal, computador, outdoor. São vitrines as quais influenciam o cotidiano. Como toda vitrine, há um vendedor – a Publicidade -, um instrumento importante para a propagação de hábitos de consumo e alimentares. Ela é parte de um sistema que estabelece um padrão de consumo. “Ainda que a publicidade não tenha toda a responsabilidade, ela tem grande influência pela sua capacidade de persuadir a sociedade”, defende o docente da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas, Prof. Dr. João Brito.

Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.

Para o docente, a propaganda cumpre uma função comercial, por isso, é tão difícil identificar no dia a dia o que é e o que não é publicidade. Pensando em mídias como televisão, que está no cotidiano das pessoas, essa distinção torna-se ainda mais difícil para a população: “A propagação de hábitos alimentares em novelas é uma grande influência social, porque quando o público vê uma celebridade consumindo, ele toma aquilo como uma atitude a se seguir”, compara.

Trata-se de um sistema: a novela levanta a bola e a publicidade corta. O telejornalismo faz a mesma coisa: as notícias angustiantes cumprem certo papel, porque depois vêm os comerciais que vão amenizar o que passou no jornal”, critica.

E quando a “audiência” são crianças? A responsabilidade da mídia aumenta? Para João Brito, sim. “Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, ele vai ser influenciado. Por isso, o mais importante é uma educação crítica sobre o papel da mídia desde cedo”, defende.

Em 2014, foi aprovada resolução que classifica como abusiva todas as formas de “publicidade e comunicação mercadológica destinadas à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço”, diz o texto.

Quando o assunto é hábitos alimentares e crianças a publicidade tem ainda mais influência, mesmo que a peça publicitária não seja direcionada exclusivamente para uma criança. “Ela pode assimilar a propaganda mesmo não sendo para ela. No entanto, é preciso dizer que isso não aconteceria se houvesse uma regulação ética e legal da mídia, e que não fosse vista como censura, para que as pessoas tenham discernimento sobre o que elas devem consumir desde cedo”.

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A regulamentação, segundo o professor de Publicidade e Propaganda, resolve uma parte, mas não tudo. Para ele, é preciso que a família se coloque como responsável e que ela saiba que a mídia influencia a sociedade e quando ela está fora das normas da Constituição Federal. “As pessoas não costumam gostar muito de falar sobre Constituição, Direitos, Educação. Só uma consciência crítica vai diminuir a influência da mídia sobre a população”, aposta. “A questão é: existe interesse para que o consumidor seja instruído?” questiona o docente.

Responsabilidade das indústrias de alimentos

Apesar de segmentada, vem despontando um nicho de pessoas que valoriza a boa alimentação e a mudança nos hábitos alimentares. “As empresas alimentícias têm tido mais consciência para amenizar os problemas de alimentos de má qualidade. Temos produtos um pouco melhores e uma possibilidade de consumo mais saudável. Mas, qual é o alcance disso?” interroga o docente, fazendo referências às classes sociais que não podem comprar produtos saudáveis, porque são mais caros.

“Um exemplo de que as empresas estão percebendo que precisam ter uma responsabilidade social, foi uma propaganda de uma marca de refrigerante em uma revista. Nela, o pai mostrava para o filho beber menos refringentes e ter um consumo consciente. Foi uma mensagem sutil, mas quando a empresa reconhece a sua responsabilidade, é um avanço”.

Para o docente, a mídia não deveria educar tanto a sociedade. “Hoje, a TV educa mais que um professor em sala de aula. Na aula, por mais que o professor se esforce a TV é como se fosse uma verdade. Quem está na TV é porque chegou lá e aquilo forma a nossa opinião”, constata.

“O caminho para mudar esse cenário é a educação crítica sobre a mídia e uma regulamentação. As empresas não podem fazer o que querem na TV e na Rádio, que são concessões públicas. Eu defendo um equilíbrio. Temos de estar vigilantes para não nos deixarmos influenciar tanto pela publicidade”.

 

 

 

Cinema à mesa

Por Wagner Geribello

Nascida, provavelmente, nos Estados Unidos, ganhou o mundo e a História a associação entre cinema e pipoca como elementos complementares, algo assim como peixe e vinho branco, mantendo o texto no plano da gastronomia.

Todavia, pipoca não é o único e talvez nem o mais importante alimento relacionado ao cinema. Quem já passou dos 60 anos certamente se lembra dos “baleiros” que circulavam nas salas de exibição com uma bandeja de madeira, nivelada à altura da barriga e pendente do pescoço por uma tira de tecido, contendo barras de chocolate, balas diversas e produtos da época como as caixinhas de “Mentex”. Normalmente, eram garotos de baixo ingresso econômico que trocavam trabalho pela possibilidade de ver cinema (o principal divertimento popular da época) sem pagar ingresso.

Aqui no Brasil, nos anos 1970, e um pouco antes que isso, nos Estados Unidos, apareceu o “drive-in”, um pátio de estacionamento de veículos, uma grande tela à frente e serviço de lanchonete, servido em bandejas que ficavam penduradas na janela lateral do veículo, temperando com “hot dog” e “milk-shake” as cenas projetadas na tela.

Hoje, a comilança cinematográfica, renascida no “shopping center”, continua apostando na pipoca, mas inclui refrigerante e guloseimas outras, com direito a console no braço da poltrona para facilitar o “picnic”.

Todavia, quando se trata de cinema, comida não é só acompanhamento, mas embute, também, na história da sétima arte, uma significativa quantidade de filmes tematizados em comida, ou na falta dela.

Os documentários ganham de longe no tratamento do tema, quantitativamente considerado, indo desde o questionamento da fome como fez, por exemplo, José Padilha, em Garapa, ou Jorge Furtado no curta Ilha das Flores, até produções que tratam do inverso, ou seja, do excesso alimentar, como o filme de Estela Renner, Muito Além do Peso, sobre obesidade infantil.

O cinema de ficção também registra muitas (e eventualmente boas) incursões pela gastronomia, com ampla variedade de abordagens.

Em 1973, Marco Ferrer dirigiu A Comilança, uma estranha e muito crítica história sobre um grupo de amigos que se internam em uma casa de campo decididos a morrer de tanto comer… e conseguem!

Pouco mais de uma década depois, em 1987, Gabriel Axel dirigiu a Festa de Babette, ambientado no interior da Dinamarca do século XIX, que termina com um lauto banquete de iguarias sofisticadas da culinária francesa, preparadas pela jovem Babette, emigrada daquele país.

Em 1998, Ettore Scola reuniu Vittorio Gassman, Fanny Ardant, Marie Gillain e Giancarlo Giannini em um restaurante, em que ocorre todo o enredo de O Jantar, incluindo as ponderações da personagem interpretada por Giannini sobre as características de um verdadeiro “bife à milanesa”.

Em tempos mais recentes, o argelino radicado na França, Abdellatif Kechiche, fez o Segredo do Grão, cujo principal protagonista, por assim dizer, é o cuscuz marroquino.

O diretor turco, Tassos Boulmetis, também resgata pitadas da gastronomia mediterrânea no excelente O Tempero da Vida, enquanto Juliet Binoche e Johnny Depp estão em Chocolate, produção americana dirigida por Lasse Hallström, ambientada na França.

Entretanto, quando se trata de comida, ou da falta dela, como mencionado no início deste comentário, talvez a incursão ficcional mais ousada do cinema tenha acontecido em 1973, quando o diretor Richard Fleisher colocou nas telas Soylent Green (exibido no Brasil como No Mundo de 2020, à Beira do Fim), com Charlton Heston e Edward G. Robinson, prevendo um (à época) distante futuro no qual a alimentação dos seres humanos (?) é suprida por biscoitos feitos de… seres humanos (??).

Enfim, o cardápio que mistura cinema e comida é grande, basta escolher e assistir.

Bom apetite!

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor Editorial do Jornal da PUC-Campinas