Arquivo da tag: alimento

Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola

Por Amanda Cotrim

O brasileiro já vivenciou uma época em que a fome era um dos grandes problemas sociais. Não que ela tenha deixado de ser, mas esse problema diminuiu nos últimos anos. Não por acaso, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição, o que lhe rendeu reconhecimento internacional. Nesse aspecto, é possível afirmar que o Brasil é um dos poucos países que conquistou sua soberania alimentar e isso se deve a algumas razões, como: investimento em tecnologia e políticas públicas. Essa é a avaliação do diretor do curso de Ciências Econômicas da PUC-Campinas, Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania alimentar. Quando uma população supera o desafio na produção de alimentos, ela passa a se preocupar com a qualidade desse alimento”. Mas ele ressalta que o alimento no Brasil poderia ser mais barato e de melhor qualidade se houvesse mais políticas públicas e, principalmente, pressão popular para a diminuição de agrotóxicos na plantação, à exemplo da Europa. O docente também destaca que a diminuição nos preços dos alimentos está relacionada ao transporte.  “O Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. O valor da logística é que encarece o alimento”.

agricultura_20160511_Álvaro Jr - DCOM - PUC-Campinas_0046

Confira a entrevista na íntegra:

Defina, conceitualmente, o que é soberania alimentar e segurança alimentar?

Soberania alimentar é a capacidade que um país tem de alimentar sua população, em um período de tempo, sem precisar de outros países para isso; é ter uma oferta capaz de atender às necessidades básicas da população. Já a segurança alimentar, é garantir uma quantidade básica de calorias por pessoa. De forma geral, o Brasil é um dos poucos países do mundo que conquistou tanto a segurança quanto a soberania.

 Qual é a sua avaliação sobre o Brasil no cenário mundial?

 A nossa produção per capta de alimento é suficiente para atender toda a população; produzimos além do que consumimos. Eu digo, sem sombra de dúvidas, que, em produção de alimentos, o Brasil é destaque. É um dos maiores exportadores de alimentos. Se pensarmos nos próximos 50 anos e levarmos em conta o crescimento populacional, o meio ambiente e a restrição de recursos naturais no mundo, como a água e a terra, o Brasil é o país que aparece com mais potencial. Temos áreas agrícolas que não estão sendo utilizadas, ou seja, não há necessidade de desmatar a Amazônia e o Pantanal. Também temos bastante disponibilidade de água doce- apesar da crise hídrica no Estado de São Paulo-. E, por fim, temos a nossa vocação para a agricultura e avançamos em termos tecnológicos. O Brasil é primeiro mundo em tecnologia agrícola.

A soberania alimentar passa pela saúde alimentar. Como avalia o uso de agrotóxicos na produção de alimentos, considerando que o Brasil é um dos campeões no uso do veneno?

 Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, o grande desafio era aumentar a produção de alimentos e alimentar a população. Nesse sentido, pensando em Brasil, esse modelo foi muito bem-sucedido: o crescimento da produção de alimentos foi maior que o crescimento populacional. A quantidade de terra para a produção cresceu pouco se compararmos a década de 1960 e a década de 2000, no entanto, a produtividade cresceu muito. O que está por trás disso? A tecnologia (mecanização), agrotóxicos e o melhoramento genético de plantas. Eles são os responsáveis pelo aumento de produção de alimentos no Brasil. Mas, se por um lado, alcançamos isso, por outro, tivemos um problema sobre a qualidade dos alimentos e sobre o meio ambiente; a nossa agricultura é totalmente dependente da irrigação, gastando 40% da água que é consumida em todo o território nacional. A preocupação sobre o uso excessivo de agrotóxicos começou nos anos 1990 nos países ricos, porque a questão da produção de alimentos já tinha deixado de ser um problema. Quando a fome deixa de ser o problema, as pessoas começam a se preocupar com qualidade. Mas por que alguns agrotóxicos são proibidos na Europa e no Brasil não? Por pressão popular. O nosso desafio, hoje, é tornar a agricultura mais sustentável, almejando não só a quantidade, mas a qualidade. Eu não vejo alternativa que não seja a tecnologia. O país está investindo nisso, mas não na velocidade necessária. À medida que a agricultura se torna mais sustentável, a saúde alimentar é maior.

prof Izaias_20160428_Álvaro Jr - DCOM - PUC-Campinas_0011

As empresas têm interesse em investir nas pesquisas de inovação e tecnologia para que o dano ao meio ambiente seja o menor possível, e para que os agrotóxicos sejam extintos?

 No Brasil, o investimento em pesquisas vem do setor público, por meio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e de universidades. As grandes multinacionais estão preocupadas com os produtos de alcance mundial, como a soja, o milho e a cana de açúcar. Do ponto de vista econômico, elas não estão interessadas em pesquisa. Nesses casos, é preciso políticas ambientais. No Estado de São Paulo, por exemplo, há uma lei que proíbe as empresas de fazerem a queima na plantação de cana de açúcar. Temos muitas leis ambientais no Brasil, mas falta fiscalização. Por outro lado, a população vem mudando sua relação com a alimentação. As pessoas estão mais exigentes. E o desrespeito ao meio ambiente, com desmatamento e o uso abusivo de agrotóxico tem uma resposta rápida. Se o produtor quiser continuar no mercado, terá de se adaptar à nova realidade.

Pensando nessa gama de atores, com diferentes interesses sobre o meio ambiente, o Brasil está conseguindo respeitar as múltiplas características culturais dos povos?

Temos problemas sérios que precisam ser resolvidos e nós temos condições de resolver. Se olharmos só a produção, o Brasil é um sucesso. Mas quando você se volta para outras realidades, percebemos que temos problemas históricos que não foram resolvidos, como os conflitos agrários: camponeses, terra indígena. A questão fundiária no Brasil é distinta da questão agrícola. A questão agrária não foi resolvida: a terra, as relações de trabalho, grilagem, conflito com quilombolas e tribos indígenas. Em algumas regiões, esses conflitos são muito mais complicados, porque o Brasil tem áreas que pertencem à União, mas não consegue fiscalizar, o que facilita a grilagem; regiões em que o modelo de agricultura é atrasado.

Em minha opinião, rever demarcação de terras indígenas é o caminho mais curto para a destruição ambiental. O Brasil não precisa de mais terra para expandir a agricultura, basta investir em tecnologia. Podemos nos desenvolver sem desmatar uma única árvore. Mas as questões políticas e históricas são o nosso grande problema: muitas vezes, os políticos são os grandes proprietários de terra, o que produz um conflito de interesse e um retrocesso. Temos leis, mas precisamos de fiscalização.

prof Izaias_20160428_Álvaro Jr - DCOM - PUC-Campinas_0064

Qual é a sua avaliação sobre o modelo de agronegócio que existe no Brasil?

O agronegócio inclui a agricultura, empresas que fornecem insumos, que compram da agricultura, enfim. Agricultura é apenas a atividade dentro da fazenda. O agronegócio é o sistema, que participa de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. No entanto, nós temos alguns problemas. Grande parte das produtoras de insumos (tecnologia como maquinários e agrotóxicos) não é brasileira. Quando você tem um agronegócio que exporta majoritariamente grãos, isso é uma deficiência, porque o país só ganha o preço do saco da soja. Mas se ele exportasse o óleo, ganharia o valor agregado e geraria trabalho e renda. O Brasil continua sendo o maior exportador de café do mundo; exporta para Alemanha por 400 dólares, que refina o café e vende por 700. E, muitas vezes, o Brasil compra esse café.

O Brasil, segundo dados da Embrapa, de 2014, desperdiça 40 mil toneladas de alimentos todos os dias. Com esse número, a própria Embrapa estima que 19 milhões de pessoas poderiam ser alimentadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) diz que o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam. Qual é o motivo desse desperdício?

 A logística não é a única, mas é a principal razão. Nossa produção se dá em grande medida na Região Centro-Oeste, que está distante dos portos; e o transporte que predomina no Brasil é o rodoviário. Precisaríamos de trem. Só com o transporte por caminhões, o Brasil perde nas estradas 20% da produção de grãos. Além disso, o transporte por caminhão é mais caro e transporta menos, sem contar as rodovias que são sem asfalto. Os grandes países não entendem o motivo pelo qual o Brasil transporta grãos em caminhões. O valor da logística é que encarece o alimento. Por exemplo: a distância média, hoje, dos produtos que chegam às Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa), é de 400 km.

Por que o Brasil ainda importa alguns alimentos como o trigo, que vem da Argentina. O país não teria condições de produzir trigo?

 O Brasil é um grande importador de trigo. Isso se deve a questões climáticas. O país produz trigo, mas não conseguimos produzir o suficiente para atender à demanda. Daria para produzir, mas a um custo muito elevado. E temos um acordo de comércio comum. Não vejo problemas em importar da Argentina.

 Não é contraditório que mesmo o Brasil sendo o quinto maior território do mundo, com dimensões territoriais e situado em latitudes favoráveis, não tenha conseguido acabar com a fome?

 A fome era um tema recorrente no discurso dos candidatos à presidência da República no final dos anos 1980 e durante a década de 1990. Mas, nas ultimas três eleições (2006- 2010-2014), esse tema desapareceu do debate porque, nos últimos 15 anos, o Brasil foi o país que mais reduziu a fome e a desnutrição. Isso se deu, primeiro por causa do fim da inflação, que ocorreu com o Plano Real, em 1994; também tivemos o aumento da produtividade agrícola, fazendo com que o preço dos alimentos caísse no país, a despeito do aumento nos últimos três anos. Além disso, nós temos programas de transferência de renda e políticas específicas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) que subsidia crédito para a agricultura familiar, a responsável pelo alimento que vai para a mesa dos brasileiros. Tanto que hoje o nosso maior problema é o sobrepeso.

O Brasil conseguiu chegar mais próximo da erradicação da fome, tanto que nosso exemplo é exportado como modelo para outros países. Para que não haja retrocesso, é fundamental que o Estado continue investindo em políticas sociais. No mundo inteiro, a agricultura depende do Estado; em alguns países, depende mais, em outros, menos. Agora, precisamos zerar a fome e trabalhar a qualidade da alimentação.

prof Izaias_20160428_Álvaro Jr - DCOM - PUC-Campinas_0039

Em que medida é possível investir e ter um modelo de agricultura familiar capaz de atender ao mercado interno? Seria possível pensar em abastecimento por cidades?

 Essa ideia de que a agricultura familiar como subsistência ainda existe não é sustentável. Antes do êxodo rural, tudo era produzido no campo e consumido pelas famílias. No mundo moderno, nem o agricultor familiar vive sem celular. Ou seja, ele precisa pensar numa produção que tenha um excedente para poder sobreviver para além do que ele produz para se alimentar. Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) não quer esse modelo de subsistência.

Nos Estados Unidos há muitas experiências sobre uma agricultura mais perto da cidade, valorizando a produção local. A agricultura familiar perto da cidade diminui o custo de transporte e possibilita o controle e a fiscalização do estado sobre o que está sendo produzido. Em muitos países, a agricultura familiar foi adotada como prática. Em relação ao Brasil, avalio que ela nunca foi tão valorizada e nunca tivemos tantos estudos sobre a sua importância. Porém, na Região Metropolitana de Campinas estamos na contramão disso. Diminuímos nossa produção e isso se deve ao fato de empresas terem vindo para cá, as construções de condomínios. Houve uma expansão que produziu um impacto nos preços dos terrenos; a terra ficou cara. A região está longe de uma produção local, infelizmente.

O Pronaf foi criado como uma política de crédito, para que o agricultor possa comprar insumo, semente melhorada, trator. Mas ele só tem acesso ao crédito se colocar o produto no mercado, e, atualmente, a agricultura familiar é voltada para a demanda interna. Agora, se ela é capaz de alimentar uma cidade, eu não tenho dúvidas de que a agricultura familiar seria capaz disso. Para termos uma ideia: de acordo com o último censo agropecuário (que já tem 10 anos) e de estudos em outros países, atualmente, 80% da produção de alimentos no mundo é realizada por pequeno e médio agricultor. Eu acredito que é possível termos agricultura familiar e agronegócio, porque precisamos produzir cana de açúcar e precisamos de arroz. A grande e a pequena agricultura são complementares. Agricultura familiar está acontecendo, mas de modo silencioso.

As pessoas que podem pagar têm recorrido aos produtos orgânicos. Por que eles são mais caros?

 O orgânico é um alimento que a população o entende como natural: sem veneno, sem fertilizante. As técnicas são “à moda antiga”, sem melhoramento genético. Alguns países incluem no conceito orgânico à sustentabilidade ambiental e social para comprar de algumas empresas, o que inclui as relações de trabalho nesse conceito. Ele é mais caro, porque ele  custa mais para produzir. Quando o produtor pulveriza o veneno na plantação, ele reduz a taxa de perda por pragas em 5%. A forma de combater a praga é mais custosa, se não for pulverizar o veneno, há de se tirar as pragas com a mão, o que significa contratar pessoas, o que deixaria o produto mais caro. O fato de produzir orgânico, a produção cai pela metade, pois o custo é maior e a produção é menor. Se não vender mais caro, fica inviável. Mas é importante dizer que o interesse do orgânico coincide com o interesse ambiental e de mercado.  Tem um público. No Brasil, no entanto, o orgânico ainda é mercado de nicho (classe), de certo nível de renda e de instrução. Já na Alemanha e na Inglaterra, mais de 50% da produção é orgânico.

 

As fotos dessa entrevista são de Álvaro Jr. 

Um olhar psicanalítico sobre o transtorno alimentar

Pesquisa aponta que os sofrimentos de pessoas com transtorno alimentar se refugiam nos corpos como expressão daquilo que não pode ser dito. Tese foi defendida na Pós-Graduação de Psicologia

 

Por Amanda Cotrim

Realizar uma pesquisa científica nunca é uma tarefa fácil. Há inúmeros “problemas de pesquisa” pelo caminho. No caso da doutora pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC-Campinas, Maria Salete Junqueira Lucas, o desafio se ancorava em estabelecer o grau de confiabilidade de uma pesquisa qualitativa que considerasse a subjetividade e um número menor de participantes, com o objetivo de pensar a clínica psicanalítica contemporânea.

“Ainda na área da saúde, existe um viés positivista com o clássico paradigma biomédico. Mas também existe o outro lado de uma medicina que não é apenas baseada em evidências e que admite a subjetividade, os aspectos psicossociais que sustentam a pessoa”, justifica a psicóloga, que teve orientação da Profa. Dra. Tânia Mara Marques Granato.

Logo no início da sua profissão, Maria Salete se deparou com uma paciente de 15 anos que se recusava a comer e que demonstrava um grande sofrimento diante das exigências de “ter que crescer”, além do seu confronto com sentimentos de amor, ódio, inveja e ciúmes de sua mãe. “Toda essa confusão de sentimentos fez com que ela escolhesse o corpo como defesa sobre o que poderia ser nomeado e elaborado. O corpo sofria pela alma”, relata.

A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução
A pesquisa considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar/ Reprodução

Sua pesquisa de doutorado considerou a figura paterna ligado a causa do transtorno alimentar, além do papel da família. Pesquisas sobre transtornos alimentares já haviam indicado a dificuldade da relação mãe e filha como aspecto originário dos transtornos alimentares. “Minha pesquisa coloca essa questão de mãe e filha, mas traz um questionamento de que a função paterna também precisa ser escutada e tratada. Há uma fome de pais e essa fome pode ter desencadeado o sintoma alimentar também”, relaciona.

Só o biológico, aponta Maria Salete, não consegue expressar a complexidade humana, por isso, a importância da psicanálise: olhar para o inconsciente, analisar as narrativas das pessoas e facilitar que pensamentos e sentimentos sejam externalizados, auxiliando na elaboração daquela dor que não havia sido falada. “O analista também vive essas narrativas. A minha pesquisa contribui para poder compreender o espaço intersubjetivo e intrasubjetivo na relação terapêutica”.

Como acessar esse sofrimento

 Para conseguir fazer o estudo, a pesquisadora se utilizou do encontro psicanalítico, um método que abarca um processo gradual e não um objetivo dado em princípio. A doutora em Psicologia explica que o “espaço psicanalítico pressupõe a participação do analista e do analisado na experiência emocional da dupla, de onde pode emergir um novo conhecimento”.

Maria Salete conta que o ambiente é fundamental para o amadurecimento do ser humano, por isso, quando nascemos, segundo ela, estamos desamparados, e, nesse aspecto, a mãe ou a pessoa que cuidará de nós, é quem nos ajudará a realizarmos diversas “tarefas psicossomáticas”. “A integração psicossomática é o objetivo final para o sentimento de existir, sendo que o transtorno alimentar representa a dificuldade para que a integração se realize, acusando que o alojamento da psique no corpo não se deu de maneira satisfatória, criando obstáculos para o processo de desenvolvimento”, contextualiza.

 Tratamento interdisciplinar

 Segundo ela, os transtornos alimentares são patologias com origem multifatorial e, por isso, é importante que a psicanálise estabeleça comunicações com diversas áreas do conhecimento para um atendimento interdisciplinar. “Há uma chance maior para que o paciente seja mais bem atendido quando trabalhamos em rede. Poder trabalhar juntamente com um psiquiatra, uma nutricionista, um clínico geral, um educador físico, coloca em evidência as limitações de cada área”, ressalta.

E acrescenta: “Eu preciso de um psiquiatra para medicar o impulso incontrolável de um paciente com bulimia, que come e vomita incessantemente; ou um paciente deprimido, que pensa em se matar por se sentir aprisionado com seu sintoma”, justifica.

Cultura da magreza

 De acordo com a psicóloga, o estudo possibilitará a instrumentalização de intervenções que possam auxiliar o paciente a lidar melhor com seu psiquismo e com o seu corpo para ter uma melhor qualidade de vida. “Para isso, é fundamental que desenvolvamos programas preventivos nas escolas com o objetivo de debater as evidências de crianças e adolescentes em relações aos seus corpos, principalmente diante de uma cultura da magreza”. A pesquisadora ressalta a importância de a sociedade debater a imposição de um padrão de beleza, para que isso não seja naturalizado. “Os pacientes não mostram críticas e nem consciência de que esse padrão perverso teria um papel na eclosão de transtornos alimentares”, constata.

Ela também lembra que o tratamento de um paciente que sofre de transtorno alimentar também precisa contar com o apoio da família: “A partir do momento que a família acolhe, ela passa a entender o sofrimento do transtorno alimentar e passa a se responsabilizar pelo tratamento do paciente. Por meio da psicoterapia psicanalítica, os analistas podem auxiliar os pacientes numa verdadeira transformação psíquica”, finaliza.

 

Comida perpetua a cultura

Por Amanda Cotrim

Diga-me o que tu comes que eu te direi quem és”. É dessa forma que a Diretora do Curso de Turismo da PUC-Campinas, Profa. Me. Francis Pedroso, aborda a importância da gastronomia como elemento constitutivo de identidade. A comida que consumimos tem relação íntima com as características geográficas, culturais e históricas da região em que ela é produzida. “Os alimentos mais quentes e gordurosos, por exemplo, são típicos de regiões mais frias; já os alimentos mais leves, são provenientes de regiões mais quentes”, explica.

Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução
Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução

O Brasil, segundo Francis, sempre foi o país do sabor, desde as frutas exóticas até a produção de café, o que justifica essa vocação do país para a gastronomia. “Na década de 2000, no entanto, com a criação do Ministério do Turismo, em 2003, a gastronomia passou a ser promovida como valor turístico, o que coincide com a profissionalização da gastronomia brasileira”, contextualiza.

A comida é a materialidade dos valores de determinados lugares, por isso, para a Professora Francis, uma comida bonita, bem-feita e tradicional sempre será procurada por turistas, o que é “excelente do ponto de vista econômico e fundamental para o turismo. A gastronomia perpetua a cultura”, afirma.

A Diretora do Curso de História da Universidade, Profa. Dra. Janaina Camilo, explica que as tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas manifestadas nas comidas, estão diretamente associadas às práticas religiosas e, portanto, às identidades culturais. “Exemplo disso é o ‘pato no tucupi’, comida paraense servida especialmente no almoço do domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Analisando antropologicamente, o pato é uma ave dos pratos típicos da nobreza europeia, que veio parar no Brasil durante o processo de colonização. Já o tucupi é um caldo extraído da mandioca, raiz cultivada pelos povos indígenas da Amazônia”, contextualiza a historiadora.

Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução
Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução

A Professora Janaina aponta que a preferência do brasileiro por doces não é à toa, uma vez que a doçaria é um hábito dos povos árabes, que, segundo ela, estavam miscigenados com os portugueses que colonizaram o Brasil. “No dia de São Cosme e São Damião distribuímos doces às crianças, uma tradição que nem todos sabem a origem”.

A importância de alguns pratos é tão grande que alguns se tornam patrimônios culturais, como foi caso do acarajé da Bahia, que se tornou patrimônio imaterial do Brasil, em 2015. O prato, explica a historiadora, conta com forte presença africana em seus ingredientes, como é o caso do dendê, e no próprio modo se preparar a comida. “Nesse sentido, portanto, o acarajé não é o resultado da mistura de temperos, mas o saber fazer o prato, com todo o ritual que o envolve, como a arrumação do tabuleiro, a preparação da mesa, o uso de trajes próprios, como as roupas brancas enfeitadas com colares de contas e panos coloridos”. O acarajé, antes de ter se tornado Patrimônio Cultural brasileiro, havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador, pela Câmara Municipal da cidade, em 2009.

Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.



 

Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.

A Diretora do Curso de Turismo elencou alguns pratos típicos de cada região, para que o leitor possa apreciar quando estiver nesses lugares. A Região Norte do Brasil tem como ‘cartão’ de visita os peixes de rio doce e o açaí. “Turistas de várias partes do mundo vêm para o Brasil atrás do açaí”, brinca Francis. Já a carne de sol, as moquecas e a tapioca são alimentos típicos da Região Nordeste, ainda que a região tenha uma gastronomia muito rica. A Região Sul, no entanto, conserva certo hábito pelo consumo de doces diversificados, como o café colonial, além, é claro, lembra a professora, do churrasco gaúcho e vinhos. “Também destacaria os frutos do mar do estado de Santa Catarina, que são excelentes”.

O Sudeste, por sua vez, explica Francis, tem forte influência africana, daí pratos como angu com quiabo e frango, típicos de Minas Gerais, o Virado à Paulista, a Moqueca Capixaba, a produção de salgadinhos típicos de camarão empanados do Rio de Janeiro, além da doçaria portuguesa, do arroz, feijão e da feijoada. “Na Região Centro-Oeste temos a riqueza do Cerrado. As frutas – como o pequi – e os doces provenientes dessas frutas são uma das marcas da região, além de peixes, feijão tropeiro e arroz carreteiro, que, segundo a docente, é conhecida como ‘a comida dos viajantes’”.

Comidas tradicionais x fast food

 Para a Diretora do Curso de Turismo, o fast food não conseguiu acabar com os pratos tradicionais, ao contrário. “Cresceu muito o slow food. E nós começamos a ter mais consciência sobre o alimento saudável, o que torna a gastronomia mais atrativa. Comer não é ‘fast’. Comer é um prazer. O ato de consumir comida requer tempo”, defende.

 

TOME CIÊNCIA: Obesidade e Sustentabilidade

IBGE aponta que 56,9% dos brasileiros têm excesso de peso

 No Brasil, 56,9% das pessoas com mais de 18 anos estão com excesso de peso, isto é, o índice de massa corporal (IMC) é igual ou maior que 25. Além disso, 20,8% das pessoas são classificadas como obesas por terem IMC igual ou maior que 30. O IBGE entrevistou 62.986 em todos os estados brasileiros.

Tal constatação não está distante dos dados do Ministério da Saúde de 2015, que apontaram que 33,5% das crianças entre 5 e 9 anos estão acima do peso.

Obesidade

 

 

 

 

 

 

 

 

Nova Unidade da Embrapa se volta à pesquisa de alimentos funcionais

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) anunciou a criação de uma nova unidade voltada à pesquisa de alimentos funcionais, aromas e sabores, com em Maceió. O objetivo é oferecer aos agricultores variedades de produtos com qualidades nutricionais reforçadas, capazes de atender a novas demandas do mercado. “A Embrapa já disponibiliza variedades biofortificadas, com vitaminas e minerais, de batata-doce, mandioca, feijão comum, milho e feijão-caupi, que beneficiam aproximadamente 2.500 famílias nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil.  Estão em processo de melhoramento variedades de trigo, abóbora e arroz”, disse o presidente da empresa, Maurício Lopes, que também destacou o sucesso de outras iniciativas da Embrapa, como a produção de alface com quantidades elevadas de vitamina B9, importante na nutrição de gestantes. “Nenhum país grande produtor e exportador de alimentos pode ignorar que há um movimento forte de integração do conceito de alimento, nutrição e saúde”, acrescentou. As pesquisas sobre alimentos funcionais são feitas atualmente em várias das 46 unidades da empresa espalhadas pelo país. A ideia é coordenar os projetos em andamento a partir de Maceió e propor novas iniciativas.

Com informações da FAPESP

 

Água e uma boa noite de sono são  a chave 

Beber água

Comer quando se está com muita fome, aumenta a chance de colocar comida em excesso no prato. Beber dois litros de água durante o dia e, principalmente, 400 ml antes das refeições é uma forma para você comer menos. Além disso, consumir água faz muito bem para a saúde.  Outra dica é dormir bem, pelo menos oito horas por dia, e não pular refeições. Dê atenção ao café da manhã. Pesquisas indicam que se alimentar pela manhã impulsionam seu metabolismo a funcionar muito melhor.

 

Embalagens verdes

Imaginar um futuro com embalagens plásticas comestíveis, que podem fazer parte de sopas e sucos sem causar mal à saúde, não é estar descolado da realidade. Novas possibilidades de armazenagem de alimentos que evitem o descarte pós-consumo das embalagens e ainda ajudam a nutrir os consumidores estão se concretizando de forma experimental em laboratórios de universidades e centros de pesquisa. No Brasil, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estuda novos materiais que poderão ser transformados em embalagens ou mesmo ingredientes alimentícios. São chamados pelos pesquisadores de bioplásticos ou biopolímeros e podem fazer parte também de embalagens biodegradáveis. “Esses materiais têm características nutricionais, sabor e cor dos vegetais, ou podem ser transparentes, finos e com a mesma aparência que os plásticos comuns”, explica Luiz Henrique Capparelli Mattoso, pesquisador da Embrapa Instrumentação Agropecuária, localizada em São Carlos (SP).

Sustentabilidade

 

 

 

 

Mais informações, clique aqui.

 

 

Cinema à mesa

Por Wagner Geribello

Nascida, provavelmente, nos Estados Unidos, ganhou o mundo e a História a associação entre cinema e pipoca como elementos complementares, algo assim como peixe e vinho branco, mantendo o texto no plano da gastronomia.

Todavia, pipoca não é o único e talvez nem o mais importante alimento relacionado ao cinema. Quem já passou dos 60 anos certamente se lembra dos “baleiros” que circulavam nas salas de exibição com uma bandeja de madeira, nivelada à altura da barriga e pendente do pescoço por uma tira de tecido, contendo barras de chocolate, balas diversas e produtos da época como as caixinhas de “Mentex”. Normalmente, eram garotos de baixo ingresso econômico que trocavam trabalho pela possibilidade de ver cinema (o principal divertimento popular da época) sem pagar ingresso.

Aqui no Brasil, nos anos 1970, e um pouco antes que isso, nos Estados Unidos, apareceu o “drive-in”, um pátio de estacionamento de veículos, uma grande tela à frente e serviço de lanchonete, servido em bandejas que ficavam penduradas na janela lateral do veículo, temperando com “hot dog” e “milk-shake” as cenas projetadas na tela.

Hoje, a comilança cinematográfica, renascida no “shopping center”, continua apostando na pipoca, mas inclui refrigerante e guloseimas outras, com direito a console no braço da poltrona para facilitar o “picnic”.

Todavia, quando se trata de cinema, comida não é só acompanhamento, mas embute, também, na história da sétima arte, uma significativa quantidade de filmes tematizados em comida, ou na falta dela.

Os documentários ganham de longe no tratamento do tema, quantitativamente considerado, indo desde o questionamento da fome como fez, por exemplo, José Padilha, em Garapa, ou Jorge Furtado no curta Ilha das Flores, até produções que tratam do inverso, ou seja, do excesso alimentar, como o filme de Estela Renner, Muito Além do Peso, sobre obesidade infantil.

O cinema de ficção também registra muitas (e eventualmente boas) incursões pela gastronomia, com ampla variedade de abordagens.

Em 1973, Marco Ferrer dirigiu A Comilança, uma estranha e muito crítica história sobre um grupo de amigos que se internam em uma casa de campo decididos a morrer de tanto comer… e conseguem!

Pouco mais de uma década depois, em 1987, Gabriel Axel dirigiu a Festa de Babette, ambientado no interior da Dinamarca do século XIX, que termina com um lauto banquete de iguarias sofisticadas da culinária francesa, preparadas pela jovem Babette, emigrada daquele país.

Em 1998, Ettore Scola reuniu Vittorio Gassman, Fanny Ardant, Marie Gillain e Giancarlo Giannini em um restaurante, em que ocorre todo o enredo de O Jantar, incluindo as ponderações da personagem interpretada por Giannini sobre as características de um verdadeiro “bife à milanesa”.

Em tempos mais recentes, o argelino radicado na França, Abdellatif Kechiche, fez o Segredo do Grão, cujo principal protagonista, por assim dizer, é o cuscuz marroquino.

O diretor turco, Tassos Boulmetis, também resgata pitadas da gastronomia mediterrânea no excelente O Tempero da Vida, enquanto Juliet Binoche e Johnny Depp estão em Chocolate, produção americana dirigida por Lasse Hallström, ambientada na França.

Entretanto, quando se trata de comida, ou da falta dela, como mencionado no início deste comentário, talvez a incursão ficcional mais ousada do cinema tenha acontecido em 1973, quando o diretor Richard Fleisher colocou nas telas Soylent Green (exibido no Brasil como No Mundo de 2020, à Beira do Fim), com Charlton Heston e Edward G. Robinson, prevendo um (à época) distante futuro no qual a alimentação dos seres humanos (?) é suprida por biscoitos feitos de… seres humanos (??).

Enfim, o cardápio que mistura cinema e comida é grande, basta escolher e assistir.

Bom apetite!

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor Editorial do Jornal da PUC-Campinas