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Pedra De Paciência: Mergulho Na Alma Feminina

Por Prof. Dr. José Estevão Picarelli – Diretor-Adjunto CEATEC da PUC-Campinas

Quem já experimentou sabe que o aparentemente simples ato de desabafar ajuda a aliviar ou a aceitar melhor o sofrimento ou as angústias. Faz alguma diferença, mas não importa fundamentalmente, se o desabafo acontece no confessionário da igreja, na sessão de terapia, na mesa do bar ou em um ombro amigo. Desabafar é socializar sentimentos, publicar sofrimentos, desnudar segredos íntimos, lavar a alma, por para fora o que dentro incomoda.

Em algumas regiões do planeta, onde a humilhação e a opressão à mulher são práticas comuns e, pasmem, às vezes até legais, a sabedoria feminina se faz necessária e presente. De mãe para filha, as mulheres ensinam umas às outras a escolher uma pedra para fazer o papel de ouvido amigo. Isso mesmo, um pedaço de rocha, chamada pedra de paciência. Assim, a mulher, quando angustiada, conversa reservadamente com a pedra que atravessou seu caminho. Neste mineral companheiro são descarregadas frustrações e injustiças. Quando essa pedra é quebrada, a mulher acredita que também suas angustias viraram pó.

 Indicado como melhor filme estrangeiro para o Oscar de 2014, Pedra de Paciência é o título do belíssimo filme do diretor Atiq Rahini, produção cooperada de França, Alemanha e Afeganistão. A película é ambientada em uma região deste último país, destruída pela guerra santa islâmica. Em uma paisagem de ruínas, uma mulher vive o desespero de cuidar de seu marido, jihadista ferido e em coma. Na sua imensa solidão, moldada pela cultura fundamentalista, por costumes e hábitos machistas e desfavoráveis, ela busca, no desabafo, uma saída para a vida. Julgando que os ouvidos do marido estão surdos pelo coma, ela abre, numa sincera confissão, a sua mais profunda intimidade Em um monólogo, a atriz iraniana Golshifeh Farahani, dá uma interpretação maravilhosa dessa personagem cujo nome, nem mesmo o filme, deixa conhecer.

Em pouco mais que uma hora e trinta minutos ficamos surpresos em saber que, em que pese a falta de água, a fome e as bombas, existem coisas que podem machucar mais e que podemos encontrar do nosso lado, uma mulher vivendo a mesma condição feminina.

A arte do presépio no mundo atual

Por Paula Elizabeth de Maria Barrantes

A primeira representação conhecida da natividade aconteceu nas Catacumbas de Priscila, em Roma, entre os séc. III e IV d.C. Do séc. IV em diante ganham força os sarcófagos, período paleocristão, momento em que o cristianismo foi autorizado por Constantino. As representações seguem na forma de trípticos, pinturas e iluminuras durante a idade média.

Em 1223, inovadoramente, São Francisco de Assis encena numa gruta de Greccio e à noite, o nascimento de Jesus, a encenação retirava os ouvintes da reflexão passiva e os colocava dentro do cenário, numa natividade dramática e tridimensional. A experiência prosperou e nos séc. XVIII e XIX os presépios pequenos começam a se espalhar pelo mundo em virtude da abertura dos canais comerciais e da imigração dos artistas.

Hoje, os lares católicos habituaram-se à montagem do presépio no Natal, todavia, sabem os católicos o significado de cada elemento que compõe o presépio? Sendo Jesus o símbolo unificador de todos os povos teria ele apenas uma etnia? Dentro da iconografia, os presépios podem ter apenas a Sagrada Família e os Magos conforme o Evangelho de Mateus (Mt. 2,2), relato dos reis e das nações, a estrela torna-se o símbolo de Deus que guia e ilumina.

Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes
Aristides. Presépio de palha de milho na cabaça, ano 2000, Minas Gerais. Coleção Valter Polettini. Foto: Paula Barrantes

Alguns podem conter apenas a Sagrada Família, ou seja, o momento do nascimento do unificador. Mas, quando a Sagrada Família e os pastores completam o presépio, incluindo aí a singular figura do Bom Pastor, estamos no Evangelho de Lucas onde anjos anunciam a chegada de Jesus aos pastores (Lc 2,15). Por fim, existem presépios que, não raro, trazem a Sagrada Família, a estrela, o anjo, os pastores e os Magos. No momento em que nos deparamos com estas interessantes obras estamos diante da união de Mateus, Lucas e do livro dos Salmos (Sl 72, 1-20). Caberá ao filho de Deus a justiça no tratar os pobres e oprimidos; aos povos do deserto e, igualmente, aos reis de Társia, da Arábia e de Sabá. Todas raças da Terra e todas as nações o proclamariam feliz.

A arte do séc. XX e XXI traduz nos materiais e nas concepções uma aproximação com a mensagem original, demonstrando que a arte e o artesanato não se afastaram da natividade. Ao elaborar os presépios de papel, cerâmica, plásticos e recicláveis, vidro, tecidos, fibras naturais, biscuit, pedra, ouro ou prata, ou seja, ao apropriar-se de materiais pertencentes ao seu universo individual o artista recria a natividade conferindo-lhe um novo aspecto social e cultural. As diversas etnias encontradas nos presépios demonstram um avanço no sentido da tolerância e do entendimento, na medida em que podem conter todos os tipos de cabelos, cor de pele e vestes. Atualmente, estas obras de arte contém uma carga considerável de crítica e reflexão, sempre respeitando a iconografia dos evangelhos.

A exposição “Presépios artesanais: a natividade no mundo” do Museu Arquidiocesano de Campinas oferece a possibilidade de uma viagem pela produção da Ásia, Oriente, Europa e Américas, pertencente ao colecionador Valter Polettini.

Paula Elizabeth de Maria Barrantes é Doutoranda em História da Arte e Curadora do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

 

 

EDITORIAL: 2016- um ano de conquistas

A edição 170 do Jornal da PUC-Campinas que fecha o ano de 2016 abre oportunidade para retomar e relembrar a quantidade, variedade e importância dos eventos que marcaram este ano, comemorando o Jubileu de Diamante. Trata-se, portanto, de um convite para rever as edições precedentes, que relatam em detalhes os colóquios, palestras, conferências e eventos comemorativos, trazendo para os auditórios da Universidade figuras de destaque do meio acadêmico nacional e internacional, assim como importantes representantes da Igreja, e da sociedade, todos responsáveis por momentos memoráveis de reflexão e troca de conhecimento como cabe ao ambiente universitário.

Dezembro também é tempo de Natal e a qualificação confessional da PUC-Campinas sugere o destaque do tema, que polariza esta edição.

Data maior da cristandade, o Natal marca-se pela celebração de caráter religioso e pela comemoração de perfil social, sobretudo no ambiente familiar, configurando, também, um período de reflexão espiritual.

Focada nesses aspectos, a última edição do ano colocou o Natal em pauta, trazendo artigos que refletem sobre a data, a exemplo do processo de mercantilização que descaracteriza e mesmo confronta a identidade religiosa do 25 de dezembro.

Os modos como a arte e a literatura se envolvem com o Natal também estão presente nas pautas preparadas pela editora Amanda Cotrim, incluindo considerações muito oportunas e apropriadas sobre o cinema inspirado em livros tematizados no Natal.

O espírito de Natal que se expressa em solidariedade é um outro tema com vez e voz  nesta edição, que mostra o envolvimento da comunidade acadêmica em campanhas em favor de parcelas mais fragilizadas da sociedade.

Além do Natal, também a política internacional integra a edição, nas considerações e análises da eleição de Donald Trump, que agradou alguns, desagradou muitos e surpreendeu quase todos, ecoando nas instâncias econômicas, diplomáticas, políticas e até culturais de todo o planeta.

Isso tudo e muito mais estimulam e legitimam a leitura atenta da última edição de 2016 do Jornal da PUC-Campinas, que é, também, portadora dos desejos da equipe editorial e dos colaboradores para que todos os leitores tenham um período feliz e repousante de férias, um ano novo de muita paz e um Natal comungado com amigos, familiares e entes queridos, acrescentando o compromisso de retomar nosso contato em 2017…

Até lá.

“Música é Deus na Terra”, diz Maestro que fundou Orquestra e Coral Universitário

Oswaldo Antônio Urban graduou-se em Filosofia, Direito e Orientação Educacional pela PUC-Campinas. Lecionou por 18 anos na Universidade e ajudou a fundar, nas décadas de 60 de 70, a Orquestra e o Coral Universitário. O Maestro regeu o Coral por 68 anos.

Por Eduardo Vella

“Só mesmo uma coisa tão maravilhosa como a música, que faz chegar até o homem a bondade e a divindade de Deus. Música é Deus na Terra”. É desse modo que o Maestro Oswaldo Antônio Urban define os seus 83 anos de vida dedicados às partituras e composições.

Aos 97 anos de idade, 68 deles devotados à regência do Coral PIO XI, o que lhe dá o título de “regente há mais tempo à frente de um mesmo coral”, outorgado pelo Ranking Brasil, Urban teve importante passagem pela academia, estudando e lecionando na PUC-Campinas. “Entrei na Instituição em 1949, no curso de Filosofia. Vim estudar na Universidade, pois tinha boa fama. Fiz também os cursos de Pedagogia e Orientação Educacional. Começou aí a minha vida de aluno dentro da PUC-Campinas”.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

O Maestro exerceu o Magistério na Universidade de 1965 a 1983, quando se aposentou. À época, era Assessor da Reitoria e Diretor do Instituto de Arte e Comunicação, atual Centro de Linguagem e Comunicação (CLC).

Convidado pelo Arcebispo de Campinas e Reitor da Universidade Monsenhor Salim, Urban passou a dirigir a Faculdade de Música, que tempos depois integrou o Instituto de Arte e Comunicação, também coordenado pelo Maestro.

Urban nasceu em 1919 na cidade de Leme, cerca de 90 km de Campinas. Seus pais eram músicos e passaram para toda família essa paixão. Ele estudou também no Conservatório Musical Maestro Julião, em São Paulo e fez curso de música em Nápoles, na Itália. “Quando tinha 14 anos, o Maestro Salvador Bove, me colocou a batuta na mão e me fez dirigir o Coral que existia no Seminário. São 83 anos em que a música é a minha vida”, emociona-se.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

Orquestra Sinfônica Universitária

Em 1960, associou-se ao Professor Luiz di Tullio, também convidado pelo Reitor, para formar uma Orquestra Sinfônica na Universidade. Seus alunos, que cultivavam a música clássica, constituíram grande parte dos primeiros e segundos violinos da orquestra. Eram chamados de “Os violinistas do Luizinho”.

Com a chegada do Maestro Benito Juarez à Orquestra Sinfônica de Campinas, que em 1974 passou às mãos da Prefeitura de Campinas, ocorreu uma dissidência de alguns músicos de grande projeção da Sinfônica e esses elementos foram integrar a Orquestra Universitária. “Um grupo ficou com o Juarez formando a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e outro veio para a PUC-Campinas a meu convite para “engrossar” a Orquestra Universitária. Ela cresceu muito com isso”, orgulha-se.

“Fizemos em diversas oportunidades a PUC-Campinas brilhar com a Orquestra e o Coral Universitário, que eu fundei em 1965. Eles participavam das formaturas, da Aula Magna de início do ano letivo, do encerramento do ano letivo, no Teatro Central, na Rua Marechal Deodoro, e no Campus I”, ressalta o Maestro Oswaldo Antônio Urban.

A Orquestra Universitária teve fim com o falecimento do Maestro Luiz di Tullio durante um ensaio da Orquestra e do Coral para a formatura da turma de Engenharia, em 1977.

A fundação do Coral Universitário

O Coral era composto de alunos voluntários das várias Faculdades que compunham a PUC-Campinas. Ele foi fundado pela natureza da Faculdade de Música, com os alunos que estavam estudando. Mas isso se estendeu para os outros os cursos. “Assim se formou um Coral com mais de 50 elementos”, relembra.

 O Maestro busca no coração o dia da solenidade de inauguração do Campus I, em 1973. “Nessa data estavam vários Bispos, representando as autoridades eclesiásticas, principalmente Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, o Bispo da época, o Reitor Prof. Dr. Benedito José Barreto Fonseca, que levou avante a construção do Campus”, salienta.

 Urban orgulha-se de ter composto para a ocasião o hino para da inauguração do Campus I – Música e Letra – executados pelo Coral e pela Orquestra Universitária.

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 O Maestro, personagem importante na história da Universidade deseja “que a PUC-Campinas continue resplandecendo pela Fé e pela Ciência, segundo os dizeres de seu brasão: Fide Splendet et Scientia.

Atualmente, a PUC-Campinas possui o Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) que realiza significativo trabalho de formação e divulgação cultural dentro e fora na Universidade. Esse importante canal de expressão artística, de busca do aperfeiçoamento musical e do desenvolvimento cultural de seus membros é um dos grandes legados do Maestro Oswaldo Antônio Urban, que plantou essa semente nos anos 1960.

Reportagem da TV PUC-Campinas

 

Aulas de Filosofia foram embrião para primeiro Cineclube universitário

Exibições de filmes acompanhados de debate aconteciam no Prédio Central da PUC-Campinas e no Centro de Ciências, Letras e Artes

Por Amanda Cotrim

As aulas de Estética do Professor Padre Lúcio de Almeida, docente da Faculdade de Filosofia, da antiga Universidade Católica – atual PUC-Campinas – são exemplos daquelas aulas que mais do que ensinar, inspiram e fazem os alunos caminharem adiante.

Em 1964, a Faculdade de Filosofia promoveu uma semana de estudos filosóficos – algo recorrente no curso -, e o tema daquele ano foi cinema. Na ocasião, vários filmes foram exibidos, incluindo películas de Humberto Mauro e Alain Resnais, hoje, clássicos do cinema mundial.

“A partir dessa semana de estudos, pensamos: Por que não criar um lugar permanente de discussão de cinema, em Campinas”? Lembra um dos fundadores do primeiro cineclube universitário da cidade, Luiz Borges, que, à época, era estudante de Direito da PUC-Campinas, e garante que o interesse pelo cinema sempre foi cultural e não um simples entretenimento.

Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.
Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.

“O contexto histórico no Brasil e no mundo era especialmente propício para cinema. Havia uma ebulição de criatividade na Europa, Leste Europeu, Ásia, o cinema independente dos EUA e o Cinema Novo, no Brasil.  Para a nossa geração, o Cinema Novo foi um acontecimento. A primeira vez que assistimos ao filme ‘Deus e o diabo na terra do sol’, de 1964, do Glauber Rocha, foi um choque”, recorda Borges, que ainda cita os clássicos filmes de Ingmar Bergman e Federico Fellini.

Em março de 1965, Luiz Borges, Dayz Peixoto e outros estudantes formaram, oficialmente, o Cineclube Universitário de Campinas. “Todas as exibições eram acompanhadas de debates. Entregávamos, em todas as sessões, um folheto com uma crítica sobre o filme que seria exibido. A crítica cinematográfica sempre fez parte do Cineclube”, conta Dayz, que foi estudante de Filosofia da então Universidade Católica.

Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.
Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.

Cineclube e a Universidade

“O Cineclube tinha total relação com a Universidade; uma das normas era que a Diretoria só fosse composta por alunos da Universidade Católica – o que depois se abriu para estudantes de outras universidades” -, afirma Dayz. “Cada classe de cada curso havia um representante do Cineclube. Chegamos a ter 300 associados, que contribuíam financeiramente. O projeto só funcionou porque havia um objetivo em comum”, destaca Borges.

As exibições e os debates aconteciam nas dependências do antigo Campus Central da PUC-Campinas, no auditório do Centro de Cultura Letras e Artes, entre outros espaços culturais. “Não havia um espaço físico próprio. Essa foi a nossa coragem”, ressalta Dayz.

O CCLA, que sempre apoiou entidades culturais e educativas da cidade, teve relevância histórica para a PUC-Campinas. Segundo Dayz, “os debates sobre a necessidade de uma faculdade para Campinas nasceram no auditório do Centro de Ciências, Letras e Artes. Podemos dizer, então, que o CCLA foi o marco zero tanto para a criação da PUC-Campinas quanto da Unicamp”, orgulha-se ela que chegou a ser a única presidente mulher do CCLA.

Cineclube cresce e aparece

Os fundadores do Cineclube Universitário de Campinas não imaginavam que uma vontade que começou nas aulas de Filosofia da PUC-Campinas poderia se transformar num mercado alternativo do cinema de arte. “Localizamos uma empresa que trabalhava com grandes distribuidores e passamos a negociar as exibições. Eu ia até São Paulo, na Rua do Triunfo, pegava o filme, voltava para Campinas e negociava o aluguel com os cinemas da época, como o Cine Brasília e o Cine Voga, entre outros”, contextualiza Borges. “Todos ganhavam: a distribuidora, o cinema e o Cineclube, que começou a arrecadar receita”.

O dinheiro possibilitou uma nova fase para o Cineclube Universitário: a publicação de um jornal – que teve cinco edições e durou de 1965 a 1966 – e a produção de curtas metragens, sendo os primeiros o filme Um Pedreiro, que teve roteiro de Borges e Direção de Dayz Peixoto, o curta O Artista, também de autoria de Borges e o filme Dez Gingles para Oswald de Andrade, dirigido por Rolf de Luna Fonseca, com roteiro de Décio Pignatari, tendo o Professor Francisco Ribeiro Sampaio no papel de Oswald.

 “Todas as produções contaram com o apoio imprescindível de Henrique de Oliveira Júnior – um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de Campinas -, que era nosso fotógrafo e técnico”, esclarece Borges.

O Cineclube Universitário manteve suas atividades até 1973, sendo a última ação o lançamento de um documentário de Rolf Fonseca.  Seu fim, segundo Dayz, se deve essencialmente ao fato de as pessoas que participaram terem seguido suas carreiras e adquiridos outros compromissos. Se ainda estivesse ativo, em 2015, o Cineclube teria completado 50 anos.

Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo
Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo

Cinema e o século XXI

Na opinião de Borges, a situação do cinema não mudou muito no que tange o acesso aos filmes de arte daquela época até hoje. “Estamos passando mais ou menos pela mesma situação. Mas antes, chegavam poucos filmes, mas chegavam; hoje não chega filme algum”. Além disso, para ele, “criar um Cineclube Universitário como foi antes, nos dias de hoje, torna-se um desafio muito maior, porque as pessoas antes estavam mais próximas, um contexto oposto aos dias atuais”,”, defende.

Apesar disso, o amor pelo cinema não diminuiu. “Nada se compara à experiência única do cinema, com o apagar das luzes e o filme projetado na tela”, finalizam Borges e Dayz.

 

Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.

Primeiro Museu de Arte Sacra do estado de S. Paulo

Museu Arquidiocesano de Campinas inaugura sua nova sede no bairro Nova Campinas. Espaço cultural terá minicursos, pesquisa e interatividade

 

Por Amanda Cotrim

A nova sede do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de São Paulo é fruto de muito trabalho. Mas também é conseqüência de um desejo de preservar a memória, tanto do ponto de vista artístico, quanto histórico. O Museu, que nasceu em 1964, já teve algumas moradas em Campinas, como um edifício na Avenida Aquidabã e o consistório superior da Catedral Metropolitana de Campinas. Apesar do esforço de muitas pessoas em preservar o acervo, era preciso mais. “A iniciativa de ter um espaço apropriado para o Museu surgiu do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos. Ele resgatou o sentimento de que era preciso preservar o patrimônio”, comenta a historiadora da Arte, que participa do projeto, Paula Elizabeth de Maria Barrantes. “Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas”, explica o Doutor em História e Bens Culturais da Igreja e Coordenador do projeto de reestruturação do Museu, Monsenhor Rafael Capelato.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
O Historiador Gabriel Amstalden e Paula Berrante, historiadora da arte- Crédito: Álvaro Jr

Esse importante passo para a cultura do estado e da cidade começou em 2014 e tem o apoio da Arquidiocese de Campinas, desde o projeto de reestruturação, a organização e a condução do mesmo. “A PUC-Campinas, por meio da Diretora da Faculdade de História, Profa. Dra Janaina Camilo e da Reitoria da Universidade, na pessoa do Vice-Reitor, Prof. Dr. Germano Rigazzi Junior, teve participação de grande importância”, destaca o Monsenhor. A equipe que colocou em prática a ideia de resgatar o Museu contou ainda com a historiadora da arte Paula Barrantes, com os historiadores Luiz Raphael Tonon, Thiago Avansi, Gabriel Amstalden, Diego da Silva Souza; e com o Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo.

Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo./ Crédito: Álvaro Jr
Padre João Augusto Pezzuto, responsável pela restauração do acervo. / Crédito: Álvaro Jr

A nova sede do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas está localizada no Palácio Episcopal, antiga casa de Dom Paulo de Tarso Campos, primeiro Arcebispo de Campinas, no bairro Nova Campinas. O local, com 1300 metros quadrados e 16 salas, abrigará 1200 peças. “O acervo, dividido em salas temáticas, conta a história das primeiras freguesias do Estado de São Paulo e as transformações dessas freguesias em cidade e depois em metrópole” explica Paula. “A arte sacra é a primeira manifestação artística do estado, sendo fundamental para o ensino da religião, por se tratar de uma forma fácil e rápida de ensino”, complementa.

A Professora Janaina Camilo, Diretora do Curso de História da PUC-Campinas e Coordenadora do Museu Universitário, explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra segue as normas previstas pelo Instituto Brasileiro de Museus e pela Carta Circular providenciada pela Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, as quais orientam para “Função Pastorial dos Museus Eclesiásticos”, ou seja, “não basta para um Museu atingir sua função de formador de informação, propagador de ideias e reflexão histórica e arquitetônica. É preciso, também, que o espaço museal dialogue com a comunidade, promovendo a valorização das identidades e da memória social e cultural”, considera. Foi sob essa orientação que o projeto expográfico foi produzido, com vistas a efetivar o uso adequado do acervo combinado ao espaço físico.

Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr
Profa Dra Janaína Camilo, Diretora do curso de História da PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr

O projeto expográfico contou com o apoio da equipe do Museu Universitário da PUC-Campinas, que ficou responsável pelo estudo das peças e da logística para a transferência do acervo da Catedral Metropolitana para o Palácio Episcopal. A Professora Janaina ressalta que nesse processo foi fundamental as visitas técnicas às cidades de São João Del Rei e Tiradentes, com orientação da Profa. Dra. Adalgiza Arantes Campos, docente de História da Arte da Universidade Federal de Minas Gerais e por seu orientando de doutorado, Prof. Me. Leandro Gonçalves de Rezende.

Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr
Parte do acervo do primeiro Museu de Arte Sacra do Estado de S. Paulo/ Crédito: Álvaro Jr

O historiador e funcionário do Museu Arquidiocesano, Gabriel Amstalden, explica que o espaço vai funcionar, inicialmente, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, com entrada no valor de 10 reais inteira e 5 reais a meia. No futuro, aposta Amstalden, o Museu também abrirá aos sábados. Além da visitação ao acervo, o público terá acesso a minicursos – na área de história da arte – e a pesquisa, com um espaço para a biblioteca e sala de estudo. “Além disso, haverá uma cinemateca e todo o acervo do Museu estará com informações em Braile. Queremos que esse espaço seja freqüentado por todas as pessoas”, reforça.

Diante da interatividade cada vez mais presente nos museus do Brasil, Paula explica que o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas também se valerá da tecnologia, mas com cautela: “É preciso usar a tecnologia com cuidado, porque ela passa a ser a estrela do lugar e não o acervo. A tecnologia tem que servir à informação e ao acervo”, opina. Segundo a historiadora da arte, tudo que tem de mais moderno está sendo aplicado no Museu. “Talvez, ele seja um dos primeiros museus do Brasil a ser iluminado totalmente por luz de led, material essencial para a preservação das peças, dos tecidos, e fundamental para tornar o ambiente agradável”, explica. “Ainda não conseguimos, mas estamos trabalhando para conseguir a caneta falante: qualquer criança, idoso, ou pessoa com deficiência visual, por exemplo, não precisará ler a etiqueta da obra; é só colocar a caneta na identificação da peça e o próprio áudio da caneta vai explicar todo o acervo para a pessoa: contexto histórico, informações do artista, entre outros detalhes. Essa caneta dará total autonomia para a pessoa; inclusive para o Museu poder receber estrangeiros”, comenta Paula. “Por muito tempo se pensou (e talvez ainda se pense) que o moderno importa mais do que o passado. Extinguir o passado tornou-se uma prática na nossa cultura. Com o Museu, estamos fazendo o caminho contrário”, finaliza.

SERVIÇO:

O que:  Museu Arquidiocesano de Arte Sacra

Onde: Rua Dr. José Ferreira de Camargo, 844 (Antigo Palácio Episcopal)

Confira a programação do Museu em: www.facebook.com/museudeartesacracampinas

Telefone: 3790-3950

TOME CIÊNCIA: Edição 164

Intercâmbio acadêmico

A PUC-Campinas oferece programas de intercâmbios para seus alunos, com o objetivo de fomentar a troca de informações e a produção do conhecimento, incentivando a formação integral dos estudantes. Ao todo, são sete programas de intercâmbio acadêmico que estão disponíveis (a relação completa pode ser conferida no portal da Universidade. 

Trata-se de mais uma oportunidade de aprendizado, de estabelecimento de contato com novas culturas, de apropriação de novas informações ou novos formatos de entendimento do mundo, das pessoas e das coisas.   O intercâmbio é, hoje, uma estratégia de formação pessoal e profissional de amplo espectro, desejável para se obter sucesso em uma sociedade complexa, “sem fronteiras”, que exige do cidadão comportamento local/global, ou seja, que compreenda a parte e o todo.

Cultura e Arte na PUC-Campinas

O Centro de Cultura e Arte (CCA) é um Órgão Complementar da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, um espaço de educação alternativa e permanente onde o aluno da PUC-Campinas tem a oportunidade de se expressar criativamente numa atividade cultural ou artística que o valorize enquanto pessoa.

Atualmente o CCA abrange cinco Grupos Artísticos: Coral, Teatro, Dança, Música de Câmara e Big Band, todos formados por alunos dos vários cursos da PUC-Campinas, por pessoas da comunidade em geral e por funcionários. O CCA ainda promove o Arte no Campus (apresentações dos grupos pelos Campi), Encontro de Corais, de Dança, apresentações artísticas da Big Band e peças Teatrais.

Se organize!

Se a desorganização está congestionando sua vida e você está se sentindo frustrado e disperso como resultado, é hora de se organizar. A primeira dica é manter as coisas nos lugares em que elas pertencem. Use agenda, ela lhe ajudará a redimensionar as prioridades do dia. Ela é especialmente útil se você tem um monte de compromissos e os seus dias são tão diferentes que você chega a ter problemas para manter o controle de sua programação. Mas atenção: além de escrever na agenda, é importante conferir o que foi escrito, diariamente, e assim balizar o que foi possível realizar. Faça uma lista de prioridades; escreva tudo o que você precisa lembrar. Defina a tarefa que você realizará e em qual período do dia a fará, isso ajuda a organizar as atividades do dia. Delegue responsabilidades para outras pessoas, não tente abraçar o mundo. Saiba o que você precisa/quer fazer, quando você vai fazê-lo e evite a situação de stress de não saber o que precisa ser feito. Organização leva tempo, mas quando você a torna um hábito de vida, tudo se torna muito mais fácil.

Museu arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

Por Pe. Rafael Capelato

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas (MAAS) foi fundado, em 1964, pelo Arcebispo Dom Paulo de Tarso Campos (1941-1968). O primeiro conjunto de peças destinado a constituir o acervo foi reunido por iniciativa do próprio Dom Paulo que solicitou a diversas paróquias antigas, a doação de obras de valor histórico e artístico. Além disso, ele fez doação de sua coleção pessoal para o acervo inicial. O primeiro edifício a sediar tais peças sacras localizava-se na Avenida Aquidabã e contava com amplo espaço. O primeiro curador foi o historiador Celso Maria de Mello Pupo, que organizou o museu e inventariou as obras então reunidas. Seu inventário continua sendo o mais completo para o conhecimento do acervo artístico da entidade.

Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese
Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese

Consta no Diário Oficial do Estado de São Paulo, a. LXXV, n. 107, (11/6/1965), 94 que “Entre os seus objetivos: organizar e manter um museu histórico e de arte sacra; promover conferências e cursos de museologia, de divulgação de fatos, acontecimentos e de arte sacra; organizar e manter um serviço de documentação e arquivo da Arquidiocese de Campinas; promover periodicamente exposição e mostras de documentos históricos e de arte sacra; elaborar o inventário artístico da Arquidiocese, defendendo seu patrimônio histórico, ou melhor, patrimônio artístico, velando pela sua conservação e recolhendo ao museu as peças de maior valor que não estejam habitualmente entregues ao culto”. Os apelos pelo cuidado com os bens patrimoniais artísticos da Igreja Católica por parte da Santa Sé e de esferas do governo local, somados à vasta cultura e zelo artístico de Dom Paulo culminaram, então, com a ideia da fundação.

Em 2014, o Museu Arquidiocesano de Campinas completou o cinquentenário de sua fundação, após não poucas intempéries. Na ocasião o Arcebispo Metropolitano, Dom Airton José dos Santos, decidiu transferi-lo para o Palácio Episcopal, no bairro Nova Campinas. Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas. Está em andamento a transferência das obras e operacionalização de um novo plano expográfico, adequado à nova sede.

A equipe que está trabalhando nesse processo é composta pelo Doutor em História e Bens Culturais da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma, Padre Rafael Capelato; pela Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), Professora Janaína Camilo; pela Doutoranda em História da Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paula Elizabeth de Maria Barrantes; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Luiz Raphael Tonon; pelo Graduado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Thiago Avansi; pelo Graduado em História pela UNESP, Gabriel Amstalden; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Diego da Silva Souza; e pelo Formado em restauro de arte sacra, Padre João Augusto Pezzuto.

Padre Rafael Capelato: Diretor ad hoc da transferência e reorganização do MAAS, Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas.

Língua e poesia popular: entre a fala e a escrita

Por Cristina Betioli Ribeiro Marques

Quando o assunto é língua materna, muitas ideias passam pela cabeça dos seus usuários: o vínculo com a terra pátria, o canal para relembrar e contar histórias, o meio para registrar e difundir conhecimento, o instrumento identificador do sujeito humano inserido em sua cultura.

Embora sejamos todos conhecedores intuitivos dos aspectos constituidores de nosso idioma – afinal, dispomos dele constantemente, no dia a dia – nem sempre atentamos para questões socioculturais essenciais que o definem. Uma dessas questões é a profunda diferença entre língua falada e língua escrita. Os usos dessas duas modalidades, embora apoiados numa competência linguística que é comum a todos os usuários de um idioma, servem a propósitos distintos. As variedades linguísticas presentes na língua falada – e para citar um exemplo, consideremos os diversos sotaques brasileiros – nem de longe podem ser plenamente transpostas para a língua escrita. Essa limitação se dá por uma questão absolutamente técnica: a escrita não dispõe de símbolos gráficos suficientes para representar toda a variedade sonora que uma língua pode apresentar.

A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação
A literatura de cordel é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro/ Crédito: Divulgação

Se esse fato fosse apenas um dado teórico, menos mal; mas infelizmente não é. A escrita, embora seja uma modalidade de uso da língua desenvolvida artificialmente e muito mais recente que a fala na história da humanidade, ganhou estatuto de superioridade depois dos antigos estudos alexandrinos que inauguraram, a partir da literatura grega, a prescrição de regras para o “bom uso” do idioma. As gramáticas tradicionais que conhecemos têm filiação nesses estudos que, historicamente, foram desprestigiando a modalidade falada em detrimento da escrita. O resultado disso, na tradição de ensino de português no Brasil, é o conhecido bordão de que “não sabemos português”. Ora, como é que pode haver uma nação constituída de falantes que não sabem a própria língua? Qual o lugar reservado aos usuários do idioma que são iletrados? Questionamentos como estes devem-nos levar a repensar os aspectos definidores de língua materna, como patrimônio imaterial muito mais complexo do que aparenta.

Dentre os produtos-símbolo da cultura brasileira, temos um exemplo que ilustra de forma sui generis o lugar que a tradição oral pode ocupar. O gênero de texto conhecido como “literatura de cordel” nos mostra como pode ser controversa a polarização entre língua falada e língua escrita. No exemplo em questão, as duas modalidades podem estar numa relação de continuidade com a qual a gramática normativa não consegue lidar. Até mesmo o uso do termo “literatura”, para uma poesia que na sua origem era composta e transmitida oralmente, pode ser inadequado. As narrativas poéticas de cordel têm história nas cantorias improvisadas, com participação eufórica de auditórios que se misturavam aos cantadores, desde meados do século XIX, predominantemente nas antigas “províncias do Norte” (período em que ainda não se conhecia a separação regional do “Nordeste”). Nessa época, os índices de alfabetização no Brasil eram baixíssimos e, ainda mais, nas regiões que se distanciavam da capital do Império e dos centros cultural e economicamente mais estabelecidos, como Recife e Bahia. Por esse motivo, os populares poemas em redondilhas maiores e rimas regulares, eram compostos por poetas não alfabetizados, com extraordinária memória e engenho para a improvisação, que faziam renome em suas comunidades e atraíam público para reverenciar sua performance.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques / Crédito: Álvaro Jr.

A poesia popular dos cantadores nortistas ganharia formato impresso em folhetos, amarrados por cordéis em varais de exposição nas feiras populares, no início do século XX. Produzidos e impressos em pequenas tipografias particulares, esses folhetos começam a conferir autoria a poetas como Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista. A partir de então, as composições que eram predominantemente orais ganham o prestígio de literatura impressa; no entanto, nessa literatura, perdurará o caráter misto de criações com traços da fala transpostos para a escrita.

Podemos dizer que a literatura de cordel, por representar um registro híbrido da nossa língua, é, simultaneamente, patrimônio material e imaterial brasileiro. Seus temas versam sobre atualidades, amor, sofrimento, fábulas, valentia e, em tempos de soberania da escrita… o valor da instrução para a dignidade do homem. Nas palavras do poeta João Martins de Athayde, em “A desventura de um analfabeto ou o homem que nunca aprendeu a ler” (1945): “Abram-se as portas da escola,/ para este povo entrar,/ a fim de obter a esmola/ do saber que vai buscar,/ porque o analfabetismo,/ deixa o homem no ostracismo,/ faz a vergonha do lar”.

Profa. Dra. Cristina Betioli Ribeiro Marques é  Docente na Faculdade de Letras da PUC-Campinas