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Fogo no Mar: O drama dos refugiados e a indiferença da sociedade

 

Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi, foi um dos filmes apresentados na 1a Mostra de Cinema Italiano de Campinas, acontecida de 06 a 13 de abril, que contou com exibições e debates na PUC-Campinas.

Vencedor do Urso de Ouro (melhor filme) no Festival de Berlim 2016 o documentário prima por uma produção requintada, que se divide em duas perspectivas centradas em Lampedusa, pequena ilha italiana, localizada na região da Sicília, e que se tornou porto para os refugiados oriundos de barco ao continente europeu. Por meio do retrato do aparato militar organizado pelo governo italiano para resgatar os refugiados, e do dia a dia praticamente inalterado dos moradores da pequena província, o diretor constrói uma metáfora belíssima sobre a Europa e a indiferença da maioria das pessoas com esse drama social.

O caminho escolhido parece ser o de abraçar essa contradição e repassá-la ao espectador. Mas, mesmo que não totalmente em linguagem direta, as nuances são perceptíveis, principalmente, nas escolhas estéticas do filme. Em um campo há a utilização de câmeras mais lentas acompanhando o ritmo dos moradores da ilha, conduzidos pelo garoto Samuele e suas pequenas diversões cotidianas, como atirar com estilingue nos pássaros, por outro há o drama dos refugiados, dos mais variados países, confinados a línguas não compreensíveis, e a falta de destino. Essa rotina é captada por uma câmera mais vibrante, com tomadas e cortes ágeis. A diferença parece demarcar o contraste dos moradores da ilha com suas vidas lentas, consolidadas, enraizadas, com o movimento dos imigrantes, fugitivos em busca de algum caminho, de um recomeço.

Os pedidos dramáticos de socorro captados, interceptados pelos oficiais italianos, as cenas de resgate registradas, inclusive com a chegada de pessoas mortas em meio às péssimas condições de viagens, contrastam com as metáforas que permeiam o filme e servem como maior direcionamento do pensamento de Rosi. Em uma delas, após um exame oftalmológico, o garoto Samuele descobre ter uma das vistas preguiçosa, e passa boa parte do filme com um dos olhos tapado. Esse treinamento para olhar com olho que não está acostumado a ver é o exercício de consciência proposto por Fogo no Mar, para que as mazelas tão flagrantes daquelas pessoas possam ser acolhidas por uma reflexão que extrapole as limitações tradicionais, de uma sociedade contaminada pela intolerância e xenofobia.

Fogo no Mar é, talvez, o representante contemporâneo mais significativo de uma estética do documentário que não se propõe a ser explicativo, com ênfase na realidade. Ao contrário, insere poesia e emoção para potencializar o real. Como citado em entrevistas a veículos de comunicação, o Diretor Giafranco Rosi elege Robert Flaherty, autor de clássicos como Nanuk o Esquimó, O Homem de Aran e Louisiana Story, sua grande referência. Em Lousiana Story, Flaherty conta a história do petróleo pelos olhos de um garoto, assim como Rosi narra um dos principais dramas contemporâneos pelo olhar de outro menino.

PÁSCOA – RELIGIÃO Vida ressignificada!

Por Pe. João Batista Cesário

Duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte! (…) Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado!” Esses versos são da Sequência Pascal, hino festivo que a Igreja canta no Domingo da Páscoa da Ressurreição do Senhor, exultando de alegria por sua vitória sobre a morte. De fato, “Jesus de Nazaré foi um homem aprovado por Deus…pelos milagres, prodígios e sinais que Deus realizou por meio dele, entre vós” (At 2,22) – testemunhou Pedro no dia de Pentecostes. “Ele andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos… e nós somos testemunhas de tudo que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém” (At 10,38-39) – insistia o apóstolo. Entretanto, “eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia” (At 10, 39-40) – concluiu Pedro. E, à luz de sua Páscoa, a história do passado do povo de Deus foi relida e reinterpretada sob nova perspectiva, enquanto novos horizontes se abriam para o futuro da humanidade.

Com efeito, no passado, no ambiente da cultura semítica, a festa da Páscoa era a celebração da partida dos rebanhos para as pastagens de verão, associada mais tarde à festa dos “pães ázimos” (sem fermento), que marcava o início das colheitas, momento muito importante na vida agropastoril.

A experiência do Êxodo ou da libertação do povo de Deus da escravidão no Egito, ocorrida nos dias das celebrações pascais, conferiu novo significado à Pascoa que, desde então, se tornou a celebração da libertação que Deus garantiu ao seu povo e o reinício de sua história numa terra prometida.

Após a morte e ressurreição de Jesus nos dias da páscoa judaica, os cristãos ressignificaram o sentido dessa festa, que passou a ser a celebração da vitória de Cristo sobre a morte. Com efeito, Páscoa é passagem, e, assim como no passado, os hebreus passaram pelo Mar Vermelho a pé enxuto para vencer os grilhões da escravidão (Êxodo), agora é Cristo que, realizando um novo êxodo, passa da morte para a vida. “Imolado como cordeiro pascal dos cristãos” (1Co 5,7), Cristo ofereceu sua vida em sacrifício (Jo 10,18), morreu por amor a todos e ressuscitou para garantir vida plena para a humanidade.

Assim, a festa da Páscoa é desafio de renovação espiritual; de ressignificação de costumes, práticas e da própria vida; de retomada de bons propósitos e projetos; e de realização de travessias para utopias (que, literalmente, ainda não têm lugar, mas permanecem latentes na história) a serem construídas em vista de outro mundo possível, no qual todos possam viver digna e plenamente – um mundo com mais pontes de fraternidade e integração e menos muros de intolerância e exclusão!

 

Você sabe como está a qualidade da água no Brasil?

Por Prof. Dr. Antonio Carlos Demanboro – Professor dos Programas de Pós Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana, Sustentabilidade e Engenharia Elétrica da PUC-Campinas

Em pleno século XXI, a qualidade da água dos rios está diretamente relacionada com a falta de saneamento básico no país. As informações disponíveis no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), para o ano de 2015, apontam que o índice médio de coleta de esgotos nas cidades foi de 74,0%, ou seja, 26% dos esgotos gerados nas cidades sequer foi afastado das residências. Mais alarmante ainda é o fato de que, do total de esgotos coletados, apenas 42,7% foram tratados. Ou seja, apenas 31,6% dos esgotos gerados nas cidades foram tratados.

Mas, como a eficiência média dos processos de tratamento é da ordem de 85%, apenas 26,9% do esgoto gerado foi efetivamente tratado. O volume total de esgoto tratado foi de 3.805.022 mil metros cúbicos. Logo, 14.167.024 mil metros cúbicos de esgoto foram lançados inadequadamente, sendo que a maior parte desse esgoto atingiu diretamente os rios do país.

Para se ter uma ideia dos desafios necessários para coletar todo esse esgoto gerado nas cidades, a extensão total de redes de água, em 2015, foi de 602.408km, enquanto que a extensão total das redes de esgoto foi de apenas 284.041km. Assim, para atingir o mesmo nível de fornecimento de água tratada, de 93,1%, será necessário construir em torno de 318.367 quilômetros de redes de esgoto, para atender mais de 65 milhões de pessoas. O documento completo está disponível em www.snis.gov.br.

Nesse sentido, é bem-vindo o recente trabalho da Fundação SOS Mata Atlântica que retirou amostras e efetuou análises de qualidade da água dos rios em 1607 locais, abrangendo 73 municípios de 11 estados. Os resultados apontaram que apenas 2,5% das amostras tiveram qualidade boa e em nenhum ponto a qualidade foi ótima. O estudo completo está disponível em www.sosma.org.br.

Os desafios para a universalização do esgotamento sanitário no país são enormes e este desafio demandará uma atuação direta dos profissionais das diversas áreas do conhecimento, para ser vencido. No dia 22 de março comemorou-se o Dia Mundial da Água, mas não há muito o que se comemorar.

 

Leia mais no link http://exame.abril.com.br/brasil/o-brasil-nao-tem-o-que-comemorar-neste-dia-mundial-da-agua/

 

Tempos de crise: como trabalhar a imagem e a reputação das empresas

Por Prof. Dra. Maria Rosana Ferrari Nassar – Professora da Faculdade de Relações Públicas da PUC-Campinas

As novas tecnologias da informação e de comunicação realocaram as relações sociais, modificando as instâncias de mediação política, econômica e social da dimensão espacial para a temporal, instituindo o princípio da instantaneidade. No mundo altamente interconectado da atualidade, em que tudo pode ser divulgado instantaneamente, as organizações estão mais suscetíveis a abalos à sua imagem. Veja-se, por exemplo, a mais recente crise em que se veem envolvidas algumas empresas do setor da carne, resultante de uma ação conduzida pela Polícia Federal.

Sob a perspectiva da comunicação, crises são acontecimentos que potencialmente podem desestabilizar a organização, causando danos à sua imagem. A melhor ação sempre é a prevenção. Para tanto, conhecimento do mercado, aperfeiçoamento de processos internos; políticas de comunicação e de qualidade; treinamento e respeito ao consumidor são essenciais. A organização precisa conhecer seu público e estabelecer formas eficientes de comunicação com ele. E, assim, definir uma política preventiva de conflitos e crises, elaborando manuais, treinando seus colaboradores, fazendo a gestão de relacionamentos com seu público, pesquisas de satisfação, dentre outras ações.

Contudo, quando a crise se instala, a organização, que atua segundo valores sólidos, tem melhor condição para agir com mais eficiência. Se a organização coloca o cliente em primeiro lugar, esse é um valor que tende a orientar sua ação no gerenciamento de crises. Para tanto, a recomendação é agir com alteridade. Nessa situação, o ideal é instalar de imediato um comitê de crise que deve agir com cautela, inteirando-se dos fatos e das versões que assumem nas diferentes mídias e agir com transparência, rapidez, confiança, comunicar-se com clareza e eficiência. A melhor política é não mentir. Recomenda-se não subestimar a situação e nem negligenciar seus colaboradores. A organização também não deve colocar-se como vítima e nem agir como se o problema não existisse ou não fosse com ela. Nesses casos, superiores, sócios e colaboradores devem ser informados rapidamente. E não se deve acreditar que o respaldo legal seja suficiente para proteger a organização. Afinal, quando se trata da imagem, os aspectos éticos são mais relevantes. De qualquer modo, seja para prevenir ou para remediar, a atuação do profissional de Relações Públicas é essencial para identificar possíveis ameaças, formas de evitá-las ou detê-las e mesmo para reconstruir a imagem da organização.

 

 

PÁSCOA – ECONOMIA Efeitos sazonais

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

Páscoa é alegria, época destinada a transformação interna de todos os cristãos. Essa renovação tem início no período da Quaresma, momento de recolhimento e reflexão espiritual, de preparação para a festa do renascimento de Cristo. A data religiosa acaba influenciando no aumento do consumo e dos preços de alguns produtos, principalmente chocolates e peixes, recebendo dos economistas um termo específico para traduzir o fato, chamado sazonalidade.

A sazonalidade resulta de mudanças sazonais, ou seja, mudanças temporárias, típicas de determinada época ou estação do ano. Por ser temporária, a variável que está sofrendo o efeito da mudança sazonal, normalmente os preços, tende a regressar a seu nível inicial após certo tempo.

Existem, basicamente, dois tipos de sazonalidade: as climáticas e as culturais. As climáticas – influenciadas pelas estações do ano – são as principais causas de oscilações nos preços de alguns alimentos ao longo do ano. As sazonalidades climáticas podem influenciar tanto a oferta quanto a demanda. Por exemplo, no caso de algumas frutas, como o limão, a oscilação do preço ao longo do ano é resultado tanto de alterações sazonais na oferta quanto na demanda. A colheita normalmente ocorre entre dezembro e abril. Nos meses de outubro e novembro os preços costumam aumentar muito por dois motivos: a oferta está muito baixa (período da entressafra) e a demanda por bebidas está aquecida, influenciada pelo aumento da temperatura nesse período.

Já as sazonalidades culturais são influenciadas por costumes de uma população ou por festas religiosas. Esse tipo de sazonalidade geralmente influencia apenas a demanda de produtos específicos, normalmente alimentos e bebidas. A Páscoa é um exemplo de um evento religioso que gera efeitos sazonais sobre os preços de dois produtos: o chocolate e os peixes. A tradição de comer peixes na Sexta-feira Santa e de presentear pessoas com chocolates no Domingo de Páscoa faz com a demanda de ambos os produtos aumente e, consequentemente, os seus preços.

Uma questão importante é: quais estratégias o consumidor pode adotar frente às oscilações sazonais dos preços. Uma primeira estratégia é, quando possível, antecipar as compras. Por exemplo, comprar peixes na semana que antecede a Semana Santa pode não ser o melhor momento. Os preços costumam ter picos próximos ao dia principal do evento. A segunda estratégia é pesquisar antes de comprar. Os preços podem se diferenciar muito, tanto em função da variedade de marcas, tamanhos e sabores, quanto pela concorrência entre os varejistas. Alguns estudos mostram, por exemplo, que o preço de um ovo de Páscoa, com a mesma marca e mesmas características, pode oscilar até 150%.

 

PÁSCOA – COMPORTAMENTO Coelhos como presente

Por Prof. Dr. João Flávio Panattoni Martins – Diretor da Faculdade de Medicina Veterinária

Estamos chegando ao final da Quaresma!

Na última semana destes quarenta dias de orações e penitências, designada Semana Santa, celebramos e comemoramos o Tríduo Pascal, que prevê os eventos mais marcantes e importantes do ano litúrgico cristão. Este período de profunda significância para nós católicos, que retrata a Paixão de Cristo, culmina no Domingo de Páscoa, quando festejamos intensamente o dia da Ressurreição de Cristo.

Nesse momento de renascimento, o Domingo da Ressurreição é, tradicionalmente, simbolizado pelo Coelho da Páscoa, que representa a fertilidade, o nascimento, a vida nova! Muitos relatos comprovam, desde antigas civilizações, a representação da fertilidade simbolizada pelos coelhos, por serem animais muito prolíferos de intensa atividade reprodutiva.

No entanto, percebe-se que esta simbologia associada à prática de originalmente se distribuir ovos de galinha pintados às crianças, vai sendo reinventada através das gerações, sendo inclusive, bastante influenciada pelas atividades comerciais. Os ovos se tornaram doces cada vez mais sofisticados, ansiosamente aguardados não só pelas crianças.

Porém uma prática relativamente mais recente, normalmente estimulada pelo anseio de originalidade e inovação de comerciantes e consumidores, requer uma reflexão madura e responsável, o que, na maioria das vezes, não acontece.

Transformar o símbolo da fertilidade em presente vivo, não pode ser uma atitude impensada, pois se assim for, torna-se automaticamente irresponsável e cruel.

Nos meses posteriores à Páscoa, várias organizações e entidades envolvidas com a proteção e o bem-estar animal, relatam o expressivo aumento dos casos de abandono, maus tratos e de morte de coelhos.

As pessoas, normalmente agindo por impulso, não exercitam a consciência de que aquele lindo e sedutor filhotinho transformado em presente oportuno, se tornará adulto e por toda sua vida irá requerer espaço, assistência e dedicação de um tutor consciente da responsabilidade assumida. Se essa consciência estiver presente, esses animais normalmente são muito dóceis e afáveis, tornando essa convivência muito agradável e prazerosa. Porém, coelhos são muito susceptíveis a doenças fúngicas, sarnas, pulgas e também não são raras as situações de destruição de plantas e jardins e a incompatibilidade de convivência com outros animais como cães e gatos. Nesse sentido, uma pessoa bem-intencionada poderá, rapidamente, se transformar em algoz do próprio “presente”. Por existirem os coelhos selvagens, vários acreditam que coelhos domésticos conseguirão sobreviver autonomamente quando abandonados em matas ou florestas, o que definitivamente não acontece, pois são altamente susceptíveis a estresse, predadores e dificilmente conseguirão se alimentar satisfatoriamente.

Sendo assim, percebe-se que essa euforia e suposto compromisso de posse responsável, assumidos inicialmente, tornam-se efêmeros e passageiros, afinal a estimativa de vida de um coelho doméstico é de 6 a 8 anos, e aquele lindo animal que simboliza fertilidade e vida nova, acaba sendo vítima de abandono e morte.

Instrua seus amigos!! Coelhos de presente?! …dê preferência aos de chocolate!!

Feliz Páscoa a todos!!

Informações adicionais no link abaixo:

http://emais.estadao.com.br/blogs/comportamento-animal/pascoa-chocolates-e-coelhos-com-moderacao/

 

Cidades ‘Inteligentes’ e Cidades ‘Sustentáveis’

Por Prof. Dr. Antonio Carlos Demanboro – Professor dos Programas de Pós Graduação em Sistemas de Infraestrutura Urbana, Sustentabilidade e Engenharia Elétrica da PUC-Campinas e Prof. Dr. David BianchiniProfessor, pesquisador e coordenador do Programa de Pós-graduação em Engenharia Elétrica, Professor das Faculdades de Engenharia Elétrica e Engenharia de Produção da PUC-Campinas

O termo cidades ‘inteligentes’ deriva do inglês ‘smart cities’. ‘Smart’ pode ser traduzido como inteligente e também como esperto, perspicaz, certo, excelente. Nesse sentido mais amplo, não é a cidade que é ‘inteligente’, mas, sim, as pessoas que a projetam, constroem, operam, mantêm e vivem nela. Ela não pode ser ‘inteligente’ a ponto de nos submeter a algo que não queremos ou não desejamos, fundamentalmente deve trazer consigo a ética de propiciar o maior bem possível a todos.

Por outro lado, devido ao crescente número de pessoas que vivem em grandes cidades, utilizar tecnologias que aumentem a eficiência dos vários processos que acontecem nesses espaços urbanos é algo fundamental. Dessa forma, a utilização de sensores para controlar o desperdício de energia na iluminação pública e em nossas residências, de equipamentos que adequem os semáforos ao fluxo de veículos, de sistemas que controlem o desperdício de água na rede de distribuição e em nossas casas, dentre outras infindáveis aplicações da tecnologia digital é extremamente importante.

Já o termo cidades ‘sustentáveis’ deriva de ‘sustainable cities’. ‘Sustainable’ pode ser traduzido como sustentável, mas também como durável, duradouro, viável.

Mas o que nos sustenta? A resposta é que dependemos dos recursos naturais. Uma cidade inteligente e sustentável é, então, aquela que dá condições para uma melhor qualidade de vida para sua população. Nesse contexto, faz sentido aliar os conceitos de cidades ‘inteligentes’ e cidades ‘sustentáveis’, pois ambos podem, sempre que utilizados corretamente, propiciar a preservação dos recursos naturais, melhorando a qualidade de vida e isso pressupõe o uso de novas tecnologias.

Quer saber mais sobre cidades ‘inteligentes’? Confira algumas reportagens sobre o assunto:

Revista Galileu – Cidades Inteligentes (hiperlink nas palavras Cidades Inteligentes com o link: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT338454-17773,00.html)

Exame – Conheça 3 cidades inteligentes pelo mundo  (hiperlink no título sublinhado com o link: http://exame.abril.com.br/tecnologia/conheca-3-cidades-inteligentes-pelo-mundo/)

 

Crise migratória no mundo

Por Juleusa Maria Theodoro Turra – Docente dos Cursos de Geografia, Turismo e Engenharia Civil. Ministra, dentre outras, a disciplina Geografia da População. É descendente de imigrantes do norte da Itália.

A migração, nas várias formas que assumiu, é assunto de grande complexidade. Envolve realidades – da/na origem e do/no destino – sujeitas a muitas transformações, com causas relativamente gerais e motivações múltiplas. Se é possível uma síntese dessa complexidade, ela é dada pelo duplo movimento de atração-repulsão, portanto tem como base as assimetrias entre nações ou regiões.

A atratividade dos destinos tem muitas faces, predominando as oportunidades de trabalho, mas crescentemente relacionadas a dimensões culturais e políticas. A repulsão, termo utilizado nos estudos demográficos, tem suas faces: desamparo, desesperança e desespero. Buscar outro lugar, talvez qualquer outro lugar.

Há vários registros de políticas de atração, especialmente ao longo dos séculos XX e XXI. Há exemplos no Brasil, com ações na Itália e Suíça, visando à ocupação do território e a opção à mão de obra escrava africana restringida ou proibida. Há acordos entre nações como o Bracero Program para os mexicanos nos EUA dos anos de 1940; a vinda de turcos para a Alemanha como Gastarbeiter; nos dois casos com permanência de tempo definido. Ficaram por decisão própria, ou de seus contratantes.

A integração de mercados e a liberdade dos fluxos de maior fluidez para produtos e recursos, não incluiu o fluxo de pessoas, mas permitiu maior informação sobre os lugares atrativos. Na outra ponta, seletivamente, incorporou significativos grupos. A mesma integração favoreceu a presença de empresas mundiais em países periféricos; criou proximidade como já havia ocorrido nos processos de colonização especialmente da África e da Ásia. São criadas redes de apoio no país de destino, solidárias ou como negócios, que mantêm a migração e dá o retorno com transferências de recursos para a origem.

A imigração foi resposta barata e rápida para uma necessidade de crescimento da produção ou suprimento de mão de obra, pelo baixo crescimento demográfico nos países centrais. As crises do regime de acumulação quebram esse equilíbrio, desde sempre instável. Também a crise global afeta os países de origem e as respostas dadas geram maior desequilíbrio, em vários casos desagregações sociais e territoriais.

Há, hoje, outro fluxo, com ou sem as redes de apoio próprias, fortemente marcadas por tragédias: os refugiados. Países ou regiões de diferentes níveis de desenvolvimento, não permitem a permanência e pessoas de diferentes qualificações buscam refúgio, fogem de conflitos políticos e bélicos. Sírios, afegãos, iraquianos, sudaneses são destaques nas estatísticas da União Europeia. Não é uma crise nacional ou local; é humanitária.

Alguns deles estão em Campinas, junto a migrantes de outras nacionalidades. Como são recebidos?  O que lhes é ofertado?

Filmes sugeridos:

Um dia sem mexicanos (2004). Direção Sergio Arau. Produção: EUA-México-Espanha – https://www.youtube.com/watch?v=cYJcfhxMkrQ

A viagem da esperança (1990). Direção Xavier Koller. Produção: Alemanha-Turquia- Suíça – https://www.youtube.com/watch?v=cI4_pKtjuE8

A grande mentira (2014). Direção Philippe Falardeau. Produção: EUA-Quênia-Índia

O CINEMA E O SAGRADO

Por Prof. Me Arnaldo Lemos Filho, professor das Faculdades de Ciências Sociais, Direito, Educação e Serviço Social

A exibição do filme “Silêncio”, de Martin Scorcese nos oferece a oportunidade de analisar as relações entre o cinema e o sagrado. A própria palavra silêncio estrutura a narrativa, referindo-se a três níveis: uma complexa questão teológica, a resistência do meio japonês à evangelização e a fé dos católicos japoneses perseguidos. Na alma do padre Rodrigues, personagem central, a dúvida instala-se: onde está Deus perante o sofrimento dos seus filhos?

O filme permite discutir a possibilidade de o sagrado ser expresso na tela. Historicamente, todas as artes possuem suas raízes na religião. Em todas as suas manifestações primitivas, as artes se inspiraram nas crenças religiosas. O cinema, “la sola arte non nata del culto” teve, ao contrário das outras artes, origens eminentemente profanas. Nascido do desenvolvimento moderno da técnica, no contexto do cientificismo e da ideologia do progresso do homem, é profano também por sua estrutura industrial e comercial.

O cinema pode trazer as questões de fé e da religião cristã. Mas quais são os limites e o poder da imagem para a expressão do sagrado e do religioso?

A noção de sagrado é complexa e ambígua. Os termos “sagrado” e “religioso” não são idênticos, pois um tema religioso não constitui condição necessária nem suficiente para se atingir o sagrado. Muitos filmes de santos ou de temas bíblicos não têm nada de sagrado. Por outro lado, um filme pode atingir a evocação do sagrado sem possuir um tema estritamente religioso.

Daí se inferem duas vias, ou melhor, duas leis na evocação do sagrado no cinema: uma, a transcendência que se encarna, a outra, aquela que acentua a encarnação da transcendência. Na primeira via, o cinema atinge o sagrado por um estilo de transparência, pela ascese e austeridade no cenário, na iluminação e na música. São poucos os filmes que alcançam a expressão do sagrado por essa via e devem seu êxito aos dons verdadeiramente criadores de seus diretores.

Na segunda via, a encarnação da transcendência, o cinema se coloca dentro de seus limites, procurando atingir o sagrado inserindo a transcendência no carnal, no cotidiano. A face de um homem pode tornar-se para seus irmãos a face humana de Deus: um santo, um pobre, um pecador. Escolhendo enraizar-se na banalidade e insignificância do cotidiano, tais filmes se aproximam do mistério da Encarnação.

Ao assistir ao filme, procure definir qual via Scorcese escolheu para expressar o sagrado.

Veja o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=cdQwu7SEuZQ

 

Pedra De Paciência: Mergulho Na Alma Feminina

Por Prof. Dr. José Estevão Picarelli – Diretor-Adjunto CEATEC da PUC-Campinas

Quem já experimentou sabe que o aparentemente simples ato de desabafar ajuda a aliviar ou a aceitar melhor o sofrimento ou as angústias. Faz alguma diferença, mas não importa fundamentalmente, se o desabafo acontece no confessionário da igreja, na sessão de terapia, na mesa do bar ou em um ombro amigo. Desabafar é socializar sentimentos, publicar sofrimentos, desnudar segredos íntimos, lavar a alma, por para fora o que dentro incomoda.

Em algumas regiões do planeta, onde a humilhação e a opressão à mulher são práticas comuns e, pasmem, às vezes até legais, a sabedoria feminina se faz necessária e presente. De mãe para filha, as mulheres ensinam umas às outras a escolher uma pedra para fazer o papel de ouvido amigo. Isso mesmo, um pedaço de rocha, chamada pedra de paciência. Assim, a mulher, quando angustiada, conversa reservadamente com a pedra que atravessou seu caminho. Neste mineral companheiro são descarregadas frustrações e injustiças. Quando essa pedra é quebrada, a mulher acredita que também suas angustias viraram pó.

 Indicado como melhor filme estrangeiro para o Oscar de 2014, Pedra de Paciência é o título do belíssimo filme do diretor Atiq Rahini, produção cooperada de França, Alemanha e Afeganistão. A película é ambientada em uma região deste último país, destruída pela guerra santa islâmica. Em uma paisagem de ruínas, uma mulher vive o desespero de cuidar de seu marido, jihadista ferido e em coma. Na sua imensa solidão, moldada pela cultura fundamentalista, por costumes e hábitos machistas e desfavoráveis, ela busca, no desabafo, uma saída para a vida. Julgando que os ouvidos do marido estão surdos pelo coma, ela abre, numa sincera confissão, a sua mais profunda intimidade Em um monólogo, a atriz iraniana Golshifeh Farahani, dá uma interpretação maravilhosa dessa personagem cujo nome, nem mesmo o filme, deixa conhecer.

Em pouco mais que uma hora e trinta minutos ficamos surpresos em saber que, em que pese a falta de água, a fome e as bombas, existem coisas que podem machucar mais e que podemos encontrar do nosso lado, uma mulher vivendo a mesma condição feminina.