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O que você precisa saber sobre a febre amarela

Por Sílvia Perez

Diante do surto de febre amarela registrado em alguns estados brasileiros, a PUC-Campinas presta alguns esclarecimentos sobre a doença.

A febre amarela é uma zoonose e os casos confirmados no Brasil são classificados como silvestre, sendo os vetores responsáveis pela transmissão os mosquitos Haemagogus e Sabethes encontrados nas matas. Nesse ciclo, o homem participa como um hospedeiro acidental, no lugar dos macacos, ao adentrar áreas de mata. No ciclo urbano, o homem é o único hospedeiro com importância epidemiológica e a transmissão ocorre a partir de vetores urbanos (Aedes aegypti) infectados. Segundo a Organização Mundial da Saúde, pelo menos por enquanto, não há evidências de que o Aedes aegypti esteja transmitindo o vírus, causando uma expansão urbana da febre amarela.

Desde a notificação dos surtos de febre amarela no início de 2017, vem sendo observado em nosso país um aumento progressivo do número de casos suspeitos e confirmados, de óbitos e de municípios com notificação da doença. Dentre o total de casos notificados (1006), 157 evoluíram para óbito e destes 65 foram óbitos confirmados por febre amarela (letalidade 36,1%); 89 óbitos suspeitos continuam sob investigação e 03 foram descartados. De acordo com os dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde, os casos notificados estão distribuídos em 109 municípios pertencentes a 05 estados (Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Tocantins, Bahia) de 03 regiões do país (Sudeste, Norte e Nordeste).

Atualmente, a reemergência do vírus no Centro-Oeste brasileiro volta a causar preocupação, com maior incidência de casos humanos em viajantes que realizavam atividades de turismo e lazer. A maior parte dos casos confirmados ocorreu em regiões turísticas de Goiás e Mato Grosso do Sul, áreas que mantêm intenso fluxo de pessoas, sobretudo durante o verão (período sazonal da doença).

De acordo com a professora da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Maria Patelli, a doença pode se manifestar de diferentes formas. “A manifestação pode ser de forma assintomática, oligossintomática, moderada até forma grave e maligna. A letalidade varia de 5 a 10%, mas entre as formas graves, pode chegar a 50%”, explica.

O Ministério da Saúde informou que vai reforçar o estoque das vacinas contra a doença em 11,5 milhões de doses, mas isso não significa que todas as pessoas devam correr para os postos de saúde em busca da imunização. Devem procurar a vacina, apenas moradores das áreas onde o surto foi registrado, ou quem pretende visitar regiões silvestres, rurais ou de mata.

Vacinação

No presente, o Brasil tem 20 estados e o Distrito Federal com indicação permanente de vacinação contra febre amarela. Figura 1

Figura 1: Área com e sem recomendação para vacinação contra a febre amarela em 2016

Fonte: Ministério da Saúde

 O Estado de São Paulo tem 70% do total dos municípios com recomendação de vacina contra febre amarela, predominantemente a região noroeste e sudoeste.  (Figura 2).

Figura 2: Mapa – Área com e sem recomendação de vacinação contra a Febre Amarela. Estado de São Paulo, 2016

Fonte: CENTRO DE VIGILÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA “PROF. ALEXANDRE VRANJAC” Divisão de Imunização

O Ministério da Saúde orienta sobre a vacinação contra febre amarela para viajantes e residentes em áreas com recomendação da vacina. (20 estados e o Distrito Federal).

O professor da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Adilson Micheloni, ressalta a importância do cidadão procurar um serviço de saúde antes de se deslocar para regiões que apresentam casos da doença. “É preciso buscar informação segura antes, verificar a necessidade de vacinação e, principalmente, saber mais sobre a doença”, destaca.

A vacina deve ser aplicada a partir dos 9 meses de idade com reforço aos 4 anos. Para maiores de 5 anos, o reforço único da vacinação acontece 10 anos após a primeira dose. Já os idosos (> 60 anos) precisam ir ao médico para avaliar se há algum risco em receber a imunização, assim como, as pessoas com doenças como lúpus, câncer e Aids, devido à baixa imunidade, as grávidas e os alérgicos a ovo e gelatina.

A vacina confere imunidade de 90% a 100% dos vacinados, devendo ser aplicada 10 dias antes da viagem à área de risco. A utilização da vacina febre amarela é uma das melhores formas de prevenção da doença.

Em Campinas, é possível conferir os dias e horários em que os Postos de Saúde aplicam a vacina contra a febre amarela no link: http://www.saude.campinas.sp.gov.br/locais_vacinacao.htm.

 

Black Friday tupiniquim e as vendas de Natal em meio à crise econômica

Por Vinícius Ferrari

A origem do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day)  remonta aos festivais cristãos celebrados pelos primeiros colonos norte-americanos em agradecimento às colheitas anuais. Muitos séculos depois, em 1941, o Congresso dos EUA elevou o Thanksgiving ao status de feriado nacional, que passou a ser comemorado na quinta-feira da quarta semana de novembro.

Os congressistas nutriam esperanças de que o feriado estimulasse as vendas de Natal, o nível de emprego e o lucro varejista.  Em especial, o presidente Franklin D. Roosevelt acreditava que esses acontecimentos poderiam contribuir para a superação definitiva da Grande Depressão dos anos 30.

As grandes redes comerciais dos EUA logo perceberam as oportunidades geradas pelo feriado e instituíram o dia nacional das promoções na primeira sexta-feira após o Thanksgiving, que ficou popularmente conhecida como Black Friday.

Por décadas, as promessas de vultosos descontos têm atraído milhões de norte-americanos às lojas em cada Black Friday. Desde então, o frenesi das compras, termo utilizado pela primeira vez pela polícia da Filadélfia,   tomou conta do Thanksgiving. Para muitos consumidores dos EUA, o feriado religioso transformou-se num mero prelúdio do  holiday shopping  que abre a temporada de liquidações de Natal.

A exemplo dos EUA na década de 1940, o Brasil  está vivenciando, no período atual, uma grave crise econômica. O PIB per capta, um indicador que mede a renda do país, sofreu forte retração no biênio 2014-2015. Em 2016,  pela primeira vez desde de 1999, a taxa de desemprego superou o patamar de 11% da população. O fantasma da inflação, que muitos acreditavam ter  sido eliminado, voltou a atormentar as famílias brasileiras. Não por acaso, as vendas de Natal registraram quedas em dois anos consecutivos.

Diante desse contexto de crise, o setor varejista parece ter encontrado uma nova tábua de salvação para as vendas natalinas: “importar o feriado” de Black Friday para o Brasil por meio do oferecimento de promoções através do comércio eletrônico.

A despeito da inexistência do feriado de Thanksgiving no calendário brasileiro,  o apelo dos descontos parece ter surtido efeito. De acordo com empresa Ebit, o comércio eletrônico movimentou 1,9 bilhão de reais na Black Friday de 2016. Trata-se de uma elevação de 17% frente ao ano anterior. Sob um cenário desemprego crescente, o valor médio dos pedidos foi de R$ 653, uma quantia 13% acima do valor registrado na Black Friday de 2015.

Esses dados atestam que as promoções têm estimulado as vendas de Natal em meio à crise de 2016; no entanto, esse acontecimento não está isento de questionamentos. Será que a Black Friday tupiniquim ameaça distorcer ainda mais  os valores familiares cristãos que deram origem ao Natal, tal qual ocorreu com o feriado religioso do  Thanksgiving nos EUA, que passou a representar o símbolo máximo do consumismo desenfreado.

Prof. Dr Vinícius Ferrari é Economista professor na Faculdade de Economia e Administração.

Professores de Direito representam Universidade em congresso internacional

O Diretor da Faculdade de Direito da PUC-Campinas, Prof. Dr. Peter Panutto, apresentou o artigo científico “O Estudo de Caso como método pedagógico para a construção da cultura de precedentes judiciais diante do novo Código de Processo Civil (CPC): uma análise baseada no Projeto Pedagógico do Curso (PPC) de Direito da PUC-Campinas”, no V Encontro Internacional do Conselho Nacional de Pesquisa em Direito (CONPEDI), que ocorreu em Montevidéu, no Uruguai, no mês de setembro. O artigo foi escrito em coautoria com o também docente da Faculdade de Direito, Prof. Dr. Guilherme Perez Cabral.

Prof. Dr. Guilherme Perez Cabral e Prof. Dr. Peter Panutto,Diretor da Faculdade de Direito da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Guilherme Perez Cabral e Prof. Dr. Peter Panutto,Diretor da Faculdade de Direito da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

O estudo tem como objeto o Projeto Pedagógico do Curso de Direito da PUC-Campinas e trata do desafio colocado pelo novo Código de Processo Civil da construção de uma cultura de respeito aos precedentes judiciais, o que passa necessariamente pela reformulação pedagógica da educação jurídica, mediante o estudo de casos como prática adequada à formação técnica e crítica de bacharéis competentes ao uso desse novo instituto processual.

O evento congregou os programas de Mestrado e Doutorado em Direito do Brasil e foi uma possibilidade de intercâmbio entre as pesquisas jurídicas realizadas no Brasil e no Uruguai, com discussão também de temas da América Latina. Esse evento, um dos maiores sobre pesquisa em Direito no Brasil, atraiu mais de mil professores e estudantes, brasileiros e uruguaios, na Universidade da República do Uruguai. Os artigos aprovados serão publicados no livro do evento.

Segundo o Professor Panutto, o qual também atua como professor pesquisador na Universidade, a pesquisa em Direito propicia a construção de novo conhecimento jurídico, estabelecendo uma visão crítica do Direito. “É a pesquisa jurídica que permite a contemporânea concepção da educação jurídica, de modo a formar não meros ‘operadores do Direito’, mas, sim, bacharéis em Direito protagonistas capazes de compreender, interpretar e reconstruir a concepção da sociedade em que vivemos”.

 

 

Convênio Brasil-Cuba na preservação de patrimônio

Projeto da PUC-Campinas mapeia os bairros Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, nas cidades de Campinas e Santiago de Cuba, respectivamente. Pesquisa tem o financiamento da CAPES

Por Amanda Cotrim

Após vencer um edital de pesquisa da Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em convênio com o Ministério da Educação de Cuba, em 2013, a PUC-Campinas realiza desde 2014 o projeto Cidade, Habitação e Patrimônio: experiências compartilhadas entre as cidades de Campinas e Santiago de Cuba, sob a coordenação geral da docente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, da Universidade, Profa. Dra. Cristina Schicchi. O objetivo principal é identificar e preservar patrimônios culturais em ambas as cidades, em especial, os recentes e modernos, além de discutir a preservação no âmbito do urbanismo, como os bairros propostos sob o modelo das cidades jardins, tanto no Brasil quanto em Cuba, a exemplo dos bairros jardins projetados pela Companhia City na capital paulista.

“Tanto o bairro Nova Campinas como o Terrazas de Vista Alegre surgem no século XX, num período histórico em que é possível compará-los. Os contextos em que esses bairros se desenvolvem, entretanto, são antagônicos e daí surge a curiosidade científica de compreender os processos históricos de cada um, para entender a realidade de ambos atualmente”, explica a Profa. Dra. Cristina, que também é a coordenadora da equipe de pesquisadores no Brasil, que conta com professores pesquisadores e alunos do curso de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Terrazas de Vista Alegre/ Crédito: Arquivo da pesquisa

Além da produção científica entre Brasil e Cuba, o projeto prevê, ainda, um intercâmbio de docência, isso porque os professores de Cuba vêm ministrar aula na Universidade e os docentes da PUC-Campinas vão a Cuba lecionar, como aconteceu com o docente da Universidade de Oriente, de Santiago de Cuba, Prof. Dr. Carlos Alberto Odio Soto, que está realizando seu pós-doutorado na PUC-Campinas, sob a supervisão da Professora Cristina. “O Professor Carlos ministrou a disciplina Estudos Urbanos Latino-Americanos na pós- graduação em Urbanismo. Foi uma experiência maravilhosa e enriquecedora, porque os alunos puderem se aproximar das questões latino-americanas e compreender o processo histórico em Cuba”, considera a Coordenadora do projeto.

Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/  Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Terrezas de Vista Alegre pode perder característica, se novos inquilinos transformarem as casas sem um plano ou lei de preservação/ Crédito: Arquivo da pesquisa

“Minha pesquisa está em andamento. Tenho, por enquanto, impressões visuais. Chamaram-me a atenção no bairro Nova Campinas os muros. Todos altos. Isso é totalmente diferente de Cuba. E tem dificultado a minha investigação científica. Não consigo fazer o trabalho de campo com facilidade, tenho que pedir permissão para entrar na casa”, revela Soto, que reconhece que a questão da segurança é um diferencial significativo entre os dois países.

Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim
Prof. Dr. Carlos Soto realiza pós-doutorado na PUC-Campinas/ Crédito: Amanda Cotrim

De acordo com a Coordenadora do projeto, houve um esvaziamento do bairro Nova Campinas – de classe média alta – por causa da falta de segurança na região. “Boa parte dos moradores migraram para os condomínios fechados ou bairros mais afastados, a partir dos anos 1990. Há muitos inquilinos e muitas casas vazias. O bairro ficou congelado, porque não se pode mexer em suas construções”, explica. Segundo ela, o Nova Campinas chegou a ser indicado para tombamento como patrimônio histórico, mas o processo não foi encerrado ainda. “Esse também é um dos nossos objetivos, compreender como a dinâmica urbana interfere nos dois bairros analisados no projeto e quais os riscos para o patrimônio”.

Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa
Bairro Nova Campinas fica a 2 km do centro da cidade/ Crédito: Arquivo da pesquisa

No bairro Vista Alegre, em Santiago de Cuba, há uma preocupação dos pesquisadores e do governo cubano em relação a essa nova conjuntura política e econômica em Cuba. Com a venda de imóveis, as casas preservadas pela Revolução Cubana agora podem transformar-se. “Os casarões de Terrazas de Vista Alegre, por exemplo, são antigos, pertenciam a um bairro de classe média alta antes da Revolução Cubana; eram verdadeiros palacetes. Depois, os casarões foram destinados a instituições de governo e à habitação. Mas agora que os imóveis podem ser vendidos, se os novos proprietários decidem transformar as casas sem ter um plano ou lei de preservação, isso pode descaracterizar o bairro”, teme Soto. Já no bairro Nova Campinas, a pressão é para que o comércio avance na região. “Mas o comércio também pode descaracterizar o patrimônio”, pontua Cristina.

A pesquisa conjunta sobre os dois bairros deve ser encerrada em 2017. Além do projeto central de comparação entre Nova Campinas e Terrazas de Vista Alegre, há pesquisas paralelas que envolvem Brasil e Cuba, realizadas por professores pesquisadores e alunos, como é o caso do estudo da Prof. Dra. Renata Baesso, que pretende fazer um paralelo entre a formação das cidades de Campinas e Cuba, principalmente em razão do patrimônio das fazendas de café em ambos contextos. Ou como fez o também pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo, Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr., que foi a Cuba ministrar um curso sobre urbanismo e realizar uma pesquisa sobre os espaços públicos no bairro de Terrazas de Vista Alegre e a aluna de mestrado Helena Vilela Santos, que também está fazendo um estudo comparativo entre as praças do centro de Santiago de Cuba e de Barra Mansa (RJ) sob a orientação da Profa. Cristina.

“Independentemente de resultados científicos, o projeto está sendo muito enriquecedor. Nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, por exemplo, nossa discussão é muito voltada para a relação entre arquitetura e cidade. Somos muito urbanos, quase 80% da população da América Latina está nas cidades”, comenta a professora Cristina. “Já em Cuba, ao contrário, após a Revolução, se investiu num conhecimento muito mais profundo sobre planejamento e construção no campo”, completa o Prof. Soto. “No final de tudo, o intercâmbio acadêmico é que enriquece as nossas pesquisas”, resume Cristina.

 Confira os participantes das equipes no Brasil e em Cuba

Pesquisadores brasileiros: Profa. Dra. Maria Cristina da Silva Schicchi (Coordenadora), Prof. Dr. Wilson Ribeiro dos Santos Jr. e Profa. Dra. Renata Baesso, pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da PUC-Campinas.

Pesquisadores cubanos: Profa. Dra. Arq. Milene Soto Suárez (Coordenadora), Prof. Dr. Arq. Carlos Alberto Odio Soto e Profa. Dra. Arq. Maria Teresa Muñoz Castillo, pesquisadores da Universidad de Oriente, Facultad de Construcciones, Departamento de Arquitectura y Urbanismo.

SERVIÇO: 

Em setembro, nos dias 14 e 15, a PUC-Campinas realizará o evento “Jornadas em Urbanismo – Brasil e Cuba”, com palestras e oficinas entre alunos, professores do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo e os pesquisadores cubanos que virão para Campinas em missão de trabalho e estudo.

 

O imaginário social sobre o armamento no Brasil

Por Vitor Barletta Machado

Há uma conhecida e polêmica máxima que afirma que todo bandido deve ser morto, já que não há bandidos bons. Há, ainda, um imaginário geral sobre a entrada fácil de armamentos por nossas fronteiras, alimentando a violência de tais bandidos. Diante da também conhecida imagem de um Estado fraco e corrupto, deixar que o cidadão se defenda armado parece ser a única solução para muitos.

80% das armas apreendidas aqui são de produção nacional e de pequeno porte, como pistolas e revólveres/ Crédito: Álvaro Jr,
80% das armas apreendidas aqui são de produção nacional e de pequeno porte, como pistolas e revólveres/ Crédito: Álvaro Jr,

O problema das imagens anteriores é que elas não são toda a verdade ao mesmo tempo em que fazem parte dela. Representam fragmentos de uma realidade, o modo como certas questões são percebidas por grupos sociais distintos. Em 2010, a ONG Viva Rio e o Ministério da Justiça divulgaram resultados de uma pesquisa sobre o tráfico de armas no Brasil que forçam uma reconsideração dessas verdades consolidadas pelas postagens nas redes sociais e curtidas sem maiores comprometimentos.

O Brasil já era o primeiro em mortes por armas de fogo: 34.330 por ano (hoje, passam de 50 mil). O país estava em sexto lugar entre os exportadores de armas de pequeno porte, sendo mais fácil comprar localmente do que se arriscar nas fronteiras. 30% das armas apreendidas em situação irregular foram legalmente adquiridas. Compradas legalmente no Brasil e revendidas ilegalmente. E 80% das armas apreendidas aqui são de produção nacional e de pequeno porte, como pistolas e revólveres. Para a violência cotidiana, o produto nacional é mais barato e de ótima qualidade.

O total de armas que circulam era de 16 milhões. A sociedade civil possuía 87% delas (14 milhões); o estado, os outros 13% (2 milhões) e 47,6% eram ilegais. Pessoas físicas possuíam 4.514.208 de armas, os agentes do Estado 2.119.800. E o maior canal para o desvio de armas é o mercado civil interno. O mesmo mercado que deveria armar o cidadão para sua defesa também arma aqueles que lhe ameaçam.

O Instituto Sou da Paz divulgou que na cidade de São Paulo, entre 2011-2012, 78% das armas recolhidas eram nacionais e 96,77% das armas utilizadas em homicídios eram de curto calibre (38 e 32). São armas de circulação permitida pela lei e são as que mais matam no Brasil.

O Conselho Nacional do Ministério Público revelou que, entre 2011-2012, 83,03% dos homicídios praticados no estado de São Paulo foram por impulso ou motivo fútil. Os dados variam muito nos estados, mas, de maneira geral, motivos banais, não relacionados com a criminalidade organizada, são os que mais provocam homicídios no Brasil. É o cidadão brasileiro armado de um produto nacional matando outro cidadão.

 Prof. Dr. Vitor Barletta Machado é docente na Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas 

Um adeus a Manoel de Barros

O Poeta que esticou o horizonte da poesia brasileira

Foi no dia 13 de novembro de 2014 que o mundo ficou um pouco mais escuro e menos colorido: o poeta Manoel de Barros alçou voo em sua poesia e foi apresentar seus solos de ave em céu aberto.

Barros, um dos poetas mais lidos na atualidade, escrevia sobre motivos do cotidiano, do não notável, dando um ar de infância aos seus poemas, transformando-os em verdadeiras experiências sinestésicas.

Nas palavras do poeta, não foi só ele que se apaixonou pelas palavras, as letras também se apaixonaram por ele. Mas não se enganem, Manoel não escrevia por inspiração, escrever poesia consistia para ele em um trabalho de artesão, era preciso lapidar o poema: “poesia é o belo trabalhado”.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

O nascimento do poeta

Barros teve uma rica trajetória em sua formação. Seus primeiros anos de vida se passaram no Pantanal, em meio à natureza, rodeado pelos seres mais ínfimos e “desimportantes” que traçariam a temática de seus poemas e mudariam a tessitura poética nacional.

Quando ainda criança, transferiu-se para Campo Grande para estudar em um colégio interno. Depois, seguiu para o Rio de Janeiro onde continuou os estudos em um internato católico, quando teve contato com as obras de Padre Antônio Vieira, o qual se tornou grande inspiração para o poeta. Foi também nas terras cariocas que Manoel iniciou seus estudos em advocacia.

Posteriormente, Barros passou alguns anos fora do Brasil. Quando retornou, conheceu sua esposa Stella, com quem se casou em 1947 e regressou ao Pantanal.

Embora Manoel tenha publicado seu primeiro livro em 1937, Poemas concebidos sem pecado, sua dedicação integral à poesia só veio a consolidar-se quando herdou as fazendas pantaneiras de seu pai. Quando as terras passaram a dar lucro foi que o poeta pôde, então, tornar-se um “vagabundo profissional”. Seu reconhecimento como poeta, no entanto, só ocorreu nos anos 80, quando o escritor e jornalista Millôr Fernandes o desvelou ao público.

 “A poesia nasce do não existir”

Como poeta, Manoel criou um universo só seu: “tão absurdo quanto palpável”. Para dar vida a sua poesia, ele se utilizava do “idioleto Manoelês”, a dita língua dos bocós e dos idiotas.

Ainda que Manoel tenha inovado em relação à linguagem, empregando diversos neologismos e atribuindo novos sentidos às palavras, pensá-lo através de teorias e arcabouços literários é um desafio, uma vez que, segundo o poeta, poesia não foi feita para ser compreendida, mas para ser incorporada.

A verdade é que Barros reinventou a linguagem brincando com as palavras, materializando uma poesia que beira a meninice. Seus poemas são como macrofotografias: evidenciam os detalhes que passam despercebidos pelos olhares desatentos do dia a dia. Seus escritos são a altiva pequenez. Parece absurdo? É e não é. É absurdo por terem sido criados em seu mundo mas não quando se trata de seus poemas. O poeta via a grandeza nas pequenas coisas, fazia do grão de areia o milagre da existência. Manoel não era só gente, era bicho, era árvore, era água da chuva que deixava a pureza no matagal que é a alma humana. Para ler seus poemas não é preciso muito, basta ter o peito aberto à sensibilidade.

 “Pode o homem enriquecer a natureza com sua incompletude?”, perguntou o poeta. Em se tratando de Manoel de Barros isso é mais que possível. Ele não só enriqueceu a natureza como também a Literatura Brasileira e a existência humana, transpondo um novo olhar para tudo aquilo que no mundo parecia não ter espaço.

 Caroline Ruiz é aluna do 4º ano de Letras.

Professor expõe obras sobre a Ditadura no Brasil

“Democrata a Galope”, do Prof. Dr. Paulo Cheida Sans
“Democrata a Galope”, do Prof. Dr. Paulo Cheida Sans

O docente da Faculdade de Artes Visuais da PUC-Campinas e extensionista vinculado ao Museu Universitário, Prof. Dr. Paulo Cheida Sans, participa da Mostra “O meu, o seu, o nosso desejo”, que fica disponível até janeiro de 2015 na Universidade Federal do Espírito Santo.

O objetivo é apresentar ao público obras que possuem um teor crítico da repressão até a euforia da redemocratização do Brasil. O Docente da PUC-Campinas participa com a obra “Democrata a Galope”- aquarela e nanquim sobre tela. A exposição é aberta ao público, tem entrada gratuita e pode ser visitada até 31 de janeiro de 2015.