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Febre amarela, ecologia e outras ações

Logo nos primeiros dias do ano, quando alunos e professores aproveitavam os derradeiros momentos das férias, integrantes do Departamento de Comunicação Social (DCOM) e da Reitoria realizaram reuniões de avaliação e planejamento referentes às edições de 2017 do Jornal da PUC-Campinas. Objetivando melhorar sempre e qualificar cada vez mais o Jornal, as reuniões, entre diversos itens, focaram propostas de assuntos merecedores de destaque nas edições temáticas que vão circular até dezembro.

A Campanha da Fraternidade, a recepção aos alunos ingressantes e a febre amarela formam o elenco de temas centrais, contemplados nesta edição de março de 2017.

Baseada em uma temática de perfil ecológico, mas também de profundo apelo social, a Campanha da Fraternidade remete aos biomas brasileiros, riqueza maior de um País generosamente brindado pela Obra Criadora com exuberância e diversidade de flora, fauna e gente, compondo um presente que merece cuidados e zelo das instituições todas, bem como de todos os cidadãos do Brasil. Nesta edição, você vai conhecer razões, objetivos e detalhes da Campanha da Fraternidade 2017 “Biomas Brasileiros e Defesa da Vida”.

Neste mês, o Jornal da PUC-Campinas relata, também, como foi a recepção aos novos alunos, descrevendo e ilustrando os diversos programas que buscam facilitar a ambientação à vida universitária. Com mais de 75 anos de História, dois Campi, vários Cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão, bem como atividades diversas, sobretudo nos campos das ciências, das artes e da cultura, a PUC-Campinas é um universo plasmado em uma Instituição que o ingressante precisa conhecer em detalhe, para explorar com intensidade na sua formação profissional, social e pessoal.

A febre amarela, que tem merecido destaque nos meios de comunicação por conta do surto registrado em algumas regiões brasileiras, integra outro destaque entre os temas tratados nesta edição. O assunto é abordado do ponto de vista das ciências médicas, trazendo esclarecimentos e recomendações oportunas, pertinentes e mesmo necessárias para o enfrentamento de uma situação marcada pelo aumento de casos e, por vezes, desconhecimento sobre ações para evitar o contágio e contribuir para reduzir a propagação do problema.

Todavia e infelizmente, essa não é a primeira vez que a região de Campinas se vê às voltas com a febre amarela. Na passagem dos séculos XIX e XX, a população local foi dizimada pela doença, com sérias consequências não só na área da saúde, mas também sérias repercussões econômicas, sociais e administrativas, incluindo ações (e por vezes a falta delas) urbanísticas de saneamento, mudança de hábitos e a noção de que o combate a moléstias dessa espécie vai muito além da competência de médicos e sanitaristas.

O jornal da PUC-Campinas resgata a febre amarela, do ponto de vista histórico e destaca o tratamento do assunto em publicações assinadas por pessoas que são ou foram alunos ou professores desta Universidade.

Além disso tudo, esta edição abre espaço para marcar o Dia da Mulher, traz a agenda atualizada de eventos e realizações e toca diversos outros assuntos, configurando um mosaico especialmente composto pelo público acadêmico, para o público acadêmico, como você.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2017 FRATERNIDADE: BIOMAS BRASILEIROS E DEFESA DA VIDA “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15)

Por Pe. José Antonio Boareto – Professor das Faculdades de Teologia, Publicidade e Propaganda, Administração, Educação Física e Artes Visuais da PUC-Campinas

Todos os anos, os bispos do Brasil convidam as comunidades católicas como também a sociedade a refletirem durante o período litúrgico conhecido “tempo da Quaresma” sobre uma temática que implica a necessidade de uma organização social em vista da realidade.

O tempo da Quaresma é um tempo forte de conversão e assim a proposta da Campanha da Fraternidade também é de uma mudança de mentalidade que se reflete em atitude. Tal consciência deve ser dolorosa capaz de ser sensível ao grito da terra e ao grito dos pobres.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz como tema: Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida e lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn. 2, 15). Essa temática está em sintonia com a perspectiva assumida pela Campanha da Fraternidade Ecumênica do ano passado sobre o saneamento básico e ambas estão diretamente relacionadas com a encíclica social do Papa Francisco “Laudato Si’” sobre o Cuidado com a Casa Comum.

Na encíclica, o Papa Francisco propõe a necessidade de uma educação e espiritualidade ecológica que ajude a superar uma mentalidade de dominação e exploração da natureza e do ser humano para uma relação marcada pela ética do cuidado.

Interessante é ressaltar que o Papa Francisco frisa na encíclica que estamos diante de uma única crise socioambiental e não duas. Esta compreensão traz uma nova perspectiva e mesmo paradigma, chamado por ele na “Laudato Si’” de ecologia integral.

Quando compreendemos essa fundamentação, podemos entender o por que da preocupação dos bispos com estas temáticas que não tratam simplesmente de uma atenção ao meio ambiente, mas com toda a biodiversidade e sociodiversidade presente nos biomas brasileiros.

Por meio da Campanha da Fraternidade deste ano, os bispos, em sintonia com o significado profundo do tempo da Quaresma, convidam as comunidades e a todas as pessoas a uma conversão ecológica.

Os bispos querem demonstrar que é possível ao povo brasileiro redescobrir sua vocação de ser cultivador (cuidador) e guardador da criação e assim estabelecer nova relação filial e criatural com Deus Criador e de fraternidade com a natureza e o próximo em nosso país.

 

Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral

Evento ocorre nos dias 04 e 05 de maio

Por Redação

Tempo de existência e currículo de realizações são itens inversos na história do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, criado em maio de 2015, mas que já fez acontecer dois Colóquios de extrema importância, seja pelas temáticas abordadas, seja pela relevância dos participantes. O terceiro deles acontece nos dias 04 e 05 de Maio de 2016 o Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral, que contará com a presença do Reitor da PUC-Rio, Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira e de professores doutores e mestres da PUC-Campinas.

Segundo Colóquio promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, em Setembro de 2015- Crédito: Álvaro Jr.
Segundo Colóquio promovido pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, em Setembro de 2015- Crédito: Álvaro Jr.

O Colóquio vai ao encontro do tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016: “Casa Comum, Nossa Responsabilidade” cujo lema é “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca”, que tem como preocupação central o Meio Ambiente.

O evento, aberto ao público, é organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade e será realizado no Campus I e no e Campus II da Universidade.

Por uma Ecologia integral

O Colóquio receberá a Conferência Laudato Si’: por uma ecologia integral, às 8h, no auditório Dom Gilberto (Campus I) e terá como conferencista o Prof. Dr. Pe. Josafá Carlos de Siqueira – Reitor da PUC – Rio e o Prof. Me. Côn. José Luís Araújo, da Faculdade de Teologia da PUC-Campinas, como mediador. No mesmo dia, mas às 19h30, haverá a Mesa-Redonda: “Panoramas éticos, ecológico, ecológico, espiritual e midiático da vida no planeta”, cujo objetivo é suscitar uma reflexão que permita compreender a realidade ética, ecológica, espiritual e midiática da vida no planeta. A Mesa-Redonda terá o Prof. Me. Marcel José Cheida, da Faculdade de Jornalismo, a Profa. Me. Maria Pilar Rojals Pique, da Faculdade de Engenharia Ambiental e o Prof. Dr. Renato Kirchner, da Faculdade de Filosofia. Todos os docentes da PUC-Campinas. O Pe. João Batista Cesário, da Pastoral Universitária fará a mediação.

Fundamentos para uma reflexão teológica, econômica e social sobre a crise ecológica

No dia 05 de maio, às 8h30, a primeira Mesa-Redonda acontecerá no Auditório Monsenhor Salim (Campus II) e discutirá os “Fundamentos para uma reflexão teológica, econômica e social sobre a crise ecológica”. O debate contará com o Prof. Me. Pe. José Antonio Boareto, da Faculdade de Teologia, o Prof. Dr. Josué Mastrodi Neto, da Faculdade de Direito e o Prof. Me. Ernesto Dimas Paulella, da Faculdade de Economia. A mediação será do Prof. Dr. Glauco Barsalini, da Faculdade de Ciências Sociais. Todos os docentes são da PUC-Campinas.

O encerramento do Colóquio Laudato Si’: por uma ecologia integral acontecerá no Auditório Dom Gilberto, no Campus I da Universidade, no dia 05 de maio, às 19h30, com a Mesa-Redonda: “Educação e Espiritualidade ecológicas para a construção de uma ecologia integral”, cujo objetivo é refletir sobre a importância da educação e da espiritualidade ecológicas para a construção de uma ecologia integral. Essa mesa contará com a Profa. Dra. Rita de Cássia Violin Pietrobom, da Faculdade de Ciências Biológicas, a Profa. Dra. Ana Paula Fraga Bolfe, da Faculdade de Ciências Sociais, a Profa. Dra. Ceci Maria Costa Baptista Mariani, da Faculdade de Teologia e Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e terá como Mediador o Prof. Me. José Donizeti de Souza, da Faculdade de Teologia.

Retrospectiva

O primeiro Colóquio da PUC-Campinas aconteceu em maio de 2015
O primeiro Colóquio da PUC-Campinas aconteceu em maio de 2015- Crédito: Álvaro Jr. 

 Nos dias seis e sete de maio do ano passado, a cerimônia de oficialização pública do Núcleo de Fé e Cultura foi congruente com seu primeiro evento, o Colóquio “A Identidade da Universidade Católica, em Comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”.

Constituído por uma série de palestras e mesas-redondas, distribuídas em três períodos, o ponto alto do Colóquio foi a presença do Prefeito da Congregação para a Educação, Cardeal Zenon Grocholewski, responsável pela palestra de abertura, tratando do tema que identificava o Colóquio. Além do Cardeal Grocholewski, participaram do evento o Professor Dr. Padre Erico João Hammes da PUC-Rio Grande do Sul, Professor Dr. Padre Pedro Rubens Ferreira Oliveira, da Universidade Católica do Pernambuco e Professor Dr. Rogério Miranda de Almeida, da PUC-Paraná, além dos docentes da PUC-Campinas, Professor Dr. Artur José Renda Vitorino, Professora Dra. Sueli do Carmo Bettine e Professor Dr. Padre Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.

Quatro meses depois, em 21, 22 e 23 de setembro, o Núcleo de Fé e Cultura recoloca no calendário acadêmico mais uma intensa programação de palestras e debates, no bojo do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano Segundo”, que, além de professores da Casa, contou com a participação do Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Sérgio da Rocha e do Bispo Emérito de Lorena, Dom Benedito Beni dos Santos.

Ainda no seu período inicial, o Núcleo de Fé e Cultura abriu um site destinado a consolidar a divulgação  do seu trabalho e à comunicação com comunidade universitária e com a sociedade em geral, contribuindo para a pesquisa, o debate e a circulação de informação na sua área de atuação.

 

 

 

A “terceirização” dos serviços de saneamento básico

Por Josué Mastrodi

Vivemos tempos bicudos. Já não é de hoje que direitos são objetos de comércio. Direitos não deveriam ser negociados. Negócio era só coisa de comércio. Mas o mercado, essa grande dimensão da sociedade, se expandiu a tal ponto que, hoje, sua lógica interna tem regulado todas as demais dimensões sociais. Quase tudo está à venda. Até o que não deveria ser comprado ou vendido passou a ser precificado. Não importa o valor. Importa o preço. Faz-se até piada da situação: “pagando bem, que mal tem?”.

Como disse Caetano Veloso, falo “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O poder econômico há tempos impõe a pauta do que deve e do que não deve ser feito. Não há moral nem justiça, só negócios. Esse mesmo poder econômico é o responsável por definir que pessoas só têm algo se puderem comprá-lo. Só o dono pode usar o que é seu, e só é dono quem pagou por isso.

Eis, aqui, a grande contradição entre a teoria dos direitos humanos e a ordem econômica: pela lógica dos direitos humanos, qualquer ser humano é titular de direitos pelo simples fato de ser humano; pela lógica de mercado, o ser humano só tem direitos na medida em que tiver pago por eles.

Pela lógica dos direitos humanos, todos têm direitos como liberdade de ir e vir, acesso à educação, à saúde, boas condições de moradia. Mas segundo o mercado, só vai e vem quem pagar a passagem, só tem saúde quem pagar a consulta médica e o tratamento, só vai morar bem quem pagar aluguel ou o financiamento, entre outros.

Seguindo a lógica dos direitos humanos, a Assembleia Geral das Nações Unidas emitiu Resolução, em 17 de dezembro de 2015, declarando que saneamento básico é direito humano. A Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano, cujo tema é “Casa Comum, Nossa Responsabilidade”, leva à reflexão de vários pontos sobre saneamento, dentre eles o problema da privatização do saneamento básico, que se refere à transferência da gestão desse direito humano para agentes de mercado.

Para esses agentes, o saneamento básico, privatizado ou não, somente será efetivo se houver, em contrapartida, rentabilidade. Eles veem o saneamento básico como um negócio. Não visam à promoção de direito algum. Antes, visam ao seu próprio lucro.

O valor do saneamento básico é inestimável. Ele é fator de urbanização e comporta quatro serviços: distribuição de água tratada, coleta e disposição de resíduos (como lixo doméstico), drenagem e de esgotamento sanitário. Tais serviços ampliam os direitos dos cidadãos, garantindo qualidade de vida: os riscos de epidemias são mínimos onde se bebe água potável, onde lixo é corretamente compostado ou reciclado, onde a drenagem é bem-feita, onde não há esgoto correndo a céu aberto. Por outro lado, na lógica de mercado, valor inestimável é sinônimo de preços altíssimos.

Com base no argumento de que esse custo pode ser transferido para um particular capaz de prestar serviços públicos de modo mais eficiente que o próprio Estado, privatiza-se o que antes era dever das entidades públicas. Alega-se que o Estado não tem como prestar serviço com a mesma qualidade dos agentes de mercado, passando a estes a responsabilidade pelo saneamento básico, em regra pelo regime jurídico da concessão. Popularmente, chama-se a isto de terceirização de serviços públicos.

Esses terceiros, contudo, não prestam serviços públicos senão mediante pagamento. O acesso ao serviço é franqueado apenas aos cidadãos que pagarem por ele. As obras de infraestrutura são feitas à medida que o lucro é, de alguma forma, garantido. A eficiência do mercado serve muito mais à acumulação de capital que à promoção de direitos humanos e, como alertou recentemente o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato Si’, o foco deveria voltar aos direitos e deixar a acumulação econômica de lado. A propósito, a expressão Casa Comum, tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica, também está no subtítulo dessa encíclica.

Enfim, serviços públicos devem ser feitos, porque pessoas dependem deles para sobreviver. A maioria das pessoas, despossuída, precisa de ações do Estado para concretizar seus direitos mais básicos. A transferência de serviços tão essenciais como saneamento a empresas privadas insere-se na lógica perversa em que o ter importa mais que o ser, em que direitos fundamentais serão vendidos e comprados, e não garantidos por serem, simplesmente, direitos.

Josué Mastrodi é Professor do programa de pós-graduação em Sustentabilidade e da Faculdade de Direito da PUC-Campinas