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Da febre amarela surgiu uma Fénix: a tragédia da febre amarela em Campinas – Século XIX

Por Prof. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo – Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas

Ainda na primeira metade do século XIX, a cidade de Campinas, no embalo da onda positivista, experimentava grandes transformações políticas, econômicas e culturais observadas, sobretudo, nas modificações da urbe. As famílias abastadas enriqueciam com a agricultura cafeeira e a cidade vivia em clima de requinte, tendo sido visitada por D. Pedro II em 1846. No ano de 1889,  Campinas recebeu pavimentação das ruas, calçadas, mercados, jardins, fontes, chafarizes, iluminação pública, rede de águas e esgotos, transportes para novos bairros, estabelecimentos de ensino, associações culturais, artísticas e recreativas, lojas de qualidade de influência francesa, instituições filantrópicas e assistenciais, associações esportivas, núcleos coloniais que se formaram com a vinda dos primeiros imigrantes europeus que substituíram o trabalho africano escravo, indústrias, tipografia, jornais, livrarias…

Acompanhando a onda de modernização, em 1872, Campinas recebeu a estrada ferro da Companhia Paulista, depois substituída pela Mogiana, que ligava a cidade diretamente à São Paulo, sendo o Porto de Santos o destino final, dinamizando, assim, a exportação do café.

Mas este ambiente moderno, rico e próspero foi quebrado pela epidemia de febre amarela. Durante alguns anos imaginava-se que a febre amarela era exclusiva das zonas litorâneas e que a Serra do Mar resguardava as cidades do planalto paulista. Entretanto, no ano de 1889, uma forte epidemia subiu a Serra e foi aparecer em Campinas, considerada então a capital agrícola da província. A partir desse momento a cidade acabou atingida por sucessivas epidemias em 1890, 1892, 1896 e 1897.[1]

No ano de 1889, estudos indicam que três quartos da população de Campinas, na época com aproximadamente vinte mil habitantes, deixou a cidade. Os mais abastados fugiam para outras regiões não atingidas pela epidemia. Outros, com menos posses, procuram se afastar da cidade, indo para a zona rural. A cidade ficou praticamente deserta, no espaço de 45 dias.[2]

Ficou a cargo da Junta Central de Saúde Pública, criada em 1850, arregimentar médicos que pudessem acudir a população de Campinas. Foi quando chegou à cidade Adolpho Lutz, que mesmo tendo ficado apenas dois meses (abril e maio) observou em suas Reminiscências sobre a febre amarela, publicada em 1930, que os mosquitos eram transportados pela estrada de ferro, fato comprovado por seus estudos comparativos dos atendimentos que realizou, em casos esporádicos e isolados, de febre amarela em funcionários do correio e da ferrovia e em pessoas que nunca tinham visitado Campinas.[3]

Estacao Mogiana 1890
Fonte: Campinas Virtual

O ciclo de contágio foi interrompido em 1897, com uma série de intervenções urbanas e obras de saneamento. “As ações afetaram diretamente a vida dos habitantes, não apenas melhorando a salubridade local, mas também criando problemas de ordem prática, como demolições, interdições e milhares de intimações para reformas de casas e prédios. Os cortiços e habitações coletivos foram combatidos tenazmente pela polícia sanitária, tão temida quanto a polícia comum, pois tinha o poder de deixar famílias inteiras desabrigadas”[4].

Ao lado dos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia e das enfermarias criadas pelo Circolo Ilaliano, várias sociedades foram criadas para atender a população pobre. Foi o caso da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889. Em 1890, preocupado com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela, o médico Francisco Augusto Pereira Lima fundou o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Além destas, foi criada em 1897, por iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, com o apoio do Cônego João Batista Correia Néry e do casal Barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda, uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela.

Após 1897, os anos que se seguiram foram dedicados à recuperação da cidade: “A febre matou a cidade… Felizmente, os trabalhos de saneamento livraram-na do mal e pôde ela ressurgir das próprias cinzas, a repetir a lenda da fênix que, mui de proposito, figura no seu brasão de armas. Mas ressurgimento foi lento”[5]

A tragédia da febre amarela em Campinas, no século XIX, rendeu à cidade o apelido de cidade-fênix – a cidade sobrevivente -, mas que em pleno século XXI, ainda precisa lutar e renascer todos dias diante de uma iminente epidemia de febre amarela.

Largo do Rosario 1885
Fonte: Campinas Virtual

 

[1] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[2] Ibidem

[3] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[4] Campinas: cidade-laboratório da febre amarela. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 28 July 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/campinas-cidade-laboratorio-da-febre-amarela/

[5] GODOY, João Miguel Teixeira de, MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de, TRUJILLO, Maria Salete Zulzke et alii. Arquidiocese de Campinas: subsídios para a sua História. Campinas: Ed. Komedi, 2004, p.  40.

FEBRE AMARELA: ESTUDOS E NARRATIVAS

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – Assessor Especial da Reitoria da PUC-Campinas

Entre os derradeiros meses de 2016 e os primeiros de 2017, o substantivo febre, adjetivado pela palavra amarela, tem aparecido com frequência na comunicação formal, informal e oficial de Campinas, expressando sobressalto e apreensão com a expansão da doença, ao mesmo tempo que resgata, do passado, triste memória da devastação que a moléstia causou à cidade, na passagem do século XIX para o século XX.

Mesmo assim, se aparece com frequência nos dias de hoje, o tema nunca foi totalmente esquecido, bastando lembrar que entre os livros publicados em Campinas, em 1996, vários trazem referência à epidemia, incluindo o estudo dos cantos e dos antros da cidade, do historiador José Roberto do Amaral Lapa, a análise das relações entre Campinas e a modernidade, do arquiteto Ricardo Badaró, uma visão histórica e artística de Duílio Battistoni Filho e o que, provavelmente, é o estudo mais completo da epidemia, assinado pelo médico e também historiador, Lycurgo de Castro Santos Filho.

Antes disso, em 1984, A Febre Amorosa, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em forma de folhetim, nas edições do Correio Popular e também em livro, levava o leitor “aos dias negros” da epidemia, como pode ser lido no primeiro parágrafo da obra.

Tempos depois, em 2002, na publicação póstuma da tese de doutoramento do arquiteto Antonio da Costa Santos, “Campinas, das Origens ao Futuro”, o tema retorna, como também centraliza a obra de Jorge Alves de Lima, “O Ovo da Serpente”, publicada em 2013.

Além de tratar ou fazer referência a um acontecimento trágico da história campineira, os livros citados têm, ainda, outro elemento comum: seus autores integram ou integraram os corpos discente ou docente (ou ambos), da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, constatação que empresta significado e significância à contribuição de pessoas que passaram pela Universidade à história e à memória da cidade.

Amaral Lapa, Eustáquio Gomes e Alves de Lima foram, respectivamente, alunos dos Cursos de História, Jornalismo e Direito, cumprindo, pós-formatura, carreiras de sucesso, o primeiro destacando-se como fundador do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o segundo como Coordenador da área de comunicação social da mesma instituição. Alves de Lima, por sua vez, atuou na área jurídica, em diversos setores da administração municipal.

Antonio da Costa Santos foi aluno e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo, assassinado pouco tempo depois de ter sido eleito prefeito da cidade que ele amava e conhecia, como demonstra a citada tese de doutoramento. Lycurgo Santos Filho estudou medicina e atuou na área, mas sempre manteve sólida ligação com a História, respondendo pela obra mais citada e, provavelmente, a mais completa até agora produzida sobre a Febre Amarela em Campinas, entre 1889 e 1900. Na PUC-Campinas, foi professor de História da Cultura.

Odilon Nogueira de Mattos, destacado professor de História da PUC-Campinas também tem escritos que tangem o tema e títulos de sua autoria citados em trabalhos afins, como acontece em Santos Filho, citado por Battistoni e no livro de Badaró, que, por sua vez, é citado por Amaral Lapa. Essa rede de citações recíprocas confirma e consolida a contribuição da Universidade, nas pessoas de seus ex-alunos e professores, para o conhecimento da História de Campinas, nos seus momentos mais pujantes, tanto quanto nas situações de aflição e tragédia, como foi a epidemia de Febre Amarela, que, em um só dia, ceifou a vida de mais de 50 residentes, como consta de textos assinados por gente que faz história, gente da PUC-Campinas.

 

Professores da PUC-Campinas: Determinação e vontade

Enquanto soldados disparavam armas letais durante o cerco alemão a Stalingrado, durante a Segunda Guerra Mundial, fotógrafos profissionais e amadores disparavam máquinas que registraram o cotidiano daquela cidade mergulhada em combates e batalhas. Uma dessas fotografias mostra, no cenário nevado do rigoroso inverno russo, entre escombros e prédios destruídos, uma professora sentada na sarjeta, segurando uma pequena lousa, cercada por alunos acocorados de frio, mas atentos à aula.

Ensinar e aprender, mostra a imagem, independem de lugar, instalações, equipamentos, recurso ou formalidade além da relação entre professor e aluno, pautada pela determinação daquele e pela vontade deste.

A História da PUC-Campinas, que neste ano comemora seu jubileu de diamante, está marcada por conquistas, iniciadas por visionários entusiasmados, reunidos como Faculdade, em acomodações modestas, que redundaram em uma das maiores e mais importantes instituições de ensino superior do País, contando aos milhares sua população acadêmica e a metragem das suas instalações.

Todavia, se os 75 anos de História da PUC-Campinas foram marcados por transformações diversas, permaneceu inalterada e viva a relação que une alunos e professores na busca do conhecimento.

Portanto, ao mesmo tempo em que a oficialidade dos registros marca efemérides importantes, celebradas e comemoradas nos eventos do 75o aniversário, cabe também celebrar e comemorar a relação que se estabeleceu no primeiro instante da primeira aula ministrada na Instituição, momento que tanto mais se afasta no tempo, mais permanece e mais se renova a cada aula, de todos os Cursos, em todos os campi, eternizando a relação que constitui a alma da Instituição, corporificada na determinação de ensinar de todos que foram e são professoras e professores da PUC-Campinas.

 

Trezentos anos de Aparecida: Jornada Missionária

No Ano Santo da Misericórdia, a Arquidiocese de Campinas se prepara para uma grande Jornada Missionária, de três de outubro a oito de dezembro de 2016.

A Celebração do dia de Nossa Senhora Aparecida ocorreu na Praça da Catedral Metropolitana de Campinas. A padroeira foi homenageada em 12 de outubro de 2016.

Imagem peregrina no Instituto Educacional Imaculada, em Campinas, no dia 07 de outubro/ Crédito: Marcelo Aoki
Imagem peregrina no Instituto Educacional Imaculada, em Campinas, no dia 07 de outubro/ Crédito: Marcelo Aoki

Em comunhão com todas as dioceses do Brasil, a Arquidiocese se anima e dá início aos preparativos para comemorar os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, completos em 2017, e 10 anos do Documento de Aparecida. Assim, o início da Jornada Missionária se marcará por peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, quando as paróquias devem se organizar para receber a imagem peregrina.

A recomendação é para que a informações sobre como participar da peregrinação e das outras atividades programadas sejam obtidas na secretaria de sua Paróquia.

(Texto: Assessoria de Imprensa da Arquidiocese de Campinas)

PUC-Campinas na década de 90

Por Wagner Geribello

Na última década do Século XX, a PUC-Campinas efetiva uma cifra de relevância especial, registrando 100 mil alunos formados, passando a integrar um grupo muito reduzido entre as Instituições de Ensino Superior do Brasil.

A marca de 100 mil formados, entretanto, não é o único ponto de destaque da História da Universidade registrado nos anos 1990, década lembrada, também, por outras realizações importantes, como a implantação do primeiro Doutorado, consolidando o programa de Pós-Graduação em Psicologia e do Mestrado em Urbanismo. Os anos1990 são lembrados, também, pela chegada aos quadros de colaboradores da PUC-Campinas de um dos mais importantes intelectuais brasileiros, o Professor Paulo Freire, considerado o maior educador do País, que passa a integrar o recém-criado núcleo de extensão em Educação.

O início da implantação da Carreira Docente e a ampliação dos projetos e ações voltados para a Pesquisa caracterizam a década, que, no entanto, começou muito instável no campo da economia, em especial por conta do Plano Collor e suas desastrosas consequências para a estabilidade econômica do País. Foram precisos exercícios ousados e complexos de gestão para contornar o cenário econômico pouco favorável, mas, mesmo antes do final da década, a Instituição volta a investir, por exemplo, na construção de novos ambientes onde se instalam a Faculdade de Serviço Social e o então Instituto de Ciências Exatas (posteriormente denominado Centro de Ciências Exatas, Ambientais e de Tecnologias – CEATEC), registrando-se, ainda, a ampliação das instalações da Faculdade de Educação Física. Do outro lado da cidade, no Campus II, mais investimentos, ampliando a capacidade do Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP) para 30 mil atendimentos ambulatoriais e mil internações/mês.

PUC-Campinas nos anos 1990- Foto: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas
PUC-Campinas nos anos 1990- Foto: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas

O pioneirismo que vem marcando a História da Instituição, desde a sua fundação, verifica-se nos anos 1990, com a criação da Universidade da Terceira Idade, a partir de um projeto concebido na própria PUC-Campinas, com identidade e características próprias, até hoje tomado como modelo para implantação de entidades semelhantes.

Em 1º. de fevereiro de 1993, o professor Gilberto Luiz de Moraes Selber assume a Reitoria, focando sua gestão na continuidade da implantação do Projeto Pedagógico, iniciada na gestão anterior e responsável pela elevação dos padrões da Universidade no Ensino, na Pesquisa e na Extensão. A capacitação docente, com a instituição de horas/atividade, responde pela elevação da titulação do Corpo Docente e suas consequências imediatas na consolidação da PUC-Campinas como polo de produção e difusão do conhecimento.

Com a edição do Plano Real e o afrouxamento da inflação, a Universidade adere a novas formas de gestão, incorporando itens fundamentais para navegar com segurança e crescimento no novo cenário econômico, como a democratização da gestão e o planejamento estratégico, fixando metas de médio e longo prazo.

Nos anos 1990 verifica-se, também, aproximação maior da PUC-Campinas com sua irmã, a Universidade Estadual de Campinas, inclusive no plano físico, com a inauguração da Avenida dos Estudantes, unindo o Campus da Unicamp ao Campus I da PUC-Campinas.

Consolidada como Instituição de Ensino Superior de primeira linha e a marca de 100 mil formandos, verificada em 1995, a PUC-Campinas atravessa a década preparando-se para comemorar meio século de existência, pronta e disposta a enfrentar os desafios descortinados pelo Século XXI.

Wagner Geribello foi Professor na Faculdade de Jornalismo. Atualmente é Consultor do Jornal da PUC-Campinas

Campinas e a década decisiva: anos 1990

Por Luiz Roberto Saviani Rey

Os traços vigorosos de progresso e desenvolvimento riscados nas décadas anteriores encontram e revelam aos olhos do Brasil e do mundo, nos anos 1990, uma Campinas moderna e avançada, colocada – sem surpresas para quem acompanhou sua trajetória – em compatibilidade industrial e tecnológica com grandes centros norte-americanos e europeus.  É na década que se estende de 1990 a 1999 que a cidade se nivela a polos mundiais importantes e se consolida como uma metrópole diferenciada, reunindo as características de município industrial de ponta, rumando para se tornar o Vale do Silício brasileiro e espécie de hub do MERCOSUL.

Em consequência, os acréscimos populacionais, em porte e densidade, verificados no período, naturais de um processo rápido e vertiginoso de progresso, produzem um aquecimento econômico espantoso, mantendo sua crescente População Economicamente Ativa (PEA) ocupada em atividades urbanas de serviços – que se acentuam e se aprimoram no período. Campinas aproxima-se e começa a superar a casa de um milhão de habitantes.

Campinas na década de 1990- Crédito: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas
Campinas na década de 1990- Crédito: Acervo do Museu da Imagem e do Som de Campinas

O segmento imobiliário torna-se carro-chefe do processo e no setor industrial/tecnológico reside a alavanca motora do progresso. Setores que primam pela qualidade, coadjuvados por centros de pesquisas de relevância, como a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e a Unicamp.

Surgem os problemas mais efetivos de grandes aglomerações humanas, aliados à carência de investimentos, de infraestrutura física e social em caráter universal; Campinas sofre com a conurbação, gerando sua Região Metropolitana de forma natural e carente. A cidade padece do desenvolvimento desenfreado, da expansão desordenada, em detrimento da qualidade ambiental, e com o crescimento da violência e da criminalidade. É o preço a pagar!

Em meio à década, Campinas perde uma de suas lideranças, o então prefeito José Roberto Magalhães Teixeira – que morre no início do último ano de seu governo. Uma figura cujas políticas e ações contribuíram para desenvolver a cidade, desde a instalação do Trade Point, um dos pioneiros do Brasil, no início da década.

Mesmo com tais dificuldades, enfrentando questões críticas como o saneamento básico e a violência, atuando no sentido de superações, a cidade não se dobra e segue adiante, a passos acelerados, rumo a novas décadas de pujança e vigor econômico.

saviani


Luiz Roberto Saviani Rey é Professor do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas e autor dos livros: A maldição dos eternos domingos sem derby (romance de costumes); O retiro antes da Laguna – Taunay em Campinas (romance histórico); O menino herói da Guerra Paulista – O bombardeio de Campinas (romance histórico) e A crônica é jornalística e brasileira (didático). 

 

Criança, consumo e educação financeira

Por Eli Borochovicius

Muito se discute sobre educação financeira para crianças e jovens. Alguns argumentam tratar-se de um processo de adultização, outros de uma necessidade advinda de uma mudança da sociedade, transformada por questões econômicas, políticas, tecnológicas, culturais e sociais.

Quando uma menina calça os sapatos de salto alto da mãe e passa batom, pode ser considerado natural, uma brincadeira, mas quando a criança passa a ter hábitos de adultos, com o seu próprio sapato de salto alto e o seu kit de maquiagem, é que se manifesta o fenômeno de adultização, intimamente relacionado com as ofertas de produtos para o público infantil.

Em função de uma série de eventos históricos que modificaram as relações sociais, as crianças ficaram mais expostas à mídia. Os pais passaram a trabalhar em tempo integral, as mulheres ganharam espaço no mundo do trabalho, as separações ficaram mais comuns, a rua ficou mais violenta, os espaços públicos de convivência foram reduzidos e as crianças passaram a ficar mais tempo confinadas em casa, tendo como grande influenciador, a tecnologia.

O acrônimo KGOY traz como significado Kids Getting Older Younger, em tradução livre para o português, crianças ficam mais velhas mais jovens e sugere que elas estão amadurecendo mais rapidamente em função dos meios de comunicação.

Com o avanço da tecnologia, a televisão passou a receber também transmissão de canais por assinatura e acesso a serviços de streaming de vídeo, os computadores e celulares passaram a fazer parte do cotidiano infanto-juvenil e o contato mais próximo com a vida adulta foi inevitável.

A educação financeira viria então para preencher uma lacuna importante na vida moderna dessas crianças, estimuladas pelo consumismo desenfreado e pelo crédito fácil.

Visando contribuir para o fortalecimento da cidadania com ações que ajudem a população com o conhecimento do mundo das finanças é que surgiu em 2010, a Estratégia Nacional de Educação Financeira.

Sob a coordenação da Associação de Educação Financeira do Brasil foram desenvolvidos programas voltados às crianças a exemplo do Programa de Educação Financeira nas Escolas, cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento da cultura de planejamento, prevenção, poupança, investimento e consumo consciente nas futuras gerações de brasileiros. O programa foi pensado também para proporcionar a melhoria de desempenho dos alunos em Língua Portuguesa e Matemática.

Programas de educação financeira voltados para escolas privadas também já são oferecidos, com o diferencial de buscarem desenvolver não apenas o conhecimento financeiro, mas o senso de organização, respeito, responsabilidade, empreendedorismo, criatividade e autonomia.

A educação financeira veio para formar cidadãos conscientes, capazes de compreender e transformar a realidade, atuando na superação das desigualdades e do respeito ao ser humano. Se ainda não é contemplada nas grades curriculares das escolas, possivelmente, muito em breve, será necessário.

Prof. Me. Eli Borochovicius leciona Administração Financeira no curso de Administração da PUC-Campinas. 

Um homem que se entregou à causa de Deus

PUC-Campinas presta homenagem a Dom Gilberto Pereira Lopes durante semana de evento que leva o seu nome

Por Amanda Cotrim

Integrando as comemorações dos 75 anos de fundação da criação da PUC-Campinas, a Universidade, por meio do Museu Universitário e da Faculdade de História, promoveu a Semana Dom Gilberto Pereira Lopes, de 24 a 28 de outubro de 2016, no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, localizado no Campus I.

Semana Dom Gilberto Pereira Lopes ocorreu do dia 24 a 28 de outubro de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.
Semana Dom Gilberto Pereira Lopes ocorreu do dia 24 a 28 de outubro de 2016/ Crédito: Álvaro Jr.

O objetivo foi homenagear o Arcebispo Emérito de Campinas Dom Gilberto Pereira Lopes, que atuou como Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no período de 1982 a 2004.

Um dos momentos mais emocionantes da Semana foi o primeiro dia de evento, o qual contou com a presença de Dom Gilberto e seus familiares, além da Reitora da Universidade, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht e do Arcebispo Metropolitano de Campinas, Dom Airton José dos Santos.

O evento pode aproximar a nova geração da história de um dos homens mais importantes para a Igreja Católica do Brasil e para a Universidade. Os palestrantes ressaltaram que Dom Gilberto se entregou à causa de Deus e dedicou toda a sua vida à obra Dele. “É por amor e reconhecimento que fizemos esta homenagem”, ressaltou Arcebispo e Grão-Chanceler da PUC-Campinas.

Livro: a materialização da memória de Dom Gilberto

A Semana Dom Gilberto Pereira Lopes também proporcionou o lançamento do livro “Dom Gilberto: no tempo de Deus”, o qual conta a trajetória do religioso e a promessa feita aos pais de que ele seria um servo de Deus. Desde pequeno, Dom Gilberto, que nasceu em 1927, na Bahia, frequentou o Seminário Menor, em Petrolina, Pernambuco, cidade em que cresceu. Cursou Filosofia e Teologia em Olinda. Foi ordenado presbítero, na Catedral de Petrolina, no dia 4 de dezembro de 1949, por Dom Avelar Brandão Vilela, então Bispo de Petrolina, depois Cardeal Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.

Vice Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr, Padre José Antônio Trasferetti, Dom Gilberto e Prof. Paulo Pozzebon/ Crédito: Álvaro Jr.
Vice Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr, Padre José Antônio Trasferetti, Dom Gilberto e Prof. Paulo Pozzebon/ Crédito: Álvaro Jr.

 

 

Trajetória

O ano de 1976 surgiu na Diocese de Campinas com um novo vigor. Dom Gilberto Pereira Lopes foi nomeado pelo Papa Paulo VI, no dia 24 de dezembro de 1975, como Arcebispo Coadjutor.

Sua posse canônica se deu na Catedral Metropolitana de Campinas, no dia 7 de março de 1980, dia em que se comemorava três anos de sua posse como Coadjutor na Arquidiocese. No dia 10 de fevereiro de 1982, foi promovido a Arcebispo de Campinas, recebendo o Pálio, por procurador, no Consistório, em 24 de maio do mesmo ano, realizado no Vaticano.

Na sua palavra de posse, Dom Gilberto já fazia alusão à administração da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Em 1981, na Assembleia do Regional Sul 1, Dom Gilberto foi escolhido para ser o seu representante na Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Recebeu, ainda, nomeação do Papa João Paulo II como Membro da Congregação para Educação Católica (Seminários e Institutos de Estudos), por meio de carta da Secretaria de Estado do Vaticano, datada de 5 de abril de 1989, pelo período de cinco anos. De 18 a 25 de abril de 1989, Dom Gilberto foi representante do Brasil no 3o Congresso Internacional sobre Universidade Católica, realizado em Roma, com 175 representantes de todo o mundo.

Ao completar 75 anos de idade, enviou sua carta de renúncia ao Papa João Paulo II, que aceitou o pedido em 2 de junho de 2004, nomeando Dom Bruno Gamberini como Arcebispo Metropolitano de Campinas. Dom Bruno, no dia de sua posse, em 1o de agosto de 2004, conferiu a Dom Gilberto as faculdades de Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas. Hoje, Dom Gilberto é Arcebispo Emérito de Campinas.

 

Afetividade como porta de entrada do aprendizado infantil

Projeto de Extensão da PUC-Campinas incentiva tomada de posição afetiva do professor em sala de aula e colhe bons resultados

 Por Amanda Cotrim

Não é preciso ter só competência para entrar em uma sala de aula e ensinar crianças de 7 a 12 anos de idade. É preciso compreender o lugar do professor, da criança e da escola; ou seja, é necessário olhar para o contexto social e saber quem é o aluno. As escolas públicas, localizadas em bairros com pouca ou nenhuma infraestrutura social, são as mais penalizadas pelo abandono do poder público e o trabalho do professor é afetado diretamente.

Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva. /Álvaro Jr.
Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva. /Álvaro Jr.

Como acessar esse aluno, que chega à escola e necessita de um ensino de qualidade, mas também de atenção? Como saber o limite entre ser professor e ser amigo? Essas perguntas motivaram a criação do Projeto de Extensão “Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil”, que tem como responsável a Profa. Dra. Rita Maria Manjaterra Khater, da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas.

O objetivo inicial do projeto era desenvolver atividades com os professores de escolas da rede pública estadual de Campinas. “A perspectiva teórica passa pelo entendimento da relação entre eu e o outro, onde a afetividade é considerada um elemento essencial para o processo de desenvolvimento humano; como uma porta de entrada para o aprendizado”, destaca a professora Rita.

As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste/Álvaro Jr.
As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste/Álvaro Jr.

As escolas públicas que participam do projeto foram escolhidas pela Diretoria de Ensino de Campinas Oeste, órgão responsável pela supervisão das escolas de maior índice de vulnerabilidade social. Os professores participantes lecionam para os anos iniciais (1ª a 5ª série) e os anos finais (6ª a 9ª série), além do Ensino Médio. Os encontros com a equipe do projeto de Extensão da PUC-Campinas são quinzenais e ocorrem na Escola Estadual Gloria Aparecida Rosa Viana, no Satélite Iris II, e na Escola Estadual Prof. Élcio Antonio Selmi, no Residencial Cosmos, ambas na região Noroeste de Campinas.

“Esse projeto está sendo essencial, pois nele discutimos situações que muitas vezes o professor passa na sala de aula, mas não divide com ninguém. A afetividade é uma construção, então, é fundamental que o professor seja carinhoso com o aluno, porque na casa da criança muitas vezes é o oposto, é uma vida de violência, e a escola é o lugar onde se pode fazer a diferença”, opina a Coordenadora dos anos iniciais da Escola Estadual Gloria Aparecida rosa Viana, Ana Julia Fernandes Silva.

“No momento em que escolhemos trabalhar com crianças, temos que ter consciência de que a relação afetuosa será construída no cotidiano e que a afetividade em sala de aula é uma ferramenta para o ensino. As crianças precisam da gente”, defende Graziele de Oliveira, professora da 1ª a 5ª série. Sua colega de trabalho, Vanizi Maria Marçal, compartilha desse sentimento: “Com o projeto da PUC-Campinas, podemos falar sobre as nossas vivências em sala de aula e trabalharmos juntos para aprimorar a nossa postura diante da criança”, considera.

Professores precisam ser ouvidos

Projeto: "Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil"/ Álvaro Jr.
Projeto: “Processos afetivos e relações interpessoais no contexto da educação infantil”/ Álvaro Jr.

Para o Coordenador dos anos finais (6ª a 9ª série), da Escola Estadual Prof. Élcio Antonio Selmi, Manuel Gondim, o projeto de extensão da Universidade se diferencia porque tem como foco o professor. Segundo ele, nos últimos anos, a escola em que Gondim trabalha registrou conflitos na relação professor x aluno ao que tange, principalmente, a indisciplina e ao desrespeito. “Esse projeto veio num momento muito importante. Era preciso ouvir o professor. Muitos projetos visam os alunos, o que é fundamental, mas quase não enxergam esse profissional que é essencial para a qualidade do ensino”, observa.

Gondim relata que no início das reuniões com os seus colegas professores e com a responsável pelo Projeto de Extensão da PUC-Campinas, Profa. Rita, surgiram algumas dúvidas, como, por exemplo, o limite do ser professor e ser amigo. “Nos encontros, discutimos muito isso, porque é uma dúvida geral. E o limite é justamente até onde vai o pedagógico”, ressalta.

Uma relação dialógica e dialética

Para a aluna bolsista do Projeto de Extensão da PUC-Campinas, Pamela de Oliveira, que está no 4º ano de Psicologia, “foi fundamental ter essa vivência com os professores e perceber o docente por outro ponto de vista. Ele, muitas vezes, é fragilizado por esse sistema de educação, o que o impossibilita de exercer a afetividade. E esse é o desafio do nosso projeto”, afirmou a estudante.

“Levamos sempre atividades lúdicas para motivar a reflexão durante os encontros junto aos professores e também porque acreditamos que essas atividades ajudam a construir a afetividade”, complementa o aluno bolsista do Projeto de Extensão, Romulo Lopes, de 20 anos, aluno do segundo ano de Psicologia.

Para a responsável pelo projeto de Extensão, Professora Rita, o entendimento do papel da dimensão afetiva para o desenvolvimento humano é uma importante contribuição da psicologia para a prática pedagógica. “Possibilitar para o professor oportunidade de discutir práticas facilitadoras da construção de uma boa relação entre professor e aluno permeada por segurança e aconchego emocional, solidariedade entre pares e com proximidade nos relacionamentos humanos, contribui para que a aprendizagem ocorra com maior eficiência. Este projeto de extensão espera colaborar na formação dos professores no que se refere ao aprimoramento dos processos afetivos do  cotidiano dessas escolas”, considera.

 

 

 

 

Projeto da PUC-Campinas auxilia no diagnóstico de crianças com atraso neuromotor

 O projeto é desenvolvido no âmbito da Extensão Universitária, pela Faculdade de Fisioterapia. Iniciativa capacita profissionais da unidade básica de saúde 

Por Amanda Cotrim

Instrumentalizar, capacitar e promover a autonomia de profissionais da área da saúde da Unidade Básica de Saúde (UBS), no Parque Floresta, na região Noroeste de Campinas, a fim de que eles identifiquem os fatores de risco ao desenvolvimento neuromotor, em crianças de zero a 24 meses de idade, e verifiquem se essas crianças apresentam o desenvolvimento motor compatível com as orientações da Caderneta de Saúde é um dos objetivos do Projeto de Extensão na atividade desde o início do ano.

O atraso neuromotor infantil se dá, entre outras razões, pela falta de estímulo dos responsáveis e por fatores socioambientais adversos à saúde, que afetam o sistema nervoso central, provocando diferentes alterações e sequelas. Nesse cenário, os profissionais das Unidades Básicas de Saúde têm papel relevante no diagnóstico precoce.

O Projeto identificou os profissionais de saúde da Unidade Básica selecionada como seu público-alvo e, desde então, promove oficinas técnicas e socioeducativas com este público para, no desenvolvimento da educação permanente, capacitá-los a identificar crianças com provável atraso de desenvolvimento e desenvolvimento normal com fatores de risco.

Segundo a docente responsável pelo projeto, Profa. Me. Maria Valéria Corrêa, da Faculdade de Fisioterapia, sabendo identificar fatores de risco, alterações e atrasos do desenvolvimento neuromotor infantil, os profissionais das Unidades Básicas de Saúde podem encaminhar as crianças, o mais rapidamente possível, para avaliação e tratamento específicos.

“Nesse aspecto, o Projeto carrega em si uma forte transformação social, à medida que o nosso público-alvo, que no caso são os profissionais da Unidade Básica de Saúde do Parque Floresta, tornam-se verdadeiros vigilantes do desenvolvimento neuromotor em bebês e crianças”, considera a Profa. Me. Maria Valéria.

De acordo com a docente da PUC-Campinas, as disciplinas curriculares da graduação que abordam temas envolvendo bebês e crianças demonstraram que quanto mais precocemente a criança com risco ou alterações em seu desenvolvimento neuromotor participar de um programa como este, desenvolvido pela PUC-Campinas, o diagnóstico cinético funcional será mais rápido e as intervenções que se fizerem necessárias serão realizadas precocemente.

O aluno de Fisioterapia que participa do Projeto de Extensão como bolsista, afirma que contribuir para que os profissionais do Centro de Saúde se tornem autônomos para identificar os fatores de risco ao desenvolvimento infantil e as crianças portadoras de atraso neuromotor é uma das suas motivações para participar. “Aprendi com o Projeto a respeitar a questão socioeconômica e cultural da população que frequenta o Centro de Saúde. Aprendo muito com a equipe multiprofissional, além de gostar da área de pediatria para a minha formação acadêmica”, ressalta o estudante Gustavo Martignago.

O Projeto no dia a dia dos funcionários

“A parceria com a PUC-Campinas está sendo muito bem desenvolvida, principalmente se considerarmos a região em que a UBS está inserida, com uma população infantil bastante carente. Estamos muito felizes com essa oportunidade porque o Projeto qualifica o trabalho dos profissionais: agentes comunitários, auxiliares, enfermeiros e médicos na identificação de riscos ao desenvolvimento neuromotor das crianças”, avalia a Coordenadora da Unidade Básica de Saúde no Parque Floresta, Luciamara Targa.

O Projeto de Extensão ainda está em desenvolvimento, mas projeta como resultado a produção conjunta de material informativo em forma de cartilha ou folder, em linguagem acessível, para explicar e treinar o conteúdo à família ou responsável pela criança.

“No final, publicaremos o material informativo como instrumento de orientação aos pais ou responsáveis pela população infantil do Projeto e para outras crianças, as quais serão beneficiadas apesar do término das atividades de Extensão”, finaliza a professora Maria Valéria Corrêa.