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Desafios para as Cidades Inteligentes no Brasil

Por Sílvia Perez

A Organização das Nações Unidas (ONU) tem apontado, com certa preocupação, o fato de a população mundial estar se tornando cada vez mais urbanizada. Nesse contexto, o desenvolvimento urbano passa a ser mais um desafio coletivo enfrentado no mundo todo, devido, dentre outras causas, aos processos não planejados presentes no crescimento das cidades. Esse crescimento desordenado, muitas vezes, tem gerado impactos negativos na infraestrutura urbana, com problemas nas mais diversas áreas como transporte e trânsito, poluição, saneamento, iluminação, habitação, entre outros.

Planejar a ocupação dos espaços na cidade garante a melhor organização e distribuição do território, proporciona desenvolvimento econômico já que o planejamento vai determinar quais locais serão utilizados para moradia, comércio, serviços e lazer, garantindo, assim, uma mobilidade urbana melhor. Conhecer todo ambiente urbano, seus entornos, com suas fragilidades e potenciais a serem explorados, a idiossincrasia de sua população, com suas necessidades e expectativas, se constitui no desafio deste novo século.

Dentro desse quadro, uma nova abordagem é discutida na atualidade e, inclusive, tem sido implantada em muitas cidades do mundo que buscam fazer frente a esta realidade. De acordo com o docente e pesquisador da PUC-Campinas, Prof. Dr. David Bianchini, aos poucos, um novo conceito foi se constituindo, em meio à complexidade desse desafio. “Esse conceito, nascido incialmente apenas como Cidades Digitais, avançou para Cidades Inteligentes, cresceu ainda mais como Cidades Inteligentes e Sustentáveis e, por fim, amadurece mais recentemente para Cidades Inteligentes, Sustentáveis e Humanas”, explica.

A ideia envolve a possibilidade de um planejamento territorial mais complexo ao utilizar-se da tecnologia mais recente em seus processos, gerando uma cadeia interligada e sustentável. O objetivo é conseguir oferecer ao cidadão lazer, trabalho, escolas, enfim tudo que for preciso para uma vida com qualidade. No mundo atual, organizações importantes como, por exemplo, a ISO (International Organization for Standardization), já se voltam para ajudar nessa tarefa e apontam indicadores internacionais que permitem medir os níveis de sustentabilidade, qualidade de vida e bem-estar (Os leitores que desejaram ir mais além poderão consultar a Norma ABNT NBR ISO 37120:2017).

Bianchini destaca que, aqui no Brasil, uma das primeiras iniciativas nesse campo, é o Projeto das Cidades Digitais, que foi instituído por meio da Portaria no 376, de 19 de agosto de 2011, publicada no Diário Oficial da União, em 22 de agosto de 2011. “É de significativa importância para o Brasil a existência de um projeto estruturante cuja meta busca favorecer a criação de uma cultura digital em nossa sociedade”, afirma.

O docente e pesquisador reforça que é importante salientar que a presença de infraestrutura adequada permite o início de todo esse processo. “A iniciativa governamental no Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) busca montar uma infraestrutura que viesse a viabilizar a existência de serviços, aplicativos, dentre muitos outros projetos”, complementa.

Atualmente, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem o projeto Minha Cidade Inteligente, que define uma Cidade Inteligente como um território que traz sistemas inovativos e tecnologias da informação e comunicação (TICs) dentro da mesma localidade. “O projeto Minha Cidade Inteligente objetiva, além da implantação de redes e sistemas de alta capacidade, implantar serviços e infraestrutura de monitoramento e acompanhamento das condições locais, permitindo gerar dados para criação de aplicações inovadoras, bem como permitir o amplo acesso às informações. Além disso, buscará prover às localidades alta capacidade de formação e capacitação da população.”, detalha o edital do projeto.

Os projetos para a criação de Cidades Inteligentes no país vão muito além do que fornecer internet gratuita para a população, consistem em mapear o município, para garantir informações como o monitoramento do trânsito para modificar a ordem dos semáforos automaticamente se necessário. Outra característica de uma cidade inteligente e sustentável é o uso de energia “limpa”, como a solar ou a eólica, a redução dos índices de emissão de poluentes e o uso de tecnologia para otimizar serviços e melhorar a qualidade de vida da população.

No entanto, segundo especialistas são muitos os desafios para a implantação de uma Cidade Inteligente no Brasil. ‘Esses desafios passam pela busca de soluções que envolvem a sustentabilidade dos projetos. Além de implantar é preciso garantir a manutenção pelo próprio município e, aí, esbarra-se no orçamento, onde obter e manter continuadamente os recursos necessários para esse fim? Uma estrutura adequada para capacitar servidores públicos nessas cidades para que aconteça uma gestão e uso adequado da rede e dos serviços (uso e gestão de aplicativos de e-governo, por exemplo)?”, detalha Bianchini.

O cenário, apesar de difícil, ainda poderá possibilitar que o país se aproxime do ideal, já que muitas cidades se empenham realmente em atender os requisitos que as tornem inteligentes. Vão assim se destacando em áreas determinadas, apontadas como inteligentes em categorias específicas, como por exemplo, as categorias mobilidade, meio ambiente, energia, economia, urbanismo, educação, dentre outras.

Em Campinas, por exemplo, o Portal oficial da Prefeitura (http://www.campinas.sp.gov.br), traz uma notícia que revela que o município busca destaque na área. “Campinas se preparou, nos últimos quatro anos, para se tornar uma das referências do País como cidade inteligente, feito que a colocou como a cidade (não capital) mais inovadora do Brasil, segundo ranking do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação”, relata a nota.

 

Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade

Integrando as comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade realizou de 7 a 10 de novembro de 2016 o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”

 

Por Amanda Cotrim

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” proporcionou um debate importante e cada vez mais necessário para a sociedade: a valorização do ser humano e o papel da Igreja diante desse tema. O evento, organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, aconteceu no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, no Campus I, e contou com conferências e mesas-redondas as quais discutiram temas como História e Conceitos Fundamentais, Justiça e Paz, Ciência, Fé e Transcendência, o Bem Comum e a Dignidade Humana e o Mundo contemporâneo.

A abertura do evento recebeu a Conferência “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais”, ministrada pelo Bispo da Diocese de Jales, Dom José Reginaldo Andrietta, com mediação do Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.

O Bispo de Jales elogiou a iniciativa da PUC-Campinas em discutir o tema da Doutrina Social e ressaltou a importância da aproximação do mundo acadêmico com a realidade social, em todas as suas circunstâncias. Segundo ele, é nesse sentido que sua conferência contribui para pensar o papel da educação e da universidade.

Nos dias que se seguiram, os participantes também puderem acompanhar a Conferência do Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, a qual contou com a mediação do Prof. Dr. Peter Panutto, intitulada “A Doutrina Social da Igreja: Justiça e Paz”.

Na oportunidade, Dom Airton enfatizou a importância e a necessidade da universidade católica para o convívio social. “Precisamos pensar qual sociedade estamos construindo, para que ela, sim, seja digna do ser humano e não o contrário, pois todas as nossas ações devem ter em vista o ser humano, uma vez que o pensamento social da Igreja traz o humanismo como alicerce”, defendeu Dom Airton.

O Grão-Chanceler da PUC-Campinas também destacou que a justiça se mostra fundamental na contemporaneidade. Para ele, a justiça se exerce diante de pessoas concretas e não de protocolos. “Só há justiça quando há solidariedade e amor”, justificou.

O público também pode conferir a mesa-redonda “Ciência, Fé e Transcendência”, ministrada pelo Prof. Dr. Ir. Clemente Ivo Juliatto, da PUC-Paraná, e pelo Prof. Dr. Newton Aquiles Von Zuben, da PUC-Campinas, com mediação do Prof. Dr. Glauco Barsalini, da PUC-Campinas.

Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”  - Conferência – “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais” Dom José Reginaldo Andrietta – Bispo da Diocese de Jales
Doutrina Social da Igreja foi o tema do Colóquio da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr. 

O evento, segundo o Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião, Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, realçou a relação Igreja e Sociedade, mostrando, assim, a tradição eclesial, confirmada no Concílio Vaticano II. “O tema do Colóquio toca em questões pertinentes do ponto de vista mundial, mas também nacional e local, como, por exemplo, o tema da paz, do trabalho, da propriedade privada e da liberdade religiosa. Além disso, o Colóquio teve um caráter interdisciplinar, pois a Doutrina Social da Igreja não se restringe a área da Teologia, mas aborda o Direito, a Economia, as Ciências Sociais, a Filosofia e a Comunicação”, destacou.

Direitos da pessoa humana

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” trouxe para uma das suas mesas-redondas, um tema atual: a discussão sobre os direitos da pessoa humana no contexto dos processos migratórios internacionais. Para esse debate, a Universidade contou com a mesa-redonda “A Doutrina Social da Igreja: o Bem Comum e a Dignidade Humana”, com o Prof. Me. Paulo Moacir G. Pozzebon, da PUC-Campinas, e com Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz e docente da Itesp-SP, Prof. Dr. Pe. Paolo Parise, com mediação do Prof. Dr. Pe. Edvaldo Manoel de Araújo, da PUC-Campinas.

Para o Professor Pozzebon, é preciso que os bens e serviços produzidos mundialmente sejam acessíveis a todos os seres humanos, ressaltando a importância do bem comum e os direitos do homem sobre os quais diz o Papa Francisco.

Na mesma linha, porém numa perspectiva específica da imigração, o Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz da Igreja Católica criticou o que ele chamou de “lógica sanguessuga”, em que alguns países “sugam” outros em benefício próprio, fazendo referência à exploração da força de trabalho de imigrantes em todo o mundo. “Não podemos pensar que o imigrante é motivo dos problemas das nações, pois esse pensamento legitima a exploração”, destacou.

A última Conferência do Colóquio aconteceu no dia 9, com o tema “A Doutrina Social da Igreja e o Mundo Contemporâneo”, presidida pelo Prof. Dr. Pe. Marcial Maçaneiro, da PUC-Paraná, com mediação do Prof. Me. José Donizeti de Souza, da PUC-Campinas.

O Colóquio teve encerramento com a Celebração Eucarística, em comemoração aos 75 anos existência da Faculdade de Filosofia, presidida por Dom Airton José dos Santos, na Catedral Metropolitana de Campinas.

Para o Vice-Reitor da Universidade e integrante do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, Prof. Dr. Germano Rigacci Júnior, o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” conseguiu promover uma reflexão sobre sistemas, se relacionando, segundo ele, com a discussão sobre a Encíclica Ladauto Si’, tema discutido no Colóquio do primeiro semestre de 2016, também na PUC-Campinas

A Pesquisa na PUC-Campinas

Por Profa. Dra. Sueli do Carmo Bettine

 Na década de 1980, foram implantadas na PUC-Campinas as Coordenadorias de Pós-Graduação e de Estudos e Apoio à Pesquisa, os Núcleos de Extensão de Saúde e Educação, a Assessoria de Planejamento da Reitoria, além de diretrizes da Carreira Docente. Como forma de fomentar a Pesquisa e a Extensão, a Universidade passou a contar com docentes em regime de dedicação para o desenvolvimento de projetos de Pesquisa, Extensão e Capacitação para os Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu.

Ainda nesse período, foram implantados os Programas de Bolsa de Pós-Graduação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/Ministério da Cultura (CAPES/MEC) e o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (1993).

A consolidação da Pesquisa na Universidade ocorreu durante a década de 1990; entretanto, é a partir de 2002, com a instalação da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, que se estabeleceu uma política de Pesquisa e Pós-Graduação. Tal política promoveu a reorganização dos Grupos de Pesquisa já existentes e a constituição de novos Grupos de Pesquisa, possibilitando a integração entre as atividades-fim da Universidade: Ensino, Pesquisa e Extensão.

As atividades de Pesquisa na PUC-Campinas ocorrem no âmbito dos Grupos de Pesquisa Institucionais que são certificados pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação junto ao Diretório dos Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq/MCTI; atualmente, a Universidade tem 46 Grupos de Pesquisa institucionalmente certificados junto ao CNPq.

As atividades desenvolvidas no âmbito dos Grupos de Pesquisa da PUC-Campinas visam contribuir para a expansão e consolidação da Pós-Graduação Stricto Sensu no país; tais atividades são desenvolvidas por docentes pesquisadores e seus orientandos de doutorado, mestrado, iniciação científica, de programas de educação tutorial e de trabalhos de conclusão de curso de graduação.

Os Projetos de Pesquisa são de natureza institucional, vinculados às Linhas de Pesquisa dos Grupos de Pesquisa e abrigados no contexto de um Plano de Trabalho de Pesquisa do Docente Pesquisador. As Linhas de Pesquisa são exclusivamente de natureza Institucional e definidas em conjunto com a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, considerando-se as políticas de fomento da Pós-Graduação no país e o desenvolvimento de áreas estratégicas para a PUC-Campinas e, ainda, alinhadas com a sua Missão e Valores.

STRICTO SENSU (Mestrado e Doutorado)

Em consonância com o Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2011-2020, que tem como uma de suas metas a ampliação da Pós-Graduação no Brasil, a PUC-Campinas implantou, entre 2014 e 2016, cinco novos cursos de Mestrado Acadêmico: Sustentabilidade; Linguagens, Mídia e Arte; Ciências da Saúde; Sistemas de Infraestrutura Urbana; e Ciências da Religião; e, também, um novo curso de Doutorado em Educação, que somados aos cursos anteriormente existentes compõem Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu nas seguintes Grandes Áreas: Ciências da Saúde, Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Engenharias, Interdisciplinar e Linguística, Letras e Artes.

LATO SENSU (Especialização)

Com a finalidade de atender às demandas da sociedade e acompanhando a dinâmica do mundo do trabalho, a Universidade oferece sistematicamente Cursos de Especialização nas mais diversas áreas do conhecimento cujo objetivo principal é a atualização e o aprimoramento profissional.

Profa. Dra. Sueli do Carmo Bettine é Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação

 

 

Editorial: Vamos falar sobre Ciência?

Na edição 164, o Jornal da PUC-Campinas dedica espaço para artigos, reportagens e entrevistas que analisam diversos aspectos da Ciência, esse lugar tão importante para o desenvolvimento da sociedade, mas também tão mitificado.

Produzir e falar sobre Ciência é fundamental para que ela se popularize e faça parte, cada vez mais, do dia a dia das pessoas. Por isso, o Jornal da PUC-Campinas preparou uma reportagem que aborda a relação entre jornalistas e cientistas, dois personagens fundamentais para que a divulgação da ciência aconteça.

O Jornal também debate a importância do ensino da Ciência e o preparo de novos cientistas desde os primeiros anos escolares: um exemplo bem-sucedido é o do Colégio de Aplicação PIO XII, da PUC-Campinas, que há oito anos mantém projetos que iniciam crianças e adolescentes na prática da pesquisa.

Há, também, nesta edição, a preocupação em abordar as diferenças entre Ciência e Tecnologia. O resultado é uma reportagem que mostra que a Tecnologia e a Ciência, quando juntas, podem e devem beneficiar toda a sociedade. Como contraponto, o Jornal também traz o artigo sobre ética e o uso político que muitas vezes é feito do conhecimento científico.

Produzir e falar sobre Ciência é fundamental para que ela se popularize e faça parte, cada vez mais, do dia a dia das pessoas.

Você sabia que a primeira mulher que se dedicou à Ciência data do ano 370 (depois de Cristo)? Em artigo elucidativo, professores pesquisadores da Matemática resgatam a trajetória de mulheres que transformaram o campo da Ciência.

Além dos artigos e matérias que orbitam a temática central, esta edição também abre espaço para os Projetos de Extensão da Universidade que têm impacto real na vida da população de Campinas e Região.

Informações e noticiário sobre Ciência, mais as seções fixas completam a edição 164, do mês de dezembro de 2015 do Jornal da PUC-Campinas. Aproveite o conteúdo e não deixe de encaminhar sugestões, críticas e comentários para o endereço eletrônico imprensa@puc-campinas.edu.br. Afinal, participar é o melhor caminho para fazer o jornal que você quer.

Artigo: Discursos, Ciências e Miçangas

 Por Eliane Fernandes Azzari

Para revisitar ciências e a relação entre a contestação de discursos de repetição e a ruptura de paradigmas, acato o papel político da linguagem  –  prática social  ideologicamente norteada – materializada em enunciados que me permitem a análise de  discursos, o que faço a seguir.

Trabalhando com Ciências Humanas na atualidade, interesso-me pelo novo paradigma que as Tecnologias da Informação e Comunicação Digitais (TICDs) têm fomentado na construção do conhecimento, oferecendo brechas para o trato pedagógico da linguagem.

Contrariando paradigmas vigentes, Francis Bacon, por exemplo, contestou discursos ao escrever ensaios em inglês que instigaram mudanças no pensamento científico ocidental tanto nas Ciências Naturais como nas Humanas – que só teriam atingido status de Ciência no início do século XX, quando Dilthey tratou estudos interpretativos acerca da vida por “ciências do homem ou do espírito”. Em Of Studies, Bacon inaugura um inglês menos prolixo para sugerir que um dos objetivos do ato de estudar é “pesar e considerar ideias”.

Trabalhando com Ciências Humanas na atualidade, interesso-me pelo novo paradigma que as Tecnologias da Informação e Comunicação Digitais (TICDs) têm fomentado na construção do conhecimento, oferecendo brechas para o trato pedagógico da linguagem. Nessa direção, via rede social síncrona, cheguei ao enunciado “Japão pede que universidades cancelem cursos de humanas” e, depois, a um texto publicado pela Embaixada do Japão no Brasil. Já que estudo discursos para, também, pesar ideias criticamente, leio no texto que afirma que o Japão é “especializado em módulos e processos de alta tecnologia e conhecimento técnico”, um discurso neoliberalista que reitera o conceito de estado-nação e adota tom assertivo (“será necessário aumentar a produtividade de trabalho”) para golpear as Ciências Humanas. A urgência em “focar aspectos vocacionais mais práticos” que “antecipem melhor as necessidades da sociedade”, trata a “vocação” para as tecnologias por mera instrumentalidade técnica, discurso contestável.

Numa sociedade perigosamente desprovida de Ciências Humanas não haveria promoção dos letramentos necessários para legitimar direitos e deveres – públicos e privados

Procurando a mesma rede por discursos de resistência, acabei por encontrar os de repetição. Uma comunidade popularizada por membros das Humanidades enuncia com humor: “Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga[1]” – satirizando, mas também reforçando, estereótipo identitário, contextualizado em uma ciência menor. “Fazer miçanga” remeteria à função-artesão, atuação posta às margens da sociedade tecnologizada?

Numa sociedade perigosamente desprovida de Ciências Humanas não haveria promoção dos letramentos necessários para legitimar direitos e deveres – públicos e privados. Assim, acalentar discursos de repetição tecnicistas e contrários às Humanidades destinaria seus profissionais a escolher apenas entre as velhas linhas de produção ou a fabricação de miçangas.

Prof. Me. Eliane Fernandes Azzari é docente na Faculdade de Letras 

Artigo: “Brilhar na Fé e na Ciência”

 Por Pe. Dr. Adriano Broleze

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.  Assim se inicia a Encíclica Fides et Ratio, que versa sobre a relação da fé e da razão.  Importante documento que desenvolve o tema muitas vezes concebido como antitético entre a Revelação e a Racionalidade humana. Um convite para compreender que, tanto a fé como a razão são características propriamente do ser pensante e, somente numa visão de entendimento, poderão ser assumidas como colaboradoras do desejo mais profundo do coração humano, ou seja, o anseio pela verdade.

As novas descobertas, sobretudo no campo da biotecnologia, evidenciam inumeráveis possibilidades ao desenvolvimento humano, contudo nem sempre uma tecnologia alcançável e aplicável é, humanamente (ética, moral e religião), aceitável. Seja pelo que entendemos do ser humano, como portador de dignidade inalienável, seja pelo que a religião expressa em conceber o mesmo humano como merecedor de não violação de sua vital sacralidade. O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico. A posição da religião, nesse senso, é justamente de afirmação, ou seja, de sustentação do valor de todo indivíduo e de todo ecossistema, nosso eu e nossa casa comum.

“O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico.”

As ciências bem o sabem que, defronte ao ser humano, não será possível adotar outra linguagem que não a da Dignidade, mas ao mesmo tempo, também são cientes que essa linguagem reclama contínua e fatigosa revisão. Não existe, todavia, na esfera do código simbólico, outra estrada a percorrer, senão a da reflexão que forjará as contingências do avanço e da autolimitação da pesquisa científica. A Igreja, nesse sentido, oferece uma significativa contribuição, sustentando uma visão integral do ser humano, visão que envolve não só a indispensável conceituação teórica de cada ciência, mas também a englobante visão antropológica, colhida na seara teológica, do pensante como mistério para si mesmo e, em comunhão com o outro.

Na história da relação entre Fé e Razão encontraremos, certamente, momentos turvos, que no entrincheiramento histórico podemos apreciar, todavia também não nos faltam elementos que indicam a gloriosa colheita que se pode desfrutar quando essas dimensões se unem. Vejamos, por exemplo, a conservação dos livros nos mosteiros desde a Idade Média, o nascimento das universidades, os grandes cientistas como Nicolau Copérnico (padre), Gregor Mendel (monge) e ainda Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly. Hoje a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano são destaque, sem ainda enumerar tantas universidades e escolas espalhadas pelo mundo.

“A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros”.

Nesse sentido, Giuseppe Moscati (1880-1927), sustentava que não deveria existir contradição ou antítese entre ciência e fé, ambas deveriam concorrer para o bem do homem. Médico e professor universitário ele testemunhou ao longo de toda sua vida um zelo no atendimento aos doentes, foi pioneiro na relação de proximidade com os doentes. Dizia: “Seja a dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor ou da caridade”. Conhecido como médico os pobres, foi canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1987.

A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros. Ao longo dos séculos, esses elementos serão observados e utilizados ora para salvaguardar uma ora para depreciar a outra. Contudo, o que não podemos nunca esquecer é que essas duas dimensões fazem parte de uma única realidade humana, que deseja ardentemente pela mais gloriosa tarefa da racionalidade, isto é, o desvelamento do mistério da verdade. Quando razão e fé se unem, esse desvelamento torna-se maravilhosamente possível.

Prof. Dr. Pe. Adriano Broleze- Faculdade de Teologia e Direito da PUC-Campinas

Iniciação Científica como caminho para o sucesso profissional

Por Beatriz Meirelles

Seja para enriquecer o currículo ou para quem pretende seguir a carreira acadêmica, a oportunidade de se inserir no universo da pesquisa, desde a graduação, está na Iniciação Científica (IC). No dia 30 de novembro de 2015, sete trabalhos foram premiados pela Universidade e oito receberam menção honrosa, nas áreas de Ciências Agrárias, Biológicas e Saúde, Ciências Exatas e da Terra e Engenharia e Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Lingüística, Letras e Arte.

Pró-Reitora de Pesquisa, Profa. Dra. Sueli Betini
Pró-Reitora de Pesquisa, Profa. Dra. Sueli Bettine

A PUC-Campinas também organizou pela primeira vez o Prêmio Temático, para quem está começando um Plano de Trabalho de Iniciação Científica, como foi o caso do estudante de Engenharia Matheus Cremasco Bertipaglia, orientado pelo Prof. Dr. Davi Bianchini, cujo trabalho trata do apoio de Redes de Sensores sem fio para a qualidade de vida de idosos. As premiações aconteceram no dia 30 de novembro, no auditório Dom Gilberto, no Campus I.

O orientador Prof. Dr. Davi Bianchini, o estudante Matheus Bertipaglia - Crédito: Álvaro Jr.
O orientador Prof. Dr. Davi Bianchini, o estudante Matheus Bertipaglia – Crédito: Álvaro Jr.

Uma das bolsistas premiadas, a aluna de Medicina Tamires Amorim Marques, orientada pelo Prof. Dr. Lineu Corrêa Fonseca, ressalta a importância da Iniciação tanto para o conhecimento mais aprofundado na área (em seu caso, a Neurologia), quanto para o seu desenvolvimento acadêmico. “A premiação é um reconhecimento dentro da minha faculdade por um projeto que eu desenvolvi aqui”, ressalta.

Na área de Ciências Exatas e da Terra e Engenharias, o aluno da Engenharia Química, Murylo Henrique Borges, que participa há três semestres da IC, conta que a Iniciação possibilitou que ele adquirisse conhecimento em muitos aspectos da vida acadêmica “Todo processo envolve muitos relatórios, pôsteres e, com isso, você aprende a produzir um artigo científico, tanto na formatação quanto na linguagem”, comenta Murylo. O estudante recebeu menção honrosa por seu trabalho concluído em julho de 2015. “Estou muito feliz, pois eu não esperava ganhar nada”, afirma.

Murylo Borges é aluno de Engenharia Química- Crédito: Álvaro Jr.
Murylo Borges é aluno de Engenharia Química- Crédito: Álvaro Jr.

A Iniciação Científica e o mundo de trabalho

A Iniciação Científica é um primeiro passo para a inserção daqueles que têm interesse na área acadêmica, mas de extrema importância também para quem pensa em se inserir no mercado de trabalho, uma vez que as empresas buscam cada vez mais a especialização de profissionais e a Iniciação Científica é uma ótima porta de entrada.

Aluna do terceiro ano do curso de Jornalismo, Viviane Celente- Crédito: Álvaro Jr.
Aluna do terceiro ano do curso de Jornalismo, Viviane Celente- Crédito: Álvaro Jr.

A aluna da área de Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Lingüística, Letras e Arte , do terceiro ano do curso de Jornalismo, Viviane Celente, participou da Iniciação Científica deagosto de 2014 a julho de 2015. Para a estudante, ao longo do processo foi que ela percebeu a importância em se envolver na pesquisa. Conta que além do conhecimento aprofundado sobre temas que envolvem seu curso, ela teve a oportunidade de apresentar seu trabalho em congressos e eventos acadêmicos. Tudo isso eu já levo no meu currículo e, com certeza, é um diferencial, por parte das empresas, na admissão de cargos na área do Jornalismo”, afirma.

Segundo a Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da PUC-Campinas, Profa. Dra. Sueli do Carmo Bettine, a Iniciação Científica (IC) contribui para a formação integral do aluno e marca o seu início no universo da pesquisa científica.

Ensino Médio

Engana-se quem pensa que iniciação científica é só para universitários. O Colégio de Aplicação PIO XII, junto com a PUC-Campinas, estimula os alunos do Ensino Médio a desenvolver a vocação científica por meio do Programa de Iniciação Científica Júnior – PIBIC/Jr.

O aluno participante desenvolve projetos de Pesquisa com a supervisão e orientação dos Professores Pesquisadores da Universidade.

O estudante de Engenharia Química, Murylo Borges, afirma que sua experiência foi muito enriquecedora com a participação e a colaboração dos alunos do Ensino Médio do Colégio Pio XII: “Eles querem aprender e estão ali para nos ajudar também; é uma grande troca de conhecimento”, reconhece.

Inovação

A PUC-Campinas promoveu, nos dias 22 e 23 de setembro, no Campus I, o XX Encontro de Iniciação Científica e o V Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação 2015, o qual contou com palestras, apresentação de projetos, além de minicursos nos períodos da manhã e da tarde, nas salas do prédio H15 da Universidade e no Auditório Dom Gilberto, no Campus I da Universidade.

Foram 462 trabalhos, entre apresentações orais e pôsteres, que tiveram avaliação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e os melhores foram selecionados para cerimônia de premiação, que aconteceu no dia 30 de novembro de 2015.

Confira os premiados de 2015 clicando aqui. 

Entrevista: Livro compara as representações da ciência na mídia

 Por Amanda Cotrim

Como resultado de sua dissertação de mestrado, defendida em 2013, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp, o docente do Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, lança o livro “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”, pela editora Pontes. A obra, a partir do discurso, reflete sobre como a imprensa representa os cientistas das ciências humanas e naturais. O livro também é uma oportunidade para pensar os sentidos de ciência na sociedade contemporânea. Confira o bate-papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com o autor.

O nome do seu livro é: “Do Jornalismo Literário ao Científico: biografia, discurso e representação”. O que você aborda nessa obra?

Essa obra é fruto do mestrado, desenvolvido no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor) / Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entre 2011 e 2012. Trata-se de uma análise de como o cientista e, consequentemente, a ciência são representados em biografias, já que esse gênero, híbrido entre o jornalismo, a literatura e a história, se propõe a narrar a vida de uma pessoa em detalhes. O livro faz uma análise de 10 biografias, publicadas numa série especial da revista Caros Amigos, comparando como são representados os cientistas das áreas de ciências humanas e das áreas de ciências naturais.

Explique qual foi o método de comparação usado e o que essa análise lhe trouxe. Ou seja, o que é possível considerar da sua pesquisa?

Para a comparação, busquei as representações no discurso, ou seja, como o discurso sobre ciência e sobre cientista faz circular e se constitui a partir de pré-construídos e da história. Essa análise levou em conta certas regularidades na forma de designar os cientistas, por exemplo. Só para citar genericamente: em geral, sociólogos ou antropólogos nunca eram chamados de “cientistas”, mas apenas de “professores” ou “estudiosos”, ao contrário do que acontecia com o físico ou o geneticista, por exemplo. Notei também certa diferenciação na narrativa: as biografias dos cientistas da área de ciências naturais eram marcadas pelos feitos, pela obra. Já as biografias dos cientistas da área de humanas focalizavam a trajetória de vida, a relação com a família e com os alunos. Cada disciplina trazia elementos que o jornalista imputava ao seu discurso ao narrar a vida do biografado.

O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr
O livro analisa 10 biografias, publicadas na revista Caros Amigos- Crédito: Álvaro Jr

Quais são as relações que você estabelece entre jornalismo literário e científico?

O jornalismo literário é um método de trabalho que pode ser utilizado em diversas editorias, para falar de diversos assuntos, desde que encontre para isso condições suficientes, como a possibilidade de uma apuração aprofundada, linha editorial e a linguagem esteticamente elaborada. Pode, portanto, estar presente na abordagem sobre cientistas e sobre ciência, principalmente, quando se fala em biografia. A questão é que as análises que fiz durante a pesquisa demonstraram que o jornalista encontra muito mais facilidade para produzir um texto com características do jornalismo literário quando vai abordar temáticas próprias das ciências humanas, afetado pela constituição histórica dos discursos e pela própria dificuldade em compreender conceitos.

Com quais autores você dialoga no livro e como você construiu suas bases argumentativas?

O livro é construído a partir das teorias do discurso, principalmente, a partir de Michel Pêcheux, Michel Foucault e Eni Orlandi, sobremaneira nos textos em que esses autores abordam a ciência e a constituição, formulação e circulação dos discursos. Do ponto de vista das reflexões sobre ciência, recupero ainda os conceitos de Charles Snow, que faz uma interessante análise de como o mundo contemporâneo vivenciou um distanciamento entre as ciências naturais e as humanidades, o que provoca um empobrecimento, uma dicotomia e uma dificuldade para a interdisciplinaridade que facilitaria uma visão mais ampla e detalhada da complexidade que constitui o real.

Você diz que utilizou Charles Snow, o qual faz uma análise de como o mundo contemporâneo distanciou ciências naturais e humanidades. Fala-se muito hoje em dia em interdisciplinaridade. Explique por que esse conceito se destacou na contemporaneidade e qual é a importância de uma ciência interdisciplinar?

A interdisciplinaridade ganha destaque a partir do momento em que o projeto positivista, de que a especificidade de cada disciplina, garantiria avanços e maior compreensão do mundo, mostrou-se falha e incapaz de compreender a complexidade. Além disso, a ciência, ao desconsiderar a interdisciplinaridade, tem uma visão que deixa de considerar a subjetividade do ser humano, os interesses sempre em questão nas pesquisas e descobertas, etc. A ciência moderna passou por uma verdadeira fragmentação do saber, como se não houvesse relações entre o que se estuda na biologia e o que é comprovado pela antropologia, por exemplo. Essa visão fragmentada ajudou, inclusive, a criar certa hierarquização entre as ciências, como se houvesse as mais importantes e as menos importantes, as mais objetivas e as menos objetivas. A interdisciplinaridade vem mostrar como a complexidade do mundo não pode ser compreendida apenas por um ponto de vista, que será sempre lacunar.

Você não acha que interdisciplinaridade em alguma medida poderia prejudicar o conhecimento científico, uma vez em que as coisas poderiam virar um conjunto de pontos de vista?

 Não. Para isso, é preciso que se deixe claro que fazer ciência pressupõe um processo rigoroso, sujeito a método e comprovação. A partir do momento em que áreas diferentes dialoguem em torno de seus resultados, lacunas são preenchidas. Não se pode, no entanto, deixar de lado o fato de que a ciência, como bem mostra Gilles Deleuze, estará sempre sujeita à subjetividade de quem a produz.

Quando falamos em Ciência, muitas vezes se imagina um cientista, trancado em seu laboratório, cheio de poções ao seu redor. Podemos dizer que existe um imaginário que perpassa a ideia de que ciência é algo “difícil” e distante da “massa”? Se sim, por que isso acontece?

Existe um imaginário, em primeiro lugar, de que o fazer científico seja uma exclusividade das ciências naturais. Essa imagem de alguém no laboratório é reflexo disso. Dificilmente, alguém pensa em um cientista como sendo alguém da área de sociologia ou de psicologia, por exemplo, embora essas áreas tenham todos os requisitos necessários para serem consideradas como tal. Esse imaginário tem início na própria escola básica. Logo nas séries iniciais, o aluno tem aulas de uma disciplina chamada “Ciências”, assim, no plural. Mas, o conteúdo diz respeito apenas às áreas de naturais, ligados à biologia, física e química. Nessa mesma disciplina, o estudante entra em contato com laboratório, misturas de substâncias, reações químicas e tudo parece uma mágica em que, associando elementos, se tem uma explosão, uma substância de outra cor. Na escola básica, o aluno tem aulas de história, geografia e outras tantas disciplinas que têm configuração de ciência, mas dificilmente alguém as nomeia como tal. Esse imaginário também é reforçado pela mídia. O chamado “jornalismo científico”, por exemplo, quase sempre está ligado a descobertas nas áreas de biologia, química, física e saúde. É muito comum, assim, que uma descoberta na área de psicologia, por exemplo, apareça nas editorias de “comportamento”, da mesma forma em que a antropologia, quando aparece, fica restrita ao campo da cultura. Por fim, há de se lembrar de que esse imaginário é também derivado da própria história das ciências, uma vez que as ciências humanas são bastante recentes – só surgiram no final do século XIX – e que o cientista da área de ciências naturais sempre, pelo seu caráter antecipador e transgressor, foi visto como um “louco” na história. Tudo isso vai sendo acumulado em termos de discursos e se constitui como uma percepção pública do que seja ciência. Os já ditos sobre ciência ao longo da história constituem os dizeres atuais.

Ciência e Mídia estão na mesma estrutura mercadológica

Por Amanda Cotrim

Depois que o cineasta brasileiro Fernando Meirelles abordou a dificuldade dos cientistas em se comunicarem com o público, durante o Congresso Brasileiro de Unidade de Conservação, em setembro, a relação entre mídia e ciência voltou a ganhar contornos nos debates entre cientistas e jornalistas. Como falar sobre temas tão complexos para o grande público? De quem é a responsabilidade pela divulgação científica?

Edson Rossi: "sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde". Crédito: Álvaro Jr.
Edson Rossi: “sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde”. Crédito: Álvaro Jr.

Nessa relação entre cientistas e jornalistas existe uma assimetria de expectativa. O jornalista busca uma coisa e o cientista outra. Essa é a conclusão que chega o professor de Jornalismo da PUC-Campinas, Edson Rossi, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado da notícia. “O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”.

Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.

A Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia da PUC-Campinas destaca que, no nosso atual contexto territorial em que as informações chegam de diferentes formas e se utilizam de meios também distintos, é fundamental que a ciência se aproxime da mídia, em especial dos profissionais de jornalismo, para se pronunciar de forma mais imediata e esclarecedora possível. “Eu acredito que é possível uma aproximação em prol de objetivos convergentes, como é o caso de informar corretamente, num primeiro momento e, posteriormente, contribuir com o processo de formação cultural da sociedade como um todo”, considera.

“O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”

No que tange as questões ambientais, segundo a professora Vera, essa aproximação se torna ainda mais necessária, já que o ambiente envolve a todos e impacta a qualidade de vida. “Divulgar corretamente o que está acontecendo, bem como as medidas que possam ser adotadas no sentido de mitigar os impactos, é função não apenas de uma mídia comprometida, mas da própria ciência que deve contribuir com informação segura sobre os diversos temas, esclarecendo a população sobre o seu papel e sua função”, enfatiza.

Além de uma questão de linguagem, a relação conflituosa e desconexa entre cientistas e jornalistas é resultado da complexa estrutura que começa desde a universidade. Essa é a questão colocada pela Pesquisadora em Comunicação e docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Profa. Dra. Márcia Rosa. Para ela, a produção científica e a produção jornalística estão inseridas em universos parecidos e por isso divergem. Ambas as produções são reguladas por uma estrutura mercadológica, segundo ela. “Muitas vezes, o pesquisador não está preocupado e nem tem interesse na divulgação científica do seu trabalho pela mídia. Ao contrário, a divulgação até pode atrapalhar que esse pesquisador consiga novos financiamentos. Então, o cientista está numa estrutura de mercado em que ele também compete com a imprensa. O pesquisador precisa publicar nas revistas científicas, realizar artigos, produzir. Ou seja, os cientistas passam pelas mesmas questões que passam os jornalistas numa redação. Cada um desses profissionais buscará os seus interesses”.

Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação - Crédito: Álvaro Jr
Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação – Crédito: Álvaro Jr

Novas formas de comunicar ciência

“Vivemos uma estrutura com paradigmas do século XIX, mas com os jornalistas e cientistas que são do século XX e XXI e isso causa um caos, uma vez que cientistas e jornalistas continuam com hábitos do século XX. Essa estrutura não permite mais que a comunicação se realize de forma passiva entre jornalista e fonte. A relação hoje é dialógica. Em rede. São vários interlocutores e reações”, contextualiza Márcia Rosa.

As redes sociais fazem parte dessa comunicação dialógica e servem como um espaço de embate de versões entre pesquisadores e jornalistas. “Se o jornal disser X, o pesquisador, imediatamente, vai à rede social desmentir o jornal”, avalia o jornalista Edson Rossi.

Com pouco espaço para as notícias de ciência, quem perde é a sociedade, defende Rossi. “Por mais que os conflitos existam, o fato de cotidianamente se falar sobre ciência no jornal, inevitavelmente se formará um público no assunto. Às vezes o pesquisador não quer divulgar nos veículos de massa, apenas revista cientifica segmentada”, constata.

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Para Rossi, “o pesquisador que abre mão do grande veículo de imprensa para se comunicar, pode achar que isso não fará diferença do ponto de vista da pesquisa, mas o que ele pesquisou (o que não deveria ser em causa própria) deixará de ser dividido com as pessoas. O cientista também está deixando de contribuir para a educação científica. É a sociedade que perde”, conclui.

Artigo: O uso do conhecimento científico

Por Norma Reggiani

O desenvolvimento do conhecimento científico é baseado na observação, elaboração de um modelo e verificação experimental do mesmo. A necessidade de verificação experimental torna o conhecimento científico confiável, mas também restringe severamente as perguntas para as quais buscamos respostas. Sabemos que pouco sabemos. A natureza tem infinitos segredos ainda não revelados nem compreendidos por nós. Ter consciência da limitação do nosso conhecimento e das nossas ferramentas para aumentá-lo nos torna humildes e respeitosos pela natureza na qual estamos imersos e da qual somos uma pequena parte.

Dentro da limitação do alcance do conhecimento científico muitos avanços preciosos foram feitos. O que conhecemos da matéria e da vida nos permite ter mais conforto e, bem mais importante, nos permite viver mais e com melhor qualidade. Na área tecnológica conseguimos, por exemplo, nos locomover e nos comunicar com muito mais facilidade. Na área da saúde são indubitáveis os avanços e os benefícios para a humanidade.

A construção do conhecimento científico é uma atividade humana, assim como o seu uso. Desse modo, ambas estão vinculadas à natureza humana. Se ao construir um conhecimento o homem o faz de acordo com a sua estrutura de pensamento, ao utilizar esses conhecimentos ele o faz segundo a sua ética. Todo conhecimento pode ser utilizado de diferentes maneiras, em diferentes contextos. Quando nossos ancestrais descobriram que com um pedaço de madeira poderiam ter uma ferramenta que aumentava a força de um golpe do seu braço, eles descobriram um modo melhor de caçar e, com isso, garantir mais a vida de sua prole e talvez nossa existência hoje. Mas a confecção dessas ferramentas também forneceu a eles um modo de matar uns aos outros.

A confecção das ferramentas pelos nossos ancestrais resultou de uma atitude de observação e teste da natureza. A mesma que nos levou a conhecer o que conhecemos hoje a respeito dos átomos, do cosmos e da vida. A ciência nos permite conhecer a estrutura atômica que possibilitou desenvolver técnicas de diagnóstico como ressonância magnética e técnicas de cura como radio e quimioterapia. O conhecimento da estrutura atômica possibilitou também obter energia do átomo, o que pode ser usado para expandir a nossa matriz energética, assim como para construir a bomba que foi utilizada sobre Hiroshima, em agosto de 1945. A decisão de se construir uma usina ou uma bomba e, mais ainda, a decisão de como utilizá-la é política, como é também política a decisão de como será o acesso da população a medicamentos e técnicas de terapia desenvolvidos pela ciência. Ambos os casos, por ação ou por omissão, podem levar a perdas humanas.

A questão do uso do conhecimento científico existiu desde o início da humanidade e existe até hoje. E o que nos norteia nessa questão? O desenvolvimento de uma ética baseada na valorização da vida humana e no reconhecimento da igualdade de direitos de todos os homens, independentemente de suas diferenças.

Profa. Dra. Norma Reggiani é física e professora na PUC-Campinas.