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A praia: Filme narra perda de ingenuidade de jovem mochileiro

Por Cauê Nunes, Mestre em Divulgação Cultural e Científica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, Graduado em Jornalismo pela PUC-Campinas, Docente da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas, Diretor, Editor e Roteirista de Cinema.

 

No filme “A Praia” (2000), de Danny Boyle, o ator Leonardo DiCaprio interpreta Richard, um jovem mochileiro em busca de aventuras na Tailândia. Durante o percurso, o rapaz descobre que a vida é mais complexa do que imagina.

Por meio de um conhecido, ele descobre um mapa de uma praia “secreta”, em que não há turistas, um paraíso quase intocado. Lá, viveria uma comunidade alternativa, uma espécie de sociedade hippie, que recusa o modo de vida do mundo contemporâneo.

Richard convence um casal de amigos e os três saem à procura da praia. Depois de muita dificuldade eles conseguem encontrar o local, mas a realidade é bem diferente do esperado. A comunidade existe e, no início, recebe bem os novos visitantes. De fato, parece ser uma comunidade hippie, vivendo de modo libertário, longe das opressões do mundo capitalista. Aos poucos, Richard percebe os problemas. Primeiro, quem quer sair da comunidade não consegue, já que o local é “secreto” e deve permanecer como tal. Segundo, ele descobre que o grupo sobrevive cuidando de uma plantação de maconha para traficantes locais. Na verdade, a comunidade, que seria isolada, está totalmente integrada à lógica econômica.

Uma das cenas marca muito bem o processo de perda do vislumbre do jovem pela comunidade. Um dos membros foi ferido por um tubarão e passa dias gritando de dor, criando um grande desconforto entre as demais pessoas. Eles decidem deixar o homem no meio da floresta para morrer longe e parar de incomodar. A tal “sociedade alternativa” reproduz o processo de exclusão social, assim como nas sociedades contemporâneas.

O diretor Danny Boyle, conhecido pelo filme “Trainspotting”, faz diversas mudanças de ritmo, dando à obra um aspecto desigual: ora se aproxima do filme de ação, ora opta por algo mais introspectivo e experimental, no entanto o filme toca em diversos assuntos importantes.

O que chama a atenção é a mudança do protagonista durante a viagem, já que no início é um jovem ingênuo em busca de aventuras superficiais e ao final é alguém que enxerga o mundo como ele é, em todas as suas contradições.

Dicas de Cinema

Por Armando Martinelli

Festival Varilux de Cinema Francês 2017

De 7 a 21 de junho, 55 cidades brasileiras, incluindo Campinas, receberão o Festival Varilux de Cinema Francês 2017, que apresentará os mais recentes filmes estrelados por Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Juliette Binoche, Marion Cotillard, Guillaume Canet e Omar Sy, entre outros expoentes do Cinema Francês.

Além de conhecerem a diversidade de gêneros e temáticas da nova cinematografia francesa, o público também poderá assistir ao clássico “Duas Garotas Românticas” – que completa 50 anos e será exibido em cópia restaurada no Festival.

Confira no site (www.variluxcinemafrances.com) a relação de filmes, sinopses, trailers, e informações sobre as sessões, com horários e salas.

Mais informações pelo:
Facebook: Festival Varilux de Cinema Francês (/variluxcinefrancês)
Instagram: @variluxcinefrances
Youtube: Festival Varilux de Cinema Francês.

Gabriel e a Montanha

Previsto para chegar aos cinemas nacionais no segundo semestre, o longa-metragem “Gabriel e a Montanha”, dirigido por Felipe Barbosa, fez sua estreia mundial no dia 21/5, durante a Semana da Crítica, mostra paralela do Festival de Cannes, na França, sendo agraciado com o prêmio de Revelação. O filme retrata a viagem do carioca Gabriel Buchmann pela África, com o objetivo de analisar de perto a pobreza e se qualificar para um doutorado em políticas públicas na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA).

Baseado em anotações, e-mails de Gabriel para a mãe e a namorada, além de entrevistas com pessoas que cruzaram seu caminho na África, o filme recria os países visitados e as condições da viagem realizada logo após finalizar sua graduação em Economia.

Este é o segundo longa-metragem de ficção dirigido por Felipe Barbosa, que esteve à frente do elogiado “Casa Grande” (2014), ganhador do prêmio do público no Festival do Rio.

Confira uma cena disponibilizada do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=WzqOhIKYjsk

Fogo no Mar: O drama dos refugiados e a indiferença da sociedade

 

Fogo no Mar, dirigido por Gianfranco Rosi, foi um dos filmes apresentados na 1a Mostra de Cinema Italiano de Campinas, acontecida de 06 a 13 de abril, que contou com exibições e debates na PUC-Campinas.

Vencedor do Urso de Ouro (melhor filme) no Festival de Berlim 2016 o documentário prima por uma produção requintada, que se divide em duas perspectivas centradas em Lampedusa, pequena ilha italiana, localizada na região da Sicília, e que se tornou porto para os refugiados oriundos de barco ao continente europeu. Por meio do retrato do aparato militar organizado pelo governo italiano para resgatar os refugiados, e do dia a dia praticamente inalterado dos moradores da pequena província, o diretor constrói uma metáfora belíssima sobre a Europa e a indiferença da maioria das pessoas com esse drama social.

O caminho escolhido parece ser o de abraçar essa contradição e repassá-la ao espectador. Mas, mesmo que não totalmente em linguagem direta, as nuances são perceptíveis, principalmente, nas escolhas estéticas do filme. Em um campo há a utilização de câmeras mais lentas acompanhando o ritmo dos moradores da ilha, conduzidos pelo garoto Samuele e suas pequenas diversões cotidianas, como atirar com estilingue nos pássaros, por outro há o drama dos refugiados, dos mais variados países, confinados a línguas não compreensíveis, e a falta de destino. Essa rotina é captada por uma câmera mais vibrante, com tomadas e cortes ágeis. A diferença parece demarcar o contraste dos moradores da ilha com suas vidas lentas, consolidadas, enraizadas, com o movimento dos imigrantes, fugitivos em busca de algum caminho, de um recomeço.

Os pedidos dramáticos de socorro captados, interceptados pelos oficiais italianos, as cenas de resgate registradas, inclusive com a chegada de pessoas mortas em meio às péssimas condições de viagens, contrastam com as metáforas que permeiam o filme e servem como maior direcionamento do pensamento de Rosi. Em uma delas, após um exame oftalmológico, o garoto Samuele descobre ter uma das vistas preguiçosa, e passa boa parte do filme com um dos olhos tapado. Esse treinamento para olhar com olho que não está acostumado a ver é o exercício de consciência proposto por Fogo no Mar, para que as mazelas tão flagrantes daquelas pessoas possam ser acolhidas por uma reflexão que extrapole as limitações tradicionais, de uma sociedade contaminada pela intolerância e xenofobia.

Fogo no Mar é, talvez, o representante contemporâneo mais significativo de uma estética do documentário que não se propõe a ser explicativo, com ênfase na realidade. Ao contrário, insere poesia e emoção para potencializar o real. Como citado em entrevistas a veículos de comunicação, o Diretor Giafranco Rosi elege Robert Flaherty, autor de clássicos como Nanuk o Esquimó, O Homem de Aran e Louisiana Story, sua grande referência. Em Lousiana Story, Flaherty conta a história do petróleo pelos olhos de um garoto, assim como Rosi narra um dos principais dramas contemporâneos pelo olhar de outro menino.

O CINEMA E O SAGRADO

Por Prof. Me Arnaldo Lemos Filho, professor das Faculdades de Ciências Sociais, Direito, Educação e Serviço Social

A exibição do filme “Silêncio”, de Martin Scorcese nos oferece a oportunidade de analisar as relações entre o cinema e o sagrado. A própria palavra silêncio estrutura a narrativa, referindo-se a três níveis: uma complexa questão teológica, a resistência do meio japonês à evangelização e a fé dos católicos japoneses perseguidos. Na alma do padre Rodrigues, personagem central, a dúvida instala-se: onde está Deus perante o sofrimento dos seus filhos?

O filme permite discutir a possibilidade de o sagrado ser expresso na tela. Historicamente, todas as artes possuem suas raízes na religião. Em todas as suas manifestações primitivas, as artes se inspiraram nas crenças religiosas. O cinema, “la sola arte non nata del culto” teve, ao contrário das outras artes, origens eminentemente profanas. Nascido do desenvolvimento moderno da técnica, no contexto do cientificismo e da ideologia do progresso do homem, é profano também por sua estrutura industrial e comercial.

O cinema pode trazer as questões de fé e da religião cristã. Mas quais são os limites e o poder da imagem para a expressão do sagrado e do religioso?

A noção de sagrado é complexa e ambígua. Os termos “sagrado” e “religioso” não são idênticos, pois um tema religioso não constitui condição necessária nem suficiente para se atingir o sagrado. Muitos filmes de santos ou de temas bíblicos não têm nada de sagrado. Por outro lado, um filme pode atingir a evocação do sagrado sem possuir um tema estritamente religioso.

Daí se inferem duas vias, ou melhor, duas leis na evocação do sagrado no cinema: uma, a transcendência que se encarna, a outra, aquela que acentua a encarnação da transcendência. Na primeira via, o cinema atinge o sagrado por um estilo de transparência, pela ascese e austeridade no cenário, na iluminação e na música. São poucos os filmes que alcançam a expressão do sagrado por essa via e devem seu êxito aos dons verdadeiramente criadores de seus diretores.

Na segunda via, a encarnação da transcendência, o cinema se coloca dentro de seus limites, procurando atingir o sagrado inserindo a transcendência no carnal, no cotidiano. A face de um homem pode tornar-se para seus irmãos a face humana de Deus: um santo, um pobre, um pecador. Escolhendo enraizar-se na banalidade e insignificância do cotidiano, tais filmes se aproximam do mistério da Encarnação.

Ao assistir ao filme, procure definir qual via Scorcese escolheu para expressar o sagrado.

Veja o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=cdQwu7SEuZQ

 

Pedra De Paciência: Mergulho Na Alma Feminina

Por Prof. Dr. José Estevão Picarelli – Diretor-Adjunto CEATEC da PUC-Campinas

Quem já experimentou sabe que o aparentemente simples ato de desabafar ajuda a aliviar ou a aceitar melhor o sofrimento ou as angústias. Faz alguma diferença, mas não importa fundamentalmente, se o desabafo acontece no confessionário da igreja, na sessão de terapia, na mesa do bar ou em um ombro amigo. Desabafar é socializar sentimentos, publicar sofrimentos, desnudar segredos íntimos, lavar a alma, por para fora o que dentro incomoda.

Em algumas regiões do planeta, onde a humilhação e a opressão à mulher são práticas comuns e, pasmem, às vezes até legais, a sabedoria feminina se faz necessária e presente. De mãe para filha, as mulheres ensinam umas às outras a escolher uma pedra para fazer o papel de ouvido amigo. Isso mesmo, um pedaço de rocha, chamada pedra de paciência. Assim, a mulher, quando angustiada, conversa reservadamente com a pedra que atravessou seu caminho. Neste mineral companheiro são descarregadas frustrações e injustiças. Quando essa pedra é quebrada, a mulher acredita que também suas angustias viraram pó.

 Indicado como melhor filme estrangeiro para o Oscar de 2014, Pedra de Paciência é o título do belíssimo filme do diretor Atiq Rahini, produção cooperada de França, Alemanha e Afeganistão. A película é ambientada em uma região deste último país, destruída pela guerra santa islâmica. Em uma paisagem de ruínas, uma mulher vive o desespero de cuidar de seu marido, jihadista ferido e em coma. Na sua imensa solidão, moldada pela cultura fundamentalista, por costumes e hábitos machistas e desfavoráveis, ela busca, no desabafo, uma saída para a vida. Julgando que os ouvidos do marido estão surdos pelo coma, ela abre, numa sincera confissão, a sua mais profunda intimidade Em um monólogo, a atriz iraniana Golshifeh Farahani, dá uma interpretação maravilhosa dessa personagem cujo nome, nem mesmo o filme, deixa conhecer.

Em pouco mais que uma hora e trinta minutos ficamos surpresos em saber que, em que pese a falta de água, a fome e as bombas, existem coisas que podem machucar mais e que podemos encontrar do nosso lado, uma mulher vivendo a mesma condição feminina.

Cinema: Criança e Política

Por Wagner Geribello

A esteira de consequências nefastas deixada pela política não é pequena e vai das mais brandas, como indispor pessoas de orientações ideológicas diferentes, até eventos mais graves, como enfrentamentos, prisão, tortura e morte, envolvendo tanto aqueles que militam e atuam politicamente, mas também respingando em inocentes, que pagam pelo que não fizeram.

Crianças estão na ponta da lista de inocentes em cujas contas são debitadas cobranças geradas pelos descaminhos da política. O cinema já tratou do assunto diversas vezes, incluindo o cinema latino-americano que, no início deste século, colocou duas excelentes produções sobre o tema: uma brasileira, dirigida por Cao Hamburguer, e outra argentina, assinada por Marcelo Pineyro.

O filme nacional, O ano em que meus pais saíram de férias, foi lançado no ano 2000 e o argentino, Kamtchatka, três anos depois, focando a personagem central: o garoto brasileiro, Mauro, na faixa dos dez anos e Harry, o garoto argentino, mais ou menos da mesma idade, ambos filhos de militantes de esquerda, perseguidos pelas ditaduras que infestaram este subcontinente, por quase trinta anos.

Nas duas produções, a intenção é mostrar que, apesar do distanciamento consequente do desconhecimento inocente, crianças sofrem muito quando o exercício da política escapa dos contornos mínimos de civilidade para mergulhar no universo da violência.

Nos filmes em comentário, Mauro e Harry sofrem a dor da separação, medo, angústia e incerteza, sem saber exatamente o motivo, porque a lógica do confronto político-ideológico não cabe na interpretação orientada pela inocência (leia-se pureza) infantil.

Assim, além de delatar o confronto político por conta do seu saldo de violência, os diretores mostram como a lógica infantil supera a racionalidade adulta, deixando transparecer que melhor seria a sociedade nortear-se por aquela, em vez de conduzir-se por esta.

Vale conferir as duas produções, lembrando, ainda, duas curiosidades: uma sobre o título do filme argentino, relacionado com o jogo War, e a outra, sobre o filme brasileiro, que teve locações externas em Campinas, mais exatamente na confluência das ruas General Marcondes Salgado e Luzitana, uma quadra além da Casa de Saúde de Campinas, escolhido pelo perfil de época da arquitetura das construções ali existentes.

Professor Doutor Wagner Geribello é Doutor em Educação e crítico de cinema.

Aulas de Filosofia foram embrião para primeiro Cineclube universitário

Exibições de filmes acompanhados de debate aconteciam no Prédio Central da PUC-Campinas e no Centro de Ciências, Letras e Artes

Por Amanda Cotrim

As aulas de Estética do Professor Padre Lúcio de Almeida, docente da Faculdade de Filosofia, da antiga Universidade Católica – atual PUC-Campinas – são exemplos daquelas aulas que mais do que ensinar, inspiram e fazem os alunos caminharem adiante.

Em 1964, a Faculdade de Filosofia promoveu uma semana de estudos filosóficos – algo recorrente no curso -, e o tema daquele ano foi cinema. Na ocasião, vários filmes foram exibidos, incluindo películas de Humberto Mauro e Alain Resnais, hoje, clássicos do cinema mundial.

“A partir dessa semana de estudos, pensamos: Por que não criar um lugar permanente de discussão de cinema, em Campinas”? Lembra um dos fundadores do primeiro cineclube universitário da cidade, Luiz Borges, que, à época, era estudante de Direito da PUC-Campinas, e garante que o interesse pelo cinema sempre foi cultural e não um simples entretenimento.

Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.
Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.

“O contexto histórico no Brasil e no mundo era especialmente propício para cinema. Havia uma ebulição de criatividade na Europa, Leste Europeu, Ásia, o cinema independente dos EUA e o Cinema Novo, no Brasil.  Para a nossa geração, o Cinema Novo foi um acontecimento. A primeira vez que assistimos ao filme ‘Deus e o diabo na terra do sol’, de 1964, do Glauber Rocha, foi um choque”, recorda Borges, que ainda cita os clássicos filmes de Ingmar Bergman e Federico Fellini.

Em março de 1965, Luiz Borges, Dayz Peixoto e outros estudantes formaram, oficialmente, o Cineclube Universitário de Campinas. “Todas as exibições eram acompanhadas de debates. Entregávamos, em todas as sessões, um folheto com uma crítica sobre o filme que seria exibido. A crítica cinematográfica sempre fez parte do Cineclube”, conta Dayz, que foi estudante de Filosofia da então Universidade Católica.

Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.
Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.

Cineclube e a Universidade

“O Cineclube tinha total relação com a Universidade; uma das normas era que a Diretoria só fosse composta por alunos da Universidade Católica – o que depois se abriu para estudantes de outras universidades” -, afirma Dayz. “Cada classe de cada curso havia um representante do Cineclube. Chegamos a ter 300 associados, que contribuíam financeiramente. O projeto só funcionou porque havia um objetivo em comum”, destaca Borges.

As exibições e os debates aconteciam nas dependências do antigo Campus Central da PUC-Campinas, no auditório do Centro de Cultura Letras e Artes, entre outros espaços culturais. “Não havia um espaço físico próprio. Essa foi a nossa coragem”, ressalta Dayz.

O CCLA, que sempre apoiou entidades culturais e educativas da cidade, teve relevância histórica para a PUC-Campinas. Segundo Dayz, “os debates sobre a necessidade de uma faculdade para Campinas nasceram no auditório do Centro de Ciências, Letras e Artes. Podemos dizer, então, que o CCLA foi o marco zero tanto para a criação da PUC-Campinas quanto da Unicamp”, orgulha-se ela que chegou a ser a única presidente mulher do CCLA.

Cineclube cresce e aparece

Os fundadores do Cineclube Universitário de Campinas não imaginavam que uma vontade que começou nas aulas de Filosofia da PUC-Campinas poderia se transformar num mercado alternativo do cinema de arte. “Localizamos uma empresa que trabalhava com grandes distribuidores e passamos a negociar as exibições. Eu ia até São Paulo, na Rua do Triunfo, pegava o filme, voltava para Campinas e negociava o aluguel com os cinemas da época, como o Cine Brasília e o Cine Voga, entre outros”, contextualiza Borges. “Todos ganhavam: a distribuidora, o cinema e o Cineclube, que começou a arrecadar receita”.

O dinheiro possibilitou uma nova fase para o Cineclube Universitário: a publicação de um jornal – que teve cinco edições e durou de 1965 a 1966 – e a produção de curtas metragens, sendo os primeiros o filme Um Pedreiro, que teve roteiro de Borges e Direção de Dayz Peixoto, o curta O Artista, também de autoria de Borges e o filme Dez Gingles para Oswald de Andrade, dirigido por Rolf de Luna Fonseca, com roteiro de Décio Pignatari, tendo o Professor Francisco Ribeiro Sampaio no papel de Oswald.

 “Todas as produções contaram com o apoio imprescindível de Henrique de Oliveira Júnior – um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de Campinas -, que era nosso fotógrafo e técnico”, esclarece Borges.

O Cineclube Universitário manteve suas atividades até 1973, sendo a última ação o lançamento de um documentário de Rolf Fonseca.  Seu fim, segundo Dayz, se deve essencialmente ao fato de as pessoas que participaram terem seguido suas carreiras e adquiridos outros compromissos. Se ainda estivesse ativo, em 2015, o Cineclube teria completado 50 anos.

Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo
Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo

Cinema e o século XXI

Na opinião de Borges, a situação do cinema não mudou muito no que tange o acesso aos filmes de arte daquela época até hoje. “Estamos passando mais ou menos pela mesma situação. Mas antes, chegavam poucos filmes, mas chegavam; hoje não chega filme algum”. Além disso, para ele, “criar um Cineclube Universitário como foi antes, nos dias de hoje, torna-se um desafio muito maior, porque as pessoas antes estavam mais próximas, um contexto oposto aos dias atuais”,”, defende.

Apesar disso, o amor pelo cinema não diminuiu. “Nada se compara à experiência única do cinema, com o apagar das luzes e o filme projetado na tela”, finalizam Borges e Dayz.

 

CINEMA – UNIVERSIDADE NA TELA

Mãos uma ao lado da outra, dedos para cima, unidos nas pontas, em ligeiro movimento de atrito…

Sem usar palavras, é assim que o costume determina como expressar grandes quantidades, gesto que se adapta como luva para demonstrar o volume de filmes ambientados ou tematizados na tradicional instituição da universidade. São muitos.

Rápida consulta às listagens de títulos mostra que já foi grande e continua intenso o uso da academia para fazer filmes, alguns fundamentados na realidade, outros nascidos da mente fértil dos roteiristas.

Todavia, se o volume é grande, variedade e originalidade de filmes sobre universidade não são tão extensas. Quanto à origem, por exemplo, os americanos dominam com folga as estatísticas, seguidos pelos britânicos, fazendo minguar, comparativamente, a lista de produções ambientadas nos campi, expressas em idiomas diferentes do inglês.

Fãs do cinema argentino, por exemplo, especialmente de Ricardo Darin, certamente conhecem tese sobre um homicídio, de 2013, em que o mais conhecido ator portenho da atualidade interpreta o professor de Direito envolvido em um crime cometido no campus. Todavia, exemplares como esse são raros, fato que mantém a academia americana muito à frente de todas as outras no quesito “aparecer nas telas”.

Contudo, mesmo no recheado farnel de Tio Sam, alguns elementos da universidade permanecem ausentes dos roteiros, quando se trata dos filmes de ficção. Entre as ausências, figura a história da universidade, seja no sentido totalizador do termo, seja no tratamento de universidades individualmente tomadas.

Portanto, quando vivemos o clima de festa e celebração dos 75 anos da PUC-Campinas e a ideia de história universitária nos vem à cabeça, os neurônios acionam a memória, o computador vasculha os arquivos, sem encontrar evidências de que o cinema ficcional tenha tratado intensamente do tema.

Se a história universitária não frequenta o enredo dos filmes tematizados na academia, então, sobre o que versa essa cinematografia?

As opções são muitas e vão desde comédias, a maior parte muuuuuuito chatas, até biografias romanceadas de acadêmicos que se tornaram famosos, como o matemático John Nash, ganhador do prêmio Nobel. No meio do caminho há dramas, romances, crimes e até espionagem, variedades que o leitor pode escolher navegando a Internet ou nas listas de exibições, como Netflix, entre outras possibilidades de cardápio.

Assim sendo, verificada a carência de filmes que resgatam a história universitária, como seria oportuno e conveniente para a edição de aniversário do Jornal da PUC-Campinas, mas havendo, sempre, o compromisso desta coluna e a expectativa do leitor sobre indicação de pelo menos um título ao mês, a sugestão vai para  Revelações, de Robert Benton, com Anthony Hopnkins, que, em parte, vale pelo desempenho do ator e, em parte, pelo tema, que já faz parte da história, concernente ao comportamento politicamente correto no ambiente universitário.

 

Cinema à mesa

Por Wagner Geribello

Nascida, provavelmente, nos Estados Unidos, ganhou o mundo e a História a associação entre cinema e pipoca como elementos complementares, algo assim como peixe e vinho branco, mantendo o texto no plano da gastronomia.

Todavia, pipoca não é o único e talvez nem o mais importante alimento relacionado ao cinema. Quem já passou dos 60 anos certamente se lembra dos “baleiros” que circulavam nas salas de exibição com uma bandeja de madeira, nivelada à altura da barriga e pendente do pescoço por uma tira de tecido, contendo barras de chocolate, balas diversas e produtos da época como as caixinhas de “Mentex”. Normalmente, eram garotos de baixo ingresso econômico que trocavam trabalho pela possibilidade de ver cinema (o principal divertimento popular da época) sem pagar ingresso.

Aqui no Brasil, nos anos 1970, e um pouco antes que isso, nos Estados Unidos, apareceu o “drive-in”, um pátio de estacionamento de veículos, uma grande tela à frente e serviço de lanchonete, servido em bandejas que ficavam penduradas na janela lateral do veículo, temperando com “hot dog” e “milk-shake” as cenas projetadas na tela.

Hoje, a comilança cinematográfica, renascida no “shopping center”, continua apostando na pipoca, mas inclui refrigerante e guloseimas outras, com direito a console no braço da poltrona para facilitar o “picnic”.

Todavia, quando se trata de cinema, comida não é só acompanhamento, mas embute, também, na história da sétima arte, uma significativa quantidade de filmes tematizados em comida, ou na falta dela.

Os documentários ganham de longe no tratamento do tema, quantitativamente considerado, indo desde o questionamento da fome como fez, por exemplo, José Padilha, em Garapa, ou Jorge Furtado no curta Ilha das Flores, até produções que tratam do inverso, ou seja, do excesso alimentar, como o filme de Estela Renner, Muito Além do Peso, sobre obesidade infantil.

O cinema de ficção também registra muitas (e eventualmente boas) incursões pela gastronomia, com ampla variedade de abordagens.

Em 1973, Marco Ferrer dirigiu A Comilança, uma estranha e muito crítica história sobre um grupo de amigos que se internam em uma casa de campo decididos a morrer de tanto comer… e conseguem!

Pouco mais de uma década depois, em 1987, Gabriel Axel dirigiu a Festa de Babette, ambientado no interior da Dinamarca do século XIX, que termina com um lauto banquete de iguarias sofisticadas da culinária francesa, preparadas pela jovem Babette, emigrada daquele país.

Em 1998, Ettore Scola reuniu Vittorio Gassman, Fanny Ardant, Marie Gillain e Giancarlo Giannini em um restaurante, em que ocorre todo o enredo de O Jantar, incluindo as ponderações da personagem interpretada por Giannini sobre as características de um verdadeiro “bife à milanesa”.

Em tempos mais recentes, o argelino radicado na França, Abdellatif Kechiche, fez o Segredo do Grão, cujo principal protagonista, por assim dizer, é o cuscuz marroquino.

O diretor turco, Tassos Boulmetis, também resgata pitadas da gastronomia mediterrânea no excelente O Tempero da Vida, enquanto Juliet Binoche e Johnny Depp estão em Chocolate, produção americana dirigida por Lasse Hallström, ambientada na França.

Entretanto, quando se trata de comida, ou da falta dela, como mencionado no início deste comentário, talvez a incursão ficcional mais ousada do cinema tenha acontecido em 1973, quando o diretor Richard Fleisher colocou nas telas Soylent Green (exibido no Brasil como No Mundo de 2020, à Beira do Fim), com Charlton Heston e Edward G. Robinson, prevendo um (à época) distante futuro no qual a alimentação dos seres humanos (?) é suprida por biscoitos feitos de… seres humanos (??).

Enfim, o cardápio que mistura cinema e comida é grande, basta escolher e assistir.

Bom apetite!

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor Editorial do Jornal da PUC-Campinas

 

Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.