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Pedra De Paciência: Mergulho Na Alma Feminina

Por Prof. Dr. José Estevão Picarelli – Diretor-Adjunto CEATEC da PUC-Campinas

Quem já experimentou sabe que o aparentemente simples ato de desabafar ajuda a aliviar ou a aceitar melhor o sofrimento ou as angústias. Faz alguma diferença, mas não importa fundamentalmente, se o desabafo acontece no confessionário da igreja, na sessão de terapia, na mesa do bar ou em um ombro amigo. Desabafar é socializar sentimentos, publicar sofrimentos, desnudar segredos íntimos, lavar a alma, por para fora o que dentro incomoda.

Em algumas regiões do planeta, onde a humilhação e a opressão à mulher são práticas comuns e, pasmem, às vezes até legais, a sabedoria feminina se faz necessária e presente. De mãe para filha, as mulheres ensinam umas às outras a escolher uma pedra para fazer o papel de ouvido amigo. Isso mesmo, um pedaço de rocha, chamada pedra de paciência. Assim, a mulher, quando angustiada, conversa reservadamente com a pedra que atravessou seu caminho. Neste mineral companheiro são descarregadas frustrações e injustiças. Quando essa pedra é quebrada, a mulher acredita que também suas angustias viraram pó.

 Indicado como melhor filme estrangeiro para o Oscar de 2014, Pedra de Paciência é o título do belíssimo filme do diretor Atiq Rahini, produção cooperada de França, Alemanha e Afeganistão. A película é ambientada em uma região deste último país, destruída pela guerra santa islâmica. Em uma paisagem de ruínas, uma mulher vive o desespero de cuidar de seu marido, jihadista ferido e em coma. Na sua imensa solidão, moldada pela cultura fundamentalista, por costumes e hábitos machistas e desfavoráveis, ela busca, no desabafo, uma saída para a vida. Julgando que os ouvidos do marido estão surdos pelo coma, ela abre, numa sincera confissão, a sua mais profunda intimidade Em um monólogo, a atriz iraniana Golshifeh Farahani, dá uma interpretação maravilhosa dessa personagem cujo nome, nem mesmo o filme, deixa conhecer.

Em pouco mais que uma hora e trinta minutos ficamos surpresos em saber que, em que pese a falta de água, a fome e as bombas, existem coisas que podem machucar mais e que podemos encontrar do nosso lado, uma mulher vivendo a mesma condição feminina.

Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade

Integrando as comemorações dos 75 anos da PUC-Campinas, a Universidade realizou de 7 a 10 de novembro de 2016 o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”

 

Por Amanda Cotrim

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” proporcionou um debate importante e cada vez mais necessário para a sociedade: a valorização do ser humano e o papel da Igreja diante desse tema. O evento, organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, aconteceu no Auditório Cardeal Agnelo Rossi, no Campus I, e contou com conferências e mesas-redondas as quais discutiram temas como História e Conceitos Fundamentais, Justiça e Paz, Ciência, Fé e Transcendência, o Bem Comum e a Dignidade Humana e o Mundo contemporâneo.

A abertura do evento recebeu a Conferência “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais”, ministrada pelo Bispo da Diocese de Jales, Dom José Reginaldo Andrietta, com mediação do Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves.

O Bispo de Jales elogiou a iniciativa da PUC-Campinas em discutir o tema da Doutrina Social e ressaltou a importância da aproximação do mundo acadêmico com a realidade social, em todas as suas circunstâncias. Segundo ele, é nesse sentido que sua conferência contribui para pensar o papel da educação e da universidade.

Nos dias que se seguiram, os participantes também puderem acompanhar a Conferência do Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, a qual contou com a mediação do Prof. Dr. Peter Panutto, intitulada “A Doutrina Social da Igreja: Justiça e Paz”.

Na oportunidade, Dom Airton enfatizou a importância e a necessidade da universidade católica para o convívio social. “Precisamos pensar qual sociedade estamos construindo, para que ela, sim, seja digna do ser humano e não o contrário, pois todas as nossas ações devem ter em vista o ser humano, uma vez que o pensamento social da Igreja traz o humanismo como alicerce”, defendeu Dom Airton.

O Grão-Chanceler da PUC-Campinas também destacou que a justiça se mostra fundamental na contemporaneidade. Para ele, a justiça se exerce diante de pessoas concretas e não de protocolos. “Só há justiça quando há solidariedade e amor”, justificou.

O público também pode conferir a mesa-redonda “Ciência, Fé e Transcendência”, ministrada pelo Prof. Dr. Ir. Clemente Ivo Juliatto, da PUC-Paraná, e pelo Prof. Dr. Newton Aquiles Von Zuben, da PUC-Campinas, com mediação do Prof. Dr. Glauco Barsalini, da PUC-Campinas.

Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade”  - Conferência – “A Doutrina Social da Igreja: História e Conceitos Fundamentais” Dom José Reginaldo Andrietta – Bispo da Diocese de Jales
Doutrina Social da Igreja foi o tema do Colóquio da PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr. 

O evento, segundo o Coordenador do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião, Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves, realçou a relação Igreja e Sociedade, mostrando, assim, a tradição eclesial, confirmada no Concílio Vaticano II. “O tema do Colóquio toca em questões pertinentes do ponto de vista mundial, mas também nacional e local, como, por exemplo, o tema da paz, do trabalho, da propriedade privada e da liberdade religiosa. Além disso, o Colóquio teve um caráter interdisciplinar, pois a Doutrina Social da Igreja não se restringe a área da Teologia, mas aborda o Direito, a Economia, as Ciências Sociais, a Filosofia e a Comunicação”, destacou.

Direitos da pessoa humana

O Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” trouxe para uma das suas mesas-redondas, um tema atual: a discussão sobre os direitos da pessoa humana no contexto dos processos migratórios internacionais. Para esse debate, a Universidade contou com a mesa-redonda “A Doutrina Social da Igreja: o Bem Comum e a Dignidade Humana”, com o Prof. Me. Paulo Moacir G. Pozzebon, da PUC-Campinas, e com Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz e docente da Itesp-SP, Prof. Dr. Pe. Paolo Parise, com mediação do Prof. Dr. Pe. Edvaldo Manoel de Araújo, da PUC-Campinas.

Para o Professor Pozzebon, é preciso que os bens e serviços produzidos mundialmente sejam acessíveis a todos os seres humanos, ressaltando a importância do bem comum e os direitos do homem sobre os quais diz o Papa Francisco.

Na mesma linha, porém numa perspectiva específica da imigração, o Coordenador do Centro de Estudos Migratórios da Missão Paz da Igreja Católica criticou o que ele chamou de “lógica sanguessuga”, em que alguns países “sugam” outros em benefício próprio, fazendo referência à exploração da força de trabalho de imigrantes em todo o mundo. “Não podemos pensar que o imigrante é motivo dos problemas das nações, pois esse pensamento legitima a exploração”, destacou.

A última Conferência do Colóquio aconteceu no dia 9, com o tema “A Doutrina Social da Igreja e o Mundo Contemporâneo”, presidida pelo Prof. Dr. Pe. Marcial Maçaneiro, da PUC-Paraná, com mediação do Prof. Me. José Donizeti de Souza, da PUC-Campinas.

O Colóquio teve encerramento com a Celebração Eucarística, em comemoração aos 75 anos existência da Faculdade de Filosofia, presidida por Dom Airton José dos Santos, na Catedral Metropolitana de Campinas.

Para o Vice-Reitor da Universidade e integrante do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, Prof. Dr. Germano Rigacci Júnior, o Colóquio “A Doutrina Social da Igreja: Ciência e Sociedade” conseguiu promover uma reflexão sobre sistemas, se relacionando, segundo ele, com a discussão sobre a Encíclica Ladauto Si’, tema discutido no Colóquio do primeiro semestre de 2016, também na PUC-Campinas

“Música é Deus na Terra”, diz Maestro que fundou Orquestra e Coral Universitário

Oswaldo Antônio Urban graduou-se em Filosofia, Direito e Orientação Educacional pela PUC-Campinas. Lecionou por 18 anos na Universidade e ajudou a fundar, nas décadas de 60 de 70, a Orquestra e o Coral Universitário. O Maestro regeu o Coral por 68 anos.

Por Eduardo Vella

“Só mesmo uma coisa tão maravilhosa como a música, que faz chegar até o homem a bondade e a divindade de Deus. Música é Deus na Terra”. É desse modo que o Maestro Oswaldo Antônio Urban define os seus 83 anos de vida dedicados às partituras e composições.

Aos 97 anos de idade, 68 deles devotados à regência do Coral PIO XI, o que lhe dá o título de “regente há mais tempo à frente de um mesmo coral”, outorgado pelo Ranking Brasil, Urban teve importante passagem pela academia, estudando e lecionando na PUC-Campinas. “Entrei na Instituição em 1949, no curso de Filosofia. Vim estudar na Universidade, pois tinha boa fama. Fiz também os cursos de Pedagogia e Orientação Educacional. Começou aí a minha vida de aluno dentro da PUC-Campinas”.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

O Maestro exerceu o Magistério na Universidade de 1965 a 1983, quando se aposentou. À época, era Assessor da Reitoria e Diretor do Instituto de Arte e Comunicação, atual Centro de Linguagem e Comunicação (CLC).

Convidado pelo Arcebispo de Campinas e Reitor da Universidade Monsenhor Salim, Urban passou a dirigir a Faculdade de Música, que tempos depois integrou o Instituto de Arte e Comunicação, também coordenado pelo Maestro.

Urban nasceu em 1919 na cidade de Leme, cerca de 90 km de Campinas. Seus pais eram músicos e passaram para toda família essa paixão. Ele estudou também no Conservatório Musical Maestro Julião, em São Paulo e fez curso de música em Nápoles, na Itália. “Quando tinha 14 anos, o Maestro Salvador Bove, me colocou a batuta na mão e me fez dirigir o Coral que existia no Seminário. São 83 anos em que a música é a minha vida”, emociona-se.

Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.
Maestro Urban esteve por 68 à frente do Coral Universitário/ Crédito: Álvaro Jr.

Orquestra Sinfônica Universitária

Em 1960, associou-se ao Professor Luiz di Tullio, também convidado pelo Reitor, para formar uma Orquestra Sinfônica na Universidade. Seus alunos, que cultivavam a música clássica, constituíram grande parte dos primeiros e segundos violinos da orquestra. Eram chamados de “Os violinistas do Luizinho”.

Com a chegada do Maestro Benito Juarez à Orquestra Sinfônica de Campinas, que em 1974 passou às mãos da Prefeitura de Campinas, ocorreu uma dissidência de alguns músicos de grande projeção da Sinfônica e esses elementos foram integrar a Orquestra Universitária. “Um grupo ficou com o Juarez formando a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas e outro veio para a PUC-Campinas a meu convite para “engrossar” a Orquestra Universitária. Ela cresceu muito com isso”, orgulha-se.

“Fizemos em diversas oportunidades a PUC-Campinas brilhar com a Orquestra e o Coral Universitário, que eu fundei em 1965. Eles participavam das formaturas, da Aula Magna de início do ano letivo, do encerramento do ano letivo, no Teatro Central, na Rua Marechal Deodoro, e no Campus I”, ressalta o Maestro Oswaldo Antônio Urban.

A Orquestra Universitária teve fim com o falecimento do Maestro Luiz di Tullio durante um ensaio da Orquestra e do Coral para a formatura da turma de Engenharia, em 1977.

A fundação do Coral Universitário

O Coral era composto de alunos voluntários das várias Faculdades que compunham a PUC-Campinas. Ele foi fundado pela natureza da Faculdade de Música, com os alunos que estavam estudando. Mas isso se estendeu para os outros os cursos. “Assim se formou um Coral com mais de 50 elementos”, relembra.

 O Maestro busca no coração o dia da solenidade de inauguração do Campus I, em 1973. “Nessa data estavam vários Bispos, representando as autoridades eclesiásticas, principalmente Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, o Bispo da época, o Reitor Prof. Dr. Benedito José Barreto Fonseca, que levou avante a construção do Campus”, salienta.

 Urban orgulha-se de ter composto para a ocasião o hino para da inauguração do Campus I – Música e Letra – executados pelo Coral e pela Orquestra Universitária.

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 O Maestro, personagem importante na história da Universidade deseja “que a PUC-Campinas continue resplandecendo pela Fé e pela Ciência, segundo os dizeres de seu brasão: Fide Splendet et Scientia.

Atualmente, a PUC-Campinas possui o Coral Universitário do Centro de Cultura e Arte (CCA) que realiza significativo trabalho de formação e divulgação cultural dentro e fora na Universidade. Esse importante canal de expressão artística, de busca do aperfeiçoamento musical e do desenvolvimento cultural de seus membros é um dos grandes legados do Maestro Oswaldo Antônio Urban, que plantou essa semente nos anos 1960.

Reportagem da TV PUC-Campinas

 

A influência da mídia nos hábitos alimentares

Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, a influência da mídia será ainda maior

Por Amanda Cotrim

As telas contemporâneas estão no dia a dia das pessoas: televisão, revista, jornal, computador, outdoor. São vitrines as quais influenciam o cotidiano. Como toda vitrine, há um vendedor – a Publicidade -, um instrumento importante para a propagação de hábitos de consumo e alimentares. Ela é parte de um sistema que estabelece um padrão de consumo. “Ainda que a publicidade não tenha toda a responsabilidade, ela tem grande influência pela sua capacidade de persuadir a sociedade”, defende o docente da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas, Prof. Dr. João Brito.

Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof João Brito é docente no curso de Publicidade e Propaganda/ Crédito: Álvaro Jr.

Para o docente, a propaganda cumpre uma função comercial, por isso, é tão difícil identificar no dia a dia o que é e o que não é publicidade. Pensando em mídias como televisão, que está no cotidiano das pessoas, essa distinção torna-se ainda mais difícil para a população: “A propagação de hábitos alimentares em novelas é uma grande influência social, porque quando o público vê uma celebridade consumindo, ele toma aquilo como uma atitude a se seguir”, compara.

Trata-se de um sistema: a novela levanta a bola e a publicidade corta. O telejornalismo faz a mesma coisa: as notícias angustiantes cumprem certo papel, porque depois vêm os comerciais que vão amenizar o que passou no jornal”, critica.

E quando a “audiência” são crianças? A responsabilidade da mídia aumenta? Para João Brito, sim. “Se o público não está preparado para ser crítico da publicidade, ele vai ser influenciado. Por isso, o mais importante é uma educação crítica sobre o papel da mídia desde cedo”, defende.

Em 2014, foi aprovada resolução que classifica como abusiva todas as formas de “publicidade e comunicação mercadológica destinadas à criança, com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço”, diz o texto.

Quando o assunto é hábitos alimentares e crianças a publicidade tem ainda mais influência, mesmo que a peça publicitária não seja direcionada exclusivamente para uma criança. “Ela pode assimilar a propaganda mesmo não sendo para ela. No entanto, é preciso dizer que isso não aconteceria se houvesse uma regulação ética e legal da mídia, e que não fosse vista como censura, para que as pessoas tenham discernimento sobre o que elas devem consumir desde cedo”.

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A regulamentação, segundo o professor de Publicidade e Propaganda, resolve uma parte, mas não tudo. Para ele, é preciso que a família se coloque como responsável e que ela saiba que a mídia influencia a sociedade e quando ela está fora das normas da Constituição Federal. “As pessoas não costumam gostar muito de falar sobre Constituição, Direitos, Educação. Só uma consciência crítica vai diminuir a influência da mídia sobre a população”, aposta. “A questão é: existe interesse para que o consumidor seja instruído?” questiona o docente.

Responsabilidade das indústrias de alimentos

Apesar de segmentada, vem despontando um nicho de pessoas que valoriza a boa alimentação e a mudança nos hábitos alimentares. “As empresas alimentícias têm tido mais consciência para amenizar os problemas de alimentos de má qualidade. Temos produtos um pouco melhores e uma possibilidade de consumo mais saudável. Mas, qual é o alcance disso?” interroga o docente, fazendo referências às classes sociais que não podem comprar produtos saudáveis, porque são mais caros.

“Um exemplo de que as empresas estão percebendo que precisam ter uma responsabilidade social, foi uma propaganda de uma marca de refrigerante em uma revista. Nela, o pai mostrava para o filho beber menos refringentes e ter um consumo consciente. Foi uma mensagem sutil, mas quando a empresa reconhece a sua responsabilidade, é um avanço”.

Para o docente, a mídia não deveria educar tanto a sociedade. “Hoje, a TV educa mais que um professor em sala de aula. Na aula, por mais que o professor se esforce a TV é como se fosse uma verdade. Quem está na TV é porque chegou lá e aquilo forma a nossa opinião”, constata.

“O caminho para mudar esse cenário é a educação crítica sobre a mídia e uma regulamentação. As empresas não podem fazer o que querem na TV e na Rádio, que são concessões públicas. Eu defendo um equilíbrio. Temos de estar vigilantes para não nos deixarmos influenciar tanto pela publicidade”.

 

 

 

Comida perpetua a cultura

Por Amanda Cotrim

Diga-me o que tu comes que eu te direi quem és”. É dessa forma que a Diretora do Curso de Turismo da PUC-Campinas, Profa. Me. Francis Pedroso, aborda a importância da gastronomia como elemento constitutivo de identidade. A comida que consumimos tem relação íntima com as características geográficas, culturais e históricas da região em que ela é produzida. “Os alimentos mais quentes e gordurosos, por exemplo, são típicos de regiões mais frias; já os alimentos mais leves, são provenientes de regiões mais quentes”, explica.

Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução
Acarajé tornou-se patrimônio cultura brasileiro/ Reprodução

O Brasil, segundo Francis, sempre foi o país do sabor, desde as frutas exóticas até a produção de café, o que justifica essa vocação do país para a gastronomia. “Na década de 2000, no entanto, com a criação do Ministério do Turismo, em 2003, a gastronomia passou a ser promovida como valor turístico, o que coincide com a profissionalização da gastronomia brasileira”, contextualiza.

A comida é a materialidade dos valores de determinados lugares, por isso, para a Professora Francis, uma comida bonita, bem-feita e tradicional sempre será procurada por turistas, o que é “excelente do ponto de vista econômico e fundamental para o turismo. A gastronomia perpetua a cultura”, afirma.

A Diretora do Curso de História da Universidade, Profa. Dra. Janaina Camilo, explica que as tradições culturais brasileiras, principalmente aquelas manifestadas nas comidas, estão diretamente associadas às práticas religiosas e, portanto, às identidades culturais. “Exemplo disso é o ‘pato no tucupi’, comida paraense servida especialmente no almoço do domingo do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses. Analisando antropologicamente, o pato é uma ave dos pratos típicos da nobreza europeia, que veio parar no Brasil durante o processo de colonização. Já o tucupi é um caldo extraído da mandioca, raiz cultivada pelos povos indígenas da Amazônia”, contextualiza a historiadora.

Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução
Pato no tucupi é uma comida típica do Pará/ Reprodução

A Professora Janaina aponta que a preferência do brasileiro por doces não é à toa, uma vez que a doçaria é um hábito dos povos árabes, que, segundo ela, estavam miscigenados com os portugueses que colonizaram o Brasil. “No dia de São Cosme e São Damião distribuímos doces às crianças, uma tradição que nem todos sabem a origem”.

A importância de alguns pratos é tão grande que alguns se tornam patrimônios culturais, como foi caso do acarajé da Bahia, que se tornou patrimônio imaterial do Brasil, em 2015. O prato, explica a historiadora, conta com forte presença africana em seus ingredientes, como é o caso do dendê, e no próprio modo se preparar a comida. “Nesse sentido, portanto, o acarajé não é o resultado da mistura de temperos, mas o saber fazer o prato, com todo o ritual que o envolve, como a arrumação do tabuleiro, a preparação da mesa, o uso de trajes próprios, como as roupas brancas enfeitadas com colares de contas e panos coloridos”. O acarajé, antes de ter se tornado Patrimônio Cultural brasileiro, havia sido reconhecido como Patrimônio Cultural de Salvador, pela Câmara Municipal da cidade, em 2009.

Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Janaína Camilo é diretora no curso de História/ Crédito: Álvaro Jr.



 

Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Francis é diretora do curso de Turismo/ Crédito: Álvaro Jr.

A Diretora do Curso de Turismo elencou alguns pratos típicos de cada região, para que o leitor possa apreciar quando estiver nesses lugares. A Região Norte do Brasil tem como ‘cartão’ de visita os peixes de rio doce e o açaí. “Turistas de várias partes do mundo vêm para o Brasil atrás do açaí”, brinca Francis. Já a carne de sol, as moquecas e a tapioca são alimentos típicos da Região Nordeste, ainda que a região tenha uma gastronomia muito rica. A Região Sul, no entanto, conserva certo hábito pelo consumo de doces diversificados, como o café colonial, além, é claro, lembra a professora, do churrasco gaúcho e vinhos. “Também destacaria os frutos do mar do estado de Santa Catarina, que são excelentes”.

O Sudeste, por sua vez, explica Francis, tem forte influência africana, daí pratos como angu com quiabo e frango, típicos de Minas Gerais, o Virado à Paulista, a Moqueca Capixaba, a produção de salgadinhos típicos de camarão empanados do Rio de Janeiro, além da doçaria portuguesa, do arroz, feijão e da feijoada. “Na Região Centro-Oeste temos a riqueza do Cerrado. As frutas – como o pequi – e os doces provenientes dessas frutas são uma das marcas da região, além de peixes, feijão tropeiro e arroz carreteiro, que, segundo a docente, é conhecida como ‘a comida dos viajantes’”.

Comidas tradicionais x fast food

 Para a Diretora do Curso de Turismo, o fast food não conseguiu acabar com os pratos tradicionais, ao contrário. “Cresceu muito o slow food. E nós começamos a ter mais consciência sobre o alimento saudável, o que torna a gastronomia mais atrativa. Comer não é ‘fast’. Comer é um prazer. O ato de consumir comida requer tempo”, defende.

 

TOME CIÊNCIA: Edição 164

Intercâmbio acadêmico

A PUC-Campinas oferece programas de intercâmbios para seus alunos, com o objetivo de fomentar a troca de informações e a produção do conhecimento, incentivando a formação integral dos estudantes. Ao todo, são sete programas de intercâmbio acadêmico que estão disponíveis (a relação completa pode ser conferida no portal da Universidade. 

Trata-se de mais uma oportunidade de aprendizado, de estabelecimento de contato com novas culturas, de apropriação de novas informações ou novos formatos de entendimento do mundo, das pessoas e das coisas.   O intercâmbio é, hoje, uma estratégia de formação pessoal e profissional de amplo espectro, desejável para se obter sucesso em uma sociedade complexa, “sem fronteiras”, que exige do cidadão comportamento local/global, ou seja, que compreenda a parte e o todo.

Cultura e Arte na PUC-Campinas

O Centro de Cultura e Arte (CCA) é um Órgão Complementar da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, um espaço de educação alternativa e permanente onde o aluno da PUC-Campinas tem a oportunidade de se expressar criativamente numa atividade cultural ou artística que o valorize enquanto pessoa.

Atualmente o CCA abrange cinco Grupos Artísticos: Coral, Teatro, Dança, Música de Câmara e Big Band, todos formados por alunos dos vários cursos da PUC-Campinas, por pessoas da comunidade em geral e por funcionários. O CCA ainda promove o Arte no Campus (apresentações dos grupos pelos Campi), Encontro de Corais, de Dança, apresentações artísticas da Big Band e peças Teatrais.

Se organize!

Se a desorganização está congestionando sua vida e você está se sentindo frustrado e disperso como resultado, é hora de se organizar. A primeira dica é manter as coisas nos lugares em que elas pertencem. Use agenda, ela lhe ajudará a redimensionar as prioridades do dia. Ela é especialmente útil se você tem um monte de compromissos e os seus dias são tão diferentes que você chega a ter problemas para manter o controle de sua programação. Mas atenção: além de escrever na agenda, é importante conferir o que foi escrito, diariamente, e assim balizar o que foi possível realizar. Faça uma lista de prioridades; escreva tudo o que você precisa lembrar. Defina a tarefa que você realizará e em qual período do dia a fará, isso ajuda a organizar as atividades do dia. Delegue responsabilidades para outras pessoas, não tente abraçar o mundo. Saiba o que você precisa/quer fazer, quando você vai fazê-lo e evite a situação de stress de não saber o que precisa ser feito. Organização leva tempo, mas quando você a torna um hábito de vida, tudo se torna muito mais fácil.

“Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos”, afirma Presidente da CNBB

Em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o Presidente da CNBB, que esteve na Universidade, no dia 21 de setembro, fala sobre o Concílio Vaticano II e a contribuição da universidade católica para a formação humana

Por Amanda Cotrim e Eduardo Vella

Pela primeira vez, o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Brasília, D. Sergio da Rocha, veio à PUC-Campinas, no dia 21 de setembro, participar do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano II”.  Durante sua passagem pelo Campus I, D. Sérgio, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal da PUC-Campinas, na qual ressaltou que a Igreja se faz diálogo e que por isso ela não deve se fechar nela mesma e nem deve ter uma postura de dominação ou controle social, imagem essa que não condiz com a eclesiologia do Vaticano II, e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como é a atual. D. Sérgio também destacou que o diálogo e o serviço da Igreja podem ser efetivados através do recurso das mídias sociais. “Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira”

O Arcebispo é Mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP) e Doutor pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Dom Sérgio tem como lema episcopal “Omnia in Caritate” – “Tudo na caridade”.

Confira:

Jornal da PUC-Campinas: Neste ano, são comemorados os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, um dos eventos mais marcantes da Igreja no século XX.  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs uma reflexão mais ampla sobre o Concílio, por meio da Campanha da Fraternidade (CF), que tem como tema “Fraternidade: Igreja e sociedade” e o lema “Eu vim para servir” , numa tentativa de aproximar a igreja cada vez mais da sociedade. Gostaria que o senhor refletisse sobre as principais mudanças proporcionadas pelo Vaticano?

D. Sérgio: O Vaticano II propõe uma atitude eclesial de diálogo e de serviço na relação Igreja – sociedade. A Igreja se faz diálogo. A Igreja se faz servidora, a exemplo de Jesus. Na relação Igreja-sociedade, há posturas equivocadas. De um lado, a exclusão da participação na vida social, com a Igreja fechada sobre si, ocupando-se unicamente de questões internas. De outro, a postura de dominação ou controle social, que não condiz com eclesiologia do Vaticano II e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como a atual.

O documento do Concílio sobre a Igreja no mundo, a Gaudium et Spes, propõe o caminho do diálogo com todos, procurando não apenas oferecer ajuda, mas também receber ajuda,  e a atitude de serviço. O discernimento atento dos valores presentes na sociedade é acompanhado da denúncia profética daquilo que não condiz com a Palavra de Deus.

O diálogo e o serviço podem ser efetivados através do recurso às mídias sociais. Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira. O diálogo e o serviço a serem cultivados nas mídias sociais são enriquecidos com a perspectiva cristã. Para tanto, é fundamental a atuação de pessoas e instituições cristãs.

Jornal da PUC-Campinas: Para o senhor, qual é a contribuição da Universidade Católica para a formação da pessoa humana?

D. Sérgio: A Universidade Católica deve contribuir para a formação integral da pessoa humana, para o exercício responsável da cidadania na construção da sociedade, promovendo o diálogo, a solidariedade e a paz. Ela mesma deve ser um espaço privilegiado para o exercício do diálogo e da fraternidade.

Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos, especialmente, por meio de gestos concretos: o respeito, a estima, a solidariedade, a vida fraterna, a paz, nos diversos níveis da comunidade acadêmica. A atitude de diálogo é essencial, seja no interior da comunidade acadêmica, seja com a sociedade. A abertura e o diálogo a serem cultivados numa universidade católica são exigências essenciais de uma comunidade acadêmica e decorrem do proprio dinamismo e caráter dialogal do saber.

A Universidade deve ser lugar de formação para a vida e de aprendizado  conjunto, na troca e circularidade de conhecimentos. A forma monológica de racionalidade, isto é, a racionalidade fechada, empobrece e paralisa qualquer campo do conhecimento ou instituição de ensino.

A forma dialógica de racionalidade enriquece e  estimula a caminhar rumo à atualização e ao aprofundamento. O pensador ensimesmado, isto é, o professor, o pesquisador ou estudante, fechado orgulhosamente sobre si,  não poder existir a não ser em contradição com a própria essência do pensar, por sua natureza aberto ao diálogo. Além disso, não pode faltar a postura profética na missão de uma instituição católica de ensino. Numa sociedade pluralista, o diálogo deve ser acompanhado de uma consciência clara da própria identidade, condição para se oferecer uma contribuição própria e estabelecer parcerias. A Universidade oferece, sobretudo, uma visão antropológica iluminada pela fé cristã, ressaltando a dignidade. o valor inviolável da vida de cada pessoa humana e os seus direitos fundamentais.

Afinal, o que é patrimônio?

Por Janaina Camilo

A palavra patrimônio pode ser entendida de diferentes formas. Na antiguidade, estava relacionada com a herança familiar, sobretudo quando dirigida aos pateres famílias. No século XVIII, em meio à efervescência dos acontecimentos políticos e sociais que desenharam a Revolução Francesa, patrimônio passou a ser entendida como assunto do Estado, que providenciou as primeiras ações de proteção dos monumentos de valor histórico, sobretudo aqueles que remetiam às memórias do antigo regime, mas não para exaltá-los, mas para mostrar a vitória do vencedor revolucionário. Dessa forma, patrimônio e memória iam ao encontro da representação do poder.

No século XIX, patrimônio passa a ser relacionado à construção das identidades. Preservavam-se monumentos materiais (móvel ou imóvel) com o objetivo de construir tradições comuns, que simbolizavam o poder das nações, por exemplo, a língua e os costumes nacionais. Por esse viés, o significado de patrimônio estava diretamente relacionado ao conceito de fronteira, já que esta não se afirma pelos tratados assinados, mas pela dinâmica de convivência entre os homens. Assim, patrimônio limitava-se, basicamente, ao histórico e ao arquitetônico, representando a construção das identidades e, portanto, era assunto político.

Ao longo do século XX, patrimônio recebeu outra conotação, mais dinâmica e abrangente. Ele passou a ser, também, cultural e ambiental, pois, uma vez que hoje concebemos o ambiente como um produto da ação dos homens, portanto, da cultura.

Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.
Relacionar patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, antecede à chegada do Estado/ Crédito: Álvaro Jr.

Patrimônio cultural pode ser tangível e intangível (material e imaterial) e está conceitualmente envolvido com a dinâmica das mudanças espaciais e temporais, que não são, portanto, estáticas e, por isso, está diretamente envolvido numa trama de acontecimentos que envolvem a memória e a identidade. Assim, o sentido de patrimônio exige outras ações como o da preservação e salvaguarda, já que o processo identitário revela, consciente ou inconscientemente, o que somos e o que queremos ser e, daí, a importância do que preservar, por que preservar e o que preservar.

No Brasil, as transformações do significado de patrimônio não foram diferentes e passaram a ser ações de política pública, a partir de 1923, quando o deputado Luiz Cedro apresentou um projeto de criação da “Inspetoria dos Monumentos Históricos dos Estados Unidos do Brasil”, com o objetivo de conservar os imóveis públicos ou particulares, que no ponto de vista da história ou da arte revistam, um interesse nacional.

Em 1936, Mário de Andrade escreveu o projeto que se tornou lei somente um ano depois, pelo qual se entendia por Patrimônio Artístico Nacional todas as obras, nacional ou estrangeira, pertencentes aos poderes públicos, e a organismos sociais e a particulares nacionais, a particulares estrangeiros, residentes no Brasil. Mesmo que o autor modernista tenha se preocupado com as obras de arte, naquela época, no Brasil, a política patrimonial era coordenada pelo Serviço do Patrimônio Artístico Nacional (SPHAN), sendo a sua principal ação a preservação de bens materiais imóveis (cidades, fortificações, prédios) e, por isso, a política patrimonial era conhecida como “pedra e cal” e a decisão do que se tombar era uma disputa política entre modernistas e os neocoloniais.

Em 1988, com a promulgação da Constituição Nacional, sobretudo o artigo 216, o patrimônio brasileiro ganhou outra temática, a dos bens intangíveis (as celebrações, o saber fazer, as formas de expressão e os lugares), sendo o registro autorizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) por meio do decreto no 3.551, de 2000, que instituiu o registro de bens cultuais de natureza imaterial.

Dessa forma, portanto, concluímos que quando relacionamos patrimônio com os conceitos de identidades, cultura e memória, provocamos outra forma de interpretação subjetiva: a de que sua existência antecede à chegada do Estado.

Profa. Dra. Janaina Camilo é Diretora do Curso de História da PUC-Campinas

Museu arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas

Por Pe. Rafael Capelato

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Campinas (MAAS) foi fundado, em 1964, pelo Arcebispo Dom Paulo de Tarso Campos (1941-1968). O primeiro conjunto de peças destinado a constituir o acervo foi reunido por iniciativa do próprio Dom Paulo que solicitou a diversas paróquias antigas, a doação de obras de valor histórico e artístico. Além disso, ele fez doação de sua coleção pessoal para o acervo inicial. O primeiro edifício a sediar tais peças sacras localizava-se na Avenida Aquidabã e contava com amplo espaço. O primeiro curador foi o historiador Celso Maria de Mello Pupo, que organizou o museu e inventariou as obras então reunidas. Seu inventário continua sendo o mais completo para o conhecimento do acervo artístico da entidade.

Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese
Pe. Rafael Capelato/ Arquivo: Arquidiocese

Consta no Diário Oficial do Estado de São Paulo, a. LXXV, n. 107, (11/6/1965), 94 que “Entre os seus objetivos: organizar e manter um museu histórico e de arte sacra; promover conferências e cursos de museologia, de divulgação de fatos, acontecimentos e de arte sacra; organizar e manter um serviço de documentação e arquivo da Arquidiocese de Campinas; promover periodicamente exposição e mostras de documentos históricos e de arte sacra; elaborar o inventário artístico da Arquidiocese, defendendo seu patrimônio histórico, ou melhor, patrimônio artístico, velando pela sua conservação e recolhendo ao museu as peças de maior valor que não estejam habitualmente entregues ao culto”. Os apelos pelo cuidado com os bens patrimoniais artísticos da Igreja Católica por parte da Santa Sé e de esferas do governo local, somados à vasta cultura e zelo artístico de Dom Paulo culminaram, então, com a ideia da fundação.

Em 2014, o Museu Arquidiocesano de Campinas completou o cinquentenário de sua fundação, após não poucas intempéries. Na ocasião o Arcebispo Metropolitano, Dom Airton José dos Santos, decidiu transferi-lo para o Palácio Episcopal, no bairro Nova Campinas. Dom Airton alude à necessidade de espaço físico mais adequado que abrigue e valorize o rico acervo, bem como para melhores condições de acessibilidade do público, dentro de um projeto que visa também fazer do mesmo edifício um centro de memórias da Igreja de Campinas. Está em andamento a transferência das obras e operacionalização de um novo plano expográfico, adequado à nova sede.

A equipe que está trabalhando nesse processo é composta pelo Doutor em História e Bens Culturais da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana – Roma, Padre Rafael Capelato; pela Doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), Professora Janaína Camilo; pela Doutoranda em História da Arte pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paula Elizabeth de Maria Barrantes; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Luiz Raphael Tonon; pelo Graduado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), Thiago Avansi; pelo Graduado em História pela UNESP, Gabriel Amstalden; pelo Graduado em História pela PUC-Campinas, Diego da Silva Souza; e pelo Formado em restauro de arte sacra, Padre João Augusto Pezzuto.

Padre Rafael Capelato: Diretor ad hoc da transferência e reorganização do MAAS, Vigário Geral da Arquidiocese de Campinas.

Marcado no Nascimento

Por Luís Renato Vedovato

O Jornal Correio Popular, de Campinas, noticiava, em 2009, a preocupação da administração pública do município com a vinda de moradores de rua para o seu território.  Realidade bastante semelhante com os desentendimentos entre França e Itália, no episódio dos tunisianos em Ventimiglia, cidade italiana, em 2011, ou dos africanos que se dirigem à Europa hoje e dos haitianos no Brasil.

Esses casos, apesar de representarem um microcosmo, mostram que a exclusão não atinge apenas os estrangeiros. A exclusão ataca aqueles que são identificados como “outros”. Atinge todos aqueles que são tidos como diferentes. O paradoxo é gigante ao se imaginar que os índios americanos alcançaram o direito pleno à nacionalidade estadunidense apenas em 1924, e, sem dúvida, estavam no seu país de origem.

Segundo os dados estatísticos disponíveis, tanto de forma absoluta quanto relativa, nunca houve uma quantidade tão grande de migrantes como a que existe hoje e o número deles decerto está num crescente. Quase todos os países do mundo são e continuarão sendo afetados pelo aumento da circulação de pessoas pelo globo.

Migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos/ Crédito: Álvaro Jr.
Migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos/ Crédito: Álvaro Jr.

O papel do Estado é o de criar uma política de migração, para demonstrar sinais da sua posição no mundo e seu relacionamento com as pessoas, de forma a permitir a troca de conhecimentos e a diversidade cultural.

É crucial entender, no entanto, que a migração está ligada umbilicalmente a outras importantes questões globais, como pobreza, desenvolvimento e direitos humanos. Perceber que estamos num único planeta pode contribuir para o auxílio de pessoas e para a sustentabilidade.

A migração também traz consigo questões desafiadoras, pois há várias formas de exploração abusiva dos indivíduos, que, por experimentarem grande dificuldade de inserção social no seu destino, acabam tendo violados os seus direitos fundamentais, trabalhando ou vivendo em ambientes degradantes. Ficar atento a isso também amplia a proteção aos indivíduos.

Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos/ Crédito: Álvaro Jr.
Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos/ Crédito: Álvaro Jr.

A condição de migrante é determinada por a pessoa se encontrar em Estado com o qual não possui o vínculo de nacionalidade, definido, como se sabe, pelo Estado soberano, o qual, de fato, tem a possibilidade de regular o trânsito de estrangeiros por suas fronteiras. Esse Estado alcança, para tanto, amparo no Direito Internacional que reconhece aos Estados soberanos o direito de regular ou proibir a entrada de estrangeiros em seu território. Assim, a migração é um processo que afeta toda dimensão social existente e que se desenvolve na sua própria dinâmica complexa.

Os desafios para o futuro são muito grandes, mas só poderão ser vencidos se o planeta for entendido como pertencente a todos, tendo suas riquezas divididas de forma a não olvidar da existência dos direitos humanos e não se negligenciarem as necessidades de proteção da sustentabilidade do planeta, pois, trata-se de nosso futuro comum e conjunto.

Luís Renato Vedovato é Doutor em Direito Internacional e Professor na Faculdade de Direito da PUC-Campinas