Arquivo da tag: dignidade

A dignidade e a vocação da mulher: um olhar antropológico à luz da Revelação

Por Prof. Me. Lúcia Maria Quintes Ducasble Gomes – Professora das Faculdades de Teologia, Biblioteconomia, Ciências Biológicas, Medicina e Enfermagem da PUC-Campinas

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 08 de março, retoma importantes discussões sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea. Apesar de indiscutíveis conquistas terem sido realizadas nas últimas décadas a favor da mulher, um longo e árduo caminho terá que ser percorrido até que a mulher seja considerada a altura de sua dignidade. Do ponto de vista teológico, “a estrada do pleno respeito da identidade feminina passa pela Palavra de Deus, que identifica o fundamento antropológico da dignidade da mulher, apontando-o no desígnio de Deus sobre a humanidade” (JOÃO PAULO II. Carta às mulheres, n.6). Compreender a razão e as consequências da decisão do Criador de fazer existir o ser humano permitirá reconhecer à dignidade e a vocação da mulher, como também falar da sua presença na sociedade e na Igreja.

No livro do Gênesis 2, 18-25, a mulher (‘iššah) é criada por Deus da costela do homem (‘iš)”, porque não era bom que o homem estivesse só (cf. Gn 2,18))  e é colocada como um outro eu, sendo imediatamente reconhecida pelo homem “como carne da sua carne e osso dos seus ossos” (Gn 2, 23). Esta passagem bíblica indica que o homem existe somente como “unidade dos dois” e, enquanto imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27), inaugura a definitiva auto revelação de Deus uno e trino, unidade viva na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.7). O texto bíblico deixa claro a igualdade existente entre o homem e  a mulher. Contudo, quando a “unidade dos dois” é descumprida e de um algum modo prejudica a mulher, o ato em si impacta a dignidade do homem. “Efetivamente, em todos os casos em que o homem é responsável de quanto ofende a dignidade pessoal e a vocação da mulher, ele age contra a própria dignidade pessoal e a própria vocação” (JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.10). A reflexão teológica ainda afirma que o ser humano, tanto homem como mulher, é a única criatura na terra que Deus quis por si mesma; ao mesmo tempo, precisamente esta criatura única não pode se encontrar plenamente senão por um dom sincero de si mesma (cf. CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et spes, n.24).  Esta afirmação, de natureza ontológica, indica a dimensão ética da vocação de todo ser humano. Assim, a mulher não pode se encontrar a si mesma, viver a sua vocação e a sua dignidade senão na perspectiva da doação. Nesse contexto,  Maria, máxima expressão do gênio feminino, com o seu sim à Deus se torna modelo de mulher e realização do ser humano, isto porque “ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4), manifestando a singular dignidade da mulher adquirida na elevação sobrenatural à união com Deus, em Jesus Cristo, que determina a finalidade da existência de todo homem (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.4).

A dignidade da mulher testemunha o amor que ela recebe de Deus para, também, ela amar. Nesse sentido, “o paradigma bíblico da mulher revela a verdadeira ordem do amor que constitui a vocação da mesma mulher e que por fim se concretiza e se exprime nas múltiplas vocações da mulher no mundo e na Igreja” (cf. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Mulieris dignitatis, n.30).

Artigo: “Brilhar na Fé e na Ciência”

 Por Pe. Dr. Adriano Broleze

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.  Assim se inicia a Encíclica Fides et Ratio, que versa sobre a relação da fé e da razão.  Importante documento que desenvolve o tema muitas vezes concebido como antitético entre a Revelação e a Racionalidade humana. Um convite para compreender que, tanto a fé como a razão são características propriamente do ser pensante e, somente numa visão de entendimento, poderão ser assumidas como colaboradoras do desejo mais profundo do coração humano, ou seja, o anseio pela verdade.

As novas descobertas, sobretudo no campo da biotecnologia, evidenciam inumeráveis possibilidades ao desenvolvimento humano, contudo nem sempre uma tecnologia alcançável e aplicável é, humanamente (ética, moral e religião), aceitável. Seja pelo que entendemos do ser humano, como portador de dignidade inalienável, seja pelo que a religião expressa em conceber o mesmo humano como merecedor de não violação de sua vital sacralidade. O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico. A posição da religião, nesse senso, é justamente de afirmação, ou seja, de sustentação do valor de todo indivíduo e de todo ecossistema, nosso eu e nossa casa comum.

“O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico.”

As ciências bem o sabem que, defronte ao ser humano, não será possível adotar outra linguagem que não a da Dignidade, mas ao mesmo tempo, também são cientes que essa linguagem reclama contínua e fatigosa revisão. Não existe, todavia, na esfera do código simbólico, outra estrada a percorrer, senão a da reflexão que forjará as contingências do avanço e da autolimitação da pesquisa científica. A Igreja, nesse sentido, oferece uma significativa contribuição, sustentando uma visão integral do ser humano, visão que envolve não só a indispensável conceituação teórica de cada ciência, mas também a englobante visão antropológica, colhida na seara teológica, do pensante como mistério para si mesmo e, em comunhão com o outro.

Na história da relação entre Fé e Razão encontraremos, certamente, momentos turvos, que no entrincheiramento histórico podemos apreciar, todavia também não nos faltam elementos que indicam a gloriosa colheita que se pode desfrutar quando essas dimensões se unem. Vejamos, por exemplo, a conservação dos livros nos mosteiros desde a Idade Média, o nascimento das universidades, os grandes cientistas como Nicolau Copérnico (padre), Gregor Mendel (monge) e ainda Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly. Hoje a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano são destaque, sem ainda enumerar tantas universidades e escolas espalhadas pelo mundo.

“A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros”.

Nesse sentido, Giuseppe Moscati (1880-1927), sustentava que não deveria existir contradição ou antítese entre ciência e fé, ambas deveriam concorrer para o bem do homem. Médico e professor universitário ele testemunhou ao longo de toda sua vida um zelo no atendimento aos doentes, foi pioneiro na relação de proximidade com os doentes. Dizia: “Seja a dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor ou da caridade”. Conhecido como médico os pobres, foi canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1987.

A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros. Ao longo dos séculos, esses elementos serão observados e utilizados ora para salvaguardar uma ora para depreciar a outra. Contudo, o que não podemos nunca esquecer é que essas duas dimensões fazem parte de uma única realidade humana, que deseja ardentemente pela mais gloriosa tarefa da racionalidade, isto é, o desvelamento do mistério da verdade. Quando razão e fé se unem, esse desvelamento torna-se maravilhosamente possível.

Prof. Dr. Pe. Adriano Broleze- Faculdade de Teologia e Direito da PUC-Campinas