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A recuperação da economia em 2017 e 2018

Por Porf. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Docente da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas

Uma questão crucial, hoje, tanto para tomadores de decisões econômicas quanto para os analistas de mercado se refere à recuperação da economia brasileira. O gráfico abaixo mostra que depois de cinco anos com crescimento positivo – um crescimento médio anual de 3,4% entre 2010 e 2014 – o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil apresentou, em 2015 e 2016, queda de 3,8 e 3,6%, respectivamente.

No momento, portanto, o que todos querem saber é o resultado do PIB em 2017 e em 2018. O governo e o mercado fazem previsões de crescimento baixo, mas positivo para 2017 e 2018. O Banco Central, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI), publicado em junho, apresentou uma estimativa de crescimento de 0,5% do PIB em 2017, a mesma projeção do Ministério do Planejamento, publicada no Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do 3º bimestre. A previsão do mercado também é de crescimento positivo. De acordo com o relatório Focus de junho de 2017, economistas e instituições financeiras consultadas projetavam um crescimento do PIB de 0,41% em 2017 e de 2,0% em 2018.

As previsões de crescimento positivo em 2017 e em 2018 foram reforçadas após o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgar o PIB do segundo trimestre de 2017, que mostrou um crescimento de 0,2% na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior e de 0,3% em comparação com o segundo trimestre de 2016. Este foi o primeiro crescimento positivo depois de 12 trimestres!

O resultado do PIB do segundo trimestre de 2017, divulgado pelo IBGE, superou as expectativas do mercado, que, no final de julho, tinha previsto uma variação de 0,2% negativa no PIB do trimestre. O resultado positivo, portanto, alterou as expectativas do mercado e aumentou o otimismo quanto à recuperação da economia a partir do segundo semestre de 2017 e, principalmente, em 2018.

Entretanto, se olharmos com um pouco mais de atenção os dados divulgados pelo IBGE, veremos que, a despeito do resultado positivo no segundo trimestre de 2017, ainda pode ser muito cedo para otimismo em relação a uma recuperação sustentada do PIB brasileiro.

Duas coisas são preocupantes nos dados fornecidos pelo IBGE. A primeira é o desempenho da indústria. No segundo trimestre de 2017, o PIB industrial apresentou um crescimento negativo de 2,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ou seja, a produção industrial no segundo trimestre de 2017 ficou 2,1% menor do que a produção no segundo trimestre de 2016. Os números mostram que o crescimento positivo do PIB no trimestre foi resultado de uma evolução excepcional do setor agropecuário, que cresceu 14,9% em relação ao mesmo período de 2016.

A segunda coisa preocupante é que, no segundo trimestre de 2017, a formação bruta de capital fixo (FBKF) apresentou um resultado de 6,5% negativo em relação ao mesmo período do ano anterior. A FBKF mede o quanto as empresas estão investindo em bens de capital, ou seja, aqueles bens que aumentam a capacidade produtiva. Crescimento positivo na FBKF significa aumento na capacidade produtiva futura e, portanto, maior possibilidade de crescimento econômico no futuro. Os resultados negativos do crescimento da FBKF, em 2017, são preocupantes porque podem comprometer o crescimento econômico no médio e no longo prazo.

Portanto, os resultados positivos divulgados pelo IBGE para o segundo trimestre de 2017 precisam ser analisados com muita cautela, uma vez que o setor industrial, que é o setor mais dinâmico da economia, aquele que quando cresce demanda muito dos outros setores, principalmente do setor de serviços, continua com a produção em queda. Além disso, a variável-chave para uma recuperação de fato, o investimento produtivo, porque diretamente ligada à geração de empregos e ao aumento da capacidade produtiva no futuro, também não apresenta sinais de recuperação.

Para finalizar, não devemos nos esquecer de que 2018 é um ano eleitoral e que processos eleitorais, ainda mais quando conturbados por investigações policiais que comprometem boa parte da classe política, criam um cenário de muitas incertezas, que podem reduzir ainda mais a disposição das empresas em fazer investimentos produtivos.

A estreita relação entre economia e inovação

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

A relação estreita entre inovação tecnológica, crescimento econômico e melhora nas condições de vida de uma nação é conhecida pelos economistas desde a publicação da “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, em 1776, que é considerada por muitos historiadores do pensamento econômico como a obra que marca o nascimento das Ciências Econômicas como um campo autônomo do saber. Para Smith, o crescimento da produção e do consumo depende do crescimento da produtividade do trabalho, que, por sua vez, depende de dois fatores: a divisão social do trabalho e o progresso tecnológico.

Uma característica do desenvolvimento socioeconômico de uma nação é a significativa melhora nas condições de vida da população, que pode ser medida por indicadores como o aumento da expectativa de vida, redução da mortalidade infantil e aumento no nível de escolaridade. Por trás dessa melhora estão inovações tecnológicas de diversas naturezas. Os eletrodomésticos, que aumentam o conforto e liberam tempo livre para outras atividades, como por exemplo, mais tempo para estudar. Medicamentos e vacinas, que reduzem a mortalidade infantil e permitem uma vida mais longa e saudável. Enfim, seria impossível pensar na vida confortável que temos hoje sem as inúmeras inovações tecnológicas dos últimos 60 anos, pelo menos. As tecnologias não são condições suficientes para a qualidade de vida, porque esta depende também de outros fatores, mas são condições necessárias.

As inovações tecnológicas podem ser classificadas de duas formas: as inovações que criam novos produtos e as inovações que melhoram o processo produtivo. A aspirina, a caneta esferográfica, o forno de micro-ondas, os televisores, o notebook, o tablet e os smartphones são exemplos de inovações de produto. As reduções de custos e o aumento da produtividade são exemplos de mudanças que podem resultar de inovações de processo. As inovações de produtos são as mais conhecidas da população em geral. Por isso, quando falamos de inovações tecnológicas, é comum pensarmos somente nos novos produtos, principalmente nos eletrônicos.

As inovações de processo são tão importantes quanto às inovações de produto para uma vida confortável e segura. Um exemplo é o caso da produção de alimentos. De acordo com dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), entre 1960 e 2010, a população mundial cresceu de 3,1 para 6,5 bilhões de pessoas. Apesar disso, no mesmo período, o crescimento da produção mundial de alimentos superou o crescimento populacional. Ou seja, em 2010, a produção mundial per capita de alimentos era maior do que em 1960, a despeito da população ter se duplicado neste período. O crescimento da produção agrícola neste período foi resultado basicamente do aumento do rendimento por hectare. Entre 1961 e 2006, enquanto a produção agrícola aumentou 150%, a área cultivada aumentou menos que 30%. O crescimento do rendimento, por sua vez, só foi possível pela difusão e adoção de muitas inovações de processo, que além de aumentar a produtividade por hectare, permitiram a redução de custos de produção.

A importância da tecnologia para a qualidade de vida no século atual será tão ou mais importante do que no século passado. Enquanto no século passado o grande desafio foi o aumento da produção e da renda per capita, no atual o desafio será o do desenvolvimento sustentável, que consiste em conciliar o crescimento econômico e demográfico com a preservação ambiental. De acordo com estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial deverá aumentar de 7,3 bilhões de pessoas em 2015 para 8,5 bilhões em 2030. Ainda assim, a renda per capita continuará crescendo, principalmente nos países megapopulosos como China e Índia. O crescimento demográfico e o crescimento da renda per capita mundial pressionarão a demanda de diversos bens e serviços intensivos em recursos naturais. Ocorrendo o crescimento previsto da população e da renda, em 2030 as demandas por energia, água e alimentos deverão aumentar, respectivamente, em 50, 40 e 35%. Além disso, em 2014, 768 milhões de pessoas no mundo não tinham acesso à água tratada, 2,5 bilhões não tinham condições sanitárias adequadas e 1,3 bilhão de pessoas não tinham acesso a eletricidade. Portanto, o mundo precisará crescer tanto para atender a demanda oriunda do crescimento populacional e da renda quanto para atender as necessidades dos que hoje ainda não usufruem de condições de vida minimamente aceitáveis.

Assim, a tecnologia será fundamental para desenvolvermos processos produtivos mais sustentáveis, sobretudo nos setores críticos, como na produção de alimentos e de energia. Não por acaso, um dos objetivos da Agenda 2030, que estabeleceu os objetivos do desenvolvimento sustentável, se refere à necessidade de modernizar a infraestrutura e capacitar as indústrias para torná-las sustentáveis, aumentando a eficiência no uso de recursos naturais e adotando tecnologias e processos produtivos mais limpos e menos poluentes. Para que isso seja possível, a Agenda recomenda “fortalecer a pesquisa científica e melhorar as capacidades tecnológicas de setores industriais em todos os países”.

Enfim, as inovações tecnológicas serão condições necessárias para que possamos assegurar padrões sustentáveis tanto de produção quanto de consumo. Muitas inovações atuais, já disponíveis para os consumidores, apresentam atributos que favorecem tanto o uso mais eficiente de recursos naturais quanto à diminuição de resíduos. Como exemplo, podemos destacar as lâmpadas de LED, que possuem maior eficiente energético, e os automóveis elétricos e híbridos, que poluem bem menos.

 

PÁSCOA – ECONOMIA Efeitos sazonais

Por Prof. Dr. Izaias de Carvalho Borges – Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas

Páscoa é alegria, época destinada a transformação interna de todos os cristãos. Essa renovação tem início no período da Quaresma, momento de recolhimento e reflexão espiritual, de preparação para a festa do renascimento de Cristo. A data religiosa acaba influenciando no aumento do consumo e dos preços de alguns produtos, principalmente chocolates e peixes, recebendo dos economistas um termo específico para traduzir o fato, chamado sazonalidade.

A sazonalidade resulta de mudanças sazonais, ou seja, mudanças temporárias, típicas de determinada época ou estação do ano. Por ser temporária, a variável que está sofrendo o efeito da mudança sazonal, normalmente os preços, tende a regressar a seu nível inicial após certo tempo.

Existem, basicamente, dois tipos de sazonalidade: as climáticas e as culturais. As climáticas – influenciadas pelas estações do ano – são as principais causas de oscilações nos preços de alguns alimentos ao longo do ano. As sazonalidades climáticas podem influenciar tanto a oferta quanto a demanda. Por exemplo, no caso de algumas frutas, como o limão, a oscilação do preço ao longo do ano é resultado tanto de alterações sazonais na oferta quanto na demanda. A colheita normalmente ocorre entre dezembro e abril. Nos meses de outubro e novembro os preços costumam aumentar muito por dois motivos: a oferta está muito baixa (período da entressafra) e a demanda por bebidas está aquecida, influenciada pelo aumento da temperatura nesse período.

Já as sazonalidades culturais são influenciadas por costumes de uma população ou por festas religiosas. Esse tipo de sazonalidade geralmente influencia apenas a demanda de produtos específicos, normalmente alimentos e bebidas. A Páscoa é um exemplo de um evento religioso que gera efeitos sazonais sobre os preços de dois produtos: o chocolate e os peixes. A tradição de comer peixes na Sexta-feira Santa e de presentear pessoas com chocolates no Domingo de Páscoa faz com a demanda de ambos os produtos aumente e, consequentemente, os seus preços.

Uma questão importante é: quais estratégias o consumidor pode adotar frente às oscilações sazonais dos preços. Uma primeira estratégia é, quando possível, antecipar as compras. Por exemplo, comprar peixes na semana que antecede a Semana Santa pode não ser o melhor momento. Os preços costumam ter picos próximos ao dia principal do evento. A segunda estratégia é pesquisar antes de comprar. Os preços podem se diferenciar muito, tanto em função da variedade de marcas, tamanhos e sabores, quanto pela concorrência entre os varejistas. Alguns estudos mostram, por exemplo, que o preço de um ovo de Páscoa, com a mesma marca e mesmas características, pode oscilar até 150%.

 

Trump será lapidado pelas instituições

Para Professor da PUC-Campinas, instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente, dificultando que seus objetivos de campanha prossigam.

Por Amanda Cotrim

A eleição de Donald Trump para presidência dos EUA repercutiu no mundo inteiro muito mais pela postura quase caricata do então candidato do que pela exposição de suas estratégias políticas e econômicas. O mundo passou a se questionar, desde os resultados das urnas, como será a política internacional de Trump e se ele cumprirá com as promessas feitas na campanha, como fechar fronteiras, restringir a entrada de imigrantes no país, não manter relações diplomáticas, políticas e comerciais com país e regiões cujos acordos haviam sido firmados por Obama, além da própria promessa de aumentar os empregos e a qualidade de vida dos cidadãos estadunidenses.

Para poder compreender um pouco melhor quais os impactos reais da eleição de Donald Trump, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o Professor. Me. Adauto Ribeiro, Diretor adjunto do Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas. Segundo o especialista, dado que o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente. “Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana”.

Confira a entrevista na integra:

  • Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais nos EUA?

No contexto das relações internacionais, decisões emitidas pelo sistema institucionalizado de escolha política de uma nação não se questiona, se acata. Desta forma, o candidato Donald Trump primeiro se viabilizou no interior do Partido Republicano e depois ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, dentro das regras estipuladas na constituição norte-americana. O resultado demonstrou insatisfação com o Partido Democrático e recoloca o Partido Republicano no poder.

A questão que mais chamou a atenção nesta eleição foi a postura do candidato vencedor, uma figura do show business, não proveniente do corpo político tradicional do país. No entanto, nunca é demais destacar que discurso de candidato é uma coisa e o exercício efetivo do poder é outra coisa. Desta forma, o que se espera é que as medidas a serem tomadas pelo novo Presidente sejam lapidadas pela institucionalidade que envolve a Presidência da República, bem como pelos interesses do Partido Republicano, que, cabe ressaltar, fez maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, na campanha, não o tratou como seu candidato ideal.

Trump, na sua campanha vitoriosa, apresentou-se como um indignado cidadão norte-americano de classe média preocupado com a perda de prestigio e de poder da nação americana no ambiente mundial e que isso refletia no desemprego e na perda de qualidade de vida do americano. Assim, tornar a América forte novamente foi seu mote. E para isso não faltaram inimigos, ocultos e não tão ocultos assim, elencados; satisfazendo o desejo interno de achar responsáveis “externos” pelos problemas da Nação. Assim, Trump se apresentou nas eleições como o herói, que imbuído de uma causa justa não vê restrições em levá-la adiante, até as últimas consequências- ou inconsequências- de seus atos. Na campanha esse procedimento pode ser válido, no entanto, na política cotidiana e nas relações internacionais isso não funciona desta maneira. Instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente e negociações terão que ser efetuadas para levar a cabo alguns de seus objetivos, o que nos leva a crer que a maioria deles será esquecida e ficará pelo caminho.

“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Qual será o efeito da vitória de Trump para a América Latina?

Com relação à América Latina, não se espera mudanças significativas, inclusive por já ser uma região com predomínio dos interesses norte-americanos devidamente assentados. Naturalmente, a questão dos imigrantes e da fronteira mexicana será destaque. O novo governo deverá impor mais restrições à entrada nos Estados Unidos, inclusive para trabalho legal, bem como ampliará o combate aos ilegais, afinal de contas essas medidas foram exploradas a exaustão na campanha e não fazê-las geraria perda de apoio em grande parte do eleitorado de Trump.

A promessa de defender empregos para os norte-americanos deverá recair em grande parte na restrição aos imigrantes. O problema desta estratégia é a relação extremamente produtiva da economia norte-americana com relação a estes trabalhadores, dado que a imigração aumentou significativamente de todos os continentes para os Estados Unidos. Assim, a lógica de cercear a entrada de imigrantes pode ser ruim para a competitividade da economia norte-americana visto que um de seus elementos dinâmicos é a diversidade de trabalhadores de todo o mundo que se dirigem para esta economia.

Um segundo ponto de destaque devem ser as relações com Cuba. Este país deve obter um pouco mais de atenção do novo governo, dado o momento de transição política que atravessa, o que não significa que haverá boa vontade dos EUA para com este país, ao contrário, Trump deve atender aos interesses dos cubanos radicados nos EUA bem mais do que o fez Obama.

O candidato também fez menção de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que considera prejudicial aos Estados Unidos, no entanto, não detalhou que ponto trataria nesta revisão, sendo assim, pode ser que procure impor alguma restrição a circulação de mercadorias, o que prejudicaria os mexicanos, mas também os consumidores norte-americanos. O desejo manifesto de estabelecer acordos bilaterais aponta para uma política comercial de negociação caso a caso, situação que faz pender a balança de negociações para o lado dos norte-americanos. O Brasil no seu projeto de integração regional (Mercosul) resistiu a esta estratégia comercial, desde os anos 1990, vamos ver se vai alterá-la agora.

  • Em que o mandato de Trump pode afetar o Brasil?

O Brasil se insere no contexto da América Latina como região de baixa prioridade para os EUA, no entanto, para nós trata-se de um parceiro estratégico, cerca de 13% das exportações brasileiras se dirigem para os EUA, de onde cerca de 17% de nossas importações são provenientes. O crescimento econômico norte-americano seria um fato extremamente benéfico para as exportações brasileiras. Entretanto, ao que parece, o novo governo também pretende expandir suas exportações para o mercado brasileiro, adotando uma estratégia de acordos bilaterais. Para que isso ocorra, será preciso rever o acordo do Mercosul, nosso parceiro preferencial. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o novo governo brasileiro aponta para facilitar esta estratégia americana. Por outro lado, a necessidade de atração de capital estrangeiro da economia brasileira esta em consonância com o desejo norte-americano em ampliar estes investimentos; a questão é estratégica.

O governo brasileiro já vem desregulamentado diversos setores de interesse dos Estados Unidos, a área de petróleo é um destes setores, bem como a área de infraestrutura, transportes e serviços. Outra fonte de preocupação para o Brasil está na condução da política de juros norte-americana a ser praticada pelo novo governo, uma alta dos juros norte-americanos neste momento aumentaria as dificuldades para o financiamento da economia brasileira, o que poderia provocar alta de juros no Brasil (que já é extremamente alta). Isto seria muito prejudicial para a economia brasileira. Neste contexto, cabe ao governo brasileiro trabalhar medidas que diminuam a relação de dependência entre estas duas taxas de juros. No mais, esperar apoio dos EUA para uma maior participação do Brasil em organismos multilaterais não me parece algo que irá ocorrer em um horizonte próximo. Em suma, o governo brasileiro não deve esperar benefícios com a nova administração, mas sim, negociações duras se quiser fazer prevalecer o interesse brasileiro.

  • A Rússia não chegou a apoiar explicitamente o Trump, mas demonstrou diversas vezes sua oposição à Hillary. Qual interesse da Rússia na eleição do Republicano?

 Com relação à Rússia, a posição do futuro governo norte-americano é de maior proximidade do que os confrontos da era Obama. Trump explorou a imagem de força que o atual governo russo projeta para ressaltar ao público interno que um presidente americano precisa ser igualmente forte. Desta forma, criticou constantemente a sutileza executada por Obama em sua política externa, ressaltando a necessidade de agir com dureza e rapidez. Basicamente, uma política externa mais truculenta, como o faz o presidente russo. Trump, ao que tudo indica, deve aumentar o poderio militar norte-americano, porém, reclama dos custos da defesa que diz efetuar para países amigos no exterior. No seu discurso, diz que espera dividir os custos desta defesa com estes países. Falta combinar com eles. Não é a toa que países da Ásia e da Europa têm demonstrado preocupação com esta postura norte-americana. Com esta política, perdem os países-amigos mais distantes a proteção americana que julgavam ter, e ficam mais livres para agir a Rússia e a China, por exemplo.

A provável estratégia de Trump de ampliar o poder militar dos EUA resgata a política do período da Guerra Fria, enfatizando que o país, sob seu governo, se tornaria tão poderoso e ameaçador que, desta forma, não sofreria mais ameaças. Um filme que já assistimos no passado e que atende integralmente o interesse da indústria bélica mundial e o interesse das nações com grande investimento em armas.

  • O que a eleição de Trump pode influenciar na guerra na Síria?

Se formos observar pelos discursos da campanha, o presidente Trump tende a se aproximar do governo sírio em detrimento dos rebeldes que lutam para derrubar o governo estabelecido. Da mesma forma, pode se aproximar da posição russa estabelecendo um apoio ao combate conjunto ao Estado Islâmico. Assim, a guerra síria pode caminhar para uma solução, dado o reforço recebido por uma das três partes envolvidas no conflito, o que não significa uma solução para a instabilidade do Oriente Médio.

Trump, ao que parece, não possui uma estratégia consolidada de como lidar com a região, o Partido Republicano deverá guia-lo. Israel segue como prioridade política para os Estados Unidos, embora o presidente tenha escorregado em alguns discursos. Ainda com relação ao Oriente Médio, deverá fortalecer as críticas ao regime do Irã e sua oposição ao acordo nuclear pactuado por Obama, sempre tomando como base seus discursos de campanha.

  • Qual sua avaliação sobre a  Parceria do Transpacífico e a promessa de rompimento por parte dos EUA?

Este me parece um equivoco a ser cometido pelo novo governo, dado que já afirmou que não irá ratificar o acordo comercial tão demoradamente costurado pela gestão anterior e que serviria politicamente para ampliar a presença norte-americana na Ásia e Oceania, ao mesmo tempo em que buscaria gerar um freio na expansão comercial chinesa. Ao pressupor que o acordo não é benéfico aos EUA, e que em sua gestão irá se guiar por acordos bilaterais, procurando resultados específicos para os EUA no curto prazo, o governo Trump acaba beneficiando a estratégia chinesa e coloca os interesses de curto prazo acima de estratégias politicas estruturantes. Em suma, parece que cláusulas do acordo que não seriam de interesse imediato de partes importantes da economia americana, envolvendo questões ambientais e trabalhistas, seriam abandonadas. De acordo com pensamento de Trump, estas partes do acordo dificultariam a criação de empregos no EUA e restringiriam o uso de fontes antiquadas de energia, que em sua campanha o candidato prometeu resgatar. Isto pode gerar um grande problema ambiental e, principalmente, um problema para o desenvolvimento de tecnologias e energia limpa nos EUA, podendo permitir que a China se destaque nesta área na economia mundial. Em suma, ao não assinar o tratado, os EUA claramente ignorarão os seus parceiros da jornada, Japão, Austrália, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Colômbia entre outros, o que irá exigir dos norte-americanos a apresentação de um acordo alternativo em substituição.

  • Há algo que eu não perguntei que o senhor gostaria de dizer?

No geral, o que podemos observar é a existência de uma grande expectativa quanto aos rumos do governo Trump.  Seu discurso “vazio” não revela estratégias, logo, o caminho está aberto. Dado que o partido republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente.

O que Trump repetiu a exaustão na campanha é que os EUA estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso precise sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos, afirmando ainda que não irá mais ceder o país à falsa cantiga da globalização.

 Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana.

 

 

Black Friday tupiniquim e as vendas de Natal em meio à crise econômica

Por Vinícius Ferrari

A origem do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day)  remonta aos festivais cristãos celebrados pelos primeiros colonos norte-americanos em agradecimento às colheitas anuais. Muitos séculos depois, em 1941, o Congresso dos EUA elevou o Thanksgiving ao status de feriado nacional, que passou a ser comemorado na quinta-feira da quarta semana de novembro.

Os congressistas nutriam esperanças de que o feriado estimulasse as vendas de Natal, o nível de emprego e o lucro varejista.  Em especial, o presidente Franklin D. Roosevelt acreditava que esses acontecimentos poderiam contribuir para a superação definitiva da Grande Depressão dos anos 30.

As grandes redes comerciais dos EUA logo perceberam as oportunidades geradas pelo feriado e instituíram o dia nacional das promoções na primeira sexta-feira após o Thanksgiving, que ficou popularmente conhecida como Black Friday.

Por décadas, as promessas de vultosos descontos têm atraído milhões de norte-americanos às lojas em cada Black Friday. Desde então, o frenesi das compras, termo utilizado pela primeira vez pela polícia da Filadélfia,   tomou conta do Thanksgiving. Para muitos consumidores dos EUA, o feriado religioso transformou-se num mero prelúdio do  holiday shopping  que abre a temporada de liquidações de Natal.

A exemplo dos EUA na década de 1940, o Brasil  está vivenciando, no período atual, uma grave crise econômica. O PIB per capta, um indicador que mede a renda do país, sofreu forte retração no biênio 2014-2015. Em 2016,  pela primeira vez desde de 1999, a taxa de desemprego superou o patamar de 11% da população. O fantasma da inflação, que muitos acreditavam ter  sido eliminado, voltou a atormentar as famílias brasileiras. Não por acaso, as vendas de Natal registraram quedas em dois anos consecutivos.

Diante desse contexto de crise, o setor varejista parece ter encontrado uma nova tábua de salvação para as vendas natalinas: “importar o feriado” de Black Friday para o Brasil por meio do oferecimento de promoções através do comércio eletrônico.

A despeito da inexistência do feriado de Thanksgiving no calendário brasileiro,  o apelo dos descontos parece ter surtido efeito. De acordo com empresa Ebit, o comércio eletrônico movimentou 1,9 bilhão de reais na Black Friday de 2016. Trata-se de uma elevação de 17% frente ao ano anterior. Sob um cenário desemprego crescente, o valor médio dos pedidos foi de R$ 653, uma quantia 13% acima do valor registrado na Black Friday de 2015.

Esses dados atestam que as promoções têm estimulado as vendas de Natal em meio à crise de 2016; no entanto, esse acontecimento não está isento de questionamentos. Será que a Black Friday tupiniquim ameaça distorcer ainda mais  os valores familiares cristãos que deram origem ao Natal, tal qual ocorreu com o feriado religioso do  Thanksgiving nos EUA, que passou a representar o símbolo máximo do consumismo desenfreado.

Prof. Dr Vinícius Ferrari é Economista professor na Faculdade de Economia e Administração.

Comércio de armas não pode ser defendido economicamente

Por Izaias de Carvalho

:  Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.
Na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012/ Crédito: Álvaro Jr.

Num mundo em que aproximadamente um bilhão de pessoas não conseguem atender, de acordo com a FAO (Agência das Nações Um idas para Agricultura e Alimentação), suas necessidades básicas de alimentação, o comércio de armas se destaca como um negócio lucrativo e em expansão. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisas da Paz de Estocolmo (Stockholm International Peace Research Institute, SIPRI), as vendas de armas e serviços militares das 100 maiores empresas da indústria bélica totalizaram 402 bilhões de dólares em 2013. Apesar da pequena redução observada entre 2011 e 2013, no período de 2002 à 2013 as vendas dessas empresas aumentaram 45%. Ente os maiores importadores de armas do mundo estão países pobres, com carências de infraestrutura e com sérios problemas de segurança alimentar, tais como Índia, Paquistão e alguns países da África e da América Latina.

O mercado brasileiro de armas também é crescente, a despeito do Estatuto do Desarmamento, de dezembro de 2003, que aumentou as restrições para compra e posse de armas de fogo no país. A evolução do mercado de armas no Brasil nas últimas três décadas pode ser dividida em dois períodos. No primeiro período, que vai do início dos anos 1983 à 2003, o que observamos foi uma verdadeira “corrida armamentista” em que a população tentou por vias próprias garantir a sua proteção. Nesse período ocorreram a expansão do “negócio” da segurança privada e a difusão de armas de fogo entre a população de maneira geral.  Esta expansão esteve associada com as consequências da crise econômica do período conhecido como “década perdida”. De um lado, o aumento da criminalidade, consequência das elevadas taxas de desemprego e de inflação. De outro lado, a deterioração financeira do estado, que limitou drasticamente sua capacidade de investimentos em áreas diversas, dentre elas, a segurança pública.

No segundo período, que se inicia de 2003, o mercado continuou a se expandir, mas num ritmo menor do que no período anterior. Na média nacional, o Estatuto do Desarmamento, não foi suficiente para reduzir o tamanho do mercado, no máximo ele reduziu a taxa de crescimento. Além do mais, em alguns Estados, principalmente nas Regiões Norte e Nordeste, as vendas de armas voltaram a crescer no ritmo acelerado do período anterior ao Estatuto.

A expansão do mercado de armas no Brasil é algo preocupante, porque ele está associado com uma dolorosa e vergonhosa estatística: o país com o maior número de assassinatos no mundo! De acordo com o Estudo Global sobre Homicídios (Global Study on Homicide), publicado pela UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes) em 2013, em 2012 o homicídio doloso causou a morte de 437 mil pessoas em todo o mundo. No Brasil a quantidade assassinatos no mesmo ano foi de 50,1 mil pessoas. Enquanto a população brasileira representa cerca de apenas 3% da população mundial, o número de assassinados no Brasil representa 11,5% do total de pessoas assassinadas no mundo.

De acordo o mesmo estudo, na média mundial, 41% dos assassinatos foram cometido com armas de fogo em 2012. Na América Latina, entretanto, as armas de fogo responderam por 66% do total de homicídios. No Brasil, em algumas regiões, esta taxa chegava a 90%.

Dado que há evidências de que a difusão de armas de fogo contribui para o aumento da taxa de homicídios e, ao contrário daqueles que defendem a livre comercialização de armas, não possui efeito sobre a taxa de crimes contra a propriedade – pode-se concluir que o aumento do comércio de armas no Brasil dificilmente pode ser defendido do ponto de vista econômico, uma vez que ele resulta em muitos mais custos do que benefícios para a sociedade.

Prof. Dr. Izaias de Carvalho é Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC-Campinas