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“Uma teoria transformadora da educação é aquela empenhada em mudar a finalidade da educação”, afirma Demerval Saviani

Em entrevista especial ao Jornal da PUC-Campinas, o Professor Emérito da Unicamp, Dermeval Saviani, que abriu o Planejamento Acadêmico-Pedagógico do 1º semestre de 2017, contextualizou e problematizou as noções de transformação e inovação na educação, retomando a importância da Pedagogia Histórico-Crítica desenvolvida por ele. O pesquisador também abordou a ideia de interdisciplinaridade na ciência, o papel e a formação dos futuros professores no Brasil: “Uma formação sólida só pode ser atingida por meio de cursos presenciais de longa duração articulados com a instituição de uma carreira docente em tempo integral numa única escola com metade do tempo destinado às aulas e a outra metade voltada às demais atividades como preparação das aulas, avaliação dos estudantes, acompanhamento dos alunos que apresentam maiores dificuldades de aprendizagem, participação nos colegiados de gestão da escola e com salários dignos”, afirmou.

A sua palestra na PUC-Campinas terá como tema “Fundamentos filosóficos e pedagógicos das metodologias de ensino”. Comente sobre o que pretende abordar na palestra?

Para abordar o tema que me foi proposto pretendo partir dos dois modelos de formação docente que tenderam a se generalizar quando, no século XIX, foram sendo organizados os sistemas nacionais de ensino: o primeiro, que denomino como “modelo dos conteúdos culturais cognitivos”, se baseia no enunciado “quem sabe, ensina” entendendo que basta ao professor dominar os conteúdos que lhe cabe ensinar aos alunos; e o segundo, “modelo pedagógico-didático”, entende que, além dos conteúdos, o professor precisa dominar os procedimentos pedagógico-didáticos mediante os quais ele transmitirá os conhecimentos aos seus alunos. O primeiro prevaleceu nas universidades para formar os professores de nível secundário; e o segundo, prevaleceu nas Escolas Normais para formar os professores primários. Por aí podemos entender a despreocupação dos professores das instituições de nível superior com a questão didático-pedagógica que se mantém ainda hoje. Tendo presente esse quadro analisarei os fundamentos filosóficos e pedagógicos das principais teorias da educação tendo como referência os conceitos de inovação e de transformação. E concluirei procurando encaminhar a questão do desenvolvimento da metodologia do ensino nas instituições universitárias voltada para a transformação estrutural da sociedade.

Como o senhor analisa a atualidade da Pedagogia Histórico-Crítica para uma escola de qualidade?

Em minha palestra farei uma distinção entre os conceitos de inovação e transformação considerando que, se toda transformação é inovação, nem toda inovação é transformação. O conceito de transformação remete à mudança da própria forma, isto é, da essência do fenômeno ao qual se refere. Portanto, uma teoria transformadora da educação é aquela empenhada não apenas em mudar os meios, os procedimentos, os métodos de ensino, mas a própria finalidade da educação articulando-a com a transformação social, isto é, com a mudança estrutural da sociedade. E é nesse âmbito que se situa a pedagogia histórico-crítica indo, pois, além tanto das teorias não críticas como das teorias crítico-reprodutivistas. Portanto, nesse momento de crise estrutural da sociedade capitalista impõe-se a necessidade de sua transformação que não se processará sem que sejam preenchidas as condições subjetivas, o que coloca a exigência da organização da educação voltada para a transformação social. Assim sendo, a pedagogia histórico-crítica revela-se extremamente atual para viabilizar uma escola de qualidade que oriente as atividades de ensino numa direção transformadora visando a superar as práticas pedagógico-metodológicas hoje predominantes no ensino superior cujas inovações, consciente ou inconscientemente, colocam-se na perspectiva da manutenção e reprodução aperfeiçoada da ordem social vigente baseada no modo de produção capitalista.

Prof. Dr. Demerval Saviani é Professor Emérito da UNICAMP/ crédito: João Zinclar

Como avalia a formação dos futuros profissionais que atuarão na educação infantil ao ensino superior?

É consenso que a formação dos professores no Brasil está marcada por vários tipos de deficiência. No entanto, as mudanças propostas vêm na direção não da superação da precariedade, mas de seu agravamento. Precisamos de professores com uma formação sólida, consistente, que lhes assegure um grande domínio da cultura acumulada assim como dos processos pedagógico-didáticos que garantam a apropriação do acervo cultural por parte dos educandos. E a formação de professores com essas características só pode ser atingida por meio de cursos presenciais de longa duração articulados com a instituição de uma carreira docente em tempo integral numa única escola com metade do tempo destinado às aulas e a outra metade voltada às demais atividades como preparação das aulas, avaliação dos estudantes, acompanhamento dos alunos que apresentam maiores dificuldades de aprendizagem, participação nos colegiados de gestão da escola e com salários dignos. No entanto, as políticas que vêm sendo propostas caminham na contramão dessa orientação ao pretender a instituição de cursos de curta duração, a distância, voltados mais para atividades práticas, mantidas as condições de salário e de trabalho docente com todas as limitações hoje vigentes.

“A pedagogia histórico-crítica revela-se extremamente atual para viabilizar uma escola de qualidade que oriente as atividades de ensino numa direção transformadora visando a superar as práticas pedagógico-metodológicas hoje predominantes no ensino superior”

Qual é o papel e a importância do professor na educação?

O papel do professor é fundamental. Ele é, sem dúvida, o agente principal do processo educativo. Concordo, pois, com Gramsci que conferia papel central ao corpo docente entendendo que, na escola, o nexo instrução-educação só pode ser representado pelo trabalho vivo do professor, pois o professor tem consciência dos contrastes entre o tipo de sociedade e de cultura que ele representa e o tipo de sociedade representado pelos alunos. Por estar consciente desse contraste entre seu lugar e o lugar do aluno no processo educativo, o professor tem consciência também de que sua tarefa é acelerar e disciplinar a formação da criança conforme o tipo superior em luta com o tipo inferior. Conclui, então, que com um corpo docente deficiente afrouxa-se a ligação entre instrução e educação e o ensino degenera em mera retórica que exalta a educabilidade do ser humano em contraste com um trabalho escolar esvaziado de qualquer seriedade pedagógica. Parece que é essa a situação em que nos encontramos hoje no Brasil quando proliferam os discursos exaltadores da importância da educação ao mesmo tempo em que se esvaziam as escolas e a própria figura do professor dos conteúdos relevantes e da seriedade pedagógica.

Como o senhor avalia a ideia de interdisciplinaridade no ensino superior? Até que ponto ela é positiva ou negativa? Por quê?

Em meados do século XX a interdisciplinaridade surgiu como via para se contornar o especialismo que marcou o desenvolvimento da ciência. Althusser fez a análise crítica da interdisciplinaridade, considerada por ele como uma ideologia, resumida ironicamente nos seguintes termos: “quando se ignora algo que todo mundo ignora, basta reunir a todos os ignorantes; a ciência surgirá da reunião de ignorantes”.  A discussão sobre a interdisciplinaridade até nossos dias atesta a fortuna assim como a controvérsia associadas a esse conceito. Para além da interdisciplinaridade, o que está em causa é o problema do método do conhecimento científico, ou seja, o caminho que o homem percorre para conhecer a realidade. O processo de conhecimento científico se constitui como a passagem do empírico ao concreto pela mediação do abstrato. É, pois, ao mesmo tempo, indutivo e dedutivo, analítico-sintético, abstrato-concreto, lógico-histórico. Vê-se, assim, que as abordagens disciplinares e interdisciplinares correspondem ao momento analítico, ao passo da abstração que, evidentemente, é necessário para se passar do empírico (síncrese) ao concreto (síntese); do todo (caótico) figurado na intuição ao todo (articulado) apropriado pelo pensamento. Em suma, o processo de conhecimento corresponde à passagem da síncrese à síntese pela mediação da análise. É esse o caminho que devemos seguir se quisermos proceder cientificamente no sentido dialético que implica a articulação das categorias de totalidade, contradição e mediação.

Trump será lapidado pelas instituições

Para Professor da PUC-Campinas, instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente, dificultando que seus objetivos de campanha prossigam.

Por Amanda Cotrim

A eleição de Donald Trump para presidência dos EUA repercutiu no mundo inteiro muito mais pela postura quase caricata do então candidato do que pela exposição de suas estratégias políticas e econômicas. O mundo passou a se questionar, desde os resultados das urnas, como será a política internacional de Trump e se ele cumprirá com as promessas feitas na campanha, como fechar fronteiras, restringir a entrada de imigrantes no país, não manter relações diplomáticas, políticas e comerciais com país e regiões cujos acordos haviam sido firmados por Obama, além da própria promessa de aumentar os empregos e a qualidade de vida dos cidadãos estadunidenses.

Para poder compreender um pouco melhor quais os impactos reais da eleição de Donald Trump, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o Professor. Me. Adauto Ribeiro, Diretor adjunto do Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas. Segundo o especialista, dado que o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente. “Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana”.

Confira a entrevista na integra:

  • Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais nos EUA?

No contexto das relações internacionais, decisões emitidas pelo sistema institucionalizado de escolha política de uma nação não se questiona, se acata. Desta forma, o candidato Donald Trump primeiro se viabilizou no interior do Partido Republicano e depois ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, dentro das regras estipuladas na constituição norte-americana. O resultado demonstrou insatisfação com o Partido Democrático e recoloca o Partido Republicano no poder.

A questão que mais chamou a atenção nesta eleição foi a postura do candidato vencedor, uma figura do show business, não proveniente do corpo político tradicional do país. No entanto, nunca é demais destacar que discurso de candidato é uma coisa e o exercício efetivo do poder é outra coisa. Desta forma, o que se espera é que as medidas a serem tomadas pelo novo Presidente sejam lapidadas pela institucionalidade que envolve a Presidência da República, bem como pelos interesses do Partido Republicano, que, cabe ressaltar, fez maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, na campanha, não o tratou como seu candidato ideal.

Trump, na sua campanha vitoriosa, apresentou-se como um indignado cidadão norte-americano de classe média preocupado com a perda de prestigio e de poder da nação americana no ambiente mundial e que isso refletia no desemprego e na perda de qualidade de vida do americano. Assim, tornar a América forte novamente foi seu mote. E para isso não faltaram inimigos, ocultos e não tão ocultos assim, elencados; satisfazendo o desejo interno de achar responsáveis “externos” pelos problemas da Nação. Assim, Trump se apresentou nas eleições como o herói, que imbuído de uma causa justa não vê restrições em levá-la adiante, até as últimas consequências- ou inconsequências- de seus atos. Na campanha esse procedimento pode ser válido, no entanto, na política cotidiana e nas relações internacionais isso não funciona desta maneira. Instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente e negociações terão que ser efetuadas para levar a cabo alguns de seus objetivos, o que nos leva a crer que a maioria deles será esquecida e ficará pelo caminho.

“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Qual será o efeito da vitória de Trump para a América Latina?

Com relação à América Latina, não se espera mudanças significativas, inclusive por já ser uma região com predomínio dos interesses norte-americanos devidamente assentados. Naturalmente, a questão dos imigrantes e da fronteira mexicana será destaque. O novo governo deverá impor mais restrições à entrada nos Estados Unidos, inclusive para trabalho legal, bem como ampliará o combate aos ilegais, afinal de contas essas medidas foram exploradas a exaustão na campanha e não fazê-las geraria perda de apoio em grande parte do eleitorado de Trump.

A promessa de defender empregos para os norte-americanos deverá recair em grande parte na restrição aos imigrantes. O problema desta estratégia é a relação extremamente produtiva da economia norte-americana com relação a estes trabalhadores, dado que a imigração aumentou significativamente de todos os continentes para os Estados Unidos. Assim, a lógica de cercear a entrada de imigrantes pode ser ruim para a competitividade da economia norte-americana visto que um de seus elementos dinâmicos é a diversidade de trabalhadores de todo o mundo que se dirigem para esta economia.

Um segundo ponto de destaque devem ser as relações com Cuba. Este país deve obter um pouco mais de atenção do novo governo, dado o momento de transição política que atravessa, o que não significa que haverá boa vontade dos EUA para com este país, ao contrário, Trump deve atender aos interesses dos cubanos radicados nos EUA bem mais do que o fez Obama.

O candidato também fez menção de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que considera prejudicial aos Estados Unidos, no entanto, não detalhou que ponto trataria nesta revisão, sendo assim, pode ser que procure impor alguma restrição a circulação de mercadorias, o que prejudicaria os mexicanos, mas também os consumidores norte-americanos. O desejo manifesto de estabelecer acordos bilaterais aponta para uma política comercial de negociação caso a caso, situação que faz pender a balança de negociações para o lado dos norte-americanos. O Brasil no seu projeto de integração regional (Mercosul) resistiu a esta estratégia comercial, desde os anos 1990, vamos ver se vai alterá-la agora.

  • Em que o mandato de Trump pode afetar o Brasil?

O Brasil se insere no contexto da América Latina como região de baixa prioridade para os EUA, no entanto, para nós trata-se de um parceiro estratégico, cerca de 13% das exportações brasileiras se dirigem para os EUA, de onde cerca de 17% de nossas importações são provenientes. O crescimento econômico norte-americano seria um fato extremamente benéfico para as exportações brasileiras. Entretanto, ao que parece, o novo governo também pretende expandir suas exportações para o mercado brasileiro, adotando uma estratégia de acordos bilaterais. Para que isso ocorra, será preciso rever o acordo do Mercosul, nosso parceiro preferencial. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o novo governo brasileiro aponta para facilitar esta estratégia americana. Por outro lado, a necessidade de atração de capital estrangeiro da economia brasileira esta em consonância com o desejo norte-americano em ampliar estes investimentos; a questão é estratégica.

O governo brasileiro já vem desregulamentado diversos setores de interesse dos Estados Unidos, a área de petróleo é um destes setores, bem como a área de infraestrutura, transportes e serviços. Outra fonte de preocupação para o Brasil está na condução da política de juros norte-americana a ser praticada pelo novo governo, uma alta dos juros norte-americanos neste momento aumentaria as dificuldades para o financiamento da economia brasileira, o que poderia provocar alta de juros no Brasil (que já é extremamente alta). Isto seria muito prejudicial para a economia brasileira. Neste contexto, cabe ao governo brasileiro trabalhar medidas que diminuam a relação de dependência entre estas duas taxas de juros. No mais, esperar apoio dos EUA para uma maior participação do Brasil em organismos multilaterais não me parece algo que irá ocorrer em um horizonte próximo. Em suma, o governo brasileiro não deve esperar benefícios com a nova administração, mas sim, negociações duras se quiser fazer prevalecer o interesse brasileiro.

  • A Rússia não chegou a apoiar explicitamente o Trump, mas demonstrou diversas vezes sua oposição à Hillary. Qual interesse da Rússia na eleição do Republicano?

 Com relação à Rússia, a posição do futuro governo norte-americano é de maior proximidade do que os confrontos da era Obama. Trump explorou a imagem de força que o atual governo russo projeta para ressaltar ao público interno que um presidente americano precisa ser igualmente forte. Desta forma, criticou constantemente a sutileza executada por Obama em sua política externa, ressaltando a necessidade de agir com dureza e rapidez. Basicamente, uma política externa mais truculenta, como o faz o presidente russo. Trump, ao que tudo indica, deve aumentar o poderio militar norte-americano, porém, reclama dos custos da defesa que diz efetuar para países amigos no exterior. No seu discurso, diz que espera dividir os custos desta defesa com estes países. Falta combinar com eles. Não é a toa que países da Ásia e da Europa têm demonstrado preocupação com esta postura norte-americana. Com esta política, perdem os países-amigos mais distantes a proteção americana que julgavam ter, e ficam mais livres para agir a Rússia e a China, por exemplo.

A provável estratégia de Trump de ampliar o poder militar dos EUA resgata a política do período da Guerra Fria, enfatizando que o país, sob seu governo, se tornaria tão poderoso e ameaçador que, desta forma, não sofreria mais ameaças. Um filme que já assistimos no passado e que atende integralmente o interesse da indústria bélica mundial e o interesse das nações com grande investimento em armas.

  • O que a eleição de Trump pode influenciar na guerra na Síria?

Se formos observar pelos discursos da campanha, o presidente Trump tende a se aproximar do governo sírio em detrimento dos rebeldes que lutam para derrubar o governo estabelecido. Da mesma forma, pode se aproximar da posição russa estabelecendo um apoio ao combate conjunto ao Estado Islâmico. Assim, a guerra síria pode caminhar para uma solução, dado o reforço recebido por uma das três partes envolvidas no conflito, o que não significa uma solução para a instabilidade do Oriente Médio.

Trump, ao que parece, não possui uma estratégia consolidada de como lidar com a região, o Partido Republicano deverá guia-lo. Israel segue como prioridade política para os Estados Unidos, embora o presidente tenha escorregado em alguns discursos. Ainda com relação ao Oriente Médio, deverá fortalecer as críticas ao regime do Irã e sua oposição ao acordo nuclear pactuado por Obama, sempre tomando como base seus discursos de campanha.

  • Qual sua avaliação sobre a  Parceria do Transpacífico e a promessa de rompimento por parte dos EUA?

Este me parece um equivoco a ser cometido pelo novo governo, dado que já afirmou que não irá ratificar o acordo comercial tão demoradamente costurado pela gestão anterior e que serviria politicamente para ampliar a presença norte-americana na Ásia e Oceania, ao mesmo tempo em que buscaria gerar um freio na expansão comercial chinesa. Ao pressupor que o acordo não é benéfico aos EUA, e que em sua gestão irá se guiar por acordos bilaterais, procurando resultados específicos para os EUA no curto prazo, o governo Trump acaba beneficiando a estratégia chinesa e coloca os interesses de curto prazo acima de estratégias politicas estruturantes. Em suma, parece que cláusulas do acordo que não seriam de interesse imediato de partes importantes da economia americana, envolvendo questões ambientais e trabalhistas, seriam abandonadas. De acordo com pensamento de Trump, estas partes do acordo dificultariam a criação de empregos no EUA e restringiriam o uso de fontes antiquadas de energia, que em sua campanha o candidato prometeu resgatar. Isto pode gerar um grande problema ambiental e, principalmente, um problema para o desenvolvimento de tecnologias e energia limpa nos EUA, podendo permitir que a China se destaque nesta área na economia mundial. Em suma, ao não assinar o tratado, os EUA claramente ignorarão os seus parceiros da jornada, Japão, Austrália, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Colômbia entre outros, o que irá exigir dos norte-americanos a apresentação de um acordo alternativo em substituição.

  • Há algo que eu não perguntei que o senhor gostaria de dizer?

No geral, o que podemos observar é a existência de uma grande expectativa quanto aos rumos do governo Trump.  Seu discurso “vazio” não revela estratégias, logo, o caminho está aberto. Dado que o partido republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente.

O que Trump repetiu a exaustão na campanha é que os EUA estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso precise sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos, afirmando ainda que não irá mais ceder o país à falsa cantiga da globalização.

 Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana.

 

 

“Adultização” da infância é reflexo de classe social

Para pesquisadora, crianças com agenda de empresário, como classifica, é mais comum em famílias de renda média e alta

Por Amanda Cotrim

É cada vez mais comum as crianças terem sua rotina consumida pelas tarefas, como ir à escola, fazer um curso de idioma, aprender um esporte. Tudo, no mesmo dia. Muitos compromissos, muitos deveres, muitas expectativas dos pais. Um cenário propício para que sentimentos de ansiedade, depressão e frustração apareçam e repercutam nas crianças. Essa é a avaliação da Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas, Profa. Dra. Silvia Rocha. De acordo com ela, não há problema crianças terem compromissos, a questão, para a pesquisadora, é o tipo de compromisso.

“A criança está sendo preparada para ser uma entre alguns. As classes mais pobres fazem o mesmo: preparam seus filhos para o possível, para o melhor, dentro de suas condições”, afirma. Ela, no entanto, alerta para o perigo em se criar um ideal de infância e produzir uma contraposição entre o passado e o presente, ou a verdadeira infância e a falsa infância. “Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos”.

Confira a entrevista na íntegra:

É possível definir o que é infância?

O conceito de infância não é universal e nem sempre existiu. Aliás, continua não existindo para determinados grupos socioculturais.  A ideia de infância, e da criança que precisa ser protegida e precisa ter um conjunto de atividades específicas para ela, apareceu no final da Idade Média. O conceito de infância é uma construção histórica.

Do mesmo modo que nem sempre existiu o que chamamos de infância, é possível que para determinados segmentos da sociedade estejamos presenciando o fim da infância que se produz com as brincadeiras de rua. Atividades que traziam características de desenvolvimento diferente da infância do século 21.

O ideal é não ter um ideal de infância?

 Não tem como não ter. Sempre vamos projetar um modelo, na expectativa de que esse modelo será o melhor.  .

As crianças que brincam na rua tendem a ter, por exemplo, uma habilidade motora global melhor do que a criança que não brinca, assim como as crianças que têm muitas atividades com certos vídeo games tendem a ter melhor raciocínio verbal e lógico-matemático.

Muito se discute, nos dias de hoje, que algumas crianças, principalmente de classe média e classe média alta, estão com uma rotina muito parecida com a de um adulto: escola, natação, aulas de inglês, computação, balé, entre outras atividades. Qual a sua avaliação sobre o que vem sendo chamado de “adultização” das crianças.

É importante localizar, conforme pontuado na pergunta, sobre qual criança está se falando. Nesse cenário apontado, os compromissos das crianças são os traços do sucesso. Porque uma criança de uma classe menos favorecida também pode ter compromissos, como jogar bola.  A questão que parece ser fundamental é pensar o tipo de compromisso.

A criança que sai da escola, vai para o curso de inglês, sai do curso de inglês, vai para a natação, sai da natação e vai para o curso de informática, ela está sendo preparada para pertencer a uma elite. Os pais, por sua vez, investem expectativas e dinheiro nessa criança. Portanto, a maior diferença entre as classes sociais é o tipo de compromisso que terá a criança.

Esse cenário produz outra questão importante, que é a competição entre as crianças, como a escola de inglês de mais prestígio. A “adultização” repercute em ansiedade, depressão e, principalmente, frustração.

Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.
Para pesquisadora da PUC-Campinas, o diálogo é uma ferramenta educacional de grande importância/ Crédito: Álvaro Jr.

A escola se adapta a esse aluno competitivo?

 A escola faz parte dessa competição. É só repararmos a nossa volta, os outdoors, a propaganda na televisão: “primeiro lugar no vestibular”. Ou seja, a criança desde cedo percebe qual é a regra do jogo: que ela tem que se distinguir entre tantas para que os pais sejam convencidos que precisam pagar uma mensalidade cara para o seu filho.

As escolas públicas não têm essa estratégia de marketing tão agressiva e explícita, mas existem hierarquias entre essas escolas. E as crianças são afetadas por essas comparações.

A escola da criança atarefada, ela própria assume esse projeto e oferece atividades complementares para essa criança de elite, que a coloca à frente dos outros que vão competir com ela no mercado de trabalho. Portanto, a escola está afinada com esse discurso.

As crianças passaram a ter uma agenda que parece a de um empresário. Só que isso é mais ou menos consciente, mais ou menos explícito. É reproduzido aquilo que é dito que é o melhor, ou aquilo que deve ser feito.  É uma dinâmica complexa.

Tem relatos de crianças que ficam com vergonha de dizer que foram nas férias para o sítio da avó, porque se sabe, rapidamente, que isso não tem prestígio como tem, por exemplo, uma viagem internacional.

A tecnologia ajuda ou atrapalha o desenvolvimento infantil? Por que as crianças mais ricas estão com o tablet, as mais pobres estão nas lan houses ou assistindo à televisão. Muito se fala que a mídia passou a ocupar um espaço educativo, uma vez que os responsáveis estariam cada vez mais ausentes, em razão do trabalho.

A desconfiança em relação à tecnologia sempre existiu. Há uma “romantização” da infância referente aos modelos do passodo, e de que a infância contemporânea seria pior. Mas na época em que surgiu o Rádio, alguns estudos alertaram sobre o seu perigo. Toda a nova tecnologia assusta e levanta temores.

A minha avaliação é que a tecnologia é espetacular. Nada em si é bom ou ruim. Todas as circunstâncias têm aspectos positivos e negativos. De modo geral, o grande problema é o excesso. Jogar videogame por 18 horas, assistir à televisão por 10 horas, ficar lendo o dia inteiro é ruim, porque impede outras oportunidades de desenvolvimento e aprendizado.

No final do século 19, a mãe estava presente, mas a relação entre a criança com os pais melhorou muito nos últimos anos. Antes, as crianças não podiam opinar, não podiam escolher. Hoje, as crianças se posicionam, questionam, reivindicam, às vezes exageram, mas tudo isso é muito mais legal.

Não quer dizer que estejamos melhores. Estamos diferentes. Com ganhos e prejuízos. O equilíbrio do acesso a diversas produções culturais seria o ideal.

E o diálogo entre pais e filhos. Até que ponto ele funciona?

O diálogo é prioritário. É a melhor ferramenta para criar os novos sujeitos como seres pensantes, que se sintam seguros e respeitados. É essencial querer ouvir a opinião da criança e fundamentar para ela o motivo pelo qual seu desejo não poderá ser atendido. Claro que é um longo processo necessário para que a criança consiga decidir certas coisas. Tem algumas questões em que cabe ao adulto dizer sim ou não. De preferência, deve explicar, mas, às vezes, não no momento em que a criança está com raiva por ter seu desejo negado.  A criança precisa obedecer porque compreendeu e não por medo.

Como lidar com a frustração da criança?

A frustração faz parte do desenvolvimento dos sujeitos, desde que ela não seja violenta, porque quem está na zona de conforto, não cresce. A frustração é inevitável e educacional. Mas é preciso saber conduzir isso. Quanto menos o adulto mobilizar a raiva da criança, melhor.  .

Claro que a raiva é inevitável, mas saber o que faremos com ela é outro passo. O uso da punição física é um exemplo de que o adulto perdeu essa batalha.

Vamos colocar nessa discussão o Estado como agente importante na construção da infância contemporânea. Como estão as políticas públicas para as crianças?

O Estado passou a fazer convênios ou a se utilizar da bolsa creche, oferecendo para o responsável pela criança dinheiro para que ele possa matricular a criança na escolinha do bairro, uma vez que não há vagas nas escolas públicas.

A questão é: como se garante uma boa educação formal e pública, se o Estado, que é o responsável, não está gerenciando o procedimento pedagógico daquela escola e a formação dos professores?

Os pais, se não encontram vaga para o filho, vão até o Juiz, que obriga a escola aceitar a criança. Há, nesse conflito, uma má compreensão por parte do responsável sobre a educação infantil, uma vez que ele não está se atentando às condições pedagógicas que a criança terá se frequentar uma turma superlotada.

Nesse momento, é urgente encontrar a melhor forma de argumentar com a população, mostrando que as condições de trabalho dos professores e monitores da Educação Infantil são fundamentais para o desenvolvimento da criança.

Profa. Dra. Silvia Rocha é pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação e Docente da Faculdade de Psicologia da PUC-Campinas.

75 anos de base para os próximos anos

 Para o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas, Dom Airton José dos Santos, a Universidade forma pessoas que fazem a diferença na sociedade.

Por Amanda Cotrim

O papel da Igreja Católica na educação formal brasileira é histórico, desde a época dos jesuítas. Esse compromisso para com a formação da sociedade se expandiu ao longo dos anos, passando por escolas, faculdades, centros de pesquisa, institutos de ensino e Pontifícias pelo Brasil. A PUC-Campinas é uma dessas instituições de saberes que surgiu para contribuir para o desenvolvimento da Região Metropolitana de Campinas e, hoje, para o país, por meio da produção do conhecimento, de novas perspectivas, análises e soluções, numa sociedade cada vez mais complexa. Segundo o Grão-Chanceler da PUC-Campinas, a presença da Universidade na história é perene. “Nosso objetivo é com o futuro. Esses 75 anos constituem a base dos próximos anos”.

Qual é a importância da participação da Igreja Católica na educação formal brasileira?

 É importante retomarmos os primórdios da Igreja Católica no Brasil, com a vinda dos portugueses. A primeira preocupação dos jesuítas foi trabalhar a formação e a educação da população; então, há mais de 500 anos a Igreja Católica promove a educação, com escolas, centros de pesquisas, faculdades, institutos de ensino e, mais recentemente, as Pontifícias pelo Brasil. Isso denota a responsabilidade que a Igreja tem com a formação das pessoas e com o desenvolvimento da cultura e do conhecimento. A importância da Igreja Católica na educação formal do Brasil é de primeira linha.

Como o senhor avalia esses 75 anos de história da PUC-Campinas?

Nestes 75 anos, a presença da PUC-Campinas tem sido marcante na história da cidade de Campinas e da região. Desde o seu início, na década de 1940, por inspiração do Bispo Dom Barreto (um dos idealizadores da PUC-Campinas) e de Monsenhor Salim (primeiro Reitor da Universidade), a Igreja sempre se preocupou em contribuir com a formação das pessoas e com o desenvolvimento local e regional. A presença da PUC-Campinas na história é perene.

Nosso objetivo é com o futuro. Esses 75 anos constituem a base dos próximos muitos anos que virão. E a PUC-Campinas permanecerá em cada época da história contribuindo de modo significativo para o desenvolvimento da sociedade.

Nesse contexto histórico em que vivemos, a Universidade tem muito a contribuir, com análises, perspectivas e soluções. A realidade está aí para ser enfrentada, com inteligência, competência, e a PUC-Campinas tem tudo para oferecer isso.

O que podemos destacar como excelência da Universidade?

 Em primeiro lugar, destaco a qualidade das atividades de ensino promovidas pela Universidade, em todos os níveis, incluindo o Colégio de Aplicação PIO XII, como o grande diferencial. Essa excelência, constatamos na atuação dos alunos formados nas diferentes áreas de conhecimento oferecidas pela Universidade, como por exemplo, professores, engenheiros, médicos, desembargadores, juízes, que além de demonstrarem a competência profissional, destacam-se pelo comprometimento com a construção de uma sociedade mais justa e solidária, nos vários níveis: municipal, estadual e nacional.

Destaco, ainda, a presença da PUC-Campinas na área da saúde e sua importância para a comunidade, por meio das atividades desenvolvidas pelo Hospital Universitário (Hospital e Maternidade Celso Pierro), que traduz, na prática, a missão da PUC-Campinas. Os profissionais da área da saúde, tanto da Universidade quanto do Hospital, são homens e mulheres de alta competência, que trabalham para produzir o melhor para a sociedade. Eu destaco que o Hospital da PUC-Campinas tem algo que poucos hospitais oferecem: o ambiente propício para profissionais se desenvolverem e, principalmente, o atendimento à população; um atendimento que não enxerga classe. Atendemos as pessoas porque são pessoas. Antes de sermos cuidadores, oferecemos um serviço que anda escasso na sociedade: a caridade. Servimos às pessoas porque elas são feitas à imagem e semelhança de Deus. Finalmente, ressalto que a excelência da Universidade revela-se também no crescimento da Pesquisa e da Iniciação Científica, que levam à produção do conhecimento e, com isso, à criação de novos cursos de Mestrado e Doutorado.

Gostaria que o senhor deixasse uma mensagem para os alunos e professores da PUC-Campinas que lerão esta entrevista.

 Os alunos quando buscam a PUC-Campinas é por algo que vai além de uma escolha circunstancial. Eles já têm no coração alguma expectativa, um chamado, ou porque alguém da família estudou na Universidade ou porque sabe da qualidade da Instituição. Então, a partir disso, gostaria de dizer para os alunos que a PUC-Campinas não é apenas uma instituição educacional, mas uma escola de vida, em que o aluno desenvolve uma visão de mundo, de futuro e recebe uma formação que vai além do conhecimento profissional, porque eles serão pessoas que vão interferir na sociedade, “como gente” e não como um competidor, vão trabalhar para que possamos viver numa sociedade que seja boa para todos.

Para os professores, eu digo: vocês são aqueles que introduzem os alunos ao conhecimento. Por isso, devem acompanhar, subsidiar e dar condições para que os alunos ampliem seus horizontes. O testemunho de um bom mestre não se mede apenas pelo conteúdo estudado, mas pelo cuidado que tem com a aprendizagem do aluno e o seu desenvolvimento como pessoa. O corpo docente da PUC-Campinas tem essa capacidade de apontar caminhos para que os alunos sejam grandes. Se o estudante não superar o seu professor, assumindo o protagonismo da sua formação, esse professor não foi bom. O discípulo deve superar o seu mestre.

Universidade atual e presente na sociedade

Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht está no segundo mandato à frente da PUC-Campinas

Por Eduardo Vella

Em meio às comemorações aos 75 anos de fundação da PUC-Campinas, a Magnífica Reitora, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, concedeu entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, na qual abordou suas impressões sobre este momento histórico para a Universidade e os desafios para manter a excelência no Ensino e a formação integral da pessoa humana.

Qual a importância do percurso histórico que assinala 75 anos da PUC-Campinas?

Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht O Jubileu de Diamante é um momento apropriado e oportuno para resgatar a História da primeira Instituição de Ensino Superior da região de Campinas, criada em 1941.

As vagas oferecidas no primeiro Vestibular foram disputadas por 233 candidatos, tornando realidade as Faculdades Campineiras, projeto acalentado pelo segundo titular da Arquidiocese de Campinas, Dom Francisco de Campos Barreto e dois colaboradores diretos, cônego Emílio José Salim e o jovem padre Agnelo Rossi. A elevação à categoria de Universidade Pontifícia, em 1972, consolidou a relevância da Instituição e confirmou sua ligação com a cidade.

A década em que completou 30 anos foi marcada pela implantação dos campi e ampliação de Cursos. A criação do Curso de Medicina, em 1975, e o surgimento do Hospital Universitário, dois anos depois, estabeleceram as bases de uma contribuição social importante. Implantado na região que mais cresce no Município, o Hospital e Maternidade Celso Pierro desponta como unidade fundamental de saúde pública, ao mesmo tempo em que atende a formação de profissionais de nível superior do Centro de Ciências da Vida.

As décadas finais do Século XX representam um período de renovação e consolidação, com um novo Projeto Pedagógico, centrado na adaptação ao cenário político, social e econômico que emerge com a redemocratização e a inserção cada vez maior do País no circuito internacional.

Qual a relevância dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu para a gestão atual?

Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht Investimento em infraestrutura e ampliação de recursos humanos qualificados são elementos fundamentais ao crescimento da Pós-Graduação. O estímulo à qualificação do corpo docente somado à implantação de recursos e condições de pesquisa vêm acelerando nossa produção científica. Além de dissertações e teses dos Programas de Pós-Graduação, a participação em publicações qualificadas, nacionais e estrangeiras, vem crescendo. A Universidade chega aos 75 anos com Programas de Pós-Graduação ligados a múltiplas áreas de conhecimento.

Por outro lado, a produção gerada na Pós-Graduação tem um efeito na ampliação dos Grupos de Pesquisa, no aumento de alunos e professores envolvidos com Iniciação Científica e no debate científico. Esses itens são exemplos do compromisso com a produção, sistematização e difusão do conhecimento presentes na Missão da Universidade.

Historicamente, a PUC-Campinas se destaca pelo vínculo que mantém com a comunidade, por meio da Extensão. Isso permanece aos 75 anos de existência?

Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht A orientação cristã promove e estimula a solidariedade social e a Extensão representa o caminho mais ativo dessa atividade. Além de Cursos, que atendem demandas da sociedade, a Extensão organiza e aplica Programas que nos aproximam da comunidade externa, em especial das parcelas mais carentes e vulneráveis. Esses Programas envolvem alunos, professores e, em casos específicos, contam, também, com apoio de funcionários técnicos. Todas essas pessoas atuam no sentido de aplicar o conhecimento universitário para melhorar a qualidade de vida dessas comunidades. Ponto importante dos nossos Programas de Extensão reside no compromisso de estimular a autonomia das comunidades. Por outro lado, o rigor acadêmico estabelecido na seleção dos Projetos de Extensão, que geram Programas de interesse social, permite à PUC-Campinas participar de Editais Públicos, alocando verbas que ajudam a ampliar o alcance dessa atividade.

Aos 75 anos, a Universidade ainda enfrenta desafios?

Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht Superar desafios compõe a alma da nossa História e o mais importante é manter-se na vanguarda. Constantemente, desenvolvemos metodologias e aplicamos recursos capazes de aprimorar o Ensino, qualificando nossos alunos que se destacam no mundo do trabalho. À formação técnico-profissional agregamos a formação social, estimulando a participação ativa e positiva, a partir da nossa orientação cristã. A formação pessoal dos nossos alunos também importa e, para isso, temos programas de orientação, aplicados desde o primeiro momento em que o calouro chega ao Campus. Assim, ao completar 75 anos queremos e devemos reverenciar a nossa História, sem abrir mãos do compromisso de sermos atuais e socialmente presentes.

“Nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência”

“Quando vou comprar uma roupa, me reporto ao vendedor. Mas ele pergunta para o meu acompanhante se eu vou gostar, como se eu não estivesse ali”

Por Amanda Cotrim

Nessa entrevista, a ex-aluna do curso de Psicologia, da PUC-Campinas, Fabiana Bonilha, defende que a maior dificuldade para a pessoa com deficiência, e em especial a que tem deficiência visual, são as atitudes de uma sociedade que caminha a passos lentos quando o assunto é a superação do preconceito. “As barreiras atitudinais são o grande empecilho no dia-a-dia”.

Mas além dessas, Fabiana elenca ações objetivas que precisam mudar logo, para que haja a real inclusão, como a socialização da tecnologia assistiva. “Isso interessa porque é um fator de equiparação”. A ex-aluna da PUC-Campinas, que trabalha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, afirma que a tecnologia gera condições iguais entre as pessoas.

Para Fabiana, a inclusão da pessoa com deficiência na vida de pessoas que não tem deficiência e vice-versa é fundamental para que as crianças de hoje se tornem adultos sem essas “barreiras atitudinais” de amanhã. “A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos”.

Confira o bate papo que o Jornal da PUC-Campinas teve com a Fabiana:

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco sobre você: onde nasceu, o que estudou e com o que você trabalha atualmente?

Meu nome é Fabiana Bonilha, eu nasci em Campinas e atualmente eu trabalho no CTI (Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer), onde sou servidora pública, como técnica em Tecnologia Assistiva.

A minha deficiência visual é desde o nascimento e ela ocorreu porque eu nasci prematura. Eu tive Retinopatia da prematuridade, que causa a deficiência visual. Tenho cegueira total e congênita. Desde os primeiros anos de vida eu fiz reabilitação tátil e a alfabetização em braille. Paralelamente, sempre estudei em escola regular.

Durante o meu período escolar, eu iniciei o estudo da música (piano) aos sete anos. Após concluir o Ensino Médio, ingressei na faculdade de Música e me formei pela UNICAMP e, concomitantemente, em Psicologia pela PUC-Campinas.  Por causa de a música ser muito importante para mim, eu sempre tive contato com a partitura em braille (musicografia braille). Mas não era muito comum na época, então minha primeira professora de piano teve que se esforçar muito para conseguir essas partituras. Essa foi a razão pela qual eu desenvolvi pesquisas no mestrado e doutorado com o tema do ensino da musicografia braille, cujo objetivo é que as pessoas cegas sejam plenamente incluídas. As pessoas com deficiência visual precisam ter acesso ao mesmo conhecimento que os outros estudantes têm, por isso é importante a alfabetização em braille, mas há poucos professores que têm essa dedicação e esforço de ir atrás desses materiais. O braille é um código pouco disseminado.

Nós nos comunicamos por e-mail para marcarmos essa entrevista. Eu gostaria de saber se você utiliza software de leitura de voz para acessar o computador e o celular?

Eu uso software de voz para o computador e para o celular. Ele lê as informações que estão na tela. Há opções para computador que são gratuitas, como o NVDA. Mas também existem outros, que são comerciais.  O NVDA é bem desenvolvido, com muitas funções. Ele é quase equivalente aos softwares comerciais. No celular também há opções de leitor de telas, que nos permite acesso a todos as funções: redes sociais, e-mail, WhatsApp e etc. Se você não soubesse que eu tenho deficiência visual, não teria diferença. E isso é interessante, porque é um fator de equiparação. É um grande ponto positivo da tecnologia; ela gera uma condição igual entre as pessoas. E isso impacta a minha vida profissional, porque eu faço praticamente o que todos fazem.

Você utiliza áudio descrição para ter assistir televisão e quando vai ao cinema?

Embora exista a áudio-descrição, pela qual as imagens são descritas, existe pouco material disponível. No cinema geralmente não há. Na televisão, apenas duas horas de programação por semana são dedicadas a áudio-descrição. Então o recurso existe, mas não existem tantos incentivos para que ele seja implantado de forma efetiva. Assistir a um filme sem áudio-descrição é perder todas as informações passadas pelas imagens. É como a pessoa que enxerga assistir a um filme de olhos fechados (risos). Com o teatro é a mesma coisa: há pouquíssimas peças com áudio-descrição.

Fabiana Bonilha- Crédito: Álvaro Jr.
Fabiana Bonilha no Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer – Crédito: Álvaro Jr.

 

Você se formou em Psicologia pela PUC-Campinas e em Música pela Unicamp. São combinações interessantes. O que te motivou a fazer esses dois cursos? 

Eu ingressei nos dois cursos em 1997. Formei-me em Psicologia em 2001 e em Musica em 2003. A Música era um caminho natural, porque desde os meus sete anos eu estudo música e me apaixonei por essa área. No caso da Psicologia, é uma área que eu sempre gostei. Fiz orientação profissional no ensino médio, e ele era ministrado por uma psicóloga, então eu comecei a me aprofundar sobre a carreira, o que acabou me motivando a fazer o curso.

Em que medida o curso de Psicologia te auxiliou a ser quem você é e a chegar aonde você chegou, profissionalmente?

O curso de Psicologia da PUC-Campinas é muito completo e aborda muitas frentes na área. Avalio que eu tive uma boa formação. Foi uma graduação que me deu muita base para depois eu fazer o Mestrado e Doutorado, além de ter contribuído muito para a minha visão de mundo e a minha atuação profissional aqui no CTI.

Quais foram as maiores dificuldades que você considera ter enfrentado para fazer as duas graduações?

Eu fiz as duas faculdades em um período no qual não se falava muito de inclusão da pessoa com deficiência na universidade e eram poucas as universidades que pensavam em acessibilidade. Então de certo modo, eu tive que “desbravar” esses caminhos. Hoje em dia, as universidades estão melhor equipadas, com uma infraestrutura e serviços de acessibilidade, como é o caso da PUC-Campinas com o PROACESS (Programa de Acessibilidade), e do Laboratório de Acessibilidade da UNICAMP.

Quando a gente tem que desbravar os caminhos, enfrenta algumas dificuldades. No caso da pessoa com deficiência visual a maior dificuldade é o acesso ao material; não existiam livros em formato braille e nem em formato digital. No início das duas graduações, eu tive que contar com a minha família para escanear todos os livros para que eu pudesse ler. Minha mãe precisou datilografar todo o material em braille.

Outra dificuldade é as barreiras atitudinais, as barreiras que existem nos pensamentos das pessoas em relação ao modo como elas imaginam a pessoa com deficiência. Nem sempre as pessoas percebem que nós podemos trabalhar, estudar e fazer qualquer coisa.

Conte um pouco como é a sua rotina hoje e como você avalia a sua autonomia em relação ao seu dia-a-dia e ao acesso à cidade?

Eu trabalho  no CTI e geralmente conto com alguém que me traz e me busca. Eu não tenho autonomia para vir trabalhar de ônibus porque eu acho que não é fácil o acesso ao transporte público por duas razões: ele não é seguro e ele não é acessível. Além de trabalhar, eu também me dedico ao estudo do piano, então eu procuro me desenvolver nessa área de performance e de formação de repertorio. Para isso, mantenho um estudo de, no mínimo, duas horas por dia durante a semana e de três a quatro horas no final de semana.

A minha pesquisa em relação à musicografia braille é outro aspecto que faz parte do meu projeto de vida. Porque eu ainda vejo que temos muito a avançar para deixar esse material acessível. A pesquisa é o meu instrumento para lutar por isso, principalmente nos dias de hoje em que o braille está passando por uma crise em razão das novas tecnologias. Tem muita gente dizendo que o software de voz, por exemplo, já é o suficiente para a pessoa que tem deficiência visual e que, portanto, o braille não é mais necessário. E eu digo não. O braile é o código de leitura escrita para uso de pessoas cegas por excelência. Não tem como ela não ser alfabetizada. A pessoa cega pode até utilizar outras tecnologias, mas ela não pode prescindir da alfabetização em braile. O toque das palavras é a nossa memória visual, então a gente precisa lutar para que o braile se mantenha vivo e para que se aumente a produção de materiais (livros) em braile.

Como você avalia as políticas públicas para as pessoas com deficiência visual, no Brasil?

Esse campo evoluiu muito. Em 2011, por exemplo, foi lançado o programa Viver Sem Limites. Então a questão da deficiência passou a ser colocada em foco, inclusive por meio de pesquisas científicas na área de tecnologia assistiva. No entanto, uma dificuldade que ainda existe é que nem sempre essa tecnologia chega para o usuário que precisa dela. Ainda temos uma realidade que os produtos são importados, tem um custo alto e, muito embora eles existam, não chegam para quem precisa. Esse déficit favorece que muitas barreiras continuem sem ser quebradas.

Você falou sobre as barreiras atitudinais. Você sofre preconceito? Como lida com o preconceito das pessoas no dia a dia?

Eu acho que o preconceito existe e ele se manifesta nessas barreiras atitudinais, ou seja, nas atitudes das pessoas, que nos ligam a um estereótipo e não compreendem o significado da nossa deficiência. Uma situação que sempre acontece comigo é quando eu vou a uma loja de roupas com uma amiga e o atendente se dirige a pessoa que está comigo e não a mim. Ainda que eu aborde o vendedor, dizendo o que eu procuro, ele se reporta à pessoa que está comigo: “Essa roupa aqui será que ela vai gostar?” (risos). Como seu eu não estivesse ali. Eu me pergunto: Por que ele fez isso, se eu mesma tinha me comunicado com ele? Essa situação mostra o que é uma barreira atitudinal.

Falta compreensão em relação aos próprios limites de uma pessoa com deficiência. Uma pessoa cega só não enxerga, não precisa falar alto com ela e explicar tudo nos mínimos detalhes (risos).

Há também o preconceito no sentido mais estrito. Muitas vezes as pessoas com deficiência são inseridas no mundo do trabalho via programas específicos de inclusão. Mas por que elas não podem ser inseridas como qualquer outra pessoa? A inserção das pessoas com deficiência no mundo do trabalho ou na escola precisa ser natural. No entanto, ainda não chegamos nesse momento, por isso é preciso ações afirmativas para reverter esse atraso.

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Você conseguiria descrever quando e como você se percebeu cega? Ou seja, quando você compreendeu isso?

Eu nasci com a deficiência visual, então essa condição sempre foi muito natural para mim. Eu soube que eu não enxergava pelas outras pessoas, porque para mim era tudo normal, natural. Como eu não vivi uma perda da visão, então para mim, o esperado era assim. Outras pessoas começaram a me contar que o que algumas pessoas tinham de diferente de mim era- que elas enxergavam e eu não. Então o meu referencial foi na relação com o outro. Na escola, como crianças são muito curiosas, eu fui percebendo que havia alguma coisa que acontecia comigo e não acontecia com outras pessoas.

É verdade que as pessoas cegas percebem as  cores pelas sensações e que os outros sentidos são mais aguçados?  Isso acontece com você?

A gente conhece as cores por analogia em relação à temperatura e à textura. Mas não há a ideia de uma ultra sensibilidade, quase sobrenatural que faz com que a gente “veja” sem enxergar. Claro que a ausência de algum sentido faz com que as pessoas cegas desenvolvam outros referenciais, como a audição. Mas isso é um trabalho subjetivo de cada um; não é natural. Cada pessoa encontra estratégias para utilizar outros sentidos na ausência da visão. Não podemos generalizar essa questão é achar que só porque a pessoa é cega ela tem a audição, o tato ou qualquer outro sentido super apurado.

Como você avalia a cobertura da Mídia sobre a questão da deficiência?

A Mídia precisa evoluir muito na abordagem que ela faz sobre a deficiência. Muitas vezes há sensacionalismo na abordagem, como se a deficiência por si fosse notícia. É preciso evoluir na forma como a Mídia aborda a questão e na forma como ela influencia a população a pensar sobre essa questão. Nesse aspecto, ela mantém as barreiras atitudinais. As reportagens, quase sempre, têm um viés assistencialista, uma coisa quase passional, carregado de drama. Sem falar as terminologias: “portador de deficiência”, “deficiente”, “portador de necessidades especiais”. Então, talvez seja importante pensar sobre essa questão durante a própria formação dos profissionais de comunicação. Existe uma lacuna nesse sentido.

O que você diria para um cego que está lendo a sua entrevista e ainda tem medo de enfrentar desde um vestibular até sair de casa?

As pessoas com deficiência visual, assim como qualquer pessoa, mas elas especialmente, precisam confiar muito em si mesmas e acreditar que a superação de todos os limites é possível, e que vai depender da nossa motivação e empenho. São as pessoas com deficiência visual as protagonistas da própria inclusão. Não é o outro que vai nos incluir; e a gente que se inclui. Se a gente ficar esperando as instituições e as pessoas fazerem alguma coisa, ninguém faz. É a gente que tem que fazer. Precisamos ter consciência que os limites existem, das mais diversas formas, para todas as pessoas. E que essas barreiras podem ser superadas ou minimizadas no próprio ambiente em que vivemos. Mas é preciso haver condições: se o livro não estiver em braile eu não consigo ler, mas se ele tiver, eu consigo.

Fabiana, você gostaria de falar sobre alguma coisa que eu não perguntei?

É importante que as pessoas tenham abertura para dialogar e desconstruir algumas fantasias que elas continuam tendo por que não perguntam. Às vezes elas querem saber coisas básicas, como se eu sonho. E por vezes não falar sobre essas dúvidas constrói ainda mais barreiras. Por outro lado, nós que temos alguma deficiência, temos que ter abertura para responder, mesmo as perguntas básicas, porque aquilo que a pessoa está perguntando é importante para ela, como a questão do sonho, uma vez que para as pessoas que enxergam só é possível sonhar com imagens.

Eu também tenho muita curiosidade de saber sobre a realidade de quem enxerga. Eu gosto de saber como são as estrelas, o céu, o horizonte, a lua. A gente sabe sobre isso de ouvir contar. É muito interessante essa relação na qual os lados têm curiosidades.

A inclusão propicia que as diferenças estejam em contato o tempo todo. Então é muito importante que os alunos desde pequenos convivam com as diferenças desde cedo, para que eles possam naturalizar isso e se tornarem adultos sem essas barreiras.

A pessoa com deficiência precisa estar nos espaços como qualquer outra pessoa. Ela não pode ficar em escolas especiais e especificas. Elas precisam ocupar os espaços regulares e comuns a todos.

 

A Educação Católica é a busca da verdade

Por Amanda Cotrim

Pela primeira vez na PUC-Campinas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski, ministrou a palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Em entrevista ao Jornal da Universidade, o Cardeal falou sobre fé e ciência na constituição do ensino católico e a necessidade de um diálogo permanente entre fé e razão. “O significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem”, ressaltou. Confira a entrevista abaixo

Qual é a importância do Colóquio que a PUC-Campinas promoveu sobre a educação católica?

Eu fui muito bem acolhido pela PUC-Campinas e fiquei muito satisfeito com a iniciativa. Senti-me honrado de estar aqui na Universidade compartilhando estes dias de Colóquio sobre um documento tão importante para a missão evangelizadora da Igreja, por meio das universidades católicas. Agradeço o Grão-Chanceler, a Magnífica Reitora e todas as autoridades desta Pontifícia Universidade Católica de Campinas pelo seu convite. Deus as bendiga.

Penso que é muito importante falarmos sobre o ensino católico, pois um dos modelos mais fortes das universidades católicas é unir ciência e religião, seguindo a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae do Sumo Pontífice, promulgada pelo Papa São João Paulo II, o qual diz que a vida universitária é a procura da verdade  e de sua transmissão abnegada aos jovens e a todos aqueles que aprendem a racionar com rigor, para agir e servir melhor a sociedade .

Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.
Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.

Como o senhor avalia a educação universitária católica no Brasil, o maior país católico do mundo? O senhor entende que os alunos das universidades católicas as procuram por alguma filiação com a religião ou por outras razões?

O Brasil é um dos países em que há mais universidades católicas e isso é muito bom. Aqui há um forte ensino universitário católico, o que mostra que estamos praticando o que diz o Papa Francisco: devemos servir as pessoas. As universidades católicas mediam o encontro entre a riqueza da mensagem do Evangelho e a pluralidade dos campos do saber, permitindo um diálogo com todos os homens de qualquer cultura. A Pontifícia Universidade Católica de Campinas está no caminho, promovendo a fecundidade da inteligência cristã no coração de cada cultura.

Como a Igreja Católica consegue difundir sua doutrina na educação católica do mundo, uma vez que cada país tem sua particularidade?

A universidade católica tem uma missão e vive por essa missão, que é evangelizar, segundo sua identidade, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demoras, sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, sem excluir ninguém. A universidade católica precisa manter os olhos permanentemente abertos, já que “fechar os olhos ante o próximo converte-nos também em cegos ante Deus”, como disse o Papa São João Paulo II. Por exemplo em Taiwan, na China, temos belas universidades católicas onde os católicas são 1% do País e na Universidade Católica tem 2% de estudantes católicos, que corresponde a três universidades católicas. É necessário que a universidade católica viva sua missão evangelizando, segundo sua identidade, em todos os lugares. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não pode excluir a ninguém. Na Coréia (do Norte) apenas 1% eram católicos, agora são 10%, algo como 5 milhões de pessoas e oito universidades católicas.

palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.
palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.

Todas as universidades católicas recebe a proteção da Santa Sé?

Normalmente, não é imediatamente que uma universidade católica nasce que a Santa Sé a reconhece. É preciso que a universidade demonstre um certo nível, um certo prestígio, um certo ensinamento, para que a Santa Sé coloque essa universidade sob sua própria proteção, como é o caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e as outras seis Pontifícias no Brasil.

A campanha da Fraternidade 2015 tem como tema a Igreja e a Sociedade. Pensando nesse tema, qual é a importância da educação no desenvolvimento social?

Como nos ensinou o Papa São João Paulo II, o significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem. As universidades católicas, mediante a investigação e o ensino, ajudam-na a encontrar de maneira adequada aos tempos modernos os tesouros antigos e novos da cultura.

Numa universidade católica, a investigação compreende necessariamente: perseguir uma integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, uma preocupação ética, e uma perspectiva teológica. A universidade católica deve empenhar-se mais especificamente no diálogo entre fé e razão, de modo a poder ver mais profundamente como fé e razão se encontram na única verdade. A preocupação das implicações éticas e morais, ínsitas tanto nos seus métodos como nas suas descobertas.

Entrevista: As violências poderiam ser evitadas?

Em entrevista sobre ética e violência, Filósofo e Professor da PUC-Campinas, Renato Kirchner, fala sobre política, liberdade e moral

 

Por Amanda Cotrim

As notícias sobre violência e corrupção colocam em dúvida se ainda é possível existir alguma relação entre ética e política. Onde uma das partes fica esquecida ou encoberta, já não há mais liberdade.  Essa é a opinião do Filósofo Renato Kirchner, doutor em filosofia e docente no Centro de Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas (CCHSA) da PUC-Campinas. Na entrevista a seguir, o Professor Kirchner fala sobre o papel da ética e a viabilidade de sua prática concreta, a construção da moral e o desafio da ética frente à violência. “Enquanto vivermos em uma inversão de valores, certamente a violência continuará saindo vencedora”. Confira a entrevista completa.

Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: A filosofia, ou parte dela, dirá que a ética é uma realização do sujeito livre, cujo conceito de liberdade não está associado à ideia de livre escolha, mas à liberdade em criar possibilidades para modos de vida possíveis, ou seja, como sendo a capacidade dos seres humanos de inventar o novo. O senhor concorda? O que seria a ética?

Prof. Renato Kirchner: Antes de começar a responder a esta pergunta, gostaria de agradecer pela oportunidade de, na perspectiva da Filosofia, poder esclarecer e, sobretudo, refletir um pouco sobre o papel da ética na atualidade. Além disso, convém dizer que este papel não se restringe apenas aos estudiosos de Filosofia. Conforme evocado na pergunta, a ética está originariamente relacionada ao exercício e à promoção da liberdade. Uma pressuposição fundamental para o sujeito ser ético não consiste em fazer o que se quer, algo muito em voga em nossos dias. Juntamente com cada ser humano nasce a responsabilidade por si e pelos outros. Não faz sentido algum falar de ética de si para si somente, sendo então verdadeira a ideia de que minha liberdade termina onde começa a dos outros, pois pertencer ao gênero humano faz parte da essência humana e, por isso, a liberdade é radicalmente um conceito intersubjetivo. O poeta inglês John Donne (1572-1631) formulou isso de maneira brilhante: “Nenhum homem é uma ilha completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” O testemunho de Donne parece-me importante, pois há uma tendência – muitas vezes “naturalizada” – de acharmos que pensar sobre ética só é possível a partir das ideias de filósofos, certamente proeminentes, como Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Immanuel Kant, dentre muitos outros.

De fato, as questões éticas acompanham a humanidade desde sempre e a acompanharão para sempre, razão pela qual cabe sim sermos reflexivamente criativos e críticos no intuito de pensarmos novas éticas a partir das conjunturas atuais. Aliás, é bom ter clareza que toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo. Um exemplo significativo, para assumirmos e pensarmos os desafios éticos atuais, encontramos no filósofo Hans Jonas (1903-1993), o qual sintetizou uma nova ética possível em Princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, obra publicada em alemão em 1979 e traduzida aqui no Brasil em 2006. Só para dar uma indicação, Jonas não descarta de todo a ética kantiana, mas vê nela limitações se pensarmos no contexto da globalização e exploração dos recursos naturais, bem como das novas e possíveis pesquisas realizadas cada vez mais sobre o corpo humano e a natureza em geral. Enfim, em contrapartida a uma ética kantiana estritamente antropocêntrica, Jonas concebe uma ética cosmocêntrica, em que “corresponsabilidade” é uma palavra fundamental.

Jornal da PUC-Campinas: Muitas vezes há uma confusão entre ética e moral. Gostaria que o senhor explicasse essa diferença e dissesse em que medida a moral se apropria da ética?

Prof. Renato Kirchner: De fato, cotidianamente, as pessoas acabam empregando uma pela outra. Nesse caso, ética pode ser sinônimo de moral e vice-versa. Mas se refletirmos um pouco, logo notamos algumas diferenças e que tendem a se acentuar progressivamente. Vejamos: do ponto de vista etimológico, a palavra “ética” provém do grego ethos e “moral” deriva da forma latina mores. Ainda assim, há, nas duas línguas, significados muito próximos, podendo ser reduzidos basicamente a “hábitos” e/ou “costumes”. Por isso mesmo, é necessário fazer uma distinção ente ética e moral. A primeira é mais teórica que a segunda, pois volta-se a uma reflexão sobre os fundamentos da segunda. Nesse sentido, é possível dizer que a moral acaba apropriando-se da ética. A ética empenha-se em desconstruir as regras da conduta que formam a moral, os juízos de bem e mal que se reúnem no seio de toda e qualquer moral. Assim, se a moral designa um conjunto de regras próprias de uma cultura, por exemplo, o propósito da ética consiste numa “metamoral”, ou seja, uma teoria analítica sobre o bem e o mal, sobre os valores e juízos morais. Enfim, é papel da ética desconstruir as regras de conduta, desfazer suas estruturas e desmontar as construções morais, esforçando-se por descer aos fundamentos da obrigação moral. Vê-se, então, que, enquanto teórica, o objetivo da ética consiste em retornar às bases das prescrições ou juízos morais.

Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.
Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: O ideal ético pode se viabilizar? A partir de qual prática?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida, qualquer idealização ética pode ser viabilizada, do contrário, seria certamente apenas um ideal ou, como costumamos dizer, às vezes, ideais grandes demais são difíceis de serem postos em prática. Na verdade, do ponto de vista filosófico, uma ética só tem sentido se pode ser colocada em prática, de modo que, nestes termos, o emprego da palavra ética traz a reboque uma determinada compreensão do que seja prática. Pensando dessa maneira, somos levados a reconsiderar também uma ideia, muitas vezes por demais cristalizada, de que para termos novas práticas já sempre dispomos de ideais éticos estabelecidos! De fato, ideias estabelecidas e, principalmente, quando cristalizadas, são um trampolim para práticas que podem estar na contramão dos ideais fundamentais que orientam determinadas práticas. Diante disso e em vista de novos ideais éticos, será que não deveríamos levar a sério o que significa realmente “sermos práticos”? Dou um exemplo simples: como poderia ser, na prática, a convivência e a busca acadêmica mútuas entre professores e professores, entre professores e alunos, dentro e fora da sala de aula?

Jornal da PUC-Campinas: A ética pode ser vivenciada na vida privada e na vida pública. Pensando na relação da Ética com a Política, como a liberdade se daria?

Prof. Renato Kirchner: Boa pergunta. Principalmente, no momento em que vivemos, em que, a todo instante, as próprias notícias que ouvimos e acompanhamos acabam colocando em dúvida – senão em total descrédito! – que ainda possa haver alguma relação entre ética e política. De fato, não é possível pensar ética sem política, nem política sem ética! Importante notar as duas correlacionadas e, como sabemos, toda e qualquer relação só é autêntica se há nela liberdade. Onde uma das partes da relação fica esquecida ou é encoberta, já não há mais liberdade! A questão é: de onde provém a liberdade ou o que sustenta a liberdade? Diria com toda convicção: provém e é sustentada pela própria relação, ou seja, é dever de cada uma das partes colaborar na manutenção sempre saudável e promissora da relação. Pensando dessa maneira, presume-se que seja possível uma vivência autêntica e, por isso, necessariamente livre, entre vida privada e vida pública, entre ética e política.

Jornal da PUC-Campinas: Os gregos acreditavam que só pela política a ética se manifestaria. Na sua avaliação, como a política trata o indivíduo, hoje? Como sujeito ou como objeto? Como isso se manifesta e por quê?

Prof. Renato Kirchner: Como pode perceber, falar de ética e política nos leva a andar em círculo. O que não pode acontecer, porém, é entrarmos num círculo vicioso! O que se requer, então, é enxergar e tratar a política e a ética numa perspectiva de círculo virtuoso, ou seja, desde a força que constitui e mantém a própria circularidade. Entendida dessa forma, a manifestação da ética na ou pela política é hoje necessária, bem como sempre foi ao longo da história da humanidade. Disso não só sabiam os gregos, uma vez que o fundamental no que diz respeito à política residia tanto na constituição quanto na manutenção da polis. É bem possível que os povos da antiguidade, e mesmo medievais, ainda carregassem no peito – e, se necessário, em forma de elmo, escudo e espada! – os ideias coletivos, a partir dos quais cada indivíduo livre estava a serviço de todos. Certamente, não se trata de viver e organizar-se socialmente como em épocas passadas, haja vista que cada época se constitui de uma maneira muito peculiar. Contudo, qualquer configuração histórica só é possível a partir de indivíduos como sujeitos de sua própria história, razão pela qual devemos nos questionar se a organização social na qual estamos inseridos é a melhor possível. Enfim, a maneira como determinada configuração aparece é uma manifestação possível. Entretanto, qual seria a melhor manifestação possível, tendo em vista as recentes manifestações nas ruas, reivindicando todo tipo de melhorias e, certamente, em prol do bem comum? Por exemplo, a própria polícia – palavra gramaticalmente irmã de política e polis – nem sempre tem estado presente e agido em prol do bem comum. O mesmo aplica-se aos políticos enquanto representantes da maioria! A questão é: que papel cada sujeito desempenha em benefício da totalidade? Visto assim, toda discussão que se coloca apenas no nível de sujeito e objeto está um tanto afastada do princípio de qualquer constituição da realidade, também ao que chamamos de política, pois qualquer indivíduo carrega consigo um poder transformador. Infelizmente, nem todos e nem sempre acreditamos de fato nisso.

Jornal da PUC-Campinas: Em cada momento histórico, a violência se manifesta de determinada forma, seja pelas guerras, seja pela globalização que quer padronizar e muitas vezes não respeita comunidades tradicionais, etc. Pensando a violência não como algo “natural”, mas como uma violação daquilo que é a natureza do outro, a violência eliminaria a possibilidade de ética?

Prof. Renato Kirchner: Começo respondendo pelo final da pergunta, ou seja, não é possível admitir que a violência poderia, algum dia, suprimir a ética. Por quê? Simplesmente porque significaria também eliminar a própria condição humana de existir neste mundo, uma vez que viver e existir eticamente dizem fundamentalmente o mesmo. Também considero que não é possível aceitar a violência como algo natural, principalmente se, pelo uso dela, acaba-se violando a esfera alheia, esfera que, por estar constituída ontologicamente da mesma maneira como a minha, não estou no direito de solapar ou invadir e, muito menos, de destruir. Se é verdade que cada época histórica está sujeita a determinadas manifestações de violência, então, também deveríamos perguntar-nos seriamente se e por que as múltiplas formas de violência a que assistimos ou que presenciamos – para não dizer, das quais indireta ou passivamente participamos!? – não poderiam ser evitadas e até mesmo extintas. Sem dúvida que a globalização ocasionou e tende a acarretar padronizações! Contudo, mesmo as comunidades mais tradicionais ainda podem viver e, talvez, sobreviver, sem que sofram, em maior ou menor grau, os influxos dos padrões de bem-estar social? Não estou defendendo a ideia de que todo e qualquer ser humano, esteja onde estiver no planeta, não possa viver sem, de algum modo, participar dos padrões globalizantes de tudo e de todos. Não, absolutamente! Contudo, parece-me bastante ingênuo não levar em conta e lutar por uma possibilidade de viver melhor, mesmo que, para isso, seja necessário reavivar e, quem sabe, viver em condições nas quais nossos antepassados viviam tão bem ou até melhor que nós hoje. Uma situação bem concreta, no momento, experimentada por boa parte da população, diz respeito ao uso e reuso da água, por exemplo.

Em 1969, pela ocasião dos seus 80 anos, Martin Heidegger (1889-1976), um dos maiores filósofos do século passado, predisse: “A apatridade é um destino mundial na forma da civilização planetária. É como se a civilização planetária, que o homem moderno não criou mas em que foi ‘destinado’, trouxesse consigo o obscurecimento da existência humana. De fato é o que parece. Mas seria um erro pensar somente até aí e não ver nada mais, a saber, a possibilidade de uma virada. Mas nós não sabemos nada do futuro. Talvez tudo finde numa grande desolação. Talvez aconteça que, algum dia, o homem se enfastie dos produtos de suas pretensas produções e, de repente, comece a questionar. Talvez, ainda, possa ocorrer que a desolação atinja tal nível que as necessidades se nivelem a ponto de o homem já nem sentir a decadência interior e o vazio de sua existência. Talvez possa também acontecer outra coisa. Em qualquer caso, como quer que seja ou aconteça: nós não nos devemos queixar, temos é de nos questionar!

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Jornal da PUC-Campinas: A exclusão social e a fome, talvez as pautas mais importantes no mundo, hoje, estão mostrando que, em verdade, a violência está ganhando da ética?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida: exclusão (de qualquer tipo) e fome (também de qualquer tipo) são modos que inibem grandes maiorias a participar de bens comuns. De fato, falar de bens remete a riquezas. Mas nem toda riqueza, enquanto concentrada na mão de poucos, pode continuar a ser considerada como tal. Há aqui uma inversão completa tanto do que significa eticamente bem como do que significa eticamente riqueza. Enquanto persistir essa inversão de valores certamente a violência continuará saindo vencedora. Novamente: o que cada um de nós, em maior ou menor escala, pode fazer?

Jornal da PUC-Campinas: A política pode auxiliar a ética no combate à violência? Como?

Prof. Renato Kirchner: Gostaria de citar, mas não com o objetivo de aprofundar isso aqui, a fim de repensarmos sempre de novo o que seja ética na política e o papel disso na sociedade. Um texto atribuído ao renomado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século passado, Bertolt Brecht (1898-1956), sob o título “O analfabeto político”, fala por si mesmo: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Jornal da PUC-Campinas: Há um discurso muito recorrente nos dias de hoje, o qual diz que devemos nos voltar à ética. Como se a ética pudesse dizer o que devemos ser, como fosse uma cartilha. Mas se a ética não é a mesma coisa que moral-normas-, não é um contrassenso se pedir para nos voltarmos à ética?

Prof. Renato Kirchner: Para responder adequadamente a essa pergunta, sugiro voltarmos para a resposta dada à primeira pergunta, ou seja, é fundamental fazermos uma distinção entre o que seja ética e o que seja moral. Presumir que uma possa se confundir com a outra ou que uma possa bem dizer a mesma coisa que a outra talvez seja um dos contrassensos que geram as confusões discursivas e de posicionamentos em relação aos assuntos que vêm à tona quando se apela para a ética ou que se deve voltar para a ética. Parece-me muito razoável considerar que não há ética nem moral que possam fundamentalmente ser recolhidos e aprisionados por qualquer cartilha, até mesmo por qualquer legislação. Explica-se isso facilmente com uma pergunta: por que qualquer lei requer interpretação antes, durante e depois da aplicação? Contudo, o que é mesmo ética? Um pensador da antiguidade, Heráclito de Éfeso, legou-nos num fragmento: “A morada do homem não tem controle, a divina tem” (Fragmento 78). Importante esclarecer: ethos, uma palavra grega arcaica, significa “morada”, mas também “estadia”, “permanência”. Talvez estas palavras de Heráclito possam dar-nos alguma indicação: enquanto a morada da divindade tem controle, a morada dos homens tende continuamente ao descontrole. Se isso procede, então, jamais deveríamos presumir que o ethos, isto é, a morada dos homens, está estavelmente constituída e, muito menos, de uma vez por todas. A tarefa humana é cuidar pela manutenção da ordenação do todo e talvez seja essa a tarefa humana de todas a mais extraordinária. Por isso, podemos ler num outro fragmento do pensador grego: “A morada do homem, o extraordinário” (Fragmento 119). Certamente, não é por acaso que Hans Jonas, no início da obra mencionada, traga o exemplo da antiguidade: “Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o homem!” (Antígona, de Sófocles).

Jornal da PUC-Campinas: O discurso que pede um retorno à ética está dizendo que, no passado, era melhor. Qual sentido desse discurso?

Prof. Renato Kirchner: Ninguém é tão estulto a não dar valor ao passado, principalmente das boas lições que podem ser recolhidas da nossa própria civilização ou mesmo de outras das quais muitas vezes pouco ou quase nada sabemos. Contudo, tais conhecimentos existem, pois foram transmitidos e mantidos de múltiplas maneiras. Às vezes, os legados positivos do passado estão presentes em nossas práticas cotidianas sem que nos demos conta disso. Assim, para não recair sempre em possíveis “discursos prontos” – de que poderia ser dessa ou daquela maneira –, talvez seja mais producente se cultivarmos um cuidado ou mesmo uma terapia com a linguagem. Por que linguagem? É que antes de qualquer possibilidade de discurso, o ser humano caracteriza-se fundamentalmente por ser e estar na linguagem. Não é no mínimo curioso que Aristóteles tenha deixado duas definições fundamentais para a civilização ocidental num de seus tratados? A saber: o ser humano é um ser político; o ser humano é um ser que fala. Contudo, faz igualmente parte da nossa civilização, tendo por mediadora a tradição latina, que o ser humano é um “animal racional”. A melhor ação é aquela que pode provocar uma mudança fundamental em nosso modo de pensar, principalmente, se formos capazes de também repensar em que consiste nossa animalidade e nossa racionalidade. Em última instância, nossas ações, nossos discursos, nossas atitudes dependem de como entendemos como se conjugam e fundem numa só expressão as palavras “animal” e “racional”.

Jornal da PUC-Campinas: Como o senhor avalia as comissões de ética? Elas não seriam essas cartilhas?

Prof. Renato Kirchner: Muito boa essa pergunta, pois permite que evidenciemos, mesmo que de passagem, as diferentes instâncias em que a dimensão ética se faz presente na vida privada e pública das pessoas, bem como na vida profissional e das pesquisas acadêmicas de universidades e institutos de pesquisa. O fato de existirem comissões de ética constituídas, no entanto, não significa que elas sejam ou funcionem como cartilhas. Não quer dizer que isso eventualmente não possa ocorrer, mas isso certamente seria um modo equivocado de entender o que lhes compete. Compete a uma comissão uma missão, sendo uma comissão instituída e constituída por um conjunto de pessoas eleitas para assembleias ou para certas incumbências. Embora possa parecer um linguajar um tanto antiquado, convém ter presente que o sentido de alguém compor uma comissão de ética consiste em resguardar preceitos e valores fundamentais e, nesse sentido, poderia ser chamado também de “missionário”. Para nossos objetivos, convém mencionar dois tipos de comissões, sendo uma muito comum na esfera política, a saber, a comissão parlamentar de inquérito (CPI), sendo uma investigação conduzida pelo Poder Legislativo, que transforma a própria casa parlamentar em comissão para ouvir depoimentos e tomar informações diretamente, quase sempre atendendo aos reclamos do povo. A outra, no âmbito da pesquisa universitária, denomina-se Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, que, no caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (identificado pela sigla CEP/PUC-Campinas), “é um órgão colegiado, multidisciplinar, de caráter público e autônomo, vinculado à Reitoria, respondendo, no que couber, à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, que tem por finalidade avaliar e acompanhar os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos e, dessa forma, proteger a integridade e a dignidade dos sujeitos/participantes, de acordo com os valores ético-cristãos, integrando-se à Missão Institucional da Universidade”. Nos dois exemplos citados, a comissão ou o comitê são constituídos por eleição ou por indicação, mas convém ter presente que ambos são representativos e, portanto, embora tenham de seguir normas ou regras, não se restringem apenas a seguir e cumprir cartilhas estabelecidas.

Jornal da PUC-Campinas: Em sua opinião, nós hoje estamos exercendo a razão como forma de conhecimento?

Prof. Renato Kirchner: Em minha opinião, nas respostas às perguntas anteriores, já havia uma série de indicações que podem ser úteis para responder a esta última pergunta. Isso significa dizer que provavelmente não há uma só resposta possível, mas principalmente que toda e qualquer pergunta requer reflexão tanto quanto uma resposta. Nesse sentido, poder refletir sobre temas relacionados à ética, moral, política, violência, exclusão, injustiça, globalização e assim por diante, é vital e necessário. Considero profundamente importante o fato de diferentes conteúdos e disciplinas poderem transitar entre as diferentes áreas do conhecimento e que a aceitabilidade e o exercício contínuo desse trânsito já constituem a racionalidade propriamente dita.

 

 

 

“Não existe medicina sem prática”

Prova de residência muda e valoriza a prática médica

Por Amanda Cotrim

Ser um promotor da saúde requer algumas características, como gostar de pessoas e de estudar. E, além da teoria é preciso muita prática, porque a realidade, muitas vezes, é o que fomenta novos estudos. Essa é a opinião da diretora da faculdade de medicina da PUC-Campinas, Profa. Dra. Márcia Pereira Bueno. Em 2014, a PUC-Campinas foi a universidade particular mais bem avaliada pelo Guia do Estudante, da Editora Abril, na área da saúde, figurando o “pódium” junto à Universidade de São Paulo (USP). Para a diretora da faculdade de medicina, essa conquista se deve a três fatores fundamentais: atualização curricular, o Hospital-Escola da PUC-Campinas e a prática médica, prioridade no curso de medicina da Universidade, além da estrutura de laboratórios, salas de aula modernas e um variado corpo pedagógico.

Confira a entrevista completa:

Jornal da PUC-Campinas: A PUC-Campinas foi a universidade particular mais bem avaliada pelo Guia do Estudante 2014 na área da saúde. Pensando que o curso de medicina está dentro dessa avaliação, ao que se deve essa conquista?

Profa Márcia Pereira Bueno: A PUC-Campinas é uma universidade tradicional, que já ultrapassou metas e superou desafios. Nós modernizamos o currículo, deixando-o mais acessível à realidade médica atual, e isso coloca o aluno precocemente diante da prática, lidando, desde cedo, com a diversidade de doenças. Nossa prioridade é que o aluno seja visto como um “tratador” pela comunidade em que a Universidade está inserida (região noroeste de Campinas, periferia da cidade). Além disso, a PUC-Campinas tem professores, professores pesquisadores, profissionais que atendem em clínicas. E isso é um conhecimento completo do dia a dia da profissão. O conjunto pedagógico e de professores faz com que a PUC-Campinas chegue onde está hoje no mercado, como a universidade particular mais bem avaliada na área da saúde.

Jornal: Qual é a importância do Hospital-Escola da PUC-Campinas para esse aluno?

Profa Márcia: O Hospital e Maternidade Celso Pierro (HMCP), mais conhecido como Hospital da PUC-Campinas, facilita a integração entre o aluno e o paciente e possibilita o contato 24 horas. A humanização, o tratamento, a interlocução com a família do paciente são aspectos que potencializam o trabalho do futuro médico. E isso é possível justamente por causa do Hospital-Escola.

Jornal: Uma universidade se diferencia de faculdade porque desenvolve ensino, pesquisa e extensão. Comente sobre as pesquisas científicas desenvolvidas tanto no curso de medicina quanto no Hospital da PUC-Campinas.

Profa. Márcia: A pesquisa na faculdade está sendo ampliada dentro da Universidade. A meta do Hospital e do curso de medicina é melhorar a pesquisa científica ainda mais. Temos pesquisas clínicas fortes, que são ligadas à residência médica e que o aluno pode participar. A pesquisa no HMCP e na faculdade de medicina, do ponto de vista burocrático, é feita separadamente, porém, do ponto de vista prático, ela é feita em comum, porque os alunos têm contato com os residentes. E uma grande maioria dos residentes já foi aluno da PUC-Campinas. A pesquisa médica é muito importante para uma universidade, pois ela promove as melhorias para a comunidade.

Jornal: O Hospital da PUC-Campinas é bem procurado pelos alunos que farão residência. Qual é o papel da residência na formação do futuro médico?

Profa. Márcia: A residência é o momento em que o aluno fará sua especialização. Ao se especializar, o aluno opta por uma área do conhecimento que ele mais gosta. A prova de residência deixou de cobrar só “conteúdo” e passou a cobrar “conteúdo e habilidade”. O aluno faz uma prova prática: entra um paciente, que conta o seu quadro clínico e mostra exames e o aluno vai se comportar como médico generalista. A avaliação vai considerar como o estudante se comportou, qual tratamento ele propôs e como ele chegou a um determinado diagnóstico. Como a PUC-Campinas é uma universidade em que o aluno tem muita prática, ele, normalmente, se sai muito bem nas provas de residência.

Jornal: Segundo dados do Ministério da Educação, de julho de 2014, há, no Brasil, 21.647 vagas autorizadas para cursos de medicina. Desse total, 11.269 estão no interior do país e 10.405 em capitais. Em 2012, eram 8.911vagas nas capitais e 8.772 no interior. Qual é a sua avaliação sobre esses números?

Profa. Márcia: Muitos cursos são abertos porque a quantidade de médicos no Brasil é pequena. Eu creio que os médicos estão mal distribuídos, permanecendo, a sua maioria, nos grandes centros e não na periferia. Quando há muitos cursos nos centros, não se resolve o problema da má distribuição. Não é possível saber, por enquanto, se esse número de faculdades possui um curso bem montado, porque medicina não pode ser somente um curso teórico. É preciso ter um hospital, contato com pacientes e prática médica. O cuidado que se precisa ter é de não colocar médicos mal formados no mundo do trabalho, porque se isso acontecer, esse profissional precisará fazer cursinho preparatório para tentar a residência. Em resumo, é preciso inserir as universidades em locais mais necessitados verificar se elas estão cumprindo bem o seu papel.

Foto: Álvaro Jr. O contato do aluno com o paciente é o diferencial no curso da PUC-Campinas
Foto: Álvaro Jr.
O contato do aluno com o paciente é o diferencial no curso da PUC-Campinas

Jornal: Como a senhora avalia a saúde preventiva proporcionada pelo Hospital da PUC-Campinas (HMCP) e na região de Campinas?

Profa. Márcia: A saúde preventiva é muito bem montada na região de Campinas, o que não anula o fato de, às vezes, termos dificuldades que são para além da medicina, como a própria política. Dentro da Universidade, a saúde preventiva, a medicina coletiva é bem-sucedida.

Jornal: Para finalizar, o que é fundamental para ser um médico?

Profa. Márcia: Medicina é uma grande profissão eé preciso gostar do que se faz. Saber escutar o outro, ter vontade de ajudar e gostar de gente. É preciso que o profissional seja bem formado, tenha cursado uma boa faculdade, porque, assim, ele terá segurança para atender. São seis anos da vida do aluno que serão dedicados, em razão dos plantões médicos, no período da manhã, tarde e noite na Universidade. A vida do aluno será permanecer dentro da Universidade. A PUC-Campinas acolhe bem esse aluno do período integral, com inúmeras atividades e um ótimo aparato universitário. É imprescindível que o aluno saiba que, para cursar medicina é preciso gostar de estudar e ter em mente que o médico é um promotor da saúde e está ali para melhorar a comunidade que está em sua volta.