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Da febre amarela surgiu uma Fénix: a tragédia da febre amarela em Campinas – Século XIX

Por Prof. Dra. Janaína Valéria Pinto Camilo – Diretora da Faculdade de História da PUC-Campinas

Ainda na primeira metade do século XIX, a cidade de Campinas, no embalo da onda positivista, experimentava grandes transformações políticas, econômicas e culturais observadas, sobretudo, nas modificações da urbe. As famílias abastadas enriqueciam com a agricultura cafeeira e a cidade vivia em clima de requinte, tendo sido visitada por D. Pedro II em 1846. No ano de 1889,  Campinas recebeu pavimentação das ruas, calçadas, mercados, jardins, fontes, chafarizes, iluminação pública, rede de águas e esgotos, transportes para novos bairros, estabelecimentos de ensino, associações culturais, artísticas e recreativas, lojas de qualidade de influência francesa, instituições filantrópicas e assistenciais, associações esportivas, núcleos coloniais que se formaram com a vinda dos primeiros imigrantes europeus que substituíram o trabalho africano escravo, indústrias, tipografia, jornais, livrarias…

Acompanhando a onda de modernização, em 1872, Campinas recebeu a estrada ferro da Companhia Paulista, depois substituída pela Mogiana, que ligava a cidade diretamente à São Paulo, sendo o Porto de Santos o destino final, dinamizando, assim, a exportação do café.

Mas este ambiente moderno, rico e próspero foi quebrado pela epidemia de febre amarela. Durante alguns anos imaginava-se que a febre amarela era exclusiva das zonas litorâneas e que a Serra do Mar resguardava as cidades do planalto paulista. Entretanto, no ano de 1889, uma forte epidemia subiu a Serra e foi aparecer em Campinas, considerada então a capital agrícola da província. A partir desse momento a cidade acabou atingida por sucessivas epidemias em 1890, 1892, 1896 e 1897.[1]

No ano de 1889, estudos indicam que três quartos da população de Campinas, na época com aproximadamente vinte mil habitantes, deixou a cidade. Os mais abastados fugiam para outras regiões não atingidas pela epidemia. Outros, com menos posses, procuram se afastar da cidade, indo para a zona rural. A cidade ficou praticamente deserta, no espaço de 45 dias.[2]

Ficou a cargo da Junta Central de Saúde Pública, criada em 1850, arregimentar médicos que pudessem acudir a população de Campinas. Foi quando chegou à cidade Adolpho Lutz, que mesmo tendo ficado apenas dois meses (abril e maio) observou em suas Reminiscências sobre a febre amarela, publicada em 1930, que os mosquitos eram transportados pela estrada de ferro, fato comprovado por seus estudos comparativos dos atendimentos que realizou, em casos esporádicos e isolados, de febre amarela em funcionários do correio e da ferrovia e em pessoas que nunca tinham visitado Campinas.[3]

Estacao Mogiana 1890
Fonte: Campinas Virtual

O ciclo de contágio foi interrompido em 1897, com uma série de intervenções urbanas e obras de saneamento. “As ações afetaram diretamente a vida dos habitantes, não apenas melhorando a salubridade local, mas também criando problemas de ordem prática, como demolições, interdições e milhares de intimações para reformas de casas e prédios. Os cortiços e habitações coletivos foram combatidos tenazmente pela polícia sanitária, tão temida quanto a polícia comum, pois tinha o poder de deixar famílias inteiras desabrigadas”[4].

Ao lado dos hospitais, como a Santa Casa de Misericórdia e das enfermarias criadas pelo Circolo Ilaliano, várias sociedades foram criadas para atender a população pobre. Foi o caso da Sociedade Protetora dos Pobres, criada a 7 de abril de 1889. Em 1890, preocupado com o significativo aumento do número de órfãs das vítimas da febre amarela, o médico Francisco Augusto Pereira Lima fundou o Asilo de Órfãs, ligado à Santa Casa de Misericórdia. Além destas, foi criada em 1897, por iniciativa de Maria Umbelina Alves Couto, esposa do comerciante Antônio Francisco de Andrade Couto, com o apoio do Cônego João Batista Correia Néry e do casal Barão e Baronesa de Resende e de Francisco Bueno de Miranda, uma instituição para abrigar os órfãos da febre amarela.

Após 1897, os anos que se seguiram foram dedicados à recuperação da cidade: “A febre matou a cidade… Felizmente, os trabalhos de saneamento livraram-na do mal e pôde ela ressurgir das próprias cinzas, a repetir a lenda da fênix que, mui de proposito, figura no seu brasão de armas. Mas ressurgimento foi lento”[5]

A tragédia da febre amarela em Campinas, no século XIX, rendeu à cidade o apelido de cidade-fênix – a cidade sobrevivente -, mas que em pleno século XXI, ainda precisa lutar e renascer todos dias diante de uma iminente epidemia de febre amarela.

Largo do Rosario 1885
Fonte: Campinas Virtual

 

[1] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[2] Ibidem

[3] http://www.bvsalutz.coc.fiocruz.br/html/pt/static/trajetoria/volta_brasil/campinas.php

[4] Campinas: cidade-laboratório da febre amarela. Blog de HCS-Manguinhos. [viewed 28 July 2015]. Available from: http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/campinas-cidade-laboratorio-da-febre-amarela/

[5] GODOY, João Miguel Teixeira de, MEDRANO, Lilia Inés Zanotti de, TRUJILLO, Maria Salete Zulzke et alii. Arquidiocese de Campinas: subsídios para a sua História. Campinas: Ed. Komedi, 2004, p.  40.

FEBRE AMARELA: ESTUDOS E NARRATIVAS

Por Prof. Dr. Wagner José Geribello – Assessor Especial da Reitoria da PUC-Campinas

Entre os derradeiros meses de 2016 e os primeiros de 2017, o substantivo febre, adjetivado pela palavra amarela, tem aparecido com frequência na comunicação formal, informal e oficial de Campinas, expressando sobressalto e apreensão com a expansão da doença, ao mesmo tempo que resgata, do passado, triste memória da devastação que a moléstia causou à cidade, na passagem do século XIX para o século XX.

Mesmo assim, se aparece com frequência nos dias de hoje, o tema nunca foi totalmente esquecido, bastando lembrar que entre os livros publicados em Campinas, em 1996, vários trazem referência à epidemia, incluindo o estudo dos cantos e dos antros da cidade, do historiador José Roberto do Amaral Lapa, a análise das relações entre Campinas e a modernidade, do arquiteto Ricardo Badaró, uma visão histórica e artística de Duílio Battistoni Filho e o que, provavelmente, é o estudo mais completo da epidemia, assinado pelo médico e também historiador, Lycurgo de Castro Santos Filho.

Antes disso, em 1984, A Febre Amorosa, do jornalista Eustáquio Gomes, publicado em forma de folhetim, nas edições do Correio Popular e também em livro, levava o leitor “aos dias negros” da epidemia, como pode ser lido no primeiro parágrafo da obra.

Tempos depois, em 2002, na publicação póstuma da tese de doutoramento do arquiteto Antonio da Costa Santos, “Campinas, das Origens ao Futuro”, o tema retorna, como também centraliza a obra de Jorge Alves de Lima, “O Ovo da Serpente”, publicada em 2013.

Além de tratar ou fazer referência a um acontecimento trágico da história campineira, os livros citados têm, ainda, outro elemento comum: seus autores integram ou integraram os corpos discente ou docente (ou ambos), da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, constatação que empresta significado e significância à contribuição de pessoas que passaram pela Universidade à história e à memória da cidade.

Amaral Lapa, Eustáquio Gomes e Alves de Lima foram, respectivamente, alunos dos Cursos de História, Jornalismo e Direito, cumprindo, pós-formatura, carreiras de sucesso, o primeiro destacando-se como fundador do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o segundo como Coordenador da área de comunicação social da mesma instituição. Alves de Lima, por sua vez, atuou na área jurídica, em diversos setores da administração municipal.

Antonio da Costa Santos foi aluno e professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo, assassinado pouco tempo depois de ter sido eleito prefeito da cidade que ele amava e conhecia, como demonstra a citada tese de doutoramento. Lycurgo Santos Filho estudou medicina e atuou na área, mas sempre manteve sólida ligação com a História, respondendo pela obra mais citada e, provavelmente, a mais completa até agora produzida sobre a Febre Amarela em Campinas, entre 1889 e 1900. Na PUC-Campinas, foi professor de História da Cultura.

Odilon Nogueira de Mattos, destacado professor de História da PUC-Campinas também tem escritos que tangem o tema e títulos de sua autoria citados em trabalhos afins, como acontece em Santos Filho, citado por Battistoni e no livro de Badaró, que, por sua vez, é citado por Amaral Lapa. Essa rede de citações recíprocas confirma e consolida a contribuição da Universidade, nas pessoas de seus ex-alunos e professores, para o conhecimento da História de Campinas, nos seus momentos mais pujantes, tanto quanto nas situações de aflição e tragédia, como foi a epidemia de Febre Amarela, que, em um só dia, ceifou a vida de mais de 50 residentes, como consta de textos assinados por gente que faz história, gente da PUC-Campinas.

 

Aedes Aegypti, Dengue e Zika Vírus

Por Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato

O mosquito Aedes aegypti é um inseto doméstico, pois ocorre em domicílios, estabelecimentos comerciais e escolas, associado a presença humana. Esse mosquito é originário do Egito (aegypti significa egípcio) e a dispersão pelo mundo ocorreu a partir da África (da costa leste do continente para as Américas e da costa oeste para a Ásia). Os hábitos das fêmeas (somente a fêmea pica o homem) são  preferencialmente diurnos, alimentando–se de sangue humano ao amanhecer e ao entardecer, no entanto, essa espécie apresenta hábito oportunista, podendo também picar à noite.

O acasalamento dos indivíduos ocorre no início da vida adulta, logo após que o adulto emerge da água do criadouro. Após o acasalamento, a fêmea deposita os ovos em novos criadouros com água limpa e parada. Os ovos ficam grudados às paredes do recipiente, próximo à superfície da água, não diretamente sobre o líquido. Uma fêmea pode colocar aproximadamente 1500 ovos durante a vida e um ovo pode resistir mais de um ano no ambiente sem a presença de água, até que chuvas ou o próximo verão propiciem as condições favoráveis à eclosão. O tempo do ciclo de vida do mosquito (de ovo, larva, pupa até a fase de adulto) está relacionado com as condições climáticas e alimento disponível, sendo, geralmente de 8 a 12 dias. Se a fêmea estiver infectada pelo vírus da dengue quando realizar a postura de ovos, há a possibilidade de as larvas já se formarem com o vírus, denominada transmissão vertical

Esse mosquito transmite muitos arbovírus, entre eles os gêneros Flavivirus e Alphavirus. O gênero Flavivirus é o causador da Dengue, da Zika e da Febre Amarela. Já o gênero Alphavirus é causador da Chikungunya.

Em 1981, ocorreu a primeira epidemia de Dengue (DENV 1 e 4) em Boa Vista (Roraima) e, em 1986, o DENV 1 se disseminou pelo Brasil. Segundo boletim nº8 – 2016 do Ministério da Saúde, em 2016, foram registrados 170.103 casos prováveis de Dengue no país (3/1/2015 a 6/2/2016). A região Sudeste registrou o maior número de casos prováveis (56,8%), seguida das regiões Nordeste (15,1%), Centro-Oeste (14,8%), Sul (7,9%) e Norte (5,3%).

O período de incubação da Dengue é em média 5 a 6 dias. Os sintomas na forma clássica são frequentemente febre alta (39° a 40°C), que aparece de forma súbita ou após alguns sintomas como mal-estar, calafrios e dor de cabeça. A febre geralmente permanece por 2 a 7 dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza, dor no fundo dos olhos, erupção e coceira na pele que pode aparecer no terceiro ou quarto dia da doença, durando de 1 a 3 dias. Os linfonodos apresentam-se frequentemente aumentados e também podem ser observados outros sintomas como perda de peso, náuseas, vômitos e diarreia.

Luciane Kern Junqueira e Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.
Luciane Kern Junqueira e Maria Magali Stelato / Crédito: Álvaro Jr.

A forma grave da doença (febre hemorrágica) pode ocorrer, com mais frequência, na segunda infecção com outro sorotipo do vírus. Os sintomas iniciais são semelhantes aos da forma clássica e, o período crítico é na transição da fase febril para a sem febre (3º dia da doença), em que ocorrem hemorragias e diminuição do número de plaquetas, podendo causar hipotensão e choque.

A Organização Mundial da Saúde (2009) classificou a Dengue em: a) Dengue sem sinais; b) Dengue com sinais de alerta (dor abdominal, vômito persistente, acúmulo de líquidos, sangramento das mucosas, letargia, hepatomegalias, e aumento de hematócrito com diminuição de plaquetas) e c) Dengue grave (com extravasamento de plasma, sangramento ou falência dos órgãos).

A ANVISA aprovou a primeira vacina contra a Dengue (publicação no Diário Oficial da União no dia 28/12/2015) e deve ser comercializada no primeiro semestre de 2016, que será aplicada em 3 doses, uma a cada 6 meses.  Essa vacina foi desenvolvida no laboratório francês Sanofi Pasteur e contém o “esqueleto” do vírus da febre amarela com fragmentos do Denguevirus. A proteção geral contra a doença é de 66%, no entanto, tem eficácia de 93% em casos graves e diminui em 80% os casos de internação.

O Instituto Butantan em parceria com o National Institute of Health (USA) também estão trabalhando com uma vacina tetravalente, em que os vírus foram atenuados (geneticamente modificados), que imunizará contra os quatro vírus ao mesmo tempo. A previsão é que essa vacina esteja disponível no segundo semestre deste ano.

Em 2016, foi confirmada autoctonia do vírus CHIKV em três municípios do Ceará, totalizando 14 Unidades da Federação com transmissão autóctone desde a introdução do vírus no país. De 2014 a 10/02/2016 foram registrados 26.952 casos. O Nordeste é a região com maior número de casos (24.599).

A Febre Chikungunya é uma doença transmitida pelos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Chikungunya significa “aqueles que se dobram” e, refere-se à aparência curvada dos pacientes que foram atendidos na primeira epidemia documentada na Tanzânia, localizada no leste da África, entre 1952 e 1953. Esse vírus foi identificado no Brasil em 2014.

O período de incubação é de 2 a 12 dias e a infecção pode ser assintomática (cerca de 30%) e raramente fatal. Os principais sintomas são febre alta (acima de 38,5ºC), que permanece por até duas semanas, de início repentino, dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos (2 a 5 dias após o início da febre). Pode ocorrer, ainda, dor de cabeça, dores nos músculos, manchas vermelhas na pele, náuseas e vômito. A doença pode ficar crônica com duração de semanas a meses. Depois de infectada, a pessoa fica imune pelo resto da vida.

Foi confirmada transmissão autóctone Zikavirus no Brasil a partir de abril de 2015. Até 10/02/2016, 22 Unidades da Federação confirmaram laboratorialmente autoctonia da doença. Também foram confirmados laboratorialmente dois óbitos pelo vírus no país: em São Luís/MA e em Benevides/PA. O chefe de doenças transmissíveis da Organização Pan-Americana de Saúde, Marcos Espinal, calcula que o Zikavirus pode infectar de 3 a 4 milhões de pessoas nas Américas, dos quais  1,5 milhão no Brasil.

O Zikavirus recebeu a denominação do local de origem de sua identificação em 1947, após detecção em macacos utilizados no monitoramento da febre amarela, na floresta Zika, em Uganda. O período de incubação é de quatro dias e, em cerca de 80% das pessoas infectadas a doença é assintomática. Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos (conjuntivite). Outros sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos. No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês. Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) constatou a presença do Zikavirus ativo em amostras de saliva e de urina de pacientes, mas isso não é suficiente para afirmar que é possível transmitir o vírus pela saliva; serão necessários outros estudos para comprovar se tem capacidade de infectar as pessoas. A recomendação é de evitar compartilhar objetos de uso pessoal (escovas de dente e copos) e lavar as mãos.

A Síndrome de Guillain-Barré é uma doença rara, que pode ser provocada por vírus e bactérias, e, o Zikavirus também pode estar relacionado a essa síndrome. É uma doença do sistema nervoso, provavelmente de caráter autoimune, em que a resposta imunológica é mais intensa contra o agente infeccioso e ataca também a bainha de mielina que reveste os nervos periféricos da pessoa, causando inflamação dos nervos e fraqueza muscular. Os sintomas começam pelas pernas, podendo, em seguida, irradiar para o tronco, braços e face. A síndrome pode ser leve, com fraqueza muscular em alguns pacientes, ou grave, com paralisia total dos quatro membros. O principal risco provocado por essa síndrome é quando ocorre o acometimento dos músculos respiratórios, devido a dificuldade para respirar e, pode levar à morte, caso não sejam adotadas as medidas de suporte respiratório.

A microcefalia é uma malformação congênita, em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada, o perímetro cefálico do cérebro dos bebês é menor que 33 cm, pode ser causada por agentes químicos, infecciosos (bactérias, vírus) e também radiação). O Ministério da Saúde confirmou a relação entre o Zikavirus e a microcefalia. O Instituto Evandro Chagas, órgão do ministério em Belém (PA), encaminhou o resultado de exames realizados em um bebê, nascida no Ceará, com microcefalia e outras malformações congênitas. Foi identificada a presença desse vírus em amostras de sangue e tecidos.

Não existe tratamento específico para Dengue, Chikungunya e Zika. O tratamento é feito para aliviar os sintomas. Quando aparecerem os sintomas é importante procurar o serviço de saúde mais próximo, fazer repouso e ingerir bastante líquido.

 

Pesquisa analisa a reconfiguração urbana de Campinas após febre amarela

Dissertação de mestrado considerou que a reconfiguração urbana pelo poder público se deu no intuito de melhorar o estado sanitário da cidade. Epidemia era associada à contaminação do solo e da água. Somente em 1901, a febre amarela foi associada ao mosquito Aedes aegypti

Por Amanda Cotrim

Um acontecimento histórico marcou Campinas do final do século XIX: a cidade registrou uma grande epidemia de febre amarela, entre 1889 e 1900, sendo a mais grave em 1889, quando morreram, aproximadamente, 1.200 pessoas, e em 1896, quando 800 pessoas morreram. O município, que registrava precárias condições sanitárias, não oferecia redes de infraestrutura de abastecimento domiciliar de água, canalização de esgoto sanitário e sofria com áreas alagadas; um cenário propício para a difusão de epidemias, especialmente na sua área urbana, como aponta a dissertação de mestrado de Daniela Krogh, defendida no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Urbanismo da PUC-Campinas, sob orientação da Profa. Dra. Ivone Salgado.

No período entre 1893 e 1900, visando o combate das epidemias de febre amarela, o poder público promoveu uma reconfiguração urbana na cidade. “Muitos imóveis construídos em taipa de pilão, ou taipa de mão, foram considerados insalubres, assim como as ruas sem calçamento, constantemente em contato com matérias orgânicas em putrefação, sendo necessária a impermeabilização do solo”, explica Daniela. A Comissão Sanitária da época foi chefiada pelo médico Emílio Ribas e a Comissão de Saneamento, pelo engenheiro Saturnino de Brito. As ações promovidas pelo município também se apoiavam na legislação municipal (Código de Posturas, de 1880) e estadual (Código Sanitário do Estado de São Paulo, de 1894).

Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.
Daniela agora faz seu doutorado também na PUC-Campinas / Crédito: Álvaro Jr.

Para poder compreender como a febre amarela impactou a configuração urbana de Campinas, a pesquisa se apoiou em bibliografia consagrada sobre o tema e, principalmente, em documentos do acervo do Arquivo Municipal de Campinas. Daniela explica que a maioria dos ofícios solicitava vistorias domiciliárias, desinfecções e pareceres de vistorias sobre casos de pessoas que ficaram doentes por causa da febre amarela. “As ações de combate às epidemias, naquela época, se configuraram em demolições de imóveis, desinfecções de residências e demais estabelecimentos, bem como a proibição de estábulos e cocheiras nas áreas mais adensadas da cidade”, contextualiza.

Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951
Casa construída em taipa de mão. Fonte: José Carlos Mendes. Retratos da Velha Campinas. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Publicação da Divisão do Arquivo Histórico, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Eduação e Cultura, da Prefeitura de São Paulo, 1951

A pesquisa considerou que o “péssimo estado sanitário de Campinas contribuiu para a difusão da febre amarela”, porque a cidade não tinha sistemas de abastecimento domiciliar de água e coleta de esgoto, que só foram inauguradas em 1891e 1982, respectivamente. A área da cidade que sofreu maior intervenção das autoridades sanitárias municipais e estaduais foi a área central, nas proximidades da linha da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a mais adensada no período analisado, na qual as condições sanitárias eram precárias e, portanto, consistia num local favorável ao desenvolvimento de epidemias.

A dissertação identificou que a atuação das autoridades sanitárias se pautava pela relação da febre amarela com a contaminação da água e do solo. Somente em 1901, o médico sanitarista Emilio Ribas repetiu os testes feitos pelo médico cubano Carlos Finlay, em 1881, e as autoridades sanitárias passaram a trabalhar a epidemia em relação ao mosquito Aedes aegypti, descoberto pelo cubano como o transmissor da febre amarela. “De todo modo, foi importante o poder público eliminar a água e o solo contaminados, porque ele combateu o foco da doença, mesmo acreditando que a febre amarela era transmitida pela água contaminada”, avalia.

Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:
Desinfectório Central de Campinas: Local onde se fazia a desinfecção de roupas e objetos dos doentes. Estava localizado onde hoje é a E. E. Carlos Gomes. Fonte: Blog Pró Memória de Campinas:

O médico sanitarista Emílio Ribas permaneceu em Campinas até 1896 e, depois, ele assumiu a chefia do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. Entretanto, a Comissão Sanitária continuou os trabalhos em Campinas, mas isso não significa que, nessa época (1901), os trabalhos estavam exatamente focados no combate ao mosquito. Foi a partir de 1904, quando ainda era diretor do Serviço Sanitário, que Emílio Ribas passou a reforçar que o combate à febre amarela (em todo o Estado de São Paulo, e não somente em Campinas) deveria ser feito no sentido de eliminar os criadouros do mosquito, como medida profilática.

Aedes aegypti: da Febre amarela à dengue

Divulgação
Divulgação

Não é possível comparar Campinas do final do século XIX com a Campinas do século XXI, mas Daniela argumenta que se pensarmos nos números das epidemias de febre amarela, eles são “modestos, considerando o número de casos registrados nas epidemias de dengue em Campinas nos últimos anos, com 44,5 mil casos, além do fato de que hoje a população é muito maior. Nesse sentido, uma possível relação é justamente sobre o estado sanitário da cidade atualmente, pois é bem corriqueiro encontrar lixo acumulado nas ruas e, com o período das chuvas, muitos focos do mosquito são observados na cidade, devido ao descuido, tanto das autoridades municipais – é importante destacar que isso não acontece somente em Campinas – como também da população”, pontua. Contudo, Daniela destaca que isso explica somente em parte a proliferação do mosquito Aedes aegypti, uma vez que, segundo ela, “é notório o atraso em relação ao saneamento em diversas áreas da cidade, o que, certamente, impacta na proliferação do mosquito da dengue”, considera.