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A poesia na era digital. Combinação perfeita?

Por Profa. Dra. Tereza de Moraes – docente da Faculdade de Letras da PUC-Campinas

Desde os primórdios, o indivíduo sempre tentou manifestar seus sentimentos, suas emoções, suas sensações, suas percepções, suas formas de compreensão do mundo, buscando representá-las por meio da arte, em suas várias manifestações possíveis. A primeira manifestação linguística se deu por intermédio da oralidade, mas, com o advento da escrita, essa produção passou a ser registrada e perpetuada. A utilização da linguagem escrita tornou-se, a partir daí, o meio ímpar para o registro da arte literária.

Muitos poetas, em vários contextos históricos diferentes, endeusaram a palavra, o verbo. Olavo Bilac questiona o poder de expressão da palavra (Inania Verba), Carlos Drummond de Andrade argumenta que escrever é lutar com palavras (O Lutador). Afirma, ainda, que para encontrar as possíveis nuances das palavras que vivem num reino diferenciado é necessário possuir a chave (À procura da poesia). Encontrar a palavra certa e combiná-la num sintagma esteticamente, utilizando todos os recursos disponíveis da linguagem, era o ideal dos poetas, sobretudo do engenheiro do verso, João Cabral de Mello Neto, que priorizava a técnica e diminuía a importância da inspiração.

Século XX. Nesse novo cenário mundial pode-se observar a rapidez do progresso, do desenvolvimento. Mudanças tecnológicas acontecem num piscar de olhos. Vários suportes se nos oferecem para a representação de mundo. Entretanto um deles permanece intacto: a linguagem escrita, fonte primordial da manifestação literária. Mas, a partir dos anos 1950, muitas mudanças começam a surgir, com o movimento concretista. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari introduzem um novo agente estrutural na poesia: o espaço. A linguagem agora é verbo-visual. Aos poucos, novas linguagens são incorporadas: o código musical, o código fotográfico, o código sonoro. Novas técnicas para a representação de mundo: colagens, montagem e desmontagem. Novos suportes: caixas, outdoors.

Pronto. Era um passo para a entrada na era digital. Hoje as manifestações de mundo contam com inúmeros espaços cibernéticos para aparecerem. Felizmente, o que não mudou é a necessidade do ser humano de expressar seu mundo. A diferença é que, além da palavra escrita, hoje podem ser utilizados outros materiais disponíveis e diversificados suportes para a expressão artística. Aproximadas as diferentes linguagens, combinadas as diversas temáticas, a poesia digital representa o mundo de hoje e os anseios, as angústias, as expectativas do homem cibernético, pois o poema, digital ou não, é produto do sujeito pós-humano que necessita extravasar seu mundo interior ainda que seja no ciberespaço.

O espaço digital, além de se tornar suporte para as manifestações poéticas dos sujeitos, serve também para rememorar poetas consagrados, divulgando seus escritos. Porém, nem sempre, o que se atribui aos poetas na Internet é de sua autoria reconhecida. Versos atribuídos a Clarice Lispector, Cora Coralina, Manuel de Barros e outros poetas são da lavra de outros autores, outras vezes são modificados e, no mais das vezes, apenas um ou dois versos de um poema são publicados, roubando ao texto sua integridade e os sentidos possíveis. Outra questão é o efeito moralizador ou de literatura de autoajuda que essas publicações assumem, nos moldes do pastiche tão caro à pós-modernidade. Aí não se encontra verdadeiramente o texto do autor, mas a sua interpretação pelo indivíduo que o publica. De qualquer modo, o ambiente virtual vem contribuindo grandemente para a proliferação da poesia, numa prova de que a estética é um elemento essencial do ser humano.

Clique aqui (https://www.youtube.com/watch?v=-EAYepikGK4) e confira a atriz Laura Cardoso interpretando o poema “O lutador”, de Carlos Drummond de Andrade.

Jornalismo de Dados: Métodos empíricos de investigação social

Por Rosemary Bars Mendez

Para muitos estudantes de Jornalismo, a escolha pela área acontece em função da ausência da matemática, senso comum para explicar que a atividade profissional fala de pessoas, conta histórias, relata fatos e acontecimentos sociais. Nesses textos, o número não entraria. Ledo engano.

A quantidade de informação disponibilizada hoje, potencialmente na internet, gera um olhar diferente para os números e para o ‘relacionamento’ que o profissional deve ter ao planejar a produção da reportagem, focada em dados decodificados para se ter informações precisas e exatas, com rigor metodológico que garante a cientificidade do material jornalístico.

Philip Meyer, que atuou como professor na North Carolina University, é apontado por estudiosos como o responsável por propor uma metodologia científica de investigação social para o que chamou de jornalismo de precisão, nos livros Precision jornalism: a reporter´s introduction to social science methods e The new precision jornalism, publicados em 1973 e 1991. Segundo Meyer, os jornais americanos nos anos 80 fundamentavam suas notícias e reportagens em pesquisas próprias, por desacreditarem nos números passados pelos políticos. Nessa época, as redações começavam a ter acesso a computadores e a organizar bases de dados. Porém, as primeiras metodologias foram desenvolvidas nos anos 60, num curso que Meyer fez em Havard University sobre métodos empíricos de investigação social.

Essa postura profissional já foi disseminada no Brasil. O jornal O Estado de S.Paulo foi selecionado como finalista no prêmio Data Journalism Awards 2015, organizado pela Global Editors Network, com o projeto Atlas Político, com ferramentas interativas para analisar as eleições de 2014 e o cenário político nacional. A ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), organiza desde 2002 cursos de Reportagem Avançada por Computador (RAC). Muitos de seus filiados já passaram pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da The University of Texas at Austin, que organizou entre agosto e setembro um curso virtual de Jornalismo de Dados para 1.483 jornalistas (professores e alunos), cinco deles professores da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Foram semanas de intensas discussões e exercícios com uma variedade de softwares e ferramentas web. Um processo de aprendizado que exige uma nova postura dos profissionais da área e que deve permear os bancos das Faculdades de Jornalismo no Brasil.

O jornalista Paul Bradshaw, professor visitante de Jornalismo na City University London, no texto A pirâmide invertida do jornalismo de dados, aponta que “O jornalismo de dados começa de um desses dois modos: ou você tem uma pergunta que requer o uso de dados ou você tem uma base de dados que precisa ser interrogada”. Para as duas questões a resposta é a mesma: copilar os dados disponibilizados, limpar, fazer raspagem e converter os documentos (relatórios, pesquisas, dados estatísticos etc.) em informação que possa ser compreensível ao receptor. Para isso, é necessário domínio de ferramentas básicas (e gratuitas) disponíveis como Excel, Google Docs, Google Refine, mapas, gráficos, sistemas de nuvens para armazenamento dos dados coletados.

Saber ler os dados (números) significa que o jornalista consegue sim encontrar uma boa história para contar, apoiado na qualidade do processo de apuração e sistematização. O Instituto Nacional de Reportagem, Assistida por Computador (NICAR, como é conhecido por sua sigla em inglês )organiza vários cursos de Jornalismo de Dados, capacitando profissionais no mundo todo. Os primeiros passos foram dados em 1975 na discussão sobre como partilhar e compartilhar informações, preocupações que hoje permeiam as redações em busca de dados que revelem a realidade de um país, de uma cidade, de um grupo social.

Esse é o futuro do jornalismo, com profissionais que se dedicam a usar ferramentas digitais para processar dados eletrônicos e a se desdobrarem a manusear ferramentas de código livre e aberto. É o momento para se compartilhar informações, aprimorar habilidades e conhecimentos sobre práticas de investigação jornalística.

Rosemary Bars Mendez é Professora de Jornalismo e coordenadora da Central de Estágio da PUC-Campinas