Arquivo da tag: eua

Trump será lapidado pelas instituições

Para Professor da PUC-Campinas, instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente, dificultando que seus objetivos de campanha prossigam.

Por Amanda Cotrim

A eleição de Donald Trump para presidência dos EUA repercutiu no mundo inteiro muito mais pela postura quase caricata do então candidato do que pela exposição de suas estratégias políticas e econômicas. O mundo passou a se questionar, desde os resultados das urnas, como será a política internacional de Trump e se ele cumprirá com as promessas feitas na campanha, como fechar fronteiras, restringir a entrada de imigrantes no país, não manter relações diplomáticas, políticas e comerciais com país e regiões cujos acordos haviam sido firmados por Obama, além da própria promessa de aumentar os empregos e a qualidade de vida dos cidadãos estadunidenses.

Para poder compreender um pouco melhor quais os impactos reais da eleição de Donald Trump, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o Professor. Me. Adauto Ribeiro, Diretor adjunto do Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas. Segundo o especialista, dado que o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente. “Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana”.

Confira a entrevista na integra:

  • Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais nos EUA?

No contexto das relações internacionais, decisões emitidas pelo sistema institucionalizado de escolha política de uma nação não se questiona, se acata. Desta forma, o candidato Donald Trump primeiro se viabilizou no interior do Partido Republicano e depois ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, dentro das regras estipuladas na constituição norte-americana. O resultado demonstrou insatisfação com o Partido Democrático e recoloca o Partido Republicano no poder.

A questão que mais chamou a atenção nesta eleição foi a postura do candidato vencedor, uma figura do show business, não proveniente do corpo político tradicional do país. No entanto, nunca é demais destacar que discurso de candidato é uma coisa e o exercício efetivo do poder é outra coisa. Desta forma, o que se espera é que as medidas a serem tomadas pelo novo Presidente sejam lapidadas pela institucionalidade que envolve a Presidência da República, bem como pelos interesses do Partido Republicano, que, cabe ressaltar, fez maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, na campanha, não o tratou como seu candidato ideal.

Trump, na sua campanha vitoriosa, apresentou-se como um indignado cidadão norte-americano de classe média preocupado com a perda de prestigio e de poder da nação americana no ambiente mundial e que isso refletia no desemprego e na perda de qualidade de vida do americano. Assim, tornar a América forte novamente foi seu mote. E para isso não faltaram inimigos, ocultos e não tão ocultos assim, elencados; satisfazendo o desejo interno de achar responsáveis “externos” pelos problemas da Nação. Assim, Trump se apresentou nas eleições como o herói, que imbuído de uma causa justa não vê restrições em levá-la adiante, até as últimas consequências- ou inconsequências- de seus atos. Na campanha esse procedimento pode ser válido, no entanto, na política cotidiana e nas relações internacionais isso não funciona desta maneira. Instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente e negociações terão que ser efetuadas para levar a cabo alguns de seus objetivos, o que nos leva a crer que a maioria deles será esquecida e ficará pelo caminho.

“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Qual será o efeito da vitória de Trump para a América Latina?

Com relação à América Latina, não se espera mudanças significativas, inclusive por já ser uma região com predomínio dos interesses norte-americanos devidamente assentados. Naturalmente, a questão dos imigrantes e da fronteira mexicana será destaque. O novo governo deverá impor mais restrições à entrada nos Estados Unidos, inclusive para trabalho legal, bem como ampliará o combate aos ilegais, afinal de contas essas medidas foram exploradas a exaustão na campanha e não fazê-las geraria perda de apoio em grande parte do eleitorado de Trump.

A promessa de defender empregos para os norte-americanos deverá recair em grande parte na restrição aos imigrantes. O problema desta estratégia é a relação extremamente produtiva da economia norte-americana com relação a estes trabalhadores, dado que a imigração aumentou significativamente de todos os continentes para os Estados Unidos. Assim, a lógica de cercear a entrada de imigrantes pode ser ruim para a competitividade da economia norte-americana visto que um de seus elementos dinâmicos é a diversidade de trabalhadores de todo o mundo que se dirigem para esta economia.

Um segundo ponto de destaque devem ser as relações com Cuba. Este país deve obter um pouco mais de atenção do novo governo, dado o momento de transição política que atravessa, o que não significa que haverá boa vontade dos EUA para com este país, ao contrário, Trump deve atender aos interesses dos cubanos radicados nos EUA bem mais do que o fez Obama.

O candidato também fez menção de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que considera prejudicial aos Estados Unidos, no entanto, não detalhou que ponto trataria nesta revisão, sendo assim, pode ser que procure impor alguma restrição a circulação de mercadorias, o que prejudicaria os mexicanos, mas também os consumidores norte-americanos. O desejo manifesto de estabelecer acordos bilaterais aponta para uma política comercial de negociação caso a caso, situação que faz pender a balança de negociações para o lado dos norte-americanos. O Brasil no seu projeto de integração regional (Mercosul) resistiu a esta estratégia comercial, desde os anos 1990, vamos ver se vai alterá-la agora.

  • Em que o mandato de Trump pode afetar o Brasil?

O Brasil se insere no contexto da América Latina como região de baixa prioridade para os EUA, no entanto, para nós trata-se de um parceiro estratégico, cerca de 13% das exportações brasileiras se dirigem para os EUA, de onde cerca de 17% de nossas importações são provenientes. O crescimento econômico norte-americano seria um fato extremamente benéfico para as exportações brasileiras. Entretanto, ao que parece, o novo governo também pretende expandir suas exportações para o mercado brasileiro, adotando uma estratégia de acordos bilaterais. Para que isso ocorra, será preciso rever o acordo do Mercosul, nosso parceiro preferencial. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o novo governo brasileiro aponta para facilitar esta estratégia americana. Por outro lado, a necessidade de atração de capital estrangeiro da economia brasileira esta em consonância com o desejo norte-americano em ampliar estes investimentos; a questão é estratégica.

O governo brasileiro já vem desregulamentado diversos setores de interesse dos Estados Unidos, a área de petróleo é um destes setores, bem como a área de infraestrutura, transportes e serviços. Outra fonte de preocupação para o Brasil está na condução da política de juros norte-americana a ser praticada pelo novo governo, uma alta dos juros norte-americanos neste momento aumentaria as dificuldades para o financiamento da economia brasileira, o que poderia provocar alta de juros no Brasil (que já é extremamente alta). Isto seria muito prejudicial para a economia brasileira. Neste contexto, cabe ao governo brasileiro trabalhar medidas que diminuam a relação de dependência entre estas duas taxas de juros. No mais, esperar apoio dos EUA para uma maior participação do Brasil em organismos multilaterais não me parece algo que irá ocorrer em um horizonte próximo. Em suma, o governo brasileiro não deve esperar benefícios com a nova administração, mas sim, negociações duras se quiser fazer prevalecer o interesse brasileiro.

  • A Rússia não chegou a apoiar explicitamente o Trump, mas demonstrou diversas vezes sua oposição à Hillary. Qual interesse da Rússia na eleição do Republicano?

 Com relação à Rússia, a posição do futuro governo norte-americano é de maior proximidade do que os confrontos da era Obama. Trump explorou a imagem de força que o atual governo russo projeta para ressaltar ao público interno que um presidente americano precisa ser igualmente forte. Desta forma, criticou constantemente a sutileza executada por Obama em sua política externa, ressaltando a necessidade de agir com dureza e rapidez. Basicamente, uma política externa mais truculenta, como o faz o presidente russo. Trump, ao que tudo indica, deve aumentar o poderio militar norte-americano, porém, reclama dos custos da defesa que diz efetuar para países amigos no exterior. No seu discurso, diz que espera dividir os custos desta defesa com estes países. Falta combinar com eles. Não é a toa que países da Ásia e da Europa têm demonstrado preocupação com esta postura norte-americana. Com esta política, perdem os países-amigos mais distantes a proteção americana que julgavam ter, e ficam mais livres para agir a Rússia e a China, por exemplo.

A provável estratégia de Trump de ampliar o poder militar dos EUA resgata a política do período da Guerra Fria, enfatizando que o país, sob seu governo, se tornaria tão poderoso e ameaçador que, desta forma, não sofreria mais ameaças. Um filme que já assistimos no passado e que atende integralmente o interesse da indústria bélica mundial e o interesse das nações com grande investimento em armas.

  • O que a eleição de Trump pode influenciar na guerra na Síria?

Se formos observar pelos discursos da campanha, o presidente Trump tende a se aproximar do governo sírio em detrimento dos rebeldes que lutam para derrubar o governo estabelecido. Da mesma forma, pode se aproximar da posição russa estabelecendo um apoio ao combate conjunto ao Estado Islâmico. Assim, a guerra síria pode caminhar para uma solução, dado o reforço recebido por uma das três partes envolvidas no conflito, o que não significa uma solução para a instabilidade do Oriente Médio.

Trump, ao que parece, não possui uma estratégia consolidada de como lidar com a região, o Partido Republicano deverá guia-lo. Israel segue como prioridade política para os Estados Unidos, embora o presidente tenha escorregado em alguns discursos. Ainda com relação ao Oriente Médio, deverá fortalecer as críticas ao regime do Irã e sua oposição ao acordo nuclear pactuado por Obama, sempre tomando como base seus discursos de campanha.

  • Qual sua avaliação sobre a  Parceria do Transpacífico e a promessa de rompimento por parte dos EUA?

Este me parece um equivoco a ser cometido pelo novo governo, dado que já afirmou que não irá ratificar o acordo comercial tão demoradamente costurado pela gestão anterior e que serviria politicamente para ampliar a presença norte-americana na Ásia e Oceania, ao mesmo tempo em que buscaria gerar um freio na expansão comercial chinesa. Ao pressupor que o acordo não é benéfico aos EUA, e que em sua gestão irá se guiar por acordos bilaterais, procurando resultados específicos para os EUA no curto prazo, o governo Trump acaba beneficiando a estratégia chinesa e coloca os interesses de curto prazo acima de estratégias politicas estruturantes. Em suma, parece que cláusulas do acordo que não seriam de interesse imediato de partes importantes da economia americana, envolvendo questões ambientais e trabalhistas, seriam abandonadas. De acordo com pensamento de Trump, estas partes do acordo dificultariam a criação de empregos no EUA e restringiriam o uso de fontes antiquadas de energia, que em sua campanha o candidato prometeu resgatar. Isto pode gerar um grande problema ambiental e, principalmente, um problema para o desenvolvimento de tecnologias e energia limpa nos EUA, podendo permitir que a China se destaque nesta área na economia mundial. Em suma, ao não assinar o tratado, os EUA claramente ignorarão os seus parceiros da jornada, Japão, Austrália, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Colômbia entre outros, o que irá exigir dos norte-americanos a apresentação de um acordo alternativo em substituição.

  • Há algo que eu não perguntei que o senhor gostaria de dizer?

No geral, o que podemos observar é a existência de uma grande expectativa quanto aos rumos do governo Trump.  Seu discurso “vazio” não revela estratégias, logo, o caminho está aberto. Dado que o partido republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente.

O que Trump repetiu a exaustão na campanha é que os EUA estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso precise sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos, afirmando ainda que não irá mais ceder o país à falsa cantiga da globalização.

 Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana.

 

 

Black Friday tupiniquim e as vendas de Natal em meio à crise econômica

Por Vinícius Ferrari

A origem do Dia de Ação de Graças (Thanksgiving Day)  remonta aos festivais cristãos celebrados pelos primeiros colonos norte-americanos em agradecimento às colheitas anuais. Muitos séculos depois, em 1941, o Congresso dos EUA elevou o Thanksgiving ao status de feriado nacional, que passou a ser comemorado na quinta-feira da quarta semana de novembro.

Os congressistas nutriam esperanças de que o feriado estimulasse as vendas de Natal, o nível de emprego e o lucro varejista.  Em especial, o presidente Franklin D. Roosevelt acreditava que esses acontecimentos poderiam contribuir para a superação definitiva da Grande Depressão dos anos 30.

As grandes redes comerciais dos EUA logo perceberam as oportunidades geradas pelo feriado e instituíram o dia nacional das promoções na primeira sexta-feira após o Thanksgiving, que ficou popularmente conhecida como Black Friday.

Por décadas, as promessas de vultosos descontos têm atraído milhões de norte-americanos às lojas em cada Black Friday. Desde então, o frenesi das compras, termo utilizado pela primeira vez pela polícia da Filadélfia,   tomou conta do Thanksgiving. Para muitos consumidores dos EUA, o feriado religioso transformou-se num mero prelúdio do  holiday shopping  que abre a temporada de liquidações de Natal.

A exemplo dos EUA na década de 1940, o Brasil  está vivenciando, no período atual, uma grave crise econômica. O PIB per capta, um indicador que mede a renda do país, sofreu forte retração no biênio 2014-2015. Em 2016,  pela primeira vez desde de 1999, a taxa de desemprego superou o patamar de 11% da população. O fantasma da inflação, que muitos acreditavam ter  sido eliminado, voltou a atormentar as famílias brasileiras. Não por acaso, as vendas de Natal registraram quedas em dois anos consecutivos.

Diante desse contexto de crise, o setor varejista parece ter encontrado uma nova tábua de salvação para as vendas natalinas: “importar o feriado” de Black Friday para o Brasil por meio do oferecimento de promoções através do comércio eletrônico.

A despeito da inexistência do feriado de Thanksgiving no calendário brasileiro,  o apelo dos descontos parece ter surtido efeito. De acordo com empresa Ebit, o comércio eletrônico movimentou 1,9 bilhão de reais na Black Friday de 2016. Trata-se de uma elevação de 17% frente ao ano anterior. Sob um cenário desemprego crescente, o valor médio dos pedidos foi de R$ 653, uma quantia 13% acima do valor registrado na Black Friday de 2015.

Esses dados atestam que as promoções têm estimulado as vendas de Natal em meio à crise de 2016; no entanto, esse acontecimento não está isento de questionamentos. Será que a Black Friday tupiniquim ameaça distorcer ainda mais  os valores familiares cristãos que deram origem ao Natal, tal qual ocorreu com o feriado religioso do  Thanksgiving nos EUA, que passou a representar o símbolo máximo do consumismo desenfreado.

Prof. Dr Vinícius Ferrari é Economista professor na Faculdade de Economia e Administração.

Haiti: entre a vanguarda e a catástrofe

Por Lindener Pareto

Das muitas narrativas trágicas da História Contemporânea, a do Haiti é certamente uma das mais emblemáticas. Poderíamos aventar (com certa dose de anacronismo) que a tragédia começou com a dizimação de toda população nativa da ilha de Hispaniola (que reúne hoje Haiti – de colonização francesa e República Dominicana – ex-colônia espanhola) desde os tempos de Colombo até a montagem do sistema de plantation para a produção de açúcar, cujo auge foi o conturbado século XVIII do Iluminismo e das Revoluções Atlânticas.

Com uma população de mais de meio milhão de negros africanos submetidos à odiosa escravidão e pouco mais de trinta mil brancos controlando o sistema, a ilha de Saint-Domingue emerge dos horrores da escravidão para se tornar um dos grandes palcos da vontade de liberdade apregoada não só pelos jacobinos da Revolução Francesa (1789-1799), mas pela própria tradição de luta dos escravos oprimidos desde meados do século XVIII. A partir de 1791, a rebelião escrava queima propriedades, massacra os senhores brancos e, liderada por Toussaint L’Ouverture, Dessalines e outros líderes negros, resiste bravamente às tropas francesas (25 mil soldados) enviadas por Napoleão Bonaparte para restaurar a “ordem” e restabelecer a escravidão. Em 1804, a parte ocidental da ilha de Hispaniola se torna o Haiti, primeiro país independente da América Latina e também o primeiro a abolir a escravidão.

Lindener Pareto é docente de História Contemporânea  (Foto: Álvaro Jr)
Lindener Pareto é docente de História Contemporânea (Foto: Álvaro Jr)

No entanto, como nos lembra o historiador Jacob Gorender, como explicar que um dos arautos da liberdade contemporânea tenha seguido caminhos tão conturbados e tenha se tornado o país mais pobre do continente e um dos mais pobres da atual ordem global? Não há resposta única. As interpretações devem levar em conta o ocaso açucareiro da ilha, que deixou de ser importante na economia mundo capitalista; a ditadura de Jean-Pierre Boyer (1820-1843); o longo período de intervenção e literal invasão dos EUA, principalmente entre 1915 e 1934. Não são poucos os relatos de segregação racial e assassinatos brutais cometidos pelo controle estadunidense da ilha, além dos benefícios da imposição econômico-financeira dos bancos norte-americanos. Na esteira da tragédia, um dos períodos mais sombrios e conturbados foi protagonizado pelo médico sanitarista François Duvalier. Conhecido como o Papa Doc (Papai doutor), foi eleito presidente em 1957 e a despeito de sua fama anterior de médico caridoso, se mostrou um dos ditadores mais temidos do século XX. A partir de 1990, a ascensão de Jean-Bertrand Aristide representou controvertida esperança logo sufocada por mais guerra civil e por mais intervenções militares, dessa feita da ONU sob orientação dos EUA e sob comando de uma missão militar brasileira desde 2004.

Na chamada era da globalização, o Haiti ainda representa a caótica permanência das intervenções externas, a imposição de políticas econômicas que arruínam a possibilidade de autonomia e uma herança do protagonismo negro que sempre foi assombrado, nas palavras de Eduardo Galeano, pela maldición blanca. De fato, o terremoto catastrófico de 2010 é explicação menor para as mazelas de um país que primeiro se libertou da opressão branca e também o primeiro a ser temido pelas mesmas nações lideradas sintomaticamente pela maldicíon blanca,tão temerosa dos jacobinos negros.

Prof. Me. Lindener Pareto é docente de História Contemporânea na PUC-Campinas

 Crédito da Foto de Capa: Garbers Elias Pereira

Ex-Alunos da PUC-Campinas são destaque mundial

“A formação que eu tive aqui foi única para chegar onde estou”

Por Amanda Cotrim

Cristiane Squarize e Rogério Moraes se conheceram na PUC-Campinas, no curso de Odontologia, na década de 1990, quando começaram a namorar. Do namoro veio o casamento, o mestrado, doutorado e o pós-doutorado. Hoje, os dois são professores da área de patologia bucal, na Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan e fundadores e responsáveis pelo laboratório de Biologia Epitelial da universidade, nos Estados Unidos.

De passagem pelo Brasil, cumprindo agenda de palestras nas universidades brasileiras, Cristiane conversou com o Jornal da PUC-Campinas. Ela ressaltou a importância da formação que recebeu na Universidade para o sucesso da sua carreira. “A formação que eu e meu esposo tivemos aqui foi única. Na PUC-Campinas tivemos acesso à prática e ao paciente durante todo o curso, o que me deu uma formação mais humana”, lembra a ex-aluna. A prática oferecida pela Universidade possibilitou que Cristiane, depois de formada, tratasse pacientes que não tinham condições de pagar. “Eu trabalhei cinco anos em consultório e doava um dia por semana para a comunidade. Nesse período, tive muito contato com pacientes que tiveram trauma na região da cabeça e pescoço ou doenças genéticas. Esses quadros que chegavam até mim me impulsionaram a ir para a pesquisa, para entender como a doença funciona, podendo intervir e prevenir”, lembra.

Cristiane e o marido, Rogério Moraes, trilharam o mesmo caminho profissional. Ambos fizeram mestrado e doutorado e hoje trabalham na mesma área de pesquisa. A oportunidade de trabalhar nos EUA surgiu quando a pesquisadora estava no doutorado sanduíche (termo usado para dizer que o aluno fez parte do curso de doutorado fora do país). “Eu fiquei em um laboratório da mesma universidade que eu trabalho hoje e, paralelamente, fui publicando meus artigos científicos, até que eu e meu esposo fomos convidados para fazer o pós-doutorado lá. Em 2010, a universidade abriu concurso e passamos. Os dois”, brinca Cristiane.

Ex aluna da PUC-Campinas tornou-se cientista reconhecida mundialmente
Ex aluna  tornou-se cientista reconhecida mundialmente

O casal, especialista em câncer bucal, pesquisa como ele se desenvolve, quais são suas características, e assim conseguem desenvolver novos tratamentos. Hoje, Cristiane e Moraes estudam células-tronco, câncer bucal e regeneração do corpo. “Entendemos, ao logo dos anos, que no meio científico não existem barreiras. O conhecimento é o caminho para melhorar a saúde dos pacientes”.

Atualmente, os brasileiros recebem estudantes do mundo inteiro na Universidade de Michigan. O casal, além de lecionar e liderar o laboratório de pesquisa nos EUA, também é convidado a dar palestras em várias universidades no Brasil. A produção científica de ambos os pesquisadores inclui publicações em revistas renomadas, como Science, Cel Stem Cell, PNAS, Neoplasia, Câncer Research, Oncogene, PLOS One, FEBS, entre outras.

Câncer de boca: 

Segundo a doutora Cristiane, 50 por cento dos pacientes diagnosticados com câncer bucal morrem da doença. As causas estão associadas ao fumo e ao HPV. Afeta mais homens do que mulheres. O câncer causado pelo fumo afeta pessoas cuja faixa etária é de 60 anos, já o causado pelo HPV afeta pacientes mais jovens. São dois tipos diferentes de câncer. O primeiro atinge mais a borda lateral da língua, enquanto o segundo afeta a cavidade bucal. A boa notícia é que o câncer causado por fumo pode ser revertido se a pessoa parar de fumar.

Aluno da PUC-Campinas vence competição Hackathon nos EUA

Fernando Barbosa Gomes é estudante do curso de Engenharia de Computação e faz “graduação sanduíche” por meio do programa Ciência Sem Fronteira, do governo federal, na University of Kansas (EUA). Gomes faz parte da equipe vencedora da competição Hackathon, promovida pela empresa IBM, sobre o tema IoT (Internet of Things).

IoT (Internet of Things) é um termo “quente” na computação, que traduz a ideia de que em alguns anos, a sociedade estará convivendo com milhões de aparelhos conectados à internet. E o que nós, seres humanos, faremos com tantos aparelhos? “Imagine um mundo no qual até a sua torneira é conectada à internet”, sugere Gomes, em entrevista por e-mail à reportagem da PUC-Campinas. Segundo o estudante, com todos os dados dos produtos coletados, as empresas poderiam ter o controle sobre seus produtos, como a data da venda e para quem foi vendido.

Gomes afirma, no entanto, que o sistema não favoreceria apenas produtos “supérfluos”, mas poderia salvar vidas: “Quantos aparelhos, como marca-passos, podem se tornar muito úteis na hora de salvar vidas se estiver coletando os dados dos seus usuários e analisando esses dados o tempo todo?”, indaga. “O IoT é algo de extrema importância para os próximos anos e algumas empresas estão se apressando pra conseguir o mercado dessa área”, completa.

A Hackathon foi promovida pela IBM, entre seus estagiários, com o intuito de receber ideias de fora para dentro da campanha; ideias “out of the box”. Trata-se de uma competição em que todos os estagiários da IBM, em Kansas e na Califórnia, participaram com o objetivo de desenvolver um aplicativo/idea/máquina, documentálo e apresentá-lo; tudo isso feito em oito horas.

O aluno da PUC-Campinas, Fernando Gomes, tem 20 anos e um prêmio internacional no currículo
O aluno da PUC-Campinas, Fernando Gomes, tem 20 anos e um prêmio internacional no currículo

Cinco equipes de três a quatro pessoas participaram da competição. Quatro dessas equipes eram formadas apenas por estagiários e uma por funcionários “full time” da IBM. “O produto que nós desenvolvemos e apresentamos para essa competição são informações confidenciais, mas adianto que vencemos com uma diferença esmagadora dos outros grupos, nas áreas de “desenvolvimento da aplicação”, “apresentação” e “uso de tecnologia IBM”. A equipe ficou em segundo lugar, apenas, no quesito “ideia”, ganhando, portanto, em pontuação geral.

Para o estudante, esse prêmio é importante para a projeção profissional, pois atesta uma ideia inovadora e vai ao encontro dos interesses de mercado: “os empregadores estão interessados em pessoas capazes de fazer o design e projetar sistemas e não em pessoas que conseguem escrever algumas linhas de códigos sem ter erros”, acredita.

A equipe vencedora é formada, majoritariamente por brasileiros: Fernando Barbosa Gomes (Brasileiro, de Campinas, estudante da PUC-Campinas e KU [University of Kansas]), Cesar Augusto Nogueira (Brasileiro, de Campinas, estudante da Ufscar/Metrocamp e UMKC [University of Missoury – Kansas City]) e Christian Traistaru (Romeno, estudante da K-State [Kansas State University]. “ Fomos os únicos estudantes brasileiros, e de Campinas. O restante era estadunidense e de outras nacionalidades”, valoriza Gomes.

“em alguns anos, a sociedade estará convivendo com milhões de aparelhos conectados à internet”

 

Mais um estudante da PUC-Campinas foi reconhecido por projetos ligados à tecnologia. A aluna do último semestre do curso de Sistemas de Informação da PUC-Campinas, Gabrielle Cristina Perez Dias recebeu uma menção honrosa pelo projeto apresentado no Facebook São Paulo Hackathon: “Criamos um site, em que era possível cadastrar o desaparecimento da pessoa e associá-lo ao perfil do Facebook. Com isso, formávamos um banco de dados, o que facilitaria para encontrar o desaparecido (….) Nosso projeto pretendia usar os usuários do Facebook para fazer algo bom por alguém”.