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Tese analisa perfis de comunicação política nas redes sociais

O Professor do Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Victor Corte Real, defendeu sua tese de doutorado no dia 21 de setembro de 2015,  na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação da Profa. Dra. Heloiza Matos. A pesquisa teve como título: “Perfis de comunicação política nas redes sociais on-line: monitoramento e tipologia das conversações nas eleições presidenciais brasileiras de 2014 no cenário da internet”.

Real utilizou um software de monitoramento para coletar as publicações que fizeram qualquer menção aos principais candidatos à presidência: Aécio Neves, Dilma Rousseff, Eduardo Campos e Marina Silva.

A pesquisa teve como ambiente de análise o site de relacionamento Facebook, pelo fato de ser a rede social com 83% de preferência entre os internautas brasileiros. Mais de um milhão de postagens, feitas por perfis de usuários ou fanpages, foram extraídas durante o período de campanha eleitoral (06/07 a 05/10/2014).

Para interpretar os dados obtidos, o pesquisador construiu um modelo quali-quantitativo de análise dos tipos de comunicação política no ambiente das mídias sociais.

Real afirma que “dentre as principais constatações obtidas, uma das que mais chamou atenção foi o fato de não existir efetivamente conversação entre os usuários, já que mais de 90% das mensagens são manifestações isoladas, não configurando um cenário de diálogo”.

Crédito: Arquivo Pessoal
Crédito: Arquivo Pessoal

Neste sentido, a tese defende que, apesar das pessoas se expressarem com grande intensidade diante dos temas das eleições 2014, elas não estabeleceram debates e nem troca de informação baseada em argumentação e contra-argumentação.

Além disso, o conteúdo das postagens foi baseado, em sua grande maioria, em argumentos de ordem emocional, ou seja, sem mencionar quadros de referência ou construções lógico-racionais diante da visão de mundo atual e futuro dos internautas.

As considerações finais do trabalho sinalizam, portanto, um despreparo dos usuários do Facebook para tratar de questões políticas, bem como uma inconsistência em assumir postura crítica e fundamentada diante do cenário eleitoral de 2014.

Em breve a tese estará disponível para acesso online no acervo da Universidade de São Paulo.

Informações: Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas 

O mercado da atenção

Na era da Informação, o usuário da internet tornou-se um produto para as mídias sociais e um consumidor para as marcas. A atenção das pessoas é o bem mais valioso no território digital

 

Por Amanda Cotrim

Na Era da Informação, o bem mais valioso é o seu tempo. Isso mesmo, o tempo que você, leitor, está usando neste momento para acompanhar esta reportagem. Essa tese foi defendida pelo economista e pesquisador do campo da psicologia cognitiva e informática, Hebert Simon, ainda na década de 1970. Simon foi um dos primeiros a descrever o fenômeno da “Economia da Atenção”. Em 2015, o Jornal da PUC-Campinas “confessa que ficará satisfeito”, se você continuar lendo o conteúdo dessa página até o final.

Para disputar a sua atenção, leitor, existem grandes organizações, como Google, Facebook e Youtube,entre outras mídias sociais, que não cobram do seu usuário, oferecem serviços gratuitos, mas vendem a sua atenção para a publicidade. “O usuário na verdade não é mais um usuário, ele é um produto e, às vezes, um consumidor”, explica em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o ex-aluno da Universidade, formado em Sistemas de Informação, Julio Cunha.

Atualmente, Julio trabalha com marketing digital e é uma das referências no assunto. Segundo ele, as redes sociais captam a atenção do público-produto e as vende no mercado digital. “Tem muitas pessoas que estão ganhando cerca de 100 a 500 mil reais por mês só gravando vídeo no Youtube. São os famosos Youtubers”.

Mapeamento do usuário-produto

As grandes organizações, como Google, Youtube e Facebook, entre outras, analisam por meio de inteligência artificial, tudo o que você, leitor, faz nas redes sociais e, a partir daí, te oferecem uma seleção de postagens que eles entendem que são do seu gosto. Quando você interage, clicando, compartilhando, curtindo ou comentando na postagem, a rede social registra o teu comportamento e procura repetir isso, promovendo um ambiente favorável para que você passe mais tempo na rede.

As empresas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência- Crédito: Álvaro Jr.
As empresas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência- Crédito: Álvaro Jr.

E qual é o segredo para que uma postagem tenha a atenção das pessoas na internet? Para Julio, não tem segredo, “precisa ser um vídeo que as pessoas gostem e que gere engajamento”, pontua. “Quem determina o valor que será pago é o anunciante, e vai depender do segmento e da qualidade do conteúdo, quem vai dizer se o post é bom ou não são os usuários-consumidores”, acrescenta.

O Google está programado para realizar uma busca semântica, levando em consideração a região demográfica da busca, o navegador da internet, as buscas que o usuário costuma realizar e o contexto da frase. O tempo de permanência na página, em quantas páginas a pessoa entrou e se ela voltou a repetir a mesma busca, são índices considerados para o aperfeiçoamento da plataforma.

Quando o usuário busca algum produto em um site, essa busca em forma de anúncios vai aparecer tanto no Facebook, Google, blogs, twitter, etc., usando a técnica do remarketing, ou cruzamento de mídias. “Não há nenhuma parceria entre as empresas. Cada uma dessas plataformas tem uma espécie de “chip rastreador”. O remarketing pode representar 30% a mais de vendas para uma empresa”, considera.

“Você é um produto para as mídias sociais e um consumidor para as marcas que anunciam nas redes sociais. O tempo é a grande mercadoria da internet”, esclarece. E diferente das outras mídias, como a televisão e o rádio, na internet não existe horário nobre. “O horário nobre pode ser às 2h da manhã”, completa.

Por que alguns conteúdos viralizam mais do que outros?

A atenção é o bem mais valioso na era da informação- Crédito: Álvaro Jr.
A atenção é o bem mais valioso na era da informação- Crédito: Álvaro Jr.

Para entender as redes sociais é preciso entender o ser humano, acredita Julio. “As pessoas tendem a se sensibilizar com postagens que envolvem crianças e animais, além de conteúdo trágico ou engraçado. Por sua vez, as redes sociais reproduzem mais o que tem mais visibilidade. Então é um ciclo vicioso. Uma causa social tende a unir mais as pessoas, fazendo o conteúdo ‘viralizar’, seja por revolta, raiva ou compaixão”, explica.

Julio alerta, porém, que as empresas e as pessoas devem ter cautela ao publicar conteúdo polêmico ou que “choque” sua audiência. “As polêmicas dividem as pessoas, e para uma marca, uma empresa, um artista, por exemplo, isso não é bom, à medida que ao se posicionar sobre algo, a empresa perde pelo menos metade de um público em potencial”, opina.

Para o especialista em marketing digital, tomar cuidado com o conteúdo da postagem também pode ser uma pista sobre como os grandes jornais brasileiros devem se comportar nas redes sociais. “Por mais que esses jornais tenham audiência e credibilidade, não é qualquer tipo de assunto que as pessoas que estão na internet querem ver. Em minha opinião, os jornais erram nas pautas e acabam não tendo retorno financeiro nas redes sociais, uma vez que jornal vive de anúncio e dentro do Facebook quem vende o anúncio é o Facebook e não o jornal”.

Apesar de a rede social ser usada pelos grandes jornais como ponte para que o internauta acesse seu conteúdo noticiado, é muito difícil, segundo Julio, tirar o usuário da sua zona de conforto, que é a tela da rede social. “E tem outra coisa, a mesma informação que um grande jornal está postando, o outro grande também está postando e o pequeno também está postando. O usuário já tem a mesma informação vinda de sete fontes diferentes. Dependendo do assunto, o usuário não vai sair da sua zona de conforto para acessar a página do grande jornal”. É aí, para ele, que mora o perigo das pessoas compartilharem informações mentirosas, sem checar a fonte.

 A informação na era digital

 Qual seria o caminho da imprensa, então? Julio aposta que os jornais têm de selecionar suas postagens nas redes sociais e não postar todo o conteúdo que está naquela edição, como se o Facebook fosse um “depósito de informação”. “Os jornais deveriam selecionar quais são as manchetes do dia e direcionar esse conteúdo nos horários de pico do Facebook. Em vez de ele colocar 70 postagens no dia, ele colocará 10”.

“As empresas erram em suas estratégicas de marketing, porque a rede social é lugar de gente e não de empresa, por isso elas têm pouco engajamento, no geral. Em minha opinião, os anúncios no Facebook às vezes causam mais repulsa do que engajamento”.

Julio compara as do Facebook com uma praça em que o usuário vai para trocar figurinha com os amigos. “Já o Google seria a biblioteca. Na biblioteca você não sai gritando e sim procurando a informação que deseja; já numa roda de amigos as pessoas falam e/ou gritam. As empresas precisam entender que no Facebook elas estão numa roda de amigos e precisam falar ou gritar juntos a mesma coisa”.

Memes e a violência do discurso

Por Maria de Fátima Silva Amarante

Lipovetsky e Seroy apontam que a reconfiguração do espaço (encolhimento) e do tempo (compressão) que leva à hiperindividualização, fundada nos sentimentos de simultaneidade e de imediatismo, é consequência da instrumentalização midiático-digital das relações e que esse hiperindivíduo promove, contraditoriamente, a uniformização globalitária e a fragmentação identitária. Comentam, ainda, os autores acerca da high-tech e seus efeitos destruidores do próprio homem em suas relações com o corpo, com a experiência sensível e com os outros, apontando que a internet vem sendo encarada como um perigo para os laços sociais, por promover para os indivíduos uma vida abstrata e digitalizada em que as experiências não são coletivamente vividas, em que o encasulamento insular decorre do enclausuramento das novas tecnologias e em que o corpo já não é o ancoradouro real da vida, organizando-se em seu lugar um universo descorporificado, dessensualizado e desrealizado.

Podemos dizer que o processo de descorporificação, dessensualização e desrealização encontra nos “memes”, uma forma discursiva característica do Facebook, espaço para sua presentificação. Para ilustrar, tomemos a seguinte postagem do Facebook.

Meme

Observemos, primeiramente, a fonte: Este é alguém. Temos, então, o outro e o mesmo a que se refere Derrida, o mesmo-outro, re(ins)(es)critos como “alguém”, cujo território original é uma página no Facebook que já recebeu mais de 90 mil curtidas e de 45 mil comentários. Nessa página, as tirinhas são sempre no mesmo formato e de autoria sempre anônima. Na tirinha que reproduzimos, “encomendada” para o Dia do Professor, vemos a ilustração caricatural que descorporifica o professor, tornando-o imagem coletiva indistinta, contraposta à nomeação individualizante (Professora Suely). A imagem, tal qual natureza-morta, apresenta-nos, de uma parte, efeito de sentido de vitimização a que se contrapõe o efeito de sentido do dizer que é de denúncia, portanto, de crime. Em última análise, anunciam-se a ineficiência e obsolescência do professor, verdades que o enunciador, em sua clausura digital, pode aparentemente produzir sem estabelecimento de laço social com seu enunciatário. Contudo, sabemos que inevitavelmente o laço social se estabelece à medida que o discurso move à ação. Assim, na contraposição do dizer à imagem, constrói-se, para o leitor-professor, a dupla possibilidade de um discurso de confissão e de um discurso de resistência, como fruto do processo de descorporificação, dessensualização e desrealidade que a caricatura invoca.

Como vimos, temos uma página sem face, em que um enunciador sem face constrói, sobre o professor, um discurso que revela intolerância, e, assim, se aproxima dos chamados discursos de ódio. Esse discurso passa a operar sobre o sujeito, que é premido a identificar-se com a representação que dele se faz, e, a partir daí, faz esse discurso operar sobre si mesmo.

Como bem aponta Foucault, o discurso produz verdades, estabelece regimes de verdade: quem pode dizer o que, para quem, onde e quando. No meme apresentado, o interessante é que a sátira, estratégia argumentativa presente em um número muito significativo de postagens do Facebook, constitui a violência do discurso, uma violência que, calcada no anonimato (que dificulta a resistência), dissemina-se no corpo, na alma, nos pensamentos e nas atitudes dos sujeitos-professores. Coloca, então, em funcionamento aquilo que Foucault denominou tecnologias de si, que provocam modificações na constituição identitária dos professores que passam a reconhecer-se neste ‘mesmo’ que é sempre “Outro”.

 Prof. Dra. Maria de Fátima Silva Amarante é Diretora da Faculdade de Letras da PUC-Campinas.