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Artigo: “Brilhar na Fé e na Ciência”

 Por Pe. Dr. Adriano Broleze

“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.  Assim se inicia a Encíclica Fides et Ratio, que versa sobre a relação da fé e da razão.  Importante documento que desenvolve o tema muitas vezes concebido como antitético entre a Revelação e a Racionalidade humana. Um convite para compreender que, tanto a fé como a razão são características propriamente do ser pensante e, somente numa visão de entendimento, poderão ser assumidas como colaboradoras do desejo mais profundo do coração humano, ou seja, o anseio pela verdade.

As novas descobertas, sobretudo no campo da biotecnologia, evidenciam inumeráveis possibilidades ao desenvolvimento humano, contudo nem sempre uma tecnologia alcançável e aplicável é, humanamente (ética, moral e religião), aceitável. Seja pelo que entendemos do ser humano, como portador de dignidade inalienável, seja pelo que a religião expressa em conceber o mesmo humano como merecedor de não violação de sua vital sacralidade. O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico. A posição da religião, nesse senso, é justamente de afirmação, ou seja, de sustentação do valor de todo indivíduo e de todo ecossistema, nosso eu e nossa casa comum.

“O que acentuamos é que a ética, a moral e a religião nunca desejaram em sua raiz mais genuína, como diagnosticaram os iluministas e modernistas mais efêmeros, obstruir o desenvolvimento científico.”

As ciências bem o sabem que, defronte ao ser humano, não será possível adotar outra linguagem que não a da Dignidade, mas ao mesmo tempo, também são cientes que essa linguagem reclama contínua e fatigosa revisão. Não existe, todavia, na esfera do código simbólico, outra estrada a percorrer, senão a da reflexão que forjará as contingências do avanço e da autolimitação da pesquisa científica. A Igreja, nesse sentido, oferece uma significativa contribuição, sustentando uma visão integral do ser humano, visão que envolve não só a indispensável conceituação teórica de cada ciência, mas também a englobante visão antropológica, colhida na seara teológica, do pensante como mistério para si mesmo e, em comunhão com o outro.

Na história da relação entre Fé e Razão encontraremos, certamente, momentos turvos, que no entrincheiramento histórico podemos apreciar, todavia também não nos faltam elementos que indicam a gloriosa colheita que se pode desfrutar quando essas dimensões se unem. Vejamos, por exemplo, a conservação dos livros nos mosteiros desde a Idade Média, o nascimento das universidades, os grandes cientistas como Nicolau Copérnico (padre), Gregor Mendel (monge) e ainda Pascal, Ampère, Pasteur e Eduardo Branly. Hoje a Academia Pontifícia das Ciências reúne estudiosos do mundo inteiro, e os trabalhos do Observatório Astronômico do Vaticano são destaque, sem ainda enumerar tantas universidades e escolas espalhadas pelo mundo.

“A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros”.

Nesse sentido, Giuseppe Moscati (1880-1927), sustentava que não deveria existir contradição ou antítese entre ciência e fé, ambas deveriam concorrer para o bem do homem. Médico e professor universitário ele testemunhou ao longo de toda sua vida um zelo no atendimento aos doentes, foi pioneiro na relação de proximidade com os doentes. Dizia: “Seja a dor considerada não como uma oscilação ou uma contração muscular, e sim como o grito de uma alma, de um irmão, ao qual outro irmão, o médico acode com o calor do amor ou da caridade”. Conhecido como médico os pobres, foi canonizado pelo Papa João Paulo II, em 1987.

A pesquisa científica e a dimensão do mistério será sempre pauta de debates, encontros e até desencontros. Ao longo dos séculos, esses elementos serão observados e utilizados ora para salvaguardar uma ora para depreciar a outra. Contudo, o que não podemos nunca esquecer é que essas duas dimensões fazem parte de uma única realidade humana, que deseja ardentemente pela mais gloriosa tarefa da racionalidade, isto é, o desvelamento do mistério da verdade. Quando razão e fé se unem, esse desvelamento torna-se maravilhosamente possível.

Prof. Dr. Pe. Adriano Broleze- Faculdade de Teologia e Direito da PUC-Campinas

“Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos”, afirma Presidente da CNBB

Em entrevista ao Jornal da PUC-Campinas, o Presidente da CNBB, que esteve na Universidade, no dia 21 de setembro, fala sobre o Concílio Vaticano II e a contribuição da universidade católica para a formação humana

Por Amanda Cotrim e Eduardo Vella

Pela primeira vez, o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e arcebispo de Brasília, D. Sergio da Rocha, veio à PUC-Campinas, no dia 21 de setembro, participar do Colóquio “A Universidade Católica à Luz do Concílio Vaticano II”.  Durante sua passagem pelo Campus I, D. Sérgio, concedeu entrevista exclusiva ao Jornal da PUC-Campinas, na qual ressaltou que a Igreja se faz diálogo e que por isso ela não deve se fechar nela mesma e nem deve ter uma postura de dominação ou controle social, imagem essa que não condiz com a eclesiologia do Vaticano II, e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como é a atual. D. Sérgio também destacou que o diálogo e o serviço da Igreja podem ser efetivados através do recurso das mídias sociais. “Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira”

O Arcebispo é Mestre em Teologia Moral pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP) e Doutor pela Academia Alfonsiana da Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Dom Sérgio tem como lema episcopal “Omnia in Caritate” – “Tudo na caridade”.

Confira:

Jornal da PUC-Campinas: Neste ano, são comemorados os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, um dos eventos mais marcantes da Igreja no século XX.  A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs uma reflexão mais ampla sobre o Concílio, por meio da Campanha da Fraternidade (CF), que tem como tema “Fraternidade: Igreja e sociedade” e o lema “Eu vim para servir” , numa tentativa de aproximar a igreja cada vez mais da sociedade. Gostaria que o senhor refletisse sobre as principais mudanças proporcionadas pelo Vaticano?

D. Sérgio: O Vaticano II propõe uma atitude eclesial de diálogo e de serviço na relação Igreja – sociedade. A Igreja se faz diálogo. A Igreja se faz servidora, a exemplo de Jesus. Na relação Igreja-sociedade, há posturas equivocadas. De um lado, a exclusão da participação na vida social, com a Igreja fechada sobre si, ocupando-se unicamente de questões internas. De outro, a postura de dominação ou controle social, que não condiz com eclesiologia do Vaticano II e nem seria possível numa sociedade plural e complexa, como a atual.

O documento do Concílio sobre a Igreja no mundo, a Gaudium et Spes, propõe o caminho do diálogo com todos, procurando não apenas oferecer ajuda, mas também receber ajuda,  e a atitude de serviço. O discernimento atento dos valores presentes na sociedade é acompanhado da denúncia profética daquilo que não condiz com a Palavra de Deus.

O diálogo e o serviço podem ser efetivados através do recurso às mídias sociais. Nelas, o respeito à pluralidade não deve implicar em exclusão da perspectiva religiosa ou na negação da identidade católica. É preciso assegurar o direito à liberdade religiosa, o reconhecimento da importância da fé na vida das pessoas e na cultura brasileira. O diálogo e o serviço a serem cultivados nas mídias sociais são enriquecidos com a perspectiva cristã. Para tanto, é fundamental a atuação de pessoas e instituições cristãs.

Jornal da PUC-Campinas: Para o senhor, qual é a contribuição da Universidade Católica para a formação da pessoa humana?

D. Sérgio: A Universidade Católica deve contribuir para a formação integral da pessoa humana, para o exercício responsável da cidadania na construção da sociedade, promovendo o diálogo, a solidariedade e a paz. Ela mesma deve ser um espaço privilegiado para o exercício do diálogo e da fraternidade.

Uma universidade católica se distingue pelo cultivo e promoção dos valores éticos, especialmente, por meio de gestos concretos: o respeito, a estima, a solidariedade, a vida fraterna, a paz, nos diversos níveis da comunidade acadêmica. A atitude de diálogo é essencial, seja no interior da comunidade acadêmica, seja com a sociedade. A abertura e o diálogo a serem cultivados numa universidade católica são exigências essenciais de uma comunidade acadêmica e decorrem do proprio dinamismo e caráter dialogal do saber.

A Universidade deve ser lugar de formação para a vida e de aprendizado  conjunto, na troca e circularidade de conhecimentos. A forma monológica de racionalidade, isto é, a racionalidade fechada, empobrece e paralisa qualquer campo do conhecimento ou instituição de ensino.

A forma dialógica de racionalidade enriquece e  estimula a caminhar rumo à atualização e ao aprofundamento. O pensador ensimesmado, isto é, o professor, o pesquisador ou estudante, fechado orgulhosamente sobre si,  não poder existir a não ser em contradição com a própria essência do pensar, por sua natureza aberto ao diálogo. Além disso, não pode faltar a postura profética na missão de uma instituição católica de ensino. Numa sociedade pluralista, o diálogo deve ser acompanhado de uma consciência clara da própria identidade, condição para se oferecer uma contribuição própria e estabelecer parcerias. A Universidade oferece, sobretudo, uma visão antropológica iluminada pela fé cristã, ressaltando a dignidade. o valor inviolável da vida de cada pessoa humana e os seus direitos fundamentais.

Concílio Vaticano II: seu significado e sua recepção

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves

O Concílio Vaticano II (162-1965) é um dos eventos mais importantes da Igreja Católica na era contemporânea. Anunciado em 1959 e convocado em 1961 pelo papa João XXIII, esse Concílio significou o encerramento do Concílio Vaticano I (1869-1870) que havia sido suspenso pelo papa Pio IX em função da guerra franco-prussiana e assumindo a perspectiva teológico-pastoral, recepcionou e levou a cabo um processo de renovação interna da Igreja e de seu modo de relacionar-se com o mundo contemporâneo. Abraçou uma postura de renovação interna da Igreja em suas estruturas para que se constituíssem em espaços de comunhão e de fraternidade, de diálogo com o mundo contemporâneo, sentindo “as alegrias e as esperanças, as tristezas e angústias da humanidade de hoje” (cf. Gaudium et Spes n. 1), para promover o aggiornamento, sendo a luz de Cristo para todos os povos, sacramento universal de salvação mediante o ecumenismo, o diálogo interreligioso, a contribuição profunda com a unidade dos povos e com a emergência do novo ser humano, constituído de espírito de alegria, de justiça, de bondade, de paz e de amor.

Quando o Concílio Vaticano II foi encerrado aos 08 de dezembro de 1965, um grande entusiasmo tomou conta de cristãos e de outras pessoas de boa vontade. O desafio emergente era a recepção, compreendida como o modo de sua atualização nas diferentes realidades do mundo contemporâneo. Nesta perspectiva, os bispos fortaleceram suas estruturas de colegialidade episcopal mediante a efetividade das Conferências Episcopais, das Assembléias Gerais do Episcopado – como exemplo têm-se as Assembléias do Episcopado Latino-americano realizadas em Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007) –, a recuperação dos Sínodos e a apresentação do Papa como o bispo de Roma que, na caridade, preside o colégio episcopal. Os bispos foram fortalecidos em suas Igrejas particulares e locais, efetivando a comunhão nas instâncias de colegialidade episcopal, principalmente as Conferências Episcopais, nas instâncias diocesanas com o respectivo Presbitério e Laicato, levando a cabo a concepção da Igreja como Povo de Deus, fundamentalmente ministerial, servidor e munido da esperança escatológica. Estruturas eclesiais de comunhão e participação foram criadas tanto no âmbito mundial quanto nacional, regional, diocesano e paroquial. Assim, devem ser entendidos os conselhos pastorais e administrativos das diferentes instâncias eclesiais.

Emergiram e consolidaram-se realidades eclesiais comprometidas com a evangelização do mundo contemporâneo, tanto em termos de anúncio explícito de Jesus Cristo através da catequese, da homilia e da teologia pastoral, como em termos sociais mediante o impulso e a realização de movimentos históricos de transformação social, política, econômica e social. Neste sentido, compreende-se a concepção de “Igreja dos Pobres” proferida pelo papa João XXIII aos 11/09/1962 e levado a cabo nas formas de Comunidades Eclesiais de Base, de atividades pastorais sociais diversas e práticas pessoais comprometidas com a dignidade humana, a justiça e a paz.

No âmbito da theologia mundi, preocupada com a relação entre Deus e mundo, surgiram as teologias contextuais – teologia da libertação latino-americana, teologia asiática, teologias africanas –, teologias da cultura – pós-moderna, negra e indígena –, teologias do genitivo – teologia da mulher, teologia feminista, teologia do feminino –, teologias das religiões, teologia ecológica. Essas teologias respondem à pergunta: como falar de Deus a partir das diversas realidades – aqui se trata da concepção clássica de loci theologici – compreendidas em sua especificidade vital, sem perder a universalidade própria da revelação cristã? Para isso, a inteligência da fé, que é própria da teologia, tem na filosofia sua companheira – partner – que lhe possibilita compreender o ser humano e o mundo em sua totalidade e nas ciências os elementos constitutivos para a compreensão das realidades específicas. Todas essas teologias possuem um espírito de diálogo e de apresentação das possibilidades de eficácia da fé cristã.

É também constatável que não tem faltado tensões de diversas ordens na recepção do Concílio, porém é verdade que a Igreja está imbuída de um espírito dialógico, ecumênico e de comprometimento com a emergência do homem novo e com a nova criação, porque a Igreja tem consciência de sua missão: ser sacramento de salvação para todos os povos, zelando e cuidando da humanidade com confiança e com amor, para que esta possa resplender o rosto do Cristo, o filho do Deus, que é Amor e que ama a todos os seres humanos e a todas as criaturas desde a eternidade.

Prof Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves- Programa de Pós Graduação em Ciências da Religião – CCHSA

 

Universidade Católica: entre o amor e o saber

PUC-Campinas celebra os 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”

 Por Eduardo Vella

A PUC-Campinas promoveu nos dias 6 e 7 de maio o Colóquio “A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”. O eventou contou com a presença de diversas autoridades eclesiásticas, civis e militares, Diretores de Centro e de Faculdades da PUC-Campinas, além de docentes, alunos e funcionários. O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade, que teve na sua abertura a conferência “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, ministrada pelo Prefeito da Congregação para a Educação Católica, sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski.

O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade
O Colóquio marcou o primeiro evento organizado pelo Núcleo de Fé e Cultura da Universidade

De acordo com o Arcebispo Metropolitano de Campinas e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos, o Colóquio contribui para que “sintamos a presença de Deus”, considerou.  “Confirmo e reforço o sucesso do Colóquio, pois ele é uma oportunidade de buscarmos na Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae” a reflexão necessária para nossa missão educacional”, ressaltou a Reitora da PUC-Campinas Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht.

 Identidade

Para delinear a identidade das Universidades Católicas, o Cardeal Zenon Grocholewski levantou uma questão: “Porque a Igreja Católica possui Universidades?”. Respondeu citando o Evangelho. “Ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo quanto vos tenho ordenado”. E emendou: “Por isso, a Igreja, por mandato do Divino Pastor, desde as suas origens, vem apascentando e velando sobre a grei do Senhor desde todo ponto de vista”.

Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal  Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos
Na Foto: A Reitora da PUC-Campinas, Profa. Dra. Angela de Mendonça Engelbrecht, o Cardeal Zenon Grocholewski e Grão-Chanceler da PUC-Campinas Dom Airton José dos Santos

O Cardeal Grocholewski esclareceu que quando se fala no dever e no direito de educar da Igreja, não se está referindo unicamente à educação religiosa. “A Igreja participa também da educação nas ciências, por quanto, desde sempre, e ao longo da história, ela se preocupou de formar integralmente à pessoa”, assegurou.

Ele explicou que as Universidades Católicas têm como de contribuir com a sociedade, seja mediante a pesquisa, seja mediante a educação ou a preparação profissional. “Esta contribuição nasce desde o momento que a Universidade compromete-se a ser universitas, ou seja, consagra-se a pesquisa, o ensino e a formação dos estudantes, livremente reunidos com seus docentes, animados todos pelo mesmo amor de saber”, destacou. “Faço votos que esta Pontifícia Universidade Católica siga crescendo”.

A Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae”, promulgada pelo Papa João Paulo II em 15 de agosto de 1990, orienta as Universidades Católicas na perspectiva doutrinal e, ao mesmo tempo, pastoral. A Constituição é uma reflexão sobre a importância histórica e atual das Universidades Católicas, a partir de sua identidade e de sua missão de serviço à sociedade, principalmente no diálogo entre fé e ciência, fé e cultura. Deste modo, a Constituição conduz, através de normas gerais, a atuação das Universidades Católicas na sociedade contemporânea.

O Colóquio também refletiu sobre a Relação entre Fé e Ciência na Universidade Católica, com Prof. Dr.Rogério Miranda de Almeida (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) / Prof. Dr. Pe. Paulo Sérgio Lopes Gonçalves (Pontifícia Universidade Católica de Campinas) e a Conferência “ A Presença da Teologia e da Filosofia na Universidade Católica” – Cardeal Zenon Grocholewski.

 

Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

A espiritualidade está associada a melhores índices de saúde, maior longevidade, habilidades de enfrentamento e qualidade de vida

Por Amanda Cotrim

A relação entre espiritualidade e saúde existe desde tempos mais remotos. No período medieval, as autoridades religiosas eram responsáveis pelas licenças para a prática da medicina. Entretanto, somente nas últimas décadas, as implicações da espiritualidade e da religiosidade na saúde vêm sendo estudadas e documentadas cientificamente, como explica a docente da Faculdade de Medicina da PUC-Campinas, Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus. Segundo a pesquisadora, “há evidências da relação entre as crenças e práticas religiosas e melhor saúde física, incluindo menor prevalência de doenças coronarianas, menor pressão arterial, melhores funções imune e neuroendócrina, menores prevalências de doenças infecciosas e menor mortalidade”.

Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.
Professora Doutora Gloria Maria de Almeida Souza Tedrus/ Crédito: Álvaro Jr.

A explicação para isso está no cérebro humano, que, de acordo com a Professora Glória, é “programado” para experiências e explicações de crenças espirituais presentes em todas as culturas desde os tempos pré-históricos. “Todas as experiências humanas são mediadas no cérebro, incluindo a razão científica, dedução matemática, julgamento moral, experiência e comportamento religiosos, emoção e o pensamento. Assim, é inequívoco considerar a espiritualidade e a religiosidade como parte do comportamento humano, localizado no cérebro”, explica.

Os estudos mais recentes buscam entender os impactos de práticas religiosas na saúde mental, como depressão, transtornos ansiosos e enfermidades graves, e na qualidade de vida. As pesquisas apontam que eventos dolorosos, caóticos e imprevisíveis podem ser compreendidos e mais bem aceitos a partir da confirmação de crenças do indivíduo que vivencia tal situação. “A perspectiva do paciente é de grande importância no curso do processo saúde-doença e nesse contexto tem havido evidências crescentes da existência de relações positivas ou negativas entre a espiritualidade/religiosidade e a proteção à saúde”, afirma a pesquisadora.

O Grupo de Pesquisa da PUC-Campinas, Neuropsicofisiologia em cognição e epilepsia, do qual a Professora Glória faz parte, estuda há alguns anos as relações entre doenças neurológicas como a epilepsia e demência com a espiritualidade e a religiosidade. Em epilepsia temos observado que há relação entre os aspectos clínicos da doença, qualidade de vida e a espiritualidade e religiosidade. Observamos, em pacientes com epilepsia, que a dimensão – espiritualidade, religião e crenças pessoais é considerada como fator protetor no processo de adoecimento, de enfrentamento para lidar com os problemas, e desse modo influenciar positivamente a qualidade de vida desses indivíduos, o que sugere uma relação positiva entre espiritualidade e religiosidade e saúde”, considera. De acordo com ela, alguns estudos sugerem que as crenças religiosas podem funcionar, em caso de doença já instalada, como mediadores cognitivos favorecendo a adaptação e o ajustamento das pessoas à nova condição de saúde.

Relação Fé e Ciência:

Capa Estudos indicam que práticas religiosas auxiliam na saúde

Segundo a Pesquisadora, ciência e religião “descobriram” que têm interesses mútuos importantes e contribuições relevantes. “Atualmente, existem centenas de artigos científicos que mobilizam a relação entre espiritualidade/religião. A parede entre medicina e espiritualidade está ruindo, com evidências da importância da prece, da espiritualidade e da participação religiosa na melhora da saúde física e mental”, expõe.

No campo da pesquisa, a Professora Glória compara que para a ciência há problemas metafísicos que a religião pode ajudar a resolver. A religião, por sua vez, “pode ajudar a decidir entre teorias científicas empiricamente equivalentes, para a aceitação de uma teoria científica, os interesses metafísicos, inclusive os religiosos podem contribuir”, defende a pesquisadora. “A criação do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas é um marco da Instituição e só vai ampliar e qualificar as discussões nessa área”, finalizada.

A Educação Católica é a busca da verdade

Por Amanda Cotrim

Pela primeira vez na PUC-Campinas, o Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski, ministrou a palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Em entrevista ao Jornal da Universidade, o Cardeal falou sobre fé e ciência na constituição do ensino católico e a necessidade de um diálogo permanente entre fé e razão. “O significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem”, ressaltou. Confira a entrevista abaixo

Qual é a importância do Colóquio que a PUC-Campinas promoveu sobre a educação católica?

Eu fui muito bem acolhido pela PUC-Campinas e fiquei muito satisfeito com a iniciativa. Senti-me honrado de estar aqui na Universidade compartilhando estes dias de Colóquio sobre um documento tão importante para a missão evangelizadora da Igreja, por meio das universidades católicas. Agradeço o Grão-Chanceler, a Magnífica Reitora e todas as autoridades desta Pontifícia Universidade Católica de Campinas pelo seu convite. Deus as bendiga.

Penso que é muito importante falarmos sobre o ensino católico, pois um dos modelos mais fortes das universidades católicas é unir ciência e religião, seguindo a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae do Sumo Pontífice, promulgada pelo Papa São João Paulo II, o qual diz que a vida universitária é a procura da verdade  e de sua transmissão abnegada aos jovens e a todos aqueles que aprendem a racionar com rigor, para agir e servir melhor a sociedade .

Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.
Prefeito da Congregação para a Educação Católica, Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédio Álvaro Jr.

Como o senhor avalia a educação universitária católica no Brasil, o maior país católico do mundo? O senhor entende que os alunos das universidades católicas as procuram por alguma filiação com a religião ou por outras razões?

O Brasil é um dos países em que há mais universidades católicas e isso é muito bom. Aqui há um forte ensino universitário católico, o que mostra que estamos praticando o que diz o Papa Francisco: devemos servir as pessoas. As universidades católicas mediam o encontro entre a riqueza da mensagem do Evangelho e a pluralidade dos campos do saber, permitindo um diálogo com todos os homens de qualquer cultura. A Pontifícia Universidade Católica de Campinas está no caminho, promovendo a fecundidade da inteligência cristã no coração de cada cultura.

Como a Igreja Católica consegue difundir sua doutrina na educação católica do mundo, uma vez que cada país tem sua particularidade?

A universidade católica tem uma missão e vive por essa missão, que é evangelizar, segundo sua identidade, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demoras, sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, sem excluir ninguém. A universidade católica precisa manter os olhos permanentemente abertos, já que “fechar os olhos ante o próximo converte-nos também em cegos ante Deus”, como disse o Papa São João Paulo II. Por exemplo em Taiwan, na China, temos belas universidades católicas onde os católicas são 1% do País e na Universidade Católica tem 2% de estudantes católicos, que corresponde a três universidades católicas. É necessário que a universidade católica viva sua missão evangelizando, segundo sua identidade, em todos os lugares. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não pode excluir a ninguém. Na Coréia (do Norte) apenas 1% eram católicos, agora são 10%, algo como 5 milhões de pessoas e oito universidades católicas.

palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.
palestra “A identidade da Universidade Católica à luz da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae”. Crédito: Álvaro Jr.

Todas as universidades católicas recebe a proteção da Santa Sé?

Normalmente, não é imediatamente que uma universidade católica nasce que a Santa Sé a reconhece. É preciso que a universidade demonstre um certo nível, um certo prestígio, um certo ensinamento, para que a Santa Sé coloque essa universidade sob sua própria proteção, como é o caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e as outras seis Pontifícias no Brasil.

A campanha da Fraternidade 2015 tem como tema a Igreja e a Sociedade. Pensando nesse tema, qual é a importância da educação no desenvolvimento social?

Como nos ensinou o Papa São João Paulo II, o significado da investigação científica e da tecnologia, da convivência social, da cultura, está, profundamente, em causa com o próprio significado do homem. As universidades católicas, mediante a investigação e o ensino, ajudam-na a encontrar de maneira adequada aos tempos modernos os tesouros antigos e novos da cultura.

Numa universidade católica, a investigação compreende necessariamente: perseguir uma integração do conhecimento, o diálogo entre a fé e a razão, uma preocupação ética, e uma perspectiva teológica. A universidade católica deve empenhar-se mais especificamente no diálogo entre fé e razão, de modo a poder ver mais profundamente como fé e razão se encontram na única verdade. A preocupação das implicações éticas e morais, ínsitas tanto nos seus métodos como nas suas descobertas.

“A PUC-Campinas desenvolve competências e promove reflexões que contrapõem os valores do pragmatismo e consumismo”, afirma Vice-Reitor

 

Da Redação

O Colóquio A identidade da Universidade Católica: em comemoração aos 25 anos da Constituição Apostólica “Ex Corde Ecclesiae” foi a primeira atividade promovida pelo Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, coordenado pelo Vice-Reitor Prof. Dr. Germano Rigacci Jr., que recebeu o Jornal da PUC-Campinas para analisar a atuação do Núcleo e as lições deixadas pelas discussões e reflexões realizadas durante o evento.

Integrantes do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas com o Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédito: Álvaro Jr.
Integrantes do Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas com o Cardeal Zenon Grocholewski/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas – Quando o estudante escolhe para sua formação uma instituição católica, em que ela poderá contribuir para seu crescimento como cidadão?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – A Pontifícia Universidade Católica de Campinas é uma instituição educacional, de natureza confessional católica, fundada em 1941 por Dom Francisco de Campos Barreto, instituída canonicamente, em 1956, pela Santa Sé Universidade Católica de Campinas e, em 1972, Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

Ao longo destes 74 anos, a Universidade tem se destacado na graduação de 160 mil alunos, que durante o período de formação na Instituição, desenvolvem competências técnico-científicas, aprimoram os valores ético-cristãos, e com isso, estão aptos a promover atitudes e reflexões que contrapõem os valores que norteiam a sociedade contemporânea, marcada pelo pragmatismo e consumismo.

A PUC-Campinas promove e cultiva, por meio do Ensino, da Pesquisa e da Extensão, todas as formas de conhecimento, produzindo-as, sistematizando-as e difundindo-as, sempre comprometida com a ética e a solidariedade que priorizam a dignidade da vida.

Jornal da PUC-Campinas – Qual a contribuição que o Colóquio “A identidade da Universidade Católica” trouxe para a comunidade acadêmica?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – O Colóquio proporcionou à comunidade acadêmica um momento de grande reflexão sobre a identidade católica, a partir da “Ex Corde Ecclesiae”, considerada a carta magna para a condução, através de normas gerais, da atuação das Universidades Católicas, principalmente no diálogo entre fé, ciência e cultura.

Os temas abordados visaram discutir as questões que envolvem o Ensino e a Pesquisa articulados à ética cristã. Por meio das conferências ministradas por sua Eminência Reverendíssima Cardeal Zenon Grocholewski e das exposições feitas por professores nas mesas redondas, os participantes puderam aprofundar a reflexão  sobre a identidade católica da universidade  e a importância da Filosofia e da Teologia para a formação dos nossos estudantes como pessoas humanas.

Como ressaltou o Cardeal Grocholewski em uma de suas apresentações: “A Teologia e a Filosofia ensinadas devem ser aquelas que procuram a integridade do saber, que fomentam o diálogo entre fé e razão, que exijam a promoção da pessoa humana mediante uma preocupação ética e que defendam a perspectiva teológica de toda a realidade”.

Jornal da PUC-Campinas – Quais as expectativas sobre o Núcleo de Fé e Cultura da Universidade?

Prof. Dr. Germano Rigacci Jr. – O Núcleo de Fé e Cultura da PUC-Campinas, junto com a Comunidade Universitária, a partir do Colóquio, possui o compromisso ainda maior de fomentar o diálogo da fé cristã com a cultura em suas diversas dimensões, repercutindo nas atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão da Universidade. Devemos contribuir com a formação integral dos estudantes, na boa convivência da comunidade universitária, no aperfeiçoamento da relação da PUC-Campinas com a sociedade e na orientação da Ciência a serviço da defesa e da promoção da vida.

(Com informações de Eduardo Vella)

 

 

Cinema: O Homem da Terra

Por Wagner Geribello

O historiador e professor universitário, John Oldman, está de partida e convida a namorada e mais cinco colegas professores para uma reunião de despedida, na qual apresenta duas surpresas: uma garrafa de uísque da melhor qualidade, para irrigar o encontro e a revelação de que já conta 14 mil anos de idade e ainda não conheceu a velhice, nem a morte!

Começa assim O Homem da Terra, produção americana, de 2007, assinada por Richard Schenkman, protagonizada por um elenco reduzidíssimo (não mais que uma dezena de pessoas aparece em todo o filme) e tão desconhecido como o diretor, que sustentam um filme com a rara qualidade de fugir da mediocridade e a não menos rara sensibilidade de considerar como ativos os neurônios do espectador.

Teatro filmado, com toda a narrativa concentrada em três ambientes, O Homem da Terra é um dos poucos exemplares da cinematografia de todos os tempos que aborda, na mesma obra, temas científicos e religiosos, como pode comprovar uma rápida garimpada na Internet.

Pouco indicado para o público que associa à monotonia conteúdos reflexivos, o filme agrada adeptos do cinema que foge da mesmice e experimenta linguagens diferentes, como a valorização do diálogo como principal recurso narrativo.

Após servir o uísque e colocar a pauta da conversa, Oldman induz Harry, biólogo, Dan, antropólogo, Edith, literata cristã, Will, psicólogo e Art, arqueólogo, que veio para a reunião acompanhado de uma aluna, a trocar ideias sobre possibilidades e desdobramentos da sua revelação, classificada por todos como brincadeira, apesar de o historiador insistir na sua veracidade, por mais absurda que pareça.

O grupo entra em um jogo hegeliano de questionamento sobre amplitude, dimensão e (in)certeza do conhecimento científico, buscando lógica a partir de premissas absurdas. Da finitude biológica às interpretações do tempo, a conversa tangencia modos e meios que norteiam (ou desnorteiam) o entendimento que os seres humanos têm da realidade e de si mesmos, desde as suas origens, lembrando que a magia de um século, pode ser ciência no século subsequente e conhecimento jamais se descola da dúvida.

A divagação deságua na filosofia e entra pela religião, misturando saber e crença, ora interpretados como elementos complementares, ora dissociados em corpos antagônicos, que não podem ocupar o mesmo lugar, ao mesmo tempo, plagiando Arquimedes.

Baseado em suposições, premissas, propostas e teses, o diálogo aborda diferentes assuntos, tangencia diversas concepções do mundo e levanta pontos interessantes, como a formação do historiador, creditada mais à dedicação ao estudo que à possibilidade de viver e presenciar fatos e ocorrências da história.

Seja pelo valor do tema, ou pela concepção da forma, O Homem da Terra tem quase tudo do filme interessante, exceto o final, que o apego do diretor ao modelo hollywoodiano de história fechada prolonga além do ponto em que deveria terminar e força a rotulação do filme como ficção científica.

Mesmo assim, como O Homem da Terra está disponível no YouTube (com e sem legenda) e aproveitando o clima do colóquio sobre religião e ciência que polarizou a PUC-Campinas este mês, vale a pena experimentar.