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Cinema: Criança e Política

Por Wagner Geribello

A esteira de consequências nefastas deixada pela política não é pequena e vai das mais brandas, como indispor pessoas de orientações ideológicas diferentes, até eventos mais graves, como enfrentamentos, prisão, tortura e morte, envolvendo tanto aqueles que militam e atuam politicamente, mas também respingando em inocentes, que pagam pelo que não fizeram.

Crianças estão na ponta da lista de inocentes em cujas contas são debitadas cobranças geradas pelos descaminhos da política. O cinema já tratou do assunto diversas vezes, incluindo o cinema latino-americano que, no início deste século, colocou duas excelentes produções sobre o tema: uma brasileira, dirigida por Cao Hamburguer, e outra argentina, assinada por Marcelo Pineyro.

O filme nacional, O ano em que meus pais saíram de férias, foi lançado no ano 2000 e o argentino, Kamtchatka, três anos depois, focando a personagem central: o garoto brasileiro, Mauro, na faixa dos dez anos e Harry, o garoto argentino, mais ou menos da mesma idade, ambos filhos de militantes de esquerda, perseguidos pelas ditaduras que infestaram este subcontinente, por quase trinta anos.

Nas duas produções, a intenção é mostrar que, apesar do distanciamento consequente do desconhecimento inocente, crianças sofrem muito quando o exercício da política escapa dos contornos mínimos de civilidade para mergulhar no universo da violência.

Nos filmes em comentário, Mauro e Harry sofrem a dor da separação, medo, angústia e incerteza, sem saber exatamente o motivo, porque a lógica do confronto político-ideológico não cabe na interpretação orientada pela inocência (leia-se pureza) infantil.

Assim, além de delatar o confronto político por conta do seu saldo de violência, os diretores mostram como a lógica infantil supera a racionalidade adulta, deixando transparecer que melhor seria a sociedade nortear-se por aquela, em vez de conduzir-se por esta.

Vale conferir as duas produções, lembrando, ainda, duas curiosidades: uma sobre o título do filme argentino, relacionado com o jogo War, e a outra, sobre o filme brasileiro, que teve locações externas em Campinas, mais exatamente na confluência das ruas General Marcondes Salgado e Luzitana, uma quadra além da Casa de Saúde de Campinas, escolhido pelo perfil de época da arquitetura das construções ali existentes.

Professor Doutor Wagner Geribello é Doutor em Educação e crítico de cinema.

CINEMA – UNIVERSIDADE NA TELA

Mãos uma ao lado da outra, dedos para cima, unidos nas pontas, em ligeiro movimento de atrito…

Sem usar palavras, é assim que o costume determina como expressar grandes quantidades, gesto que se adapta como luva para demonstrar o volume de filmes ambientados ou tematizados na tradicional instituição da universidade. São muitos.

Rápida consulta às listagens de títulos mostra que já foi grande e continua intenso o uso da academia para fazer filmes, alguns fundamentados na realidade, outros nascidos da mente fértil dos roteiristas.

Todavia, se o volume é grande, variedade e originalidade de filmes sobre universidade não são tão extensas. Quanto à origem, por exemplo, os americanos dominam com folga as estatísticas, seguidos pelos britânicos, fazendo minguar, comparativamente, a lista de produções ambientadas nos campi, expressas em idiomas diferentes do inglês.

Fãs do cinema argentino, por exemplo, especialmente de Ricardo Darin, certamente conhecem tese sobre um homicídio, de 2013, em que o mais conhecido ator portenho da atualidade interpreta o professor de Direito envolvido em um crime cometido no campus. Todavia, exemplares como esse são raros, fato que mantém a academia americana muito à frente de todas as outras no quesito “aparecer nas telas”.

Contudo, mesmo no recheado farnel de Tio Sam, alguns elementos da universidade permanecem ausentes dos roteiros, quando se trata dos filmes de ficção. Entre as ausências, figura a história da universidade, seja no sentido totalizador do termo, seja no tratamento de universidades individualmente tomadas.

Portanto, quando vivemos o clima de festa e celebração dos 75 anos da PUC-Campinas e a ideia de história universitária nos vem à cabeça, os neurônios acionam a memória, o computador vasculha os arquivos, sem encontrar evidências de que o cinema ficcional tenha tratado intensamente do tema.

Se a história universitária não frequenta o enredo dos filmes tematizados na academia, então, sobre o que versa essa cinematografia?

As opções são muitas e vão desde comédias, a maior parte muuuuuuito chatas, até biografias romanceadas de acadêmicos que se tornaram famosos, como o matemático John Nash, ganhador do prêmio Nobel. No meio do caminho há dramas, romances, crimes e até espionagem, variedades que o leitor pode escolher navegando a Internet ou nas listas de exibições, como Netflix, entre outras possibilidades de cardápio.

Assim sendo, verificada a carência de filmes que resgatam a história universitária, como seria oportuno e conveniente para a edição de aniversário do Jornal da PUC-Campinas, mas havendo, sempre, o compromisso desta coluna e a expectativa do leitor sobre indicação de pelo menos um título ao mês, a sugestão vai para  Revelações, de Robert Benton, com Anthony Hopnkins, que, em parte, vale pelo desempenho do ator e, em parte, pelo tema, que já faz parte da história, concernente ao comportamento politicamente correto no ambiente universitário.

 

Crítica de Cinema: O Homem Elefante

Por Wagner Geribello

Tinha um nome, Joseph Merrick, mas era (e ficou, historicamente falando) mais conhecido como Homem Elefante. A história é real, aconteceu na Inglaterra vitoriana e, em 1980, foi transformada em filme por David Lynch, com John Hurt, Anthony Hopkins, John Gielgud e Anne Babcroft no elenco.

Portador de uma doença degenerativa que deforma 90% do seu corpo, Merrick mastiga o pão que o diabo amassou, exibido em um circo como “a mais degradante forma a que um ser humano poderia chegar”, despertando a curiosidade da massa ignara e rendendo alguns xelins de lucro para o dono do circo.

A vida de Merrick começa a mudar ao atrair a atenção do médico Frederick Treves, interessado em estudar e, na medida do possível, tratar do infortunado senhor.

Na trilha e nos trilhos desse enredo, Lynch compõe uma das melhores peças que o cinema já produziu sobre o preconceito e a maldade social em relação ao diferente, mostrando a facilidade com que as pessoas desprezam e fazem sofrer aqueles que, por uma razão qualquer, no caso a deformidade física extremada, fogem aos padrões sociais vigentes, seja de estética, seja de comportamento.

Muito tempo já passou desde que Treves retirou Merrick do circo e, repito a ressalva, na medida do possível, deu-lhe alguma dignidade, aliviando seu sofrimento, moral e físico (por conta da deformação, Merrick tinha problemas sérios de saúde, que iam da respiração à impossibilidade de deitar-se para dormir, passando por dores no corpo, dificuldade de locomoção e outros). Também já faz algum tempo que o filme foi produzido e exibido no circuito comercial. Todavia, as questões todas existentes na história e levantas por Lynch no filme continuam atualíssimas em uma organização social na qual os indivíduos se estranham por conta das diferenças de cor, aparência, características mentais e/ou cognitivas e até da orientação política, que leva o médico a recusar paciente e entidades representativas da classe endossarem esse tipo de comportamento social de troglodita.

Descontados alguns discursos cá e lá, de modo geral e na sua maior parte, a sociedade qualifica como estorvo e aberração portadores de deficiência e pessoas que, por qualquer razão, desviam do padrão vigente (obesidade, por exemplo). Salvo uns poucos aliados e contra muitos indiferentes e outro tanto de adversários, a aceitação, incorporação e valorização desse pessoal tem acontecido por méritos próprios, quer dizer, pela ação deles mesmos, no sentido de se imporem socialmente, mandando o preconceito para o lugar de onde nunca deveria ter saído… o ostracismo.

Assim, nesses tempos em que a individualidade é exaltada e as pessoas são estimuladas a competir, vendo no outro um concorrente, para qualificar a solidariedade como defeito de fracos ou ingênuos, filmes como o Homem Elefante são recomendados como gatilhos da consciência, para que a gente entenda, de vez por todas, que a única função social da diferença é que ela nos torna todos iguais.

Pesquisa rapidíssima na Rede mostrou dois endereços em que o filme pode ser encontrado (e assistido): aqui e aqui.  Talvez existam outros. Vale a pena ver e divulgar.

Wagner Geribello é Doutor em Educação e Consultor do Jornal da PUC-Campinas.

Cinema: Também a Chuva é metáfora bíblica entre água e justiça

Por Wagner Geribello

Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain, Também a Chuva (También la Lluvia, no original) repete, no título e no enredo, a metáfora bíblica entre água e justiça social, do livro de Amós, usada como lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016.

A linguagem metacinematográfica escolhida pela diretora leva o espectador à região de Cochabamba, Bolívia, acompanhando a produção de um filme sobre o descobrimento da América. A escolha do local tem razões evidentes e não muito éticas. O produtor, espanhol, precisa de nativos sul-americanos para a figuração e a concentração indígena daquela região boliviana reduz os custos de produção, via baixa remuneração dos contingentes contratados para atuar no filme, como extras.

Esse ponto inicial cria condições para que o elenco de extras tome contato com a história da conquista da América, marcada pela dominação, exploração e agressão praticadas pelos conquistadores europeus. Assim, cada cena de sofrimento, submissão e martírio protagonizada pelos extras, reproduzindo sofrimento, submissão e martírio dos seus ancestrais, coloca os indígenas frente à sua própria condição de explorados, martirizados e submissos também no presente, por exemplo, ganhando pouco, mas trabalhando muito no set de filmagem.

Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain/ Crédito: Divulgação
Produção cooperada franco-espanhola-mexicana, assinada pela diretora espanhola Iciar Bollain/ Crédito: Divulgação

A disposição de reivindicar direitos e justiça a partir da consciência social nascida nas locações de filmagem vem à tona quando o Governo boliviano privatiza o fornecimento de água na região, restringindo tão somente à via econômica o acesso ao abastecimento, fato que acaba envolvendo o elenco de extras em manifestações populares contra a tirania econômica.

Bom esclarecer que a tentativa de privatização realmente aconteceu naquela região boliviana, desencadeando o que ficou conhecido como a Guerra da Água, entre janeiro e abril de 2000, quando uma revolta popular obrigou o presidente Hugo Banzer a reverter a privatização e cancelar o contrato com a Bechtel Corporation, empresa americana interessada na exploração econômica da água boliviana.

Marco da resistência ao poder do capital, essa página da história contemporânea da Bolívia demonstra que os movimentos populares têm força para reverter tendências de imposição global do pensamento político-econômico único, como proposto pelo Consenso de Washington, em 1989, e anualmente reforçado em fóruns como Davos e congêneres.

Desse modo, a responsabilidade sobre nossa “Casa Comum”, que inclui preservação e acesso universal, justo e equânime aos bens naturais, em especial água e alimentos, proposta pela Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016, encontra respaldo e apoio em obras como esta, estimulando reflexões sobre direito e justiça.

Ah, sim, uma última colocação: o contrato de privatização assinado entre o governo boliviano e a Bechtel chegava ao absurdo de tornar ilegal a captação da água que cai do céu, prevendo, por exemplo, punição pela colocação de bacias no telhado para colher a água da chuva, uma vez que até essa passava a ter dono, fato que sugeriu o título do filme, disponível na Internet, no site de filmes on-line grátis.

 

 

 

Cinema: Sertão, Patrimônio e História

Por Wagner Geribello

Quando dirigiu o segundo longa metragem da sua carreira, em 2004, Eliana Caffé acrescentou mais um título à lista do que existe de bom e marcante na produção cinematográfica brasileira: Narradores de Javé.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa,  os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.
Diante da ameaça de ver seu vilarejo, desaparecer do mapa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

Disponível no YouTube , além de bom cinema, nos seus aspectos técnicos (direção, elenco, roteiro), o filme é muito apropriado para estimular o debate e elencar considerações sobre o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, o patrimônio.

Diante da ameaça de ver seu vilarejo, no interior nordestino, desaparecer do mapa, encoberto pelas águas de uma represa, os habitantes decidem reivindicar para o local a condição de patrimônio e, assim garantir sua sobrevivência.

A decisão se mostra apropriada, mas está atrelada ao registro histórico do lugar, que, por sua vez, depende do domínio da escrita, pois a cronologia “evolutiva” cultural classifica como pré-históricas as sociedades ágrafas.

Antonio Biá, interpretado por José Dumont, único adulto alfabetizado do povoado, recebe a incumbência de colocar no papel a história de Javé. Munido de caderno e lápis começa a coleta dos depoimentos, lembranças e memórias referentes aos atos, fatos e gentes relevantes ao aparecimento e desenvolvimento do vilarejo.

A partir daí, o filme tange diversos e diferentes itens pertinentes e impertinentes à história, enquanto ciência e modo reconhecido de narrativa oficial.

Questões como oralidade histórica e história oral, valor histórico de monumentos e/ou documentos, como mencionaria Le Goffe, história popular versus história oficial, cultura material e cultura imaterial, bem como relevância e irrelevância de próceres, mitos e lendas na constituição da história estão entre os itens que o filme coloca em debate, direta ou indiretamente, enquanto Antonio Biá vai ouvindo múltiplas e diferentes versões dos narradores (da história) de Javé, as quais ele mesmo distorce, altera e reconstrói a partir da premissa que adota como orientação do seu registro: “uma coisa é o fato acontecido, outra coisa é o fato escrito”.

Por trás das narrativas, ora ingênuas, ora míticas, sempre desprovidas de erudição e quase nunca fundamentadas na verdade, o filme traz ao espectador uma visão muito lúcida e intrigante dos aspectos que constituem o verdadeiro patrimônio imaterial, representado pela cultura, nos seus diversos desdobramentos, como língua falada, religiosidade e fabulação, contrapondo esses aspectos à cultura dominante, moderna, marcada pela pseudoerudição, na qual legitima o direito de menosprezar e dominar formas ditas marginais e popularescas de cultura, remetendo-as ao ostracismo e ao esquecimento, simbolizados pelo fundo do lago que submerge o vilarejo.

Com a chegada do progresso e da modernidade, representados pela represa hidrelétrica e a consequente dispersão dos habitantes, a expectativa de fazer história e constituir patrimônio é substituída pelo apagamento da memória e pela morte material e imaterial de Javé.

Wagner Geribello é Consultor no Jornal da PUC-Campinas e Doutor em Educação

Cinema: O Homem da Terra

Por Wagner Geribello

O historiador e professor universitário, John Oldman, está de partida e convida a namorada e mais cinco colegas professores para uma reunião de despedida, na qual apresenta duas surpresas: uma garrafa de uísque da melhor qualidade, para irrigar o encontro e a revelação de que já conta 14 mil anos de idade e ainda não conheceu a velhice, nem a morte!

Começa assim O Homem da Terra, produção americana, de 2007, assinada por Richard Schenkman, protagonizada por um elenco reduzidíssimo (não mais que uma dezena de pessoas aparece em todo o filme) e tão desconhecido como o diretor, que sustentam um filme com a rara qualidade de fugir da mediocridade e a não menos rara sensibilidade de considerar como ativos os neurônios do espectador.

Teatro filmado, com toda a narrativa concentrada em três ambientes, O Homem da Terra é um dos poucos exemplares da cinematografia de todos os tempos que aborda, na mesma obra, temas científicos e religiosos, como pode comprovar uma rápida garimpada na Internet.

Pouco indicado para o público que associa à monotonia conteúdos reflexivos, o filme agrada adeptos do cinema que foge da mesmice e experimenta linguagens diferentes, como a valorização do diálogo como principal recurso narrativo.

Após servir o uísque e colocar a pauta da conversa, Oldman induz Harry, biólogo, Dan, antropólogo, Edith, literata cristã, Will, psicólogo e Art, arqueólogo, que veio para a reunião acompanhado de uma aluna, a trocar ideias sobre possibilidades e desdobramentos da sua revelação, classificada por todos como brincadeira, apesar de o historiador insistir na sua veracidade, por mais absurda que pareça.

O grupo entra em um jogo hegeliano de questionamento sobre amplitude, dimensão e (in)certeza do conhecimento científico, buscando lógica a partir de premissas absurdas. Da finitude biológica às interpretações do tempo, a conversa tangencia modos e meios que norteiam (ou desnorteiam) o entendimento que os seres humanos têm da realidade e de si mesmos, desde as suas origens, lembrando que a magia de um século, pode ser ciência no século subsequente e conhecimento jamais se descola da dúvida.

A divagação deságua na filosofia e entra pela religião, misturando saber e crença, ora interpretados como elementos complementares, ora dissociados em corpos antagônicos, que não podem ocupar o mesmo lugar, ao mesmo tempo, plagiando Arquimedes.

Baseado em suposições, premissas, propostas e teses, o diálogo aborda diferentes assuntos, tangencia diversas concepções do mundo e levanta pontos interessantes, como a formação do historiador, creditada mais à dedicação ao estudo que à possibilidade de viver e presenciar fatos e ocorrências da história.

Seja pelo valor do tema, ou pela concepção da forma, O Homem da Terra tem quase tudo do filme interessante, exceto o final, que o apego do diretor ao modelo hollywoodiano de história fechada prolonga além do ponto em que deveria terminar e força a rotulação do filme como ficção científica.

Mesmo assim, como O Homem da Terra está disponível no YouTube (com e sem legenda) e aproveitando o clima do colóquio sobre religião e ciência que polarizou a PUC-Campinas este mês, vale a pena experimentar.

Filme aborda transição para o imperialismo

Por Wagner Geribello

“Verdadeira aula de História”… assim começa um dos comentários sobre o filme Queimada, postado no site Adorocinema, ao que caberia acrescentar atualíssima.

Filme Queimada

Realizado em 1969, Queimada está entre os (poucos) filmes em que o tempo age como sobre o vinho, melhorando cada vez mais.

Assinado por um mestre inconteste da filmografia politicamente engajada, o italiano Gillo Pontecorvo e ambientado em uma ilha caribenha fictícia, que dá título ao filme, a obra recorre aos postulados mais fundamentais da análise histórica marxista para desvelar tramas e artimanhas da exploração que sustenta o modo de produção e a organização sócio-política genericamente classificados como Capitalismo, em especial nos termos da globalização contemporânea.

Marcando a passagem do colonialismo (dominação direta) para o imperialismo (dominação indireta), a narrativa traz Marlon Brando interpretando o aventureiro Willian Walker (andarilho não é só uma coincidência no perfil da personagem), enviado à ilha para fomentar rebeliões e derrubar o domínio português, estimulando o nacionalismo e a constituição como nação independente.

Manipulador habilidoso, Walker instiga a rebelião aliciando líderes e organizando grupos guerrilheiros entre a população escrava que sustenta a monocultura canavieira da ilha, promovendo, também, a substituição da exploração escravocrata pelo liberalismo, incluindo a mão de obra assalariada “livre”. A comparação das relações entre marido, esposa e prostituta, simbolizando patrão, escravo e empregado é um momento marcante do filme, atestando a incomparável habilidade narrativa cinematográfica de Pontecorvo no tratamento crítico de temáticas políticas.

Os escravos lutam, ganham, mas não levam. Walker convence a liderança negra que a conquista da liberdade não significa capacidade para governar. A burguesia branca assume o poder e os negros voltam à condição subalterna, com a substituição da opressão colonialista lusitana pela exploração imperialista britânica.

Parte da liderança negra retoma a luta, agora contra os novos opressores e Walker é enviado uma vez mais para Queimada, com a missão de caçar e exterminar o líder que ele mesmo criara.

A luta leva o caos e a miséria à ilha e as imagens apresentadas na tela nos remetem a outras estampadas na mídia contemporânea colhidas em nações como o Haiti, cuja história praticamente reproduz o roteiro do filme.

Seja como aula de história, seja como crítica política, seja, ainda, como obra de arte que desnuda a lastimável organização social que, até agora, conseguimos fazer, como seres humanos, Queimada faz parte daquela relação de filmes que leva o espectador a pensar criticamente a globalização, apesar de produzido muito antes do termo virar moda.

PRIMEIRA GRANDE GUERRA

Por Wagner Geribello

Faz exatamente um século que as mais importantes potências (da época) envolveram-se na carnificina conhecida como Primeira Guerra Mundial ou Primeira Grande Guerra.

A barbárie, que medrou nos campos de batalha entre 1914 e 1918, serviu de tema para muitas e diferentes manifestações das artes plásticas, literatura, teatro e cinema, redundando em obras famosas, como “Adeus às Armas” (E. Hemingway), “Nada de Novo no Fronte” (E. M. Remarque) e outras não tão famosas, como “Johnny vai à Guerra”, mas nem por isso de qualidade inferior.

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Ao contrário de Hemingway, o autor de “Johnny vai à Guerra” é pouco conhecido, mas quem aprecia cinema já cruzou com seu talento. “Exodus”, “Spartacus” e “Pappillon” são alguns dos (bons)
filmes roteirizados por Dalton Trumbo, embora, nem sempre, seu nome apareça nos créditos. Perseguido pela praga macartista nos anos 1950, assim como centenas de outros roteiristas, foi acusado de “comunista” e impedido de trabalhar, obrigando-se a escrever sob pseudônimo ou repassar o crédito do seu trabalho para outras pessoas. Wood Allen fez um filme sobre o tema, chamado “Testa de Ferro por Acaso”, que termina com uma lista de roteiristas perseguidos; Dalton Trumbo lá está.

Trumbo escreveu o livro em 1939 e, ele mesmo, fez a adaptação e dirigiu a versão cinematográfica, em 1971, cinco anos antes de sua morte.

“Johnny vai à Guerra” foi a única investida de Trumbo como diretor, que resultou em uma jóia preciosa da cinematografia de todos os tempos.

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Respeitado no meio artístico e cinematográfico como intelectual de convicções fortes e coragem (foi convocado, mas não aceitou delatar ou incriminar colegas de trabalho perante o famigerado Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, nos anos 1950), Trumbo teve muito apoio para realizar o filme. Atores como Jason Hobards e Donald Sutherland (que interpreta Deus) aceitaram integrar o elenco recebendo “cachês” simbólicos. Cineastas de peso, como o espanhol Luis Buñel, fizeram sugestões e estimularam o trabalho do diretor.

O resultado, uma obra prima, que pode ser comprada e/ou locada em DVD e está disponível gratuitamente na Internet; é um libelo pacifista. Narra a história (baseada em acontecimentos reais) de um jovem soldado voluntário americano atingido por uma granada, nos campos de combate europeus, durante a Primeira Grande Guerra. Braços e pernas decepados, rosto desfigurado, sem as faculdades da voz e da visão, o soldado é recolhido ao hospital. O roteiro é baseado nas lembranças da personagem e suas tentativas para estabelecer contato com médicos e enfermeiras, base para Trumbo desfilar devastadora crítica à guerra e seus promotores.

A cada sequência, mostrando sofrimento, dor e angústia do ser humano, Trumbo derruba balelas como patriotismo, liberdade, soberania, motivação religiosa e argumentos que tais, normalmente convocados por políticos, poderosos e insanos para legitimar conflitos armados.

Lançado no auge da destruição do Vietnã e dos vietnamitas pelos americanos, o filme ajudou pacifistas e pessoas sensatas, mundo afora, a desvendar o (verdadeiro) rosto sanguinário de Tio Sam e a exercer pressão para pôr fim àquela guerra. Nem os americanos, nem a humanidade aprenderam a lição. Foram guerrear em outros locais e continuam agindo belicosamente até hoje.

Por isso, o filme, que abomina a mais abominável criação humana, permanece atual, um século depois do início do conflito em que é ambientado, pois as guerras, infelizmente, continuam acontecendo.

Veja o filme na íntegra: 

Água na tela

CINEMA

A escassez nos reservatórios que abastecem grandes cidades da Região Centro-Sul e usinas hidroelétricas tem colocado a água nas manchetes e no debate público. Regime de chuva atípico e administração pública deficiente aparecem como vilões causadores do problema, cuja solução virá com a estação das águas e mais investimento público no setor. Todavia, a questão do abastecimento de água se espraia muito além das fronteiras brasileiras e incorpora variáveis mais críticas que regime de chuva e administração pública.

Atualmente, fatias significativas da população mundial padecem de escassez crítica, cenário que vai agravar-se com o crescimento vegetativo da população e aumento do consumo per capita que vem embutido na dinâmica da economia e nos conceitos de boa qualidade de vida. Futuristas de plantão apostam que a água será cada vez mais rara e cara. Gente como o “CEO” da Nestlé já deu o recado: “A água deve ser das empresas e os outros devem pagar por ela”. Frase alarmista? Infelizmente não. A Nestlé já tem projetos nesse sentido e não está sozinha no negócio. No mundo todo, em especial nas nações ricas, existem corporações gestando projetos para lucrar (muito) com a água.

Assunto sério, que tem agendamento inferior ao merecido no debate público, a questão merece mais atenção e conhecimento para evitar que a voracidade econômica suplante o desenvolvimento social, como já acontece com petróleo e transgênicos.

pag12-2Dois filmes encaram a questão da água e ajudam muito a entender o tema.

“A Corporação” (Mark Achbar) é um documentário canadense, lançado no Festival Internacional do Filme de Toronto, em 2003, que mostra como e porque as empresas se constituem em corporações e as dimensões do poder dessas instituições globais. Com muito detalhe e informação, parte do filme mostra a tentativa de privatizar e mercantilizar o abastecimento público de água na Bolívia, por corporações internacionais.

O mesmo tema aparece em “Até apag12-3 Chuva” (Iciar Bollain) ou “También La Lluvia”, no original espanhol. Com roteiro de Paul Laverty, a produção espanhola, de 2010, é um filme dentro de outro filme, mostrando uma equipe cinematográfica trabalhando em Cochabamba, Bolívia, em uma película histórica sobre a conquista espanhola. Enquanto trabalha como figurante, a população local resiste à tentativa de privatização da água (a mesma descrita no documentário citado) e acaba envolvendo, também, a equipe técnica e os atores. A produção, que conta com Luis Tosar e Gael Garcia Bernal no elenco, faturou uma razoável coleção de prêmios e citações em Festivais e Mostras, classificando-se como cinema da melhor qualidade.

As duas produções são fáceis de encontrar no mercado, existe muita informação sobre ambas na Internet e valem um bom debate acadêmico.