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Aulas de Filosofia foram embrião para primeiro Cineclube universitário

Exibições de filmes acompanhados de debate aconteciam no Prédio Central da PUC-Campinas e no Centro de Ciências, Letras e Artes

Por Amanda Cotrim

As aulas de Estética do Professor Padre Lúcio de Almeida, docente da Faculdade de Filosofia, da antiga Universidade Católica – atual PUC-Campinas – são exemplos daquelas aulas que mais do que ensinar, inspiram e fazem os alunos caminharem adiante.

Em 1964, a Faculdade de Filosofia promoveu uma semana de estudos filosóficos – algo recorrente no curso -, e o tema daquele ano foi cinema. Na ocasião, vários filmes foram exibidos, incluindo películas de Humberto Mauro e Alain Resnais, hoje, clássicos do cinema mundial.

“A partir dessa semana de estudos, pensamos: Por que não criar um lugar permanente de discussão de cinema, em Campinas”? Lembra um dos fundadores do primeiro cineclube universitário da cidade, Luiz Borges, que, à época, era estudante de Direito da PUC-Campinas, e garante que o interesse pelo cinema sempre foi cultural e não um simples entretenimento.

Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.
Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.

“O contexto histórico no Brasil e no mundo era especialmente propício para cinema. Havia uma ebulição de criatividade na Europa, Leste Europeu, Ásia, o cinema independente dos EUA e o Cinema Novo, no Brasil.  Para a nossa geração, o Cinema Novo foi um acontecimento. A primeira vez que assistimos ao filme ‘Deus e o diabo na terra do sol’, de 1964, do Glauber Rocha, foi um choque”, recorda Borges, que ainda cita os clássicos filmes de Ingmar Bergman e Federico Fellini.

Em março de 1965, Luiz Borges, Dayz Peixoto e outros estudantes formaram, oficialmente, o Cineclube Universitário de Campinas. “Todas as exibições eram acompanhadas de debates. Entregávamos, em todas as sessões, um folheto com uma crítica sobre o filme que seria exibido. A crítica cinematográfica sempre fez parte do Cineclube”, conta Dayz, que foi estudante de Filosofia da então Universidade Católica.

Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.
Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.

Cineclube e a Universidade

“O Cineclube tinha total relação com a Universidade; uma das normas era que a Diretoria só fosse composta por alunos da Universidade Católica – o que depois se abriu para estudantes de outras universidades” -, afirma Dayz. “Cada classe de cada curso havia um representante do Cineclube. Chegamos a ter 300 associados, que contribuíam financeiramente. O projeto só funcionou porque havia um objetivo em comum”, destaca Borges.

As exibições e os debates aconteciam nas dependências do antigo Campus Central da PUC-Campinas, no auditório do Centro de Cultura Letras e Artes, entre outros espaços culturais. “Não havia um espaço físico próprio. Essa foi a nossa coragem”, ressalta Dayz.

O CCLA, que sempre apoiou entidades culturais e educativas da cidade, teve relevância histórica para a PUC-Campinas. Segundo Dayz, “os debates sobre a necessidade de uma faculdade para Campinas nasceram no auditório do Centro de Ciências, Letras e Artes. Podemos dizer, então, que o CCLA foi o marco zero tanto para a criação da PUC-Campinas quanto da Unicamp”, orgulha-se ela que chegou a ser a única presidente mulher do CCLA.

Cineclube cresce e aparece

Os fundadores do Cineclube Universitário de Campinas não imaginavam que uma vontade que começou nas aulas de Filosofia da PUC-Campinas poderia se transformar num mercado alternativo do cinema de arte. “Localizamos uma empresa que trabalhava com grandes distribuidores e passamos a negociar as exibições. Eu ia até São Paulo, na Rua do Triunfo, pegava o filme, voltava para Campinas e negociava o aluguel com os cinemas da época, como o Cine Brasília e o Cine Voga, entre outros”, contextualiza Borges. “Todos ganhavam: a distribuidora, o cinema e o Cineclube, que começou a arrecadar receita”.

O dinheiro possibilitou uma nova fase para o Cineclube Universitário: a publicação de um jornal – que teve cinco edições e durou de 1965 a 1966 – e a produção de curtas metragens, sendo os primeiros o filme Um Pedreiro, que teve roteiro de Borges e Direção de Dayz Peixoto, o curta O Artista, também de autoria de Borges e o filme Dez Gingles para Oswald de Andrade, dirigido por Rolf de Luna Fonseca, com roteiro de Décio Pignatari, tendo o Professor Francisco Ribeiro Sampaio no papel de Oswald.

 “Todas as produções contaram com o apoio imprescindível de Henrique de Oliveira Júnior – um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de Campinas -, que era nosso fotógrafo e técnico”, esclarece Borges.

O Cineclube Universitário manteve suas atividades até 1973, sendo a última ação o lançamento de um documentário de Rolf Fonseca.  Seu fim, segundo Dayz, se deve essencialmente ao fato de as pessoas que participaram terem seguido suas carreiras e adquiridos outros compromissos. Se ainda estivesse ativo, em 2015, o Cineclube teria completado 50 anos.

Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo
Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo

Cinema e o século XXI

Na opinião de Borges, a situação do cinema não mudou muito no que tange o acesso aos filmes de arte daquela época até hoje. “Estamos passando mais ou menos pela mesma situação. Mas antes, chegavam poucos filmes, mas chegavam; hoje não chega filme algum”. Além disso, para ele, “criar um Cineclube Universitário como foi antes, nos dias de hoje, torna-se um desafio muito maior, porque as pessoas antes estavam mais próximas, um contexto oposto aos dias atuais”,”, defende.

Apesar disso, o amor pelo cinema não diminuiu. “Nada se compara à experiência única do cinema, com o apagar das luzes e o filme projetado na tela”, finalizam Borges e Dayz.

 

Cinema: Consciência Negra

Por Wagner Geribello

O registro dos feitos e desfeitos do ser humano mostra que raças diferentes quase sempre se estranham e muitas vezes se agridem, deixando cicatrizes profundas no tecido social. Por isso, não há tempo algum na História e nenhum lugar do Planeta isentos de conflitos étnicos.

Novata, em termos históricos, a civilização brasileira, simultaneamente, aglutinou e segregou raças distintas, demonstram pensadores como Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, fazendo-se multirracial na constituição biológica e plurirracial na formação cultural, mas nem por isso vazia de preceitos distorcidos e preconceitos ostensivos, arraigados na (de)formação social da nossa gente.

Adotando a tonalidade da pele como principal fator de identificação racial, os exercícios sociais de segregação e integração, no mais das vezes, dividem o Brasil em negros e não-negros, adotando a dualidade como parâmetro de comportamento, seja quando adota medidas compensatórias, como a legislação sobre cotas raciais no ingresso universitário, seja no caminho oposto, como manifestações difamatórias observadas em eventos esportivos. Enfim, para o bem e para o mal, a sintonia racial no Brasil ainda é questão pendente, merecedora de atenção, reflexão, debate e análise.

Entre os compartimentos da organização social que se ocupam da temática, destaque para o espaço e o talento da arte, como demonstram quadros de Portinari, livros de Mário de Andrade, poesias de Castro Alves e músicas de Martinho da Vila, por exemplo. Nesse conjunto, o cinema tem um peso significativo, reunindo muitas e boas películas que projetam diferentes aspectos da questão racial.

Assim, considerando a recente comemoração da quarta edição (desde que virou lei) do Dia da Consciência Negra, em novembro, o Jornal da PUC-Campinas indica diversos filmes sobre relações raciais, incluindo ficção e documentários, pra gente pensar depois de assistir e debater depois de pensar.

CONFIRA:

“Barravento” (1962), Glauber Rocha.
“Congo” (1972), Arthur Omar.
“Em Compasso de Espera” (1973), Antunes Filho.
“O amuleto de Ogum” (1974), Nelson Pereira dos Santos.
“Xica da Silva” (1976), Carlos Diegues.
“O Poder do Machado de Xangô” (1976), Paulo Gil Soares.
“Cordão de Ouro” (1977), Antonio Carlos Fontoura.
“Tenda dos Milagres” (1977), Nelson Pereira dos Santos.
“Quilombo” (1984), Carlos Diegues
“Chico Rei” (1985), Walter Lima Jr.
“Jubiabá” (1987), Nelson Pereira dos Santos.
“Abolição” (1988), Zózimo Bulbul.
“A Negação do Brasil” (2000), Joel Zito Araújo.
“Brasil – uma história inconveniente” (2000), Phil Grabsky.
“Casa-Grande e Senzala” (2001), Nelson Pereira dos Santos.
“Milton Santos, pensador do Brasil” (2001), Silvio Tendler.
“Vista Minha Pele” (2003), Joel Zito Araújo.
“Filhas do Vento” (2004), Joel Zito Araújo.
“A Cidade das Mulheres” (2005), Lázaro Faria.
“Cafundó” (2005), Clovis Bueno e Paulo Betti.
“Casa de Santo” (2005), Antonio Pastori.
“Preto contra branco” (2005), Wagner Morales.
“Dança das Cabaças – Exu no Brasil” (2006), Kiko Dinucci.
“Atabaque Nzinga” (2007), Octavio Bezerra.
“Zumbi Somos Nós” (2007), Coletivo Frente 3 de Fevereiro.