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Aulas de Filosofia foram embrião para primeiro Cineclube universitário

Exibições de filmes acompanhados de debate aconteciam no Prédio Central da PUC-Campinas e no Centro de Ciências, Letras e Artes

Por Amanda Cotrim

As aulas de Estética do Professor Padre Lúcio de Almeida, docente da Faculdade de Filosofia, da antiga Universidade Católica – atual PUC-Campinas – são exemplos daquelas aulas que mais do que ensinar, inspiram e fazem os alunos caminharem adiante.

Em 1964, a Faculdade de Filosofia promoveu uma semana de estudos filosóficos – algo recorrente no curso -, e o tema daquele ano foi cinema. Na ocasião, vários filmes foram exibidos, incluindo películas de Humberto Mauro e Alain Resnais, hoje, clássicos do cinema mundial.

“A partir dessa semana de estudos, pensamos: Por que não criar um lugar permanente de discussão de cinema, em Campinas”? Lembra um dos fundadores do primeiro cineclube universitário da cidade, Luiz Borges, que, à época, era estudante de Direito da PUC-Campinas, e garante que o interesse pelo cinema sempre foi cultural e não um simples entretenimento.

Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.
Cineclube foi destaque no jornal Diário do Povo, em 20 de março de 1966/ Arquivo Cineclube.

“O contexto histórico no Brasil e no mundo era especialmente propício para cinema. Havia uma ebulição de criatividade na Europa, Leste Europeu, Ásia, o cinema independente dos EUA e o Cinema Novo, no Brasil.  Para a nossa geração, o Cinema Novo foi um acontecimento. A primeira vez que assistimos ao filme ‘Deus e o diabo na terra do sol’, de 1964, do Glauber Rocha, foi um choque”, recorda Borges, que ainda cita os clássicos filmes de Ingmar Bergman e Federico Fellini.

Em março de 1965, Luiz Borges, Dayz Peixoto e outros estudantes formaram, oficialmente, o Cineclube Universitário de Campinas. “Todas as exibições eram acompanhadas de debates. Entregávamos, em todas as sessões, um folheto com uma crítica sobre o filme que seria exibido. A crítica cinematográfica sempre fez parte do Cineclube”, conta Dayz, que foi estudante de Filosofia da então Universidade Católica.

Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.
Borges e Dayz no auditório do CCLA/ Crédito: Álvaro Jr.

Cineclube e a Universidade

“O Cineclube tinha total relação com a Universidade; uma das normas era que a Diretoria só fosse composta por alunos da Universidade Católica – o que depois se abriu para estudantes de outras universidades” -, afirma Dayz. “Cada classe de cada curso havia um representante do Cineclube. Chegamos a ter 300 associados, que contribuíam financeiramente. O projeto só funcionou porque havia um objetivo em comum”, destaca Borges.

As exibições e os debates aconteciam nas dependências do antigo Campus Central da PUC-Campinas, no auditório do Centro de Cultura Letras e Artes, entre outros espaços culturais. “Não havia um espaço físico próprio. Essa foi a nossa coragem”, ressalta Dayz.

O CCLA, que sempre apoiou entidades culturais e educativas da cidade, teve relevância histórica para a PUC-Campinas. Segundo Dayz, “os debates sobre a necessidade de uma faculdade para Campinas nasceram no auditório do Centro de Ciências, Letras e Artes. Podemos dizer, então, que o CCLA foi o marco zero tanto para a criação da PUC-Campinas quanto da Unicamp”, orgulha-se ela que chegou a ser a única presidente mulher do CCLA.

Cineclube cresce e aparece

Os fundadores do Cineclube Universitário de Campinas não imaginavam que uma vontade que começou nas aulas de Filosofia da PUC-Campinas poderia se transformar num mercado alternativo do cinema de arte. “Localizamos uma empresa que trabalhava com grandes distribuidores e passamos a negociar as exibições. Eu ia até São Paulo, na Rua do Triunfo, pegava o filme, voltava para Campinas e negociava o aluguel com os cinemas da época, como o Cine Brasília e o Cine Voga, entre outros”, contextualiza Borges. “Todos ganhavam: a distribuidora, o cinema e o Cineclube, que começou a arrecadar receita”.

O dinheiro possibilitou uma nova fase para o Cineclube Universitário: a publicação de um jornal – que teve cinco edições e durou de 1965 a 1966 – e a produção de curtas metragens, sendo os primeiros o filme Um Pedreiro, que teve roteiro de Borges e Direção de Dayz Peixoto, o curta O Artista, também de autoria de Borges e o filme Dez Gingles para Oswald de Andrade, dirigido por Rolf de Luna Fonseca, com roteiro de Décio Pignatari, tendo o Professor Francisco Ribeiro Sampaio no papel de Oswald.

 “Todas as produções contaram com o apoio imprescindível de Henrique de Oliveira Júnior – um dos fundadores do Museu da Imagem e do Som de Campinas -, que era nosso fotógrafo e técnico”, esclarece Borges.

O Cineclube Universitário manteve suas atividades até 1973, sendo a última ação o lançamento de um documentário de Rolf Fonseca.  Seu fim, segundo Dayz, se deve essencialmente ao fato de as pessoas que participaram terem seguido suas carreiras e adquiridos outros compromissos. Se ainda estivesse ativo, em 2015, o Cineclube teria completado 50 anos.

Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo
Jornal do Cineclube: da esquerda para direita:Rolf, José Alexandre, Borges, Padre Lucio, Dayz/ Arquivo

Cinema e o século XXI

Na opinião de Borges, a situação do cinema não mudou muito no que tange o acesso aos filmes de arte daquela época até hoje. “Estamos passando mais ou menos pela mesma situação. Mas antes, chegavam poucos filmes, mas chegavam; hoje não chega filme algum”. Além disso, para ele, “criar um Cineclube Universitário como foi antes, nos dias de hoje, torna-se um desafio muito maior, porque as pessoas antes estavam mais próximas, um contexto oposto aos dias atuais”,”, defende.

Apesar disso, o amor pelo cinema não diminuiu. “Nada se compara à experiência única do cinema, com o apagar das luzes e o filme projetado na tela”, finalizam Borges e Dayz.

 

Uma boa ideia precisa ser útil?

Por Amanda Cotrim

Uma boa ideia só será comprovadamente “boa” se for útil para a sociedade? A ciência precisa, necessariamente, ter uma utilidade para as pessoas? A resposta para essas duas questões pode ser sim, se considerarmos que a utilidade é um ingrediente para que o homem expanda sua interpretação sobre o mundo e sobre si. Mas a resposta também pode ser não, se a utilidade for atrelada a um valor econômico. “A Ciência propõe soluções para os problemas da vida, do meio ambiente, da sociedade. Esses seriam os ideais nobres da Ciência. Mas sabemos que o desenvolvimento da Ciência está associado, também, a interesses econômicos, militares, estratégicos de países, de grupos políticos, etc”, reflete o Pesquisador em Filosofia da PUC-Campinas, Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros. Que continua: “No entanto, é preciso pensar que uma parte da Ciência só tem razão de ser quando ela não se preocupa com o princípio de ‘utilidade’, o que lhe garante, em certo sentido, a liberdade de pensar e expandir o conhecimento”.

Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Douglas Ferreira Barros- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr- Crédito: Álvaro Jr.

Para o Doutor em Filosofia e docente da Universidade, Prof. Dr. Arlindo Gonçalves Jr, diferenciar o conceito de “utilidade” ajuda a compreender o papel da ciência e da tecnologia na sociedade brasileira atual. “O desenvolvimento da Ciência se dá por meio de um método rigoroso e sistemático; é nesse método que encontraremos a primeira instância da tecnologia, como um meio para o seu desenvolvimento e intervenção”, explica. O Pesquisador Barros complementa que a tecnologia tem a finalidade de aplicação em determinado fenômeno social, a exemplo das Engenharias.

“A tecnologia pode viabilizar o conhecimento científico, como aconteceu com o projeto Genoma, no qual o uso da tecnologia foi fundamental para o desenvolvimento da ciência”, exemplifica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas da PUC-Campinas e Doutor em Biologia, Professor Edmilson Ricardo Gonçalves. “Dessa forma, ao mesmo tempo em que sem a tecnologia a ciência muitas vezes não consegue avançar, os conhecimentos científicos impulsionam a tecnologia para determinada direção, com o objetivo de contribuir para as necessidades da ciência”, completa. Quem também compartilha dessa relação promissora entre tecnologia e ciência é o Doutor em Engenharia Elétrica e Computação, Professor Carlos Miguel Tobar Toledo: “Não existe tecnologia sem ciência. A tecnologia é fundamental para a realização de pesquisas e para que haja produção de mais conhecimentos científicos”.

O Papel das Pesquisas Básicas

Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Edmilson Ricardo Gonçalves- Crédito: Álvaro Jr.

Para que o conhecimento científico e tecnológico se desenvolva são fundamentais as chamadas “pesquisas básicas”, isto é, conhecimentos originais que contribuem para o desenvolvimento da ciência, seja para ampliar suas próprias possibilidades ou para a revisão dos seus fundamentos. “As pesquisas básicas geram conhecimentos que podem ser aplicados, mas não necessariamente o são. A doença precisa de um diagnóstico, mas, antes disso, é necessário entender a doença, que é básica. Só com o conhecimento básico é que é possível desenvolver uma técnica para diagnosticar a doença”, explica o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas. “A principal característica da pesquisa básica é que ela está interessada em ampliar os horizontes sobre determinados fatos, fenômenos e dados. Não necessariamente tem uma finalidade aplicativa. Sua razão de existir é para ampliar as fronteiras do conhecimento estabelecido”, explica o Pesquisador Douglas Barros.

Seja o conhecimento básico ou complexo, é possível aplicar o conhecimento científico na vida das pessoas, de forma concreta; essa é uma das funções das ciências aplicadas, que possuem, por sua vez, “uma relação estreita com a produção de tecnologias, sendo seus métodos mais de natureza empírico-experimental”, complementa Arlindo Gonçalves Jr. Um exemplo é o Direito, considerado uma ciência aplicada, mas fomentada por áreas como filosofia, história e política.

Para o Diretor da Faculdade de Ciências Biológicas, é compreensível que a população de modo geral ache a ciência algo abstrato. No entanto, quando a tecnologia é aplicada no dia a dia das pessoas, segundo ele, a sociedade consegue enxergá-la melhor e percebe a sua importância. “Mas isso não quer dizer que por trás não exista uma pesquisa básica e teórica que embasou aquela tecnologia. Ela só não é possível ser vista. Mas existe”, acrescenta. “O trabalho dos cientistas pode ser estar isolado, mas nunca uma pesquisa científica está isolada de um contexto maior, no qual a Ciência se insere no mundo contemporâneo”, ressalta o Filósofo Barros.

A Sociedade e o Conhecimento Científico

Os sentidos de Ciência e Tecnologia são sempre em relação a determinada sociedade. O Brasil, para Gonçalves Jr, ainda não pode ser considerado um país científico, “pois para isso precisaria investir em um modelo suficientemente crítico da própria ciência, a fim de contribuir para o seu desenvolvimento”.

O mais importante, na opinião do professor Gonçalves Jr, é pensar qual é o papel de um país mais tecnológico ou mais científico, no mundo. Países em desenvolvimento e historicamente periféricos, como é o Brasil, sem o impulso de pesquisa básica e aplicada podem contribuir para uma hegemonia de países mais industrializados, sustentada nos poderes econômico, bélico e científico e associado à pesquisas chamadas “de ponta”. “Nesse sistema de tipo “neocolonialista” em termos científicos, o papel de um país “mais tecnológico” e “menos científico” é o de atender demandas que não são as mais urgentes, criar instrumentos, ser criativo sobre os aspectos que não reflitam o aprimoramento da educação dos cidadãos, e, sobretudo, tornar-se consumidor. Caminhamos para atender a uma sociedade globalmente “tecnologizada” em todas as esferas da vida”, critica. “O problema é quando essa imposição reflete a perpetuação da desigualdade”, acrescenta.

Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito:
Prof. Dr. Carlos Miguel Tobar Toledo- Crédito: Álvaro Jr. 

A Ciência deve sempre se voltar para as demandas da sociedade, nesse sentido, uma boa ideia precisa ser útil. “Esse é o foco da ciência, o conhecimento dos fenômenos do universo para o benefício da sociedade. O conhecimento científico tem que ser, por natureza, público”, reitera o professor Toledo, Doutor em Engenharia Elétrica e Computação.

A primeira Universidade Católica do mundo

Por Newton Aquiles von Zuben

A humanidade conhece, periodicamente, eventos que se transformam em elementos originários e estruturantes da nossa civilização. No início da era cristã, ocorreu um fato cuja complexidade e caráter insólito o transformaram em ponto axial da nossa história ocidental e fonte perene de questionamento. Trata-se do encontro entre o cristianismo nascente e o pensamento helênico

Valendo-se de toda a arquitetônica conceitual da filosófica grega, o pensamento cristão primitivo construiu sua sistematização e consolidação até a etapa final do medievo. Daquele encontro surgiu a questão da articulação entre fé e razão. Encontramos durante esse longo período de quinze séculos diversas posições sobre essa questão que não será completamente resolvida. A questão recebeu atenção crescente na alta idade média, o período da escolástica e no século XIII com o empenho de vários teólogos. No entanto, foi, sobretudo, Tomas de Aquino que conseguiu apresentar uma síntese original entre fé e razão que permitiu uma racionalização da fé colocando de acordo o pensamento antigo e a doutrina cristã.

Nesse ambiente investigativo do medievo cristão nasceram as escolas episcopais e monacais e, posteriormente, as universidades. Não se pode compreender a carreira de um filósofo e de um teólogo medieval sem conhecer a organização do ensino durante o período da escolástica até o século XIV. O termo universitas designa comunidade. A universitas studiorum – universidade dos estudos – é uma forma de comunidade, autônoma e que se livra das amarras do direito comum. A Universitas não designava, então, como a entendemos hoje, um conjunto de faculdades, mas um conjunto de mestres e alunos que se dedicavam aos estudos das artes, do direito e da teologia. Studium generale ou também universale designava um centro de estudos no qual estudantes de origem diversa poderiam ser recebidos.

Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.
Prof. Dr. Newton Aquiles von Zuben é docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas.

Foi por necessidade de independência que nasceram as primeiras universidades; independência da autoridade eclesiástica: de fato a primeira geração de universidades, as de Bolonha, de Paris e de Oxford dentre outras, se constituíram em reação contra os bispos que governavam as escolas estabelecidas sob o teto de suas catedrais. Essas universidades conseguiram sua independência graças ao apoio papal. A essas universidades seguiram outras durante o século XIII, XIV e XV. Nenhuma delas recebeu, então, a designação de universidade católica.

 Escolhi apresentar brevemente a história e as características de uma universidade que, embora tendo sido instituída no século XV, foi durante sua longa história uma instituição de prestígio. Criada como “Universidade de Louvain” conheceu uma história atribulada, viu passarem por seus muros eminentes personagens, como professores e alunos, que formaram, através dos séculos, a sociedade da região que, à época, incluía a atual Holanda e a atual Bélgica. Esteve sob domínio francês e holandês até a secessão e a formação do reinado da Bélgica, em 1830.

A Universidade de Louvain ou Studium Generale Lovaniense ou Universitas studiorum Lovaniensis, foi fundada, em 1425, por um príncipe francês, Jean de Bourgogne, Jean IV, duque de Brabante (província belga), com o consentimento do papa Martinho V. Nessa época, observava-se uma constante histórica. A fé cristã em lugar de ser individualista, sempre teve a tendência de se incorporar nas instituições, em particular aquelas dedicadas ao ensino. O ensino das artes liberais e outros saberes, como o direito e, sobretudo, a medicina não constituia um fim em si, mas  um meio de se atingir o fim último da existência, a saber a fé que conduz à salvação. Desse modo, as faculdades de teologia se desenvolveram rapidamente no seio das universidades.

Na Universidade de Louvain, em 1432, sete anos após a fundação, foi instalada a Faculdade de Teologia. Engajada nos debates da sociedade desde a origem da Reforma, a Faculdade de Teologia da Universidade de Louvain foi a primeira, em novembro de 1519, a condenar abertamente Martinho Lutero, antes mesmo da bula de excomunhão de Leão X, no ano seguinte. Claro que, atualmente, por conta do espírito ecumênico deve-se questionar o sentido dessa condenação radical. No entanto, à época, não deixava de ser um tipo ousado de engajamento.

A universidade foi fechada oficialmente, em outubro de 1797, em aplicação da lei de 15 de setembro de 1793, que suprimia todos os colégios e universidades da república francesa.

Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação
Universidade de Louvain/ Crédito Divulgação

A antiga Universidade de Louvain, que teve como professor e reitor Cornelius Jansen ou na forma latina Jansenius, o defensor da doutrina agustiniana da graça, foi até o fim do antigo regime, justamente o grande centro doutrinal do jansenismo na Europa.

Em 1819, foi reaberta com a designação de Universidade de Estado de Louvain, mas, novamente, fechada em 1883. Em 1835, os bispos belgas reinstituiram a antiga  Universidade de Louvain com a designação de Universidade Católica de Louvain pela carta pontifícia de 13 de dezembro de 1833, de Gregório XVI, no espírito das universidades gregorianas da reconquista católica empreendida por esse papa. A direção da universidade foi colocada sob a autoridade direta dos bispos belgas.

No dia 4 de agosto de 1879, no segundo ano de seu pontificado, o papa Leão XIII publicou a carta encíclica Aeternis Patris, sobre a restauração da filosofia cristã conforme a doutrina de Santo Tomás de Aquino. Na sua primeira carta encíclica, Inscrutabili Dei consilio, de 21 de abril de 1878, ele assinalou a suprema importância da filosofia tradicional para as escolas católicas, do ponto de vista social, do ponto de vista da exposição e da defesa da fé cristã, assim como da perspectiva do progresso de todas as ciências. Entretanto, sendo conveniente reatar com a grande tradição medieval, ponderava como impositivo o discernimento levando-se em conta o progresso das ciências dos tempos modernos e da necessidade de se adaptar às concepções antigas às condições do pensamento atual. Leão XIII conhecia bem a Bélgica, pois havia sido núncio apostólico em Bruxelas, de 1843 a 1846. Na época, a Universidade Católica de Louvain era a única universidade católica completa e essa é a característica que a diferenciou desde então. Leão XIII estava ciente das vantagens incomparáveis que representava, para a renovação das concepções filosóficas medievais, esse meio católico no qual todas as ciências eram ensinadas e na qual especialistas de todos os ramos do saber humano estavam em constante interação no ensino e na pesquisa; e que recebia já estudantes de inúmeros países estrangeiros.

No dia 25 de dezembro de 1880, Leão XIII envia uma carta pontifícia ao arcebispo de Malines, o cardeal Deschamps, para lhe solicitar providências no sentido de criar uma cadeira especial de filosofia de Santo Tomás de Aquino na Universidade Católica de Louvain. Em 1889, Leão XIII solicitou aos bispos belgas que criassem cadeiras de filosofia agrupadas em um «Instituto Superior de Filosofia» no seio da Universidade Católica de Louvain. O texto fundador foi a carta pontifícia de 8 de novembro de 1889. Os bispos nomearam como seu primeiro «presidente» Monsenhor Desiré Mercier, que seria mais tarde nomeado cardeal. Desiré Mercier era titular de um curso de «filosofia especial segundo Santo Tomás». Com o auxílio do papa, ele conseguiu obter a criação de um verdadeiro instituto ao qual acrescentou , com anuência  de Leão XIII, a denominação «Escola SantoTomás de Aquino» para bem notar que o novo instituto tinha como objetivo central a renovação do tomismo preconizado por Leão XIII em sua carta encíclica, acima citada. Na mente de Monsenhor Mercier o neo-tomismo deveria constituir uma filosofia original em debate com com os problemas de seu tempo, e, especialmente, com os problemas das ciências da natureza e as ciências humanas.

Desde então, o novo Instituto consolidou sua missão e ampliou sua presença, com disciplinas filosóficas para a Universidade toda. Consolidou sua reputação segundo as diretrizes da encíclica como havia solicitado o papa aos bispos belgas. Sua atuação se deu em quatro direções principais atribuídas progressivamente ao ensino e à pesquisa: o estudo histórico e crítico dos grandes filósofos, reflexão epistemológica sobre as técnicas e métodos das ciências, o questionamento sobre as relações entre a fé cristã e a razão, a interrogação sobre a interação da filosofia com a vida social.

O Instituto Superior de Filosofia ocupou um lugar relevante na Universidade Católica, pela característica de sua implantação, seguindo as diretrizes diretas do papa Leão XIII, e pelos propósitos de sua vocação direcionada ao ensino da Filosofia em atenção à carta encíclica Aeterni Patris, assumindo o compromisso de trabalhar na renovação do pensamento de Tomás de Aquino e de seu pensamento erigido como modelo da formação filosófica para os futuros presbíteros. A seriedade com que tomou para si a relevância do diálogo constante entre a filosofia e as ciências foi amplamente facilitada pelo fato, acima mencionado, de que a Universidade Católica de Louvain foi, desde essa sua implantação, herdeira da antiga Universidade de Louvain, como Universidade Católica, a única universidade católica completa no mundo, abrigando todos os ramos do saber ora existentes.

A Faculdade de Teologia, Sacra Facultas Theologiae, foi erigida no dia 7 de março de 1432, pelo papa Eugênio IV. Os mestres da Faculdade se interessavam, sobretudo, por questões de moral e a faculdade permaneceu, de início, bem impermeável aos progressos do humanismo, abrindo-se, pouco a pouco, posteriormente, às pesquisas de teologia positiva. Foi em Louvain que foi redigida, ao final de 1519, a primeira censura de toda a cristandade contra os escritos de Lutero, tendo a Faculdade de Teologia redigido, à intenção dos dominicanos, um resumo das verdades religiosas atacadas pelo inovador. O teólogo alemão Hubert Jedi, em sua obra História do Concílio de Trento, tomo 1, considera esse documento como a melhor realização da teologia pretridentina.

Creio pertinente afirmar-se da Universidade Católica de Louvain que ela, nos dizeres de João Paulo II, “compartilha com todas as outras universidades aquele gaudium de veritate, tão caro a Santo Agostinho, isto é, a alegria de procurar a verdade, de descobri-la e de comunicá-la em todos os campos do conhecimento” (Ex Corde Ecclesiae  1).

 

Espaço Pró-Reitoria de Graduação

Na comemoração de 25 anos da publicação da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, sobre as Universidades Católicas, temos a alegria de afirmar que nos esforçamos cotidianamente para realizar em nossos trabalhos as exigências expressas nessa encíclica do Papa São João Paulo II. Sabemos que a Universidade está assentada em três grandes pilares: a Pesquisa, o Ensino e a Extensão, e que essas três dimensões devem estar plenamente integradas. A Pró-Reitoria de Graduação – PROGRAD – tem cuidado para que na relação ensino/aprendizagem os conteúdos científicos, humanísticos e culturais, sejam difundidos com competência e rigor. Nessa perspectiva, se na produção do saber científico há uma preocupação constante no diálogo com a fé, não menos importante é trazer esse diálogo para a esfera do ensino.

Dada a relação íntima entre investigação e ensino, convém que as exigências da investigação, acima indicadas, influam sobre todo o ensino.

Enquanto cada disciplina é ensinada de modo sistemático e de acordo com métodos próprios, a “interdisciplinaridade”, sustentada pelo contributo da Filosofia e da Teologia, ajuda os estudantes a adquirirem uma visão orgânica da realidade e a desenvolverem um desejo incessante de progresso intelectual (Ex Corde Ecclesiae no 20).

Para alcançar esses resultados, temos constantemente empreendido ações na linha de capacitação dos nossos professores, por meio do Grupo de Trabalho (GT) PPCP, oferecendo palestras, cursos, oficinas, encontros pedagógicos, preocupados com a qualidade daquilo que se ensina e com a forma como se ensina, propiciando uma aprendizagem mais eficaz e “…que harmonize a excelência do desenvolvimento humanístico e cultural com a formação profissional especializada (Ex Corde Ecclesiae nº 23)”.

 Prof. Dr. Márcio Roberto Pereira Tangerino- Membro do Grupo de Trabalho (GT) Programa Permanente de Capacitação Pedagógica- PROGRAD

Entrevista: As violências poderiam ser evitadas?

Em entrevista sobre ética e violência, Filósofo e Professor da PUC-Campinas, Renato Kirchner, fala sobre política, liberdade e moral

 

Por Amanda Cotrim

As notícias sobre violência e corrupção colocam em dúvida se ainda é possível existir alguma relação entre ética e política. Onde uma das partes fica esquecida ou encoberta, já não há mais liberdade.  Essa é a opinião do Filósofo Renato Kirchner, doutor em filosofia e docente no Centro de Ciências Humanas, Sociais e Aplicadas (CCHSA) da PUC-Campinas. Na entrevista a seguir, o Professor Kirchner fala sobre o papel da ética e a viabilidade de sua prática concreta, a construção da moral e o desafio da ética frente à violência. “Enquanto vivermos em uma inversão de valores, certamente a violência continuará saindo vencedora”. Confira a entrevista completa.

Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.
Prof. Dr. Renato Kirchner é filósofo e docente na PUC-Campinas/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: A filosofia, ou parte dela, dirá que a ética é uma realização do sujeito livre, cujo conceito de liberdade não está associado à ideia de livre escolha, mas à liberdade em criar possibilidades para modos de vida possíveis, ou seja, como sendo a capacidade dos seres humanos de inventar o novo. O senhor concorda? O que seria a ética?

Prof. Renato Kirchner: Antes de começar a responder a esta pergunta, gostaria de agradecer pela oportunidade de, na perspectiva da Filosofia, poder esclarecer e, sobretudo, refletir um pouco sobre o papel da ética na atualidade. Além disso, convém dizer que este papel não se restringe apenas aos estudiosos de Filosofia. Conforme evocado na pergunta, a ética está originariamente relacionada ao exercício e à promoção da liberdade. Uma pressuposição fundamental para o sujeito ser ético não consiste em fazer o que se quer, algo muito em voga em nossos dias. Juntamente com cada ser humano nasce a responsabilidade por si e pelos outros. Não faz sentido algum falar de ética de si para si somente, sendo então verdadeira a ideia de que minha liberdade termina onde começa a dos outros, pois pertencer ao gênero humano faz parte da essência humana e, por isso, a liberdade é radicalmente um conceito intersubjetivo. O poeta inglês John Donne (1572-1631) formulou isso de maneira brilhante: “Nenhum homem é uma ilha completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” O testemunho de Donne parece-me importante, pois há uma tendência – muitas vezes “naturalizada” – de acharmos que pensar sobre ética só é possível a partir das ideias de filósofos, certamente proeminentes, como Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Immanuel Kant, dentre muitos outros.

De fato, as questões éticas acompanham a humanidade desde sempre e a acompanharão para sempre, razão pela qual cabe sim sermos reflexivamente criativos e críticos no intuito de pensarmos novas éticas a partir das conjunturas atuais. Aliás, é bom ter clareza que toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo. Um exemplo significativo, para assumirmos e pensarmos os desafios éticos atuais, encontramos no filósofo Hans Jonas (1903-1993), o qual sintetizou uma nova ética possível em Princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica, obra publicada em alemão em 1979 e traduzida aqui no Brasil em 2006. Só para dar uma indicação, Jonas não descarta de todo a ética kantiana, mas vê nela limitações se pensarmos no contexto da globalização e exploração dos recursos naturais, bem como das novas e possíveis pesquisas realizadas cada vez mais sobre o corpo humano e a natureza em geral. Enfim, em contrapartida a uma ética kantiana estritamente antropocêntrica, Jonas concebe uma ética cosmocêntrica, em que “corresponsabilidade” é uma palavra fundamental.

Jornal da PUC-Campinas: Muitas vezes há uma confusão entre ética e moral. Gostaria que o senhor explicasse essa diferença e dissesse em que medida a moral se apropria da ética?

Prof. Renato Kirchner: De fato, cotidianamente, as pessoas acabam empregando uma pela outra. Nesse caso, ética pode ser sinônimo de moral e vice-versa. Mas se refletirmos um pouco, logo notamos algumas diferenças e que tendem a se acentuar progressivamente. Vejamos: do ponto de vista etimológico, a palavra “ética” provém do grego ethos e “moral” deriva da forma latina mores. Ainda assim, há, nas duas línguas, significados muito próximos, podendo ser reduzidos basicamente a “hábitos” e/ou “costumes”. Por isso mesmo, é necessário fazer uma distinção ente ética e moral. A primeira é mais teórica que a segunda, pois volta-se a uma reflexão sobre os fundamentos da segunda. Nesse sentido, é possível dizer que a moral acaba apropriando-se da ética. A ética empenha-se em desconstruir as regras da conduta que formam a moral, os juízos de bem e mal que se reúnem no seio de toda e qualquer moral. Assim, se a moral designa um conjunto de regras próprias de uma cultura, por exemplo, o propósito da ética consiste numa “metamoral”, ou seja, uma teoria analítica sobre o bem e o mal, sobre os valores e juízos morais. Enfim, é papel da ética desconstruir as regras de conduta, desfazer suas estruturas e desmontar as construções morais, esforçando-se por descer aos fundamentos da obrigação moral. Vê-se, então, que, enquanto teórica, o objetivo da ética consiste em retornar às bases das prescrições ou juízos morais.

Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.
Toda e qualquer ética só é reconhecida e válida em determinados contextos de espaço e tempo/ Crédito: Álvaro Jr.

Jornal da PUC-Campinas: O ideal ético pode se viabilizar? A partir de qual prática?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida, qualquer idealização ética pode ser viabilizada, do contrário, seria certamente apenas um ideal ou, como costumamos dizer, às vezes, ideais grandes demais são difíceis de serem postos em prática. Na verdade, do ponto de vista filosófico, uma ética só tem sentido se pode ser colocada em prática, de modo que, nestes termos, o emprego da palavra ética traz a reboque uma determinada compreensão do que seja prática. Pensando dessa maneira, somos levados a reconsiderar também uma ideia, muitas vezes por demais cristalizada, de que para termos novas práticas já sempre dispomos de ideais éticos estabelecidos! De fato, ideias estabelecidas e, principalmente, quando cristalizadas, são um trampolim para práticas que podem estar na contramão dos ideais fundamentais que orientam determinadas práticas. Diante disso e em vista de novos ideais éticos, será que não deveríamos levar a sério o que significa realmente “sermos práticos”? Dou um exemplo simples: como poderia ser, na prática, a convivência e a busca acadêmica mútuas entre professores e professores, entre professores e alunos, dentro e fora da sala de aula?

Jornal da PUC-Campinas: A ética pode ser vivenciada na vida privada e na vida pública. Pensando na relação da Ética com a Política, como a liberdade se daria?

Prof. Renato Kirchner: Boa pergunta. Principalmente, no momento em que vivemos, em que, a todo instante, as próprias notícias que ouvimos e acompanhamos acabam colocando em dúvida – senão em total descrédito! – que ainda possa haver alguma relação entre ética e política. De fato, não é possível pensar ética sem política, nem política sem ética! Importante notar as duas correlacionadas e, como sabemos, toda e qualquer relação só é autêntica se há nela liberdade. Onde uma das partes da relação fica esquecida ou é encoberta, já não há mais liberdade! A questão é: de onde provém a liberdade ou o que sustenta a liberdade? Diria com toda convicção: provém e é sustentada pela própria relação, ou seja, é dever de cada uma das partes colaborar na manutenção sempre saudável e promissora da relação. Pensando dessa maneira, presume-se que seja possível uma vivência autêntica e, por isso, necessariamente livre, entre vida privada e vida pública, entre ética e política.

Jornal da PUC-Campinas: Os gregos acreditavam que só pela política a ética se manifestaria. Na sua avaliação, como a política trata o indivíduo, hoje? Como sujeito ou como objeto? Como isso se manifesta e por quê?

Prof. Renato Kirchner: Como pode perceber, falar de ética e política nos leva a andar em círculo. O que não pode acontecer, porém, é entrarmos num círculo vicioso! O que se requer, então, é enxergar e tratar a política e a ética numa perspectiva de círculo virtuoso, ou seja, desde a força que constitui e mantém a própria circularidade. Entendida dessa forma, a manifestação da ética na ou pela política é hoje necessária, bem como sempre foi ao longo da história da humanidade. Disso não só sabiam os gregos, uma vez que o fundamental no que diz respeito à política residia tanto na constituição quanto na manutenção da polis. É bem possível que os povos da antiguidade, e mesmo medievais, ainda carregassem no peito – e, se necessário, em forma de elmo, escudo e espada! – os ideias coletivos, a partir dos quais cada indivíduo livre estava a serviço de todos. Certamente, não se trata de viver e organizar-se socialmente como em épocas passadas, haja vista que cada época se constitui de uma maneira muito peculiar. Contudo, qualquer configuração histórica só é possível a partir de indivíduos como sujeitos de sua própria história, razão pela qual devemos nos questionar se a organização social na qual estamos inseridos é a melhor possível. Enfim, a maneira como determinada configuração aparece é uma manifestação possível. Entretanto, qual seria a melhor manifestação possível, tendo em vista as recentes manifestações nas ruas, reivindicando todo tipo de melhorias e, certamente, em prol do bem comum? Por exemplo, a própria polícia – palavra gramaticalmente irmã de política e polis – nem sempre tem estado presente e agido em prol do bem comum. O mesmo aplica-se aos políticos enquanto representantes da maioria! A questão é: que papel cada sujeito desempenha em benefício da totalidade? Visto assim, toda discussão que se coloca apenas no nível de sujeito e objeto está um tanto afastada do princípio de qualquer constituição da realidade, também ao que chamamos de política, pois qualquer indivíduo carrega consigo um poder transformador. Infelizmente, nem todos e nem sempre acreditamos de fato nisso.

Jornal da PUC-Campinas: Em cada momento histórico, a violência se manifesta de determinada forma, seja pelas guerras, seja pela globalização que quer padronizar e muitas vezes não respeita comunidades tradicionais, etc. Pensando a violência não como algo “natural”, mas como uma violação daquilo que é a natureza do outro, a violência eliminaria a possibilidade de ética?

Prof. Renato Kirchner: Começo respondendo pelo final da pergunta, ou seja, não é possível admitir que a violência poderia, algum dia, suprimir a ética. Por quê? Simplesmente porque significaria também eliminar a própria condição humana de existir neste mundo, uma vez que viver e existir eticamente dizem fundamentalmente o mesmo. Também considero que não é possível aceitar a violência como algo natural, principalmente se, pelo uso dela, acaba-se violando a esfera alheia, esfera que, por estar constituída ontologicamente da mesma maneira como a minha, não estou no direito de solapar ou invadir e, muito menos, de destruir. Se é verdade que cada época histórica está sujeita a determinadas manifestações de violência, então, também deveríamos perguntar-nos seriamente se e por que as múltiplas formas de violência a que assistimos ou que presenciamos – para não dizer, das quais indireta ou passivamente participamos!? – não poderiam ser evitadas e até mesmo extintas. Sem dúvida que a globalização ocasionou e tende a acarretar padronizações! Contudo, mesmo as comunidades mais tradicionais ainda podem viver e, talvez, sobreviver, sem que sofram, em maior ou menor grau, os influxos dos padrões de bem-estar social? Não estou defendendo a ideia de que todo e qualquer ser humano, esteja onde estiver no planeta, não possa viver sem, de algum modo, participar dos padrões globalizantes de tudo e de todos. Não, absolutamente! Contudo, parece-me bastante ingênuo não levar em conta e lutar por uma possibilidade de viver melhor, mesmo que, para isso, seja necessário reavivar e, quem sabe, viver em condições nas quais nossos antepassados viviam tão bem ou até melhor que nós hoje. Uma situação bem concreta, no momento, experimentada por boa parte da população, diz respeito ao uso e reuso da água, por exemplo.

Em 1969, pela ocasião dos seus 80 anos, Martin Heidegger (1889-1976), um dos maiores filósofos do século passado, predisse: “A apatridade é um destino mundial na forma da civilização planetária. É como se a civilização planetária, que o homem moderno não criou mas em que foi ‘destinado’, trouxesse consigo o obscurecimento da existência humana. De fato é o que parece. Mas seria um erro pensar somente até aí e não ver nada mais, a saber, a possibilidade de uma virada. Mas nós não sabemos nada do futuro. Talvez tudo finde numa grande desolação. Talvez aconteça que, algum dia, o homem se enfastie dos produtos de suas pretensas produções e, de repente, comece a questionar. Talvez, ainda, possa ocorrer que a desolação atinja tal nível que as necessidades se nivelem a ponto de o homem já nem sentir a decadência interior e o vazio de sua existência. Talvez possa também acontecer outra coisa. Em qualquer caso, como quer que seja ou aconteça: nós não nos devemos queixar, temos é de nos questionar!

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Jornal da PUC-Campinas: A exclusão social e a fome, talvez as pautas mais importantes no mundo, hoje, estão mostrando que, em verdade, a violência está ganhando da ética?

Prof. Renato Kirchner: Sem dúvida: exclusão (de qualquer tipo) e fome (também de qualquer tipo) são modos que inibem grandes maiorias a participar de bens comuns. De fato, falar de bens remete a riquezas. Mas nem toda riqueza, enquanto concentrada na mão de poucos, pode continuar a ser considerada como tal. Há aqui uma inversão completa tanto do que significa eticamente bem como do que significa eticamente riqueza. Enquanto persistir essa inversão de valores certamente a violência continuará saindo vencedora. Novamente: o que cada um de nós, em maior ou menor escala, pode fazer?

Jornal da PUC-Campinas: A política pode auxiliar a ética no combate à violência? Como?

Prof. Renato Kirchner: Gostaria de citar, mas não com o objetivo de aprofundar isso aqui, a fim de repensarmos sempre de novo o que seja ética na política e o papel disso na sociedade. Um texto atribuído ao renomado dramaturgo, poeta e encenador alemão do século passado, Bertolt Brecht (1898-1956), sob o título “O analfabeto político”, fala por si mesmo: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

Jornal da PUC-Campinas: Há um discurso muito recorrente nos dias de hoje, o qual diz que devemos nos voltar à ética. Como se a ética pudesse dizer o que devemos ser, como fosse uma cartilha. Mas se a ética não é a mesma coisa que moral-normas-, não é um contrassenso se pedir para nos voltarmos à ética?

Prof. Renato Kirchner: Para responder adequadamente a essa pergunta, sugiro voltarmos para a resposta dada à primeira pergunta, ou seja, é fundamental fazermos uma distinção entre o que seja ética e o que seja moral. Presumir que uma possa se confundir com a outra ou que uma possa bem dizer a mesma coisa que a outra talvez seja um dos contrassensos que geram as confusões discursivas e de posicionamentos em relação aos assuntos que vêm à tona quando se apela para a ética ou que se deve voltar para a ética. Parece-me muito razoável considerar que não há ética nem moral que possam fundamentalmente ser recolhidos e aprisionados por qualquer cartilha, até mesmo por qualquer legislação. Explica-se isso facilmente com uma pergunta: por que qualquer lei requer interpretação antes, durante e depois da aplicação? Contudo, o que é mesmo ética? Um pensador da antiguidade, Heráclito de Éfeso, legou-nos num fragmento: “A morada do homem não tem controle, a divina tem” (Fragmento 78). Importante esclarecer: ethos, uma palavra grega arcaica, significa “morada”, mas também “estadia”, “permanência”. Talvez estas palavras de Heráclito possam dar-nos alguma indicação: enquanto a morada da divindade tem controle, a morada dos homens tende continuamente ao descontrole. Se isso procede, então, jamais deveríamos presumir que o ethos, isto é, a morada dos homens, está estavelmente constituída e, muito menos, de uma vez por todas. A tarefa humana é cuidar pela manutenção da ordenação do todo e talvez seja essa a tarefa humana de todas a mais extraordinária. Por isso, podemos ler num outro fragmento do pensador grego: “A morada do homem, o extraordinário” (Fragmento 119). Certamente, não é por acaso que Hans Jonas, no início da obra mencionada, traga o exemplo da antiguidade: “Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas a maior é o homem!” (Antígona, de Sófocles).

Jornal da PUC-Campinas: O discurso que pede um retorno à ética está dizendo que, no passado, era melhor. Qual sentido desse discurso?

Prof. Renato Kirchner: Ninguém é tão estulto a não dar valor ao passado, principalmente das boas lições que podem ser recolhidas da nossa própria civilização ou mesmo de outras das quais muitas vezes pouco ou quase nada sabemos. Contudo, tais conhecimentos existem, pois foram transmitidos e mantidos de múltiplas maneiras. Às vezes, os legados positivos do passado estão presentes em nossas práticas cotidianas sem que nos demos conta disso. Assim, para não recair sempre em possíveis “discursos prontos” – de que poderia ser dessa ou daquela maneira –, talvez seja mais producente se cultivarmos um cuidado ou mesmo uma terapia com a linguagem. Por que linguagem? É que antes de qualquer possibilidade de discurso, o ser humano caracteriza-se fundamentalmente por ser e estar na linguagem. Não é no mínimo curioso que Aristóteles tenha deixado duas definições fundamentais para a civilização ocidental num de seus tratados? A saber: o ser humano é um ser político; o ser humano é um ser que fala. Contudo, faz igualmente parte da nossa civilização, tendo por mediadora a tradição latina, que o ser humano é um “animal racional”. A melhor ação é aquela que pode provocar uma mudança fundamental em nosso modo de pensar, principalmente, se formos capazes de também repensar em que consiste nossa animalidade e nossa racionalidade. Em última instância, nossas ações, nossos discursos, nossas atitudes dependem de como entendemos como se conjugam e fundem numa só expressão as palavras “animal” e “racional”.

Jornal da PUC-Campinas: Como o senhor avalia as comissões de ética? Elas não seriam essas cartilhas?

Prof. Renato Kirchner: Muito boa essa pergunta, pois permite que evidenciemos, mesmo que de passagem, as diferentes instâncias em que a dimensão ética se faz presente na vida privada e pública das pessoas, bem como na vida profissional e das pesquisas acadêmicas de universidades e institutos de pesquisa. O fato de existirem comissões de ética constituídas, no entanto, não significa que elas sejam ou funcionem como cartilhas. Não quer dizer que isso eventualmente não possa ocorrer, mas isso certamente seria um modo equivocado de entender o que lhes compete. Compete a uma comissão uma missão, sendo uma comissão instituída e constituída por um conjunto de pessoas eleitas para assembleias ou para certas incumbências. Embora possa parecer um linguajar um tanto antiquado, convém ter presente que o sentido de alguém compor uma comissão de ética consiste em resguardar preceitos e valores fundamentais e, nesse sentido, poderia ser chamado também de “missionário”. Para nossos objetivos, convém mencionar dois tipos de comissões, sendo uma muito comum na esfera política, a saber, a comissão parlamentar de inquérito (CPI), sendo uma investigação conduzida pelo Poder Legislativo, que transforma a própria casa parlamentar em comissão para ouvir depoimentos e tomar informações diretamente, quase sempre atendendo aos reclamos do povo. A outra, no âmbito da pesquisa universitária, denomina-se Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, que, no caso da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (identificado pela sigla CEP/PUC-Campinas), “é um órgão colegiado, multidisciplinar, de caráter público e autônomo, vinculado à Reitoria, respondendo, no que couber, à Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, que tem por finalidade avaliar e acompanhar os aspectos éticos de pesquisas envolvendo seres humanos e, dessa forma, proteger a integridade e a dignidade dos sujeitos/participantes, de acordo com os valores ético-cristãos, integrando-se à Missão Institucional da Universidade”. Nos dois exemplos citados, a comissão ou o comitê são constituídos por eleição ou por indicação, mas convém ter presente que ambos são representativos e, portanto, embora tenham de seguir normas ou regras, não se restringem apenas a seguir e cumprir cartilhas estabelecidas.

Jornal da PUC-Campinas: Em sua opinião, nós hoje estamos exercendo a razão como forma de conhecimento?

Prof. Renato Kirchner: Em minha opinião, nas respostas às perguntas anteriores, já havia uma série de indicações que podem ser úteis para responder a esta última pergunta. Isso significa dizer que provavelmente não há uma só resposta possível, mas principalmente que toda e qualquer pergunta requer reflexão tanto quanto uma resposta. Nesse sentido, poder refletir sobre temas relacionados à ética, moral, política, violência, exclusão, injustiça, globalização e assim por diante, é vital e necessário. Considero profundamente importante o fato de diferentes conteúdos e disciplinas poderem transitar entre as diferentes áreas do conhecimento e que a aceitabilidade e o exercício contínuo desse trânsito já constituem a racionalidade propriamente dita.

 

 

 

Vocação como sentido da existência humana

A vocação como sentido da vida é uma necessidade humana. A vocação consiste na escuta interior de um apelo que dá significado à vida inteira. É parte do nosso ser, que nos orienta a construir o nosso destino; nos proporciona encontrar a nossa direção, o nosso projeto de vida. Ela é essencial no processo de sobrevivência num mundo complexo e sem sentido. Aqui surge uma questão para os dias atuais: como dar sentido à vida num mundo cada vez mais sem sentido, sem profundidade da existência humana, cada vez mais desumanizador? Por isso, a necessidade de resgatar o nosso próprio ser interior, que nos proporciona ordem e coerência aos nossos ideais, às nossas ideias, às nossas emoções, enfim, à nossa vida.

A vocação contribui para a nossa vida nos proporcionando uma identidade pessoal, “quem sou? De onde venho, para onde vou?”. Em segundo lugar, uma identidade social, o ser para o outro, no relacionamento familiar e social. Em terceiro, nos proporciona valores, nos dando fundamentos e alicerces para agirmos a partir das nossas convicções. E, por fim, nos ajuda a lidar com o mundo, a superar obstáculos e dificuldades que enfrentamos a cada dia, nos dá resistência e solidez para caminharmos rumo aos nossos ideais de vida.

A vocação é o impulso vital que orienta o nosso caminhar, a nossa existência. A vocação, como impulso vital, representa o encontro com o nosso autêntico caminho, fazendo-o centrar-se e realizar-se na dimensão mais profunda de nossa existência. Para vivenciarmos esse impulso vital precisamos de pessoas que colaborem conosco. Devem ser pessoas de referência na nossa vida, como, por exemplo, a nossa família, os nossos educadores. Pessoas que não diminuam o nosso impulso vital, mas que se propõem a orientá-lo para possibilitar uma vida realizada.

A profissão na perspectiva da sociedade contemporânea

Entende-se por profissão uma atividade humana duradoura e especializada, por meio da qual o homem participa das tarefas da sociedade e ganha o seu sustento na busca da sobrevivência. O mercado do trabalho faz com que as tarefas profissionais sejam parciais e separadas da totalidade da vida. Desse modo, a tendência é tornar a profissão apenas uma tarefa visando ganhar dinheiro, sem importar muito o que se faz, buscando o sustento, perdendo-se o sentido humanizador do trabalho, que fica rebaixado a uma tarefa condicionada ao lucro e à sobrevivência social.

A sociedade apresenta pretextos que, frequentemente, influenciam os jovens para que abracem profissões consideradas lucrativas, da “moda” e prestigiosas, mesmo contra os profundos anseios que brotam do íntimo do seu ser. Nessa perspectiva, a profissão, implica a dedicação a uma tarefa especializada segundo as necessidades da sociedade, cuja motivação acontece por razões exteriores, utilitárias e práticas. Derivam daí, inúmeras frustrações do ser humano, que tem abundância de bens de consumo, mas escassez de sentido, e, por isso, sente-se desprovido do seu interior, deixando de dar valor a si mesmo e ao conjunto de suas potencialidades.

A profissão como vocação

A vocação é a “alma” das atividades e das tarefas profissionais. Sem ela, o trabalho profissional e a própria vida se tornam monótonos, mecânicos e perdem o seu supremo valor. Devemos ter a consciência de que o trabalho profissional é uma atividade importante e assume um significado antropológico: serve para formar e aperfeiçoar o ser humano, contribuindo para a sua vida e para o bem-estar da humanidade.

A vocação profissional se relaciona com todas as dimensões da vida. Uma autêntica vocação é capaz de integrar todas as tarefas profissionais e dar sentido às nossas ocupações cotidianas, até mesmo aquelas consideradas mais simples. Existem ações profissionais em que a inspiração vocacional revela-se mais facilmente, são aquelas em que se relaciona diretamente com pessoas, como a do professor, enfermeiro, psicólogo, serviço social, e tantas outras; mas na verdade toda profissão assumida como vocação traz a sua contribuição para um mundo mais humano e mais justo.

É, cada vez mais, urgente dar às profissões o espírito da vocação, que torna o ser humano consciente do seu valor e significado. A valorização da vocação profissional traz consigo a mística do amor à profissão, uma paixão esperançosa capaz de transformar a realidade.

Prof. Dr. Edvaldo Araújo é diretor da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas

RUBEM ALVES: Ensinar é um ato de amor

Rubem Alves, teólogo, filósofo, educador, escritor, psicanalista, enfim um pensador herdeiro direto de Sócrates! Irônico, perspicaz, crítico, mestre de pensamento e de atitude, incentivador do diálogo. Seus muitos orientandos podem atestar isso muito bem. Jamais conheci um pensador com tal sensibilidade e capacidade de admiração, (que segundo Platão é origem do filosofar), diante da realidade, das coisas materiais e espirituais! Credito a essa disposição de excelência o resultado de suas meditações, as obras as mais variadas sem que a densidade e a simplicidade de linguagem cedessem à superficialidade. Por muitos anos (décadas de 80 e 90) fomos colegas de Departamento, no mesmo corredor do prédio da Faculdade de Educação. Tínhamos tempo, furtado de funções burocráticas, evitadas por ambos, para conversas diversas e diálogos filosóficos. Eram momentos mais agradáveis na vida acadêmica: questões várias, de interesse mútuo sobre filosofia, filosofia da religião, educação, política. Quando se tratava de educação, poesia, literatura e política a palavra ficava com Rubem expondo suas ideias, concepções e críticas ao sistema vigente! Suas obras sobre educação atestam suas posições críticas ao ensino que reduz a escola a uma etapa maçante na vida do estudante, criança, jovem ou universitário. Recordo-me de suas constantes críticas ao sistema de vestibular e sua proposta inovadora, anarquista até (!), mas rejeitada pelos pedagogos e profissionais administrativos. Dizia ele que, muitas vezes o ensino médio é estruturado para ser uma porta ao vestibular, tendo como resultado, a esterilização da criatividade do aluno. Poderia levar ao “pensamento único”, massificado. Sua proposta era o sorteio! Mais democrático dizia ele! Vestibular por sorteio. Original na arte de se admirar, erudito sério, mas muito alegre em tudo o que pensava, escrevia e ensinava. Ensinar, dizia ele, é um ato alegre, de amor. Conseguia transformar coisas e fatos cotidianos e anódinos em tema de profunda reflexão, e deixar as questões densas de filosofia assimiláveis por todos, até leigos. Assim suas falas, cursos e palestras eram muito concorridos. Devia ser severo com os pedidos de orientação para mestrado ou doutorado, dado o número de candidatos. As seções de defesa, sobretudo de doutorado, eram verdadeiros “eventos” singulares, pois o debate sobre a temática, o mais das vezes, provocado por Rubem, transcorria acalorado entre os membros da banca, deixando o candidato com ar surpreso, atônito… até que alguém nos lembrava onde realmente estávamos e que devíamos “respeitar” a ordem das coisas! Inegavelmente tratava-se de um “acontecimento” afetado por especial significado acadêmico. Ao final o candidato mostrava-se por ter passado por tal experiência na qual sua tese tivera provocado o debate! Suas obras infantis, mas cujo público-alvo era também adultos e pensadores “sérios”, são exemplo dessa habilidade de tornar o complexo simples, e de extrair das coisas simples, profundas reflexões orientadoras de conduta pessoal. Lembro-me de livros como “A menina e o pássaro encantado”, “A pipa e a flor”, “O patinho que não aprendeu a voar” e outros mais. Assim, como a “Alice no país das maravilhas” de Lewis Carol, não são obras simplesmente infantis, mas para adultos se forem habilitados a um tipo de “pensar”! Como vizinhos de sala, tive o prazer de aprender muito com Rubem e discutir questões que nos eram de interesse mútuo. Ele o “teólogo da esperança” com sua tese doutoral “A Theology of human Hope” publicada em 1969, que, na expressão dele, “é um broto daquilo que posteriormente receberia o nome de “teologia da libertação”; e eu, estudioso da obra de Martin Buber, com a tese doutoral sobre a relação, interessado em Antropologia filosófica e Filosofia da religião. Rubem conhecia muito bem aspectos da obra de Buber e nossas discussões foram especialmente estimulantes. Lembro-me de uma temática que tomou alguns encontros de duração, nos quais aprendi muito com o pensar teológico (heterodoxo) de Rubem, expulso de sua igreja por contrariar subversivamente a heterodoxia presbiteriana. Comentei, por volta de 1985, com Rubem que havia participado de um congresso na Europa e encontrado um renomado teólogo presbiteriano de origem francesa, naturalizado americano, Gabriel Vahanian. Ele o conhecia. Poucos anos mais velho que Rubem, doutorou-se no mesmo Princeton Theological Seminary em que ele, posteriormente defendeu sua tese. Vahanian publicou um livro, que seria um marco no debate teológico do denominado movimento da “morte de Deus”, ou, segundo outros, “Teologia da morte de Deus”. O título na sua tradução francesa é “La mort de Dieu”. La culture de notre ère post-chrétienne”, publicado em 1960! Como Rubem conhecia muito bem a questão, eu o provoquei, interessado que estava em saber mais sobre essa temática. Ouvi atentamente por um bom tempo considerações densas de quem dominava o assunto de modo soberbo. Para Nietsche, disse-me ele, a “morte de Deus” tinha um significado anticristão, e para Vahanian tais termos evocam uma era pós-cristã. E que, para esse teólogo francês-americano a religiosidade do cristianismo se degradava, estava em agonia. E depois de bom tempo já não percebia se era Nietsche, Vahanian ou o Rubem pensando alto! Foi uma tarde inesquecível na qual aprendi muito. Sinto somente que, infelizmente, o Rubem teólogo, de pensamento e posições provocadores tenha dado, muito cedo, lugar a outros interesses teóricos e acadêmicos. Mas a academia pôde conhecer seu lado de educador, de poeta e muitos amigos descobriram sua “sabedoria” culinária. Imagine, esse pensador teve a intuição magistral de abrir um restaurante! Talvez, creio eu, nem tanto pela degustação prazerosa da culinária mineira, mas mais para acolher amigos para as conversas infindas sobre qualquer coisa e sobre… Tudo! Sou grato a você, Rubem.

Prof. Dr. Newton Aquiles Von Zuben Docente da Faculdade de Filosofia da PUC-Campinas