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Ciência e Mídia estão na mesma estrutura mercadológica

Por Amanda Cotrim

Depois que o cineasta brasileiro Fernando Meirelles abordou a dificuldade dos cientistas em se comunicarem com o público, durante o Congresso Brasileiro de Unidade de Conservação, em setembro, a relação entre mídia e ciência voltou a ganhar contornos nos debates entre cientistas e jornalistas. Como falar sobre temas tão complexos para o grande público? De quem é a responsabilidade pela divulgação científica?

Edson Rossi: "sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde". Crédito: Álvaro Jr.
Edson Rossi: “sem o jornalismo de ciência, é a sociedade que perde”. Crédito: Álvaro Jr.

Nessa relação entre cientistas e jornalistas existe uma assimetria de expectativa. O jornalista busca uma coisa e o cientista outra. Essa é a conclusão que chega o professor de Jornalismo da PUC-Campinas, Edson Rossi, que tem mais de 30 anos de experiência no mercado da notícia. “O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”.

Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.
Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia- Crédito: Álvaro Jr.

A Profa. Dra. Vera Placido, docente no curso de Geografia da PUC-Campinas destaca que, no nosso atual contexto territorial em que as informações chegam de diferentes formas e se utilizam de meios também distintos, é fundamental que a ciência se aproxime da mídia, em especial dos profissionais de jornalismo, para se pronunciar de forma mais imediata e esclarecedora possível. “Eu acredito que é possível uma aproximação em prol de objetivos convergentes, como é o caso de informar corretamente, num primeiro momento e, posteriormente, contribuir com o processo de formação cultural da sociedade como um todo”, considera.

“O objetivo do jornalista não é tratar o assunto com a densidade e o espaço que o pesquisador dedica. O profissional de imprensa vai lidar com o assunto, no máximo, por algumas horas. Se o pesquisador não entender minimamente como a imprensa funciona, ele terá dificuldade de lidar e não ficará satisfeito com o resultado final”

No que tange as questões ambientais, segundo a professora Vera, essa aproximação se torna ainda mais necessária, já que o ambiente envolve a todos e impacta a qualidade de vida. “Divulgar corretamente o que está acontecendo, bem como as medidas que possam ser adotadas no sentido de mitigar os impactos, é função não apenas de uma mídia comprometida, mas da própria ciência que deve contribuir com informação segura sobre os diversos temas, esclarecendo a população sobre o seu papel e sua função”, enfatiza.

Além de uma questão de linguagem, a relação conflituosa e desconexa entre cientistas e jornalistas é resultado da complexa estrutura que começa desde a universidade. Essa é a questão colocada pela Pesquisadora em Comunicação e docente no Centro de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, Profa. Dra. Márcia Rosa. Para ela, a produção científica e a produção jornalística estão inseridas em universos parecidos e por isso divergem. Ambas as produções são reguladas por uma estrutura mercadológica, segundo ela. “Muitas vezes, o pesquisador não está preocupado e nem tem interesse na divulgação científica do seu trabalho pela mídia. Ao contrário, a divulgação até pode atrapalhar que esse pesquisador consiga novos financiamentos. Então, o cientista está numa estrutura de mercado em que ele também compete com a imprensa. O pesquisador precisa publicar nas revistas científicas, realizar artigos, produzir. Ou seja, os cientistas passam pelas mesmas questões que passam os jornalistas numa redação. Cada um desses profissionais buscará os seus interesses”.

Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação - Crédito: Álvaro Jr
Márcia Rosa- Professora no Centro e Linguagem e Comunicação – Crédito: Álvaro Jr

Novas formas de comunicar ciência

“Vivemos uma estrutura com paradigmas do século XIX, mas com os jornalistas e cientistas que são do século XX e XXI e isso causa um caos, uma vez que cientistas e jornalistas continuam com hábitos do século XX. Essa estrutura não permite mais que a comunicação se realize de forma passiva entre jornalista e fonte. A relação hoje é dialógica. Em rede. São vários interlocutores e reações”, contextualiza Márcia Rosa.

As redes sociais fazem parte dessa comunicação dialógica e servem como um espaço de embate de versões entre pesquisadores e jornalistas. “Se o jornal disser X, o pesquisador, imediatamente, vai à rede social desmentir o jornal”, avalia o jornalista Edson Rossi.

Com pouco espaço para as notícias de ciência, quem perde é a sociedade, defende Rossi. “Por mais que os conflitos existam, o fato de cotidianamente se falar sobre ciência no jornal, inevitavelmente se formará um público no assunto. Às vezes o pesquisador não quer divulgar nos veículos de massa, apenas revista cientifica segmentada”, constata.

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Para Rossi, “o pesquisador que abre mão do grande veículo de imprensa para se comunicar, pode achar que isso não fará diferença do ponto de vista da pesquisa, mas o que ele pesquisou (o que não deveria ser em causa própria) deixará de ser dividido com as pessoas. O cientista também está deixando de contribuir para a educação científica. É a sociedade que perde”, conclui.

Coluna Pensando o Mundo: Rui Campos, da Geografia

Por Juleusa Maria Theodoro Turra

Despojamento e rigor; estas palavras procuram relembrar, ou apresentar, a pessoa e o professor Rui Ribeiro de Campos ( 1948-2015).

Nascido em Piquete, Vale do Paraíba paulista, chegou a Campinas para estudar, cursando Filosofia nesta PUC-Campinas entre os anos de 1967 e 1970.

Ao relatar este período, em depoimento à Revista Série Acadêmica, número 21, Especial Licenciaturas , Rui Campos nos contou :

Nos tempos de estudante, pelo horário do curso superior que fazia (era vespertino), era difícil arranjar emprego, exceto algumas aulas. Com a minha situação econômica apertadíssima, apareceram aulas de Geografia em um curso supletivo. Aliás, poderiam ser aulas de História, Português ou outra disciplina. Na situação em que me encontrava tentaria qualquer uma.

A chegada à Geografia foi uma circunstância, mas o tema da ‘aula-teste’ foi uma escolha: Subdesenvolvimento.  Entre 1973 e 1976 está Rui Campos cursando Licenciatura em Geografia, na turbulenta passagem do curso de Estudos Sociais (Licenciatura Curta) para a Licenciatura Plena.

A situação econômica apertadíssima não foi esquecida: o despojamento, como o desapossar-se, marcou sua trajetória: sempre o mínimo necessário, sem consumismos, sem modismos.

Não viajou de avião, tampouco compareceu a eventos enquanto os filhos eram novos: evitava despesas e a possibilidade de se acidentar. Protegia os filhos e os criava para o mundo.

O rigor.  Rigorosamente prepara as aulas, as revia, trabalhava o texto e produzia um material para estudo dos alunos; não perdia a pontualidade e não permitia que outros o fizessem. Algumas destas aulas geraram capítulos de sua dissertação de Mestrado (cursado na Educação da PUC-Campinas entre 1993 e 1997) e da tese de Doutorado (Unesp entre 1999 e 2004). Mais recentemente geraram ou inspiraram capítulos de seus livros.

Sobre as aulas, manifestou-se no depoimento já mencionado:

 […] elaborar o material trabalhado em sala de aula e me realizar na principal tarefa da atividade de ensino: proporcionar o pensar a partir do conteúdo proposto […]

 Proporcionar o pensar. Para tanto, Rui que adorava as palavras, o que o fazia adorar letras de músicas. Recuperava expressões, substituía outras expressões e procurava surpreender. Seus ex-alunos souberam sobre os conflitos na Ásia Ocidental, ouviram e anotaram exemplos das intervenções dos estadunidenses na América Central e Caribe.  Puderam compreender a exploração de recursos naturais. Também receberam ensinamentos de Potamologia.

Com igual persistência procurou conhecer, minuciosamente, autores que não tinham grande circulação e que, por esta razão, ofereciam possibilidades para pensar sobre suas vidas e produções, pensar a geografia e a liberdade.  Em Angra dos Reis, na Universidade Federal Fluminense, pode desenvolver as suas disciplinas de forma autoral, retomando seus temas e autores queridos. Lá faleceu e conhecemos o quão foi cativante, sendo nome do Centro Acadêmico.

A persistência, até mesmo a intransigência, foram condições de, com suas armas – a palavra e o exemplo pessoal – levar em frente o que foi quase uma missão: proporcionar e provocar o pensar e não deixar ao esquecimento o que foi a ditadura, que marcou o início de sua vida adulta e o impediu de estudar tudo o que queria ou necessitava.

Um pouco disto está na dedicatória do seu livro Breve História do Pensamento Geográfico Brasileiro, lançado em 2011: a todos os que resistiram, não importando a maneira,  nas ditaduras e ainda perseguem seu  ideal por uma sociedade mais justa.

Prof. Dra. Juleusa Maria Theodoro Turra, docente no curso de Geografia, Turismo e Engenharia Civil