Arquivo da tag: guerra

Trump será lapidado pelas instituições

Para Professor da PUC-Campinas, instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente, dificultando que seus objetivos de campanha prossigam.

Por Amanda Cotrim

A eleição de Donald Trump para presidência dos EUA repercutiu no mundo inteiro muito mais pela postura quase caricata do então candidato do que pela exposição de suas estratégias políticas e econômicas. O mundo passou a se questionar, desde os resultados das urnas, como será a política internacional de Trump e se ele cumprirá com as promessas feitas na campanha, como fechar fronteiras, restringir a entrada de imigrantes no país, não manter relações diplomáticas, políticas e comerciais com país e regiões cujos acordos haviam sido firmados por Obama, além da própria promessa de aumentar os empregos e a qualidade de vida dos cidadãos estadunidenses.

Para poder compreender um pouco melhor quais os impactos reais da eleição de Donald Trump, o Jornal da PUC-Campinas conversou com o Professor. Me. Adauto Ribeiro, Diretor adjunto do Centro de Economia e Administração da PUC-Campinas. Segundo o especialista, dado que o Partido Republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente. “Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana”.

Confira a entrevista na integra:

  • Como o senhor avalia os resultados das eleições presidenciais nos EUA?

No contexto das relações internacionais, decisões emitidas pelo sistema institucionalizado de escolha política de uma nação não se questiona, se acata. Desta forma, o candidato Donald Trump primeiro se viabilizou no interior do Partido Republicano e depois ganhou as eleições no Colégio Eleitoral, dentro das regras estipuladas na constituição norte-americana. O resultado demonstrou insatisfação com o Partido Democrático e recoloca o Partido Republicano no poder.

A questão que mais chamou a atenção nesta eleição foi a postura do candidato vencedor, uma figura do show business, não proveniente do corpo político tradicional do país. No entanto, nunca é demais destacar que discurso de candidato é uma coisa e o exercício efetivo do poder é outra coisa. Desta forma, o que se espera é que as medidas a serem tomadas pelo novo Presidente sejam lapidadas pela institucionalidade que envolve a Presidência da República, bem como pelos interesses do Partido Republicano, que, cabe ressaltar, fez maioria na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e, na campanha, não o tratou como seu candidato ideal.

Trump, na sua campanha vitoriosa, apresentou-se como um indignado cidadão norte-americano de classe média preocupado com a perda de prestigio e de poder da nação americana no ambiente mundial e que isso refletia no desemprego e na perda de qualidade de vida do americano. Assim, tornar a América forte novamente foi seu mote. E para isso não faltaram inimigos, ocultos e não tão ocultos assim, elencados; satisfazendo o desejo interno de achar responsáveis “externos” pelos problemas da Nação. Assim, Trump se apresentou nas eleições como o herói, que imbuído de uma causa justa não vê restrições em levá-la adiante, até as últimas consequências- ou inconsequências- de seus atos. Na campanha esse procedimento pode ser válido, no entanto, na política cotidiana e nas relações internacionais isso não funciona desta maneira. Instituições e organizações estarão no caminho do novo presidente e negociações terão que ser efetuadas para levar a cabo alguns de seus objetivos, o que nos leva a crer que a maioria deles será esquecida e ficará pelo caminho.

“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
“Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo”/ Crédito: Álvaro Jr.
  • Qual será o efeito da vitória de Trump para a América Latina?

Com relação à América Latina, não se espera mudanças significativas, inclusive por já ser uma região com predomínio dos interesses norte-americanos devidamente assentados. Naturalmente, a questão dos imigrantes e da fronteira mexicana será destaque. O novo governo deverá impor mais restrições à entrada nos Estados Unidos, inclusive para trabalho legal, bem como ampliará o combate aos ilegais, afinal de contas essas medidas foram exploradas a exaustão na campanha e não fazê-las geraria perda de apoio em grande parte do eleitorado de Trump.

A promessa de defender empregos para os norte-americanos deverá recair em grande parte na restrição aos imigrantes. O problema desta estratégia é a relação extremamente produtiva da economia norte-americana com relação a estes trabalhadores, dado que a imigração aumentou significativamente de todos os continentes para os Estados Unidos. Assim, a lógica de cercear a entrada de imigrantes pode ser ruim para a competitividade da economia norte-americana visto que um de seus elementos dinâmicos é a diversidade de trabalhadores de todo o mundo que se dirigem para esta economia.

Um segundo ponto de destaque devem ser as relações com Cuba. Este país deve obter um pouco mais de atenção do novo governo, dado o momento de transição política que atravessa, o que não significa que haverá boa vontade dos EUA para com este país, ao contrário, Trump deve atender aos interesses dos cubanos radicados nos EUA bem mais do que o fez Obama.

O candidato também fez menção de rever o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), que considera prejudicial aos Estados Unidos, no entanto, não detalhou que ponto trataria nesta revisão, sendo assim, pode ser que procure impor alguma restrição a circulação de mercadorias, o que prejudicaria os mexicanos, mas também os consumidores norte-americanos. O desejo manifesto de estabelecer acordos bilaterais aponta para uma política comercial de negociação caso a caso, situação que faz pender a balança de negociações para o lado dos norte-americanos. O Brasil no seu projeto de integração regional (Mercosul) resistiu a esta estratégia comercial, desde os anos 1990, vamos ver se vai alterá-la agora.

  • Em que o mandato de Trump pode afetar o Brasil?

O Brasil se insere no contexto da América Latina como região de baixa prioridade para os EUA, no entanto, para nós trata-se de um parceiro estratégico, cerca de 13% das exportações brasileiras se dirigem para os EUA, de onde cerca de 17% de nossas importações são provenientes. O crescimento econômico norte-americano seria um fato extremamente benéfico para as exportações brasileiras. Entretanto, ao que parece, o novo governo também pretende expandir suas exportações para o mercado brasileiro, adotando uma estratégia de acordos bilaterais. Para que isso ocorra, será preciso rever o acordo do Mercosul, nosso parceiro preferencial. As cartas estão sendo colocadas na mesa e o novo governo brasileiro aponta para facilitar esta estratégia americana. Por outro lado, a necessidade de atração de capital estrangeiro da economia brasileira esta em consonância com o desejo norte-americano em ampliar estes investimentos; a questão é estratégica.

O governo brasileiro já vem desregulamentado diversos setores de interesse dos Estados Unidos, a área de petróleo é um destes setores, bem como a área de infraestrutura, transportes e serviços. Outra fonte de preocupação para o Brasil está na condução da política de juros norte-americana a ser praticada pelo novo governo, uma alta dos juros norte-americanos neste momento aumentaria as dificuldades para o financiamento da economia brasileira, o que poderia provocar alta de juros no Brasil (que já é extremamente alta). Isto seria muito prejudicial para a economia brasileira. Neste contexto, cabe ao governo brasileiro trabalhar medidas que diminuam a relação de dependência entre estas duas taxas de juros. No mais, esperar apoio dos EUA para uma maior participação do Brasil em organismos multilaterais não me parece algo que irá ocorrer em um horizonte próximo. Em suma, o governo brasileiro não deve esperar benefícios com a nova administração, mas sim, negociações duras se quiser fazer prevalecer o interesse brasileiro.

  • A Rússia não chegou a apoiar explicitamente o Trump, mas demonstrou diversas vezes sua oposição à Hillary. Qual interesse da Rússia na eleição do Republicano?

 Com relação à Rússia, a posição do futuro governo norte-americano é de maior proximidade do que os confrontos da era Obama. Trump explorou a imagem de força que o atual governo russo projeta para ressaltar ao público interno que um presidente americano precisa ser igualmente forte. Desta forma, criticou constantemente a sutileza executada por Obama em sua política externa, ressaltando a necessidade de agir com dureza e rapidez. Basicamente, uma política externa mais truculenta, como o faz o presidente russo. Trump, ao que tudo indica, deve aumentar o poderio militar norte-americano, porém, reclama dos custos da defesa que diz efetuar para países amigos no exterior. No seu discurso, diz que espera dividir os custos desta defesa com estes países. Falta combinar com eles. Não é a toa que países da Ásia e da Europa têm demonstrado preocupação com esta postura norte-americana. Com esta política, perdem os países-amigos mais distantes a proteção americana que julgavam ter, e ficam mais livres para agir a Rússia e a China, por exemplo.

A provável estratégia de Trump de ampliar o poder militar dos EUA resgata a política do período da Guerra Fria, enfatizando que o país, sob seu governo, se tornaria tão poderoso e ameaçador que, desta forma, não sofreria mais ameaças. Um filme que já assistimos no passado e que atende integralmente o interesse da indústria bélica mundial e o interesse das nações com grande investimento em armas.

  • O que a eleição de Trump pode influenciar na guerra na Síria?

Se formos observar pelos discursos da campanha, o presidente Trump tende a se aproximar do governo sírio em detrimento dos rebeldes que lutam para derrubar o governo estabelecido. Da mesma forma, pode se aproximar da posição russa estabelecendo um apoio ao combate conjunto ao Estado Islâmico. Assim, a guerra síria pode caminhar para uma solução, dado o reforço recebido por uma das três partes envolvidas no conflito, o que não significa uma solução para a instabilidade do Oriente Médio.

Trump, ao que parece, não possui uma estratégia consolidada de como lidar com a região, o Partido Republicano deverá guia-lo. Israel segue como prioridade política para os Estados Unidos, embora o presidente tenha escorregado em alguns discursos. Ainda com relação ao Oriente Médio, deverá fortalecer as críticas ao regime do Irã e sua oposição ao acordo nuclear pactuado por Obama, sempre tomando como base seus discursos de campanha.

  • Qual sua avaliação sobre a  Parceria do Transpacífico e a promessa de rompimento por parte dos EUA?

Este me parece um equivoco a ser cometido pelo novo governo, dado que já afirmou que não irá ratificar o acordo comercial tão demoradamente costurado pela gestão anterior e que serviria politicamente para ampliar a presença norte-americana na Ásia e Oceania, ao mesmo tempo em que buscaria gerar um freio na expansão comercial chinesa. Ao pressupor que o acordo não é benéfico aos EUA, e que em sua gestão irá se guiar por acordos bilaterais, procurando resultados específicos para os EUA no curto prazo, o governo Trump acaba beneficiando a estratégia chinesa e coloca os interesses de curto prazo acima de estratégias politicas estruturantes. Em suma, parece que cláusulas do acordo que não seriam de interesse imediato de partes importantes da economia americana, envolvendo questões ambientais e trabalhistas, seriam abandonadas. De acordo com pensamento de Trump, estas partes do acordo dificultariam a criação de empregos no EUA e restringiriam o uso de fontes antiquadas de energia, que em sua campanha o candidato prometeu resgatar. Isto pode gerar um grande problema ambiental e, principalmente, um problema para o desenvolvimento de tecnologias e energia limpa nos EUA, podendo permitir que a China se destaque nesta área na economia mundial. Em suma, ao não assinar o tratado, os EUA claramente ignorarão os seus parceiros da jornada, Japão, Austrália, Cingapura, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Colômbia entre outros, o que irá exigir dos norte-americanos a apresentação de um acordo alternativo em substituição.

  • Há algo que eu não perguntei que o senhor gostaria de dizer?

No geral, o que podemos observar é a existência de uma grande expectativa quanto aos rumos do governo Trump.  Seu discurso “vazio” não revela estratégias, logo, o caminho está aberto. Dado que o partido republicano tem maioria nas duas casas legislativas, é de se esperar mudanças com predominância de políticas tradicionais dos republicanos mescladas com caraterísticas de personalidade do novo presidente.

O que Trump repetiu a exaustão na campanha é que os EUA estarão sempre em primeiro lugar, mesmo que para isso precise sacrificar os interesses de seus aliados mais próximos, afirmando ainda que não irá mais ceder o país à falsa cantiga da globalização.

 Sua política deverá seguir aumentando os gastos públicos, com pitadas de um aumento do protecionismo. Em suma, alguém de fora da política e sem programa definido para a maior nação do mundo se elegeu presidente, vamos ver se as instituições o colocam nos trilhos ou se acidentes de percurso ocorrerão, o que prejudicará muito mais outras nações do que a nação norte-americana.

 

 

Crônica: Irmãos Haitianos

Por Miriam Guedes Santiago Krindges

Em um belo dia de Inverno, estava eu navegando na internet, quando alguém postou uma informação sobre a chegada dos imigrantes haitianos à cidade de São Paulo e das dificuldades de acomodação e de alimentação pelas quais passavam.

“Desejo que essas pessoas que estão vindo para cá, realizem os seus sonhos” / Crédito: arquivo pessoal
“Desejo que essas pessoas que estão vindo para cá, realizem os seus sonhos” / Crédito: arquivo pessoal

Como boa cristã, quis ajudar, mas, moro no interior do Rio Grande do Sul e, desse modo, fica difícil viajar até São Paulo só pra doar alguns poucos quilos de arroz e um cobertor. Foi quando eu “acordei” e percebi que a “boa cristã” poderia ajudar os haitianos que estão morando há 1 ano aqui bem pertinho, na minha cidade.

Nem preciso dizer como esse despertar foi horrível. Essas pessoas moram aqui bem perto e eu nunca fiz nada para ajudá-las. Mas, dizem que tudo acontece na hora certa e, talvez, agora seja a hora.

Fui até a casa daqueles 29 homens que moram em um antigo hospital. Ofereci-me para dar aulas de Português e a primeira resposta foi: “não podemos pagar”. Prontamente eu lhes disse que não queria receber e que estava fazendo aquilo para ajudá-los.

“Eu aprendo mais com eles do que eles comigo” / Crédito: arquivo pessoal
“Eu aprendo mais com eles do que eles comigo” / Crédito: arquivo pessoal

Os olhos daqueles guerreiros brilharam mais do que os meus próprios olhos quando ganho chocolate do meu marido! Eles ficaram tão felizes que parecia que eu estava oferecendo a melhor oportunidade do mundo. Valeu muito a pena viver para ver esse momento.

A partir daí as coisas só melhoraram. Conseguimos o local, o material escolar e até uma professora de Português de verdade. Meus “alunos” não teriam só uma “professora genérica”. E as aulas começaram.

Essa é a melhor experiência que tive nesses meus 28 anos de vida. Cada aula é um aprendizado. Acho que eu aprendo mais com eles do que eles comigo. São homens sérios, respeitadores, marcados pela vida e cheios de esperança por melhores dias.

Foram dois os acontecimentos que mais me marcaram e fui obrigada a disfarçar para não chorar: o primeiro foi o dia em que um dos mais brilhantes alunos me disse: “já percebi que algumas pessoas não gostaram que viemos pra cá”.

Isso doeu em mim, pois o que ele disse é verdade! Muitos brasileiros não querem a vinda dos haitianos. O mais engraçado é que em um país formado pela “mistura” de tantos povos, somos todos filhos de imigrantes, uns trazidos à força, outros, fugindo da fome, de guerras, e outros em busca de um amanhã melhor.

Esse rapaz, particularmente, tem intenção de ficar no Brasil. Ele perdeu muitas coisas no Haiti, e não somente bens materiais, ele perdeu seus parentes, os amigos, os entes queridos. Talvez, a razão de ele estar vivo é ter vindo para o Brasil. Ele, assim como os demais, não teve opção de escolha, era a única oportunidade de viver, e de garantir a subsistência.

O segundo acontecimento marcante aconteceu quando fui explicar o significado da palavra “solidão”. Estávamos trabalhando o texto da música “Fico assim sem você”, de Claudinho e Buchecha. Um aluno disse: “Solidão é estar longe da nossa família, nem dá para pensar sobre isso. Estamos tão longe, é muito triste”.

Sim é muito triste. Toda a minha família mora em São Paulo, mas eu falo com meus pais todos os dias, nos vemos regularmente e, mesmo assim, sinto saudade do contato físico, do abraço. Esses rapazes haitianos não sabem quando encontrarão seus familiares de novo. Acredito que essa é a maior dificuldade enfrentada por eles. Não ser aceito no Brasil por uma minoria xenofóbica e ignorante é relativamente “fácil”, difícil mesmo é perder um ente querido e não poder se despedir. Com meus alunos estou aprendendo muita coisa boa, principalmente a amar e a sentir orgulho do meu país.

Quando penso que pessoas boas olham para o Brasil e enxergam uma esperança de dias melhores, fico envergonhada da minha ingratidão. Nosso país é lindo e está recebendo de braços aberto pessoas destruídas e ainda oferece a essas pessoas a oportunidade de recomeçar a sua vida aqui, isso é lindo, é maravilhoso!

Desejo que essas pessoas que vêm para o Brasil realizem os seus sonhos, que sejam felizes como eu sou, e que a sua cultura enriqueça ainda mais a nossa cultura e que cresçamos juntos. Que saibamos que o mundo é de todos, pois se não está bom aqui, que as pessoas tenham o direito de ir morar em outro lugar, sem barreiras e sem preconceitos, e que nós nos aproximemos dessas pessoas, pois elas têm muito a nos ensinar sobre sua cultura, suas crenças e seus costumes e, é claro, nós também temos muito a ensinar para eles. Assim, poderemos formar uma sociedade mais pluralista.

Meu discurso não é utópico! Tudo é possível, basta querer! Eu tive vontade de ensinar a língua portuguesa para os haitianos e o faço, com muita alegria. Se você quiser, também poderá ajudar. Isso está no coração de cada um.

Miriam Guedes Santiago Krindges / Crédito: arquivo pessoal
Miriam Guedes Santiago Krindges / Crédito: arquivo pessoal

Tenham todos um Bonjour!

Miriam Guedes Santiago Krindges formou-se em 2010 no curso de Direito da PUC-Campinas

 

A violência na telona: do desenho animado ao sadismo

Por Wagner Geribello

Nem mais, nem menos… no cinema, a violência não está além ou aquém da freqüência e intensidade em que existe na sociedade. Portanto, não há muita verdade nas teses e comentários que endereçam ao cinema dose exagerada na abordagem da violência. O que a sétima arte faz é reproduzir proporcionalmente, na tela, o que a sociedade produz sobejamente na realidade.

A História mostra que não demorou muito para a violência ocupar as telas, logo depois dos Lumiére apresentarem ao mundo a possibilidade técnica da imagem em movimento. A mesma História também mostra que o cinema multiplicou por muito o viés, o modo e o ângulo de tratamento da violência, percorrendo um leque amplo, que vai da incorporação direta (leia-se reprodução visual e sonora da violência) à crítica contundente, passando pela denúncia, pelo questionamento e até pela apologia.

Do “inocente” desenho animado em que a personagem enfia outra no moedor de carne, provocando risos divertidos da platéia infantil, até ensaios de sofisticado sadismo, usando e abusando da própria “metafísica” da violência (leia-se violência além da instância corpórea), como acontece na adaptação cinematográfica da peça de Edward Albee, Quem tem medo de Virginia Woolf (1966), dirigida por Mike Nichols, a violência encontrou e continua encontrando modos diversos para projetar-se na tela.

O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação
O cinema, assim como a sociedade, não escapa da violência/ Crédito: divulgação

O cinema já visitou e continua visitando o exercício completo da violência. Do racismo à guerra, as causas da agressão humana às formas de vida, principalmente as semelhantes que, infelizmente, não são poucas, o cinema já encarou todas, incluindo desigualdade socioeconômica, antagonismo religioso e violência “da moda”, como o “bullying” (o próprio anglicismo uma violência ao idioma pátrio) que medra na escola, onde civilidade deveria ser a tônica, por definição. Faz parte da lista, ainda, o confronto político fundamentado no ódio, como a pequena burguesia brasileira tem expressado em rede social, grande imprensa, passeata, arruaça e micropanelaço no espaço gourmet.

Assim, como a sociedade não escapa da violência (em casa, no trânsito, na família, no logradouro público, no evento esportivo, no templo religioso), o cinema também não.

Todavia, também há posturas, protestos e polêmicas antiviolência, na sociedade e no cinema. São muitos os filmes focados na crítica, questionamento e negação da violência, incluindo obras antibélicas e pacifistas, como Limoeiro (Título original Lemon Tree, produção israelense de 2008, dirigida por Eran Riklis), bem como o questionamento da violência no cotidiano social (ver A onda, produção alemã de 2008, dirigida por Denis Gansel).

No extremo oposto ao pacifismo e para além da violência banalizada e gratuita, na qual o cinema americano é imbatível, a busca da legitimação (característica tão presente no violento como a brutalidade) também tem lugar na tela, como pode ser observada em A espada de Gideon (produção canadense de 1968, dirigida por Michael Anderson) que interpreta a violência desproporcional (para mais) como resposta mais adequada à violência original, engrenagem básica do mecanismo que condena a sociedade ao interminável ciclo de agredidos tornados agressores e vice-versa.

Assim, aproveitando o tema desta edição do Jornal da PUC-Campinas, fica o recado, aliás já conhecido dos cinemeiros, que, em todos os matizes, modos, formas e para todos os efeitos, a violência não é um item que a sociedade desconhece… nem o cinema.

Livro resgata memória “perdida” de Campinas

Por Amanda Cotrim

No dia 18 de setembro de 1932, um domingo, a cidade de Campinas, no interior de São Paulo, era bombardeada pelo governo provisório de Getúlio Vargas. Foram vários dias de sobrevoo no Município com panfletagem de um governo que tentava convencer os paulistas que a guerra de São Paulo era separatista. Nesse domingo, um menino escoteiro, 10 anos, de nome Aldo Chioratto, mensageiro do exército paulista, pegaria um trem até Sumaré (cidade vizinha). Pegaria. Aldo foi assassinado durante o bombardeio. Quem decidiu resgatar essa história e, conseqüentemente, o papel da cidade de Campinas na Revolução de 1932, foi o jornalista e docente no curso de Jornalismo da PUC-Campinas, Prof. Me. Saviani Rey. Segundo ele, essa memória é “ocultada” dos campineiros, que não sabem, por exemplo, que a cidade exportou dois mil voluntários que lutaram e morreram na Guerra Paulista. O livro “O Menino Herói da Guerra Paulista – o bombardeio de Campinas” traz elementos literários para contar uma história que é real: existiu um bombardeio em Campinas que vitimou um menino, cujo caminho foi atravessado pela História. O material foi editado pela editora Pontes.

Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)
Livro O Menino Herói da Guerra Paulista (crédito: divulgação)

Confira a entrevista:

Jornal da PUC-Campinas: Por que surgiu a ideia de realizar um livro sobre a Revolução Constitucionalista de 1932?

Prof. Saviani: Ao longo da minha carreira, produzi diversas crônicas sobre temas, geralmente ocultos, que envolvem a cidade de Campinas. A ideia de escrever sobre o bombardeio que o município sofreu, na década de 1930, em razão da Revolução Constitucionalista, é antiga. Meu pai mentiu a idade para as autoridades para poder lutar na guerra. Infelizmente, até então, ninguém tinha escrito sobre esse bombardeio em Campinas e sobre os personagens envolvidos por esse fato histórico. Não há memória de que a cidade teve dois mil voluntários que foram lutar na guerra, ao lado dos paulistas.

Jornal da PUC-Campinas: Como foi construída a narrativa do livro?

Prof. Saviani: O romance histórico é dividido em duas partes: o Menino e a História. O personagem é Aldo Chioratto, um menino, escoteiro, que era mensageiro das tropas paulistas. Ele existiu. Mas é pouco conhecido. O livro é um romance calcado em realidade, ou seja, não existe nenhuma informação inverídica. No entanto, a forma como essa narrativa foi construída traz, sim, elementos literários. As atitudes das pessoas são literárias, mas os fatos são reais. Eu pesquisei quem foi Aldo Chioratto, que morreu aos 10 anos de idade, e cuja morte abalou toda a cidade. Os parentes mais próximos de Aldo, hoje vivos, são seus sobrinhos. Seguindo os traços do que a história conta, pude me aproximar de quem era esse menino.

Jornal da PUC-Campinas: Conte-nos quem foi esse menino Aldo Chioratto?

Professor Saviani: A história atravessou o seu caminho: Aldo era filho de um tintureiro, de família de classe média baixa, que morava no centro de Campinas. Desde meus seis anos de idade eu sabia quem era Aldo. Meu pai contava-me histórias fabulosas sobre a coragem dos paulistas, a luta que envolveu outros dois mil campineiros. Eu, ainda criança, ia com ele até o Mausoléu dos Voluntários, no Cemitério da Saudade, em Campinas, ouvir sobre a bravura do povo paulista. E o rosto de Aldo também estava ali no mausoléu. Era o rosto de uma criança. E eu também era uma criança.

Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).
Docente na Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas (Foto: Álvaro Jr).

“Que lindo era aquilo! Sentia-me orgulhoso! Passear com as mãos presas às mãos de meu pai, trêmulas, ele emocionado e derramando lágrimas, e eu observando aquelas colunas de cimento, os nomes dos heróis tombados, a bandeira de treze listas e… seu rosto de menino, ali, como o meu rosto, o rosto de um menino morto!” (trecho do livro)

Eu perguntava para o meu pai quem era aquele menino? E ele me contava sobre a morte de Aldo: um menino, escoteiro das tropas constitucionalistas, que havia sido atingido pelas bombas disparadas de um avião Vermelhinho do Getúlio Vargas, que bombardeou Campinas.

Jornal da PUC-Campinas: Por que o senhor acredita que não existe um resgate histórico dessa época?

Professor Saviani: As pessoas não tinham interesse em guardar. Tudo é muito burocrático. Não havia uma preocupação com a documentação dos fatos. Eu me vali de livros de arquitetura e jornalismo, para poder entender Campinas da década de 1930.

Jornal da PUC-Campinas: Como era Campinas nessa época?

Professor Saviani: Campinas tinha rompido com os padrões convencionais do Império e se ampliava, com indústrias de velas, empresas, comércio. Precisei fazer leituras fora do plano da história. O livro narra, por exemplo, quem foi Orosimbo Maia e sua relevância para o período. Eu digo no livro que no Brasil havia uma insatisfação com a política do “Café com Leite” e o Tenentismo foi contrário à dominação dos fazendeiros do café.

Jornal da PUC-Campinas: O livro foi escrito em quanto tempo?

Professor Savini: Sou jornalista. Sempre trabalhei com deadline. Sempre pensei: tenho de conseguir X de conteúdo para o horário que eu vou fechar a matéria. Aprendi a me mobilizar em um espaço curto de tempo para reunir dados. Eu escrevo rapidamente. Sou capaz de produzir 100 páginas em 1 hora. Eu fui atrás da pesquisa em julho de 2014: reuni dados e, mais especificamente, do dia 12 de outubro, até a última semana de novembro, eu fechei o conteúdo. Não sei se isso é bom ou não.

Jornal da PUC-Campinas: O senhor teve algum apoio financeiro para realizar o livro?

Professor Savini: Não. As 146 páginas do livro foram realizadas com meus próprios investimentos. Mas é preciso ressaltar que o material teve a colaboração do docente da Faculdade de Jornalismo, Prof. Me. Fabiano Ormaneze, que realizou a revisão final do livro.