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A Era Trump: política e pós-verdade no século XXI Tensão entre EUA e Coreia do Norte reacende o “fantasma” da Guerra Fria

Por Lindener Pareto, Historiador, Doutor em História da Arquitetura e do Urbanismo pela FAU-USP e Professor de História Contemporânea na PUC-Campinas

Em 2016, diante das eleições norte-americanas que levaram Donald Trump à presidência dos EUA, o consagrado “Dicionário Oxford” elegeu a palavra “pós-verdade” (post-truth) como a palavra-conceito do ano. Como efeito, o conceito se refere à política da pós-verdade, e vale dizer que os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as crenças pessoais e emoções. Vide a lógica que dominou os debates políticos entre Trump e Hilary e também entre os lados do referendo da Brexit, que optou pela saída do Reino Unido da União Europeia.

No entanto, o conceito – a despeito de não figurar nas análises políticas antes da década de 1990 – é fundamental para a narrativa da história do Século XX, marcado pelo nacionalismo mais exacerbado, pela propaganda totalitária crucial para as barbáries dos campos de concentração e o genocídio perpetrado pelo Nazismo. No período que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial (1939-1945), as duas máquinas de propaganda mais poderosas do mundo, a dos Estados Unidos da América (EUA) e a da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), se valeram dos embates narrativos repletos da “arte da mentira” para disputarem o mundo entre si na Guerra Fria (1945-1991).

A propaganda anticomunista que tomou conta do imaginário político norte-americano na década de 1950, o Macarthismo, é peça chave na deflagração de um dos conflitos mais sangrentos entre o capitalismo americano e o socialismo soviético, a Guerra da Coreia (1950-1953). Dividida entre as influências soviéticas e chinesas e as norte-americanas, a península da Coreia foi palco de um impasse militar que acabou com a criação da Zona Desmilitarizada (ZDC), entre a Coreia do Norte (Socialista) e a Coreia do Sul (Capitalista) que perdura até os dias de hoje.

Ora, a vitória de Donald Trump – arauto fanfarrão das redes sociais e da Sociedade do Espetáculo e símbolo das subjetividades da “pós-verdade” – retomou um dos espectros mais sombrios da Guerra Fria, a iminência da catástrofe nuclear. Imbuído do mais chauvinista nacionalismo americano e numa guerra incessante contra as diversas mídias que insistem em fazer a crítica de sua figura e de seu governo, Trump passa ao apelo da necessidade da guerra pela liberdade para resolver de vez o problema histórico com a Coreia do Norte. Diante da escalada do programa nuclear norte-coreano e das palavras de ordem do regime de Kim Jong-um, também eivado da retórica política da pós-verdade, Donald Trump procura demonstrar sua força militar e, sobretudo, estabelecer uma política externa que dê conta de preservar seus aliados, Japão e Coreia-do-Sul, na região.

Certamente, a história e a retórica como farsa no atual impasse político não são novidades do nosso tempo. As relações de poder na era da pós-verdade estão ancoradas na inversão, traduzida por Michel Foucault (1926-1984), da emblemática frase do estrategista militar Carl Von Clausewitz (1780-1831). Foucault diz que a guerra não é continuação da política por outros meios e, sim, a própria política é a continuação de um estado permanente de guerra, que estabelece combates silenciosos nas instituições e nas disputas retóricas, sendo capaz de retomar espectros de uma Guerra Fria interminável e, na prática, levar a humanidade ao seu ato final de corpos aniquilados por um eventual desastre nuclear.

 

Referências bibliográficas
ARENDT, H. As origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.
HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos: o breve século XX,1914-1991.São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 

Cinema: Colossus 1980

Por Wagner Geribello

Perguntas, dirigidas ao pessoal ligado em informática, que sabe (ou acha que sabe) tudo sobre computador: O que é Colossus? E Guardian?

Não sabe? Então você não conhece uma das mais saborosas produções que o cinema de ficção-científica já realizou sobre computadores: Colossus, 1980 (ou Projeto Forbin, de acordo com o título original).

Muitas e diversas razões fazem da produção, dirigida por Joseph Sargent, um excelente comentário cinematográfico, crítico e irônico, sobre essa curiosa maquineta chamada computador, que invade todos os momentos e todos os cantos da chamada sociedade contemporânea.

A primeira curiosidade é a idade do filme, que já conta quarenta anos (lançamento em 1970) sem deixar de ser atual em relação à temática da dominação do homem pelo computador. Além disso, o roteiro é muito bom, em especial no tratamento das linguagens que permitem certo entendimento dos seres humanos com a máquina, da máquina com os seres humanos e da máquina com outra máquina. Mais que isso, o diretor fez um bom trabalho, transformando esses componentes do roteiro em linguagem cinematográfica.

Produzido em plena Guerra Fria, Colossus 1980 começa quando o governo americano anuncia a submissão de todo gerenciamento e operacionalidade (vale dizer, o disparo de armas) do sistema de defesa a um computador com superqualidades, como capacidade praticamente ilimitada de armazenamento de dados e uma equivalente rapidez de processamento. O resultado, esperado, é a criação de um escudo intransponível a qualquer ação militar, por conta da precisão e velocidade de resposta e retaliação do computador, batizado Colossus. Todo arsenal nuclear é colocado sob controle da máquina, dispensando a  intervenção humana.

  Após a ativação do sistema, quando todo mundo está indo para casa desfrutar paz e segurança, aparece o problema: os inimigos soviéticos (sempre eles) anunciam um sistema similar. As duas máquinas se percebem, iniciam uma conversa baseado em cálculos primários, que vai acelerando e sofisticando, até escapar à capacidade de compreensão e acompanhamento dos (reles) mortais e, após o namoro matemático, decidem gerenciar conjuntamente os sistemas de defesa, à revelia dos seres humanos. Assim, o criador do projeto (americano), o dr. Forbin do título original, inicia um combate de “esperteza” para neutralizar as supermáquinas pensantes (?). A relação de Forbin com as máquinas é, no mínimo, interessante, como no ponto em que ele “explica” a necessidade que os seres humanos têm de amor e sexo, atividades desconhecidas (ou pelo menos pouco importantes) para os computadores.

 Sem jamais negar a carapuça de ficção-científica feita para divertir, Colossus 1980 não errou muito na previsão da submissão ao computador que o (então) futuro traria aos seres humanos. A necessidade cada vez mais intensa dessa máquina prodigiosa e, talvez perigosa, que faz o pano de fundo do filme, manifesta-se, por exemplo, neste comentário, que não teria sido escrito nem o internauta poderia ler, não fosse o computador, do qual somos, irrecorrivelmente, dependentes (ou prisioneiros, como sugere o filme).

Em busca muito rápida e imperfeita, considerando as limitações de conhecimento de informática, não encontrei a versão completa de Colossus 1980 gratuitamente disponível na internet, mas existem ofertas do filme em DVD e, talvez, em  opções pagas, como Netflix e PopcornTime. Vale procurar, pois a diversão compensa… e intriga.